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Drogas, abusos e muito preconceito: HQ mostra a sofrida trajetória de Billie Holiday, ícone do jazz

Rodrigo Casarin

06/04/2017 12h28

Três décadas após a morte da cantora, um jornalista precisa varar a noite para escrever sobre a vida de Billie Holiday. O profissional pouco conhecia da carreira de uma das mais famosas estrelas do jazz e, ao imergir na trajetória de Billie, depara-se com a história de um talento que luta para mostrar o seu trabalho enquanto tenta superar o imenso preconceito racial da sociedade norte-americana e lidar com as drogas nas quais muitas vezes se afunda.

A narrativa está em “Billie Holiday”, graphic novel dos argentinos Carlos Sampayo e José Muñoz – este, pelo conjunto de sua obra, já recebeu o Grand Prix do prestigiado Festival de Angoulême. Publicada no Brasil pela Mino, a HQ é um relato dos momentos mais difíceis que a cantora passou ao longo de sua vida, marcada também, além dos calvários já citados acima, pelo abuso de homens que tentavam lhe usurpar das mais diversas formas.

“Esqueçamos por um instante – justamente por se tratar de algo inesquecível, impossível, inapagável – sua mãe parindo aos treze anos. Esqueçamos sua bisavó alojada em uma senzala de uma fazenda, cujo senhor, um belo irlandês, vinha trepar com ela em horários regulares, de quem ele teve dezessete filhos, todos mortos salvo um, seu avô. Esqueçamos a avó morta segurando uma criança tão apertada contra si que tiveram que lhe quebrar o braço. Esqueçamos os estupros aos quatorze anos, a putinha, esqueçamos a rejeição por todo canto, a miséria, a sujeira dos homens, a cadeia, esses asilos muito bem-feitos para você se reabilitar, os policiais e esse desconcertante pó branco regado a scotch. Billie Holiday conheceu a sorte. Ganhou mais dinheiro que todas as pretas da América juntas. Ela usava diamantes, casacos de pele. Dela, se lembram da risada, uma risada de criança e de mulher mimada. Uma risada de inteligência ou de estardalhaço. A risada da vida”, registra o escritor e crítico de jazz Francis Marmande no texto que serve de introdução à obra.

E Marmande ainda prossegue: “Conheceu, a duras penas e por pouco tempo, a alegria e a felicidade. Mas ela soube vivê-las com tamanha intensidade, tão eletricamente, é certo que também pelas drogas, que ela avançava em tudo muito mais que qualquer um. Não foi nenhum de seus passos que a levou ao pior. Isso são fábulas que os homens contam. Afinal, sua existência não passava de começos ruins. Em sua vida, lhe exploraram até os ossos, criando sobre a sua pele o mito do qual o jazz se alimenta e em qual se afoga”.

Toda em preto e branco, a graphic novel dos argentinos já despertou atenção de mercados importantes para os quadrinhos: na Itália ela foi publicada pela revista Corto Maltese, na França, pela editora Casterman, e nos Estados Unidos, pela revista Raw – editada por Art Spiegelman, autor de “Maus”, e Françoise Mouly – e pela editora Fantagraphics.

Veja trechos da HQ:

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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