Blog Página Cinco

Conheça a distopia que influenciou George Orwell, Aldous Huxley, Ray Bradbury e Anthony Burgess

Rodrigo Casarin

30/03/2017 15h03

“Não é um livro excepcional, mas certamente é incomum”.

Assim escreveu George Orwell em uma resenha publicada na revista inglesa “Tribune” em 1946. Ele se refere a “Nós”, romance do russo Ievguêni Zamiátin, distopia que influenciou alguns dos livros mais importantes do século 20, como “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, “Fahreinheit 451”, de Ray Bradbury, “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess e, claro, “1984”, do próprio Orwell.

“Nós” andava sumido das livrarias brasileiras há anos, mas agora está de volta graças a uma nova edição feita pela Aleph, que, além do texto traduzido direto do russo por Gabriela Soares, traz a resenha de Orwell e uma carta que Zamiátin enviou a Stálin – falarei mais sobre isso adiante. Escrito em 1923, publicado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1924 e levado para o cinema pelo tcheco Vojtech Jasny em 1982, “Nós” apresenta uma sociedade na qual sequer nomes as pessoas possuem.

Acompanhamos a história de D-503, um engenheiro que vive no século 26 e segue fielmente o que o estado – o responsável por decidir tudo o que supostamente é bom para a sociedade – lhe ordena. Para quem vive ali, não há espaço para imaginação, liberdade de expressão e livre arbítrio, até o sexo é feito conforme as regras estipuladas pelo governo, que inclusive estipula os parceiros de cada relação. Saiu da linha? A vigilância é constante, principalmente por conta dos defensores da “moral e dos bons costumes” que estão sempre prontos para denunciar qualquer “deslize”. No entanto, a vida de D-503 começa a ficar tumultuada depois que ele conhece uma mulher que ousa desafiar esse totalitarismo.

Um livro “ideologicamente indesejável”

Sim, é fácil notar a semelhança do enredo com o dos outros livros já citados e não é nem um pouco difícil imaginar o que levou o governo soviético a censurar a obra que consideravam “ideologicamente indesejável”. No entanto, Orwell aponta em sua resenha que é bem possível que Zamiátin não visasse tal regime “como alvo particular de sua sátira”.

O autor de “1984” argumenta: “Escrevendo na mesma época da morte de Lênin, ele talvez não tivesse em mente a ditadura de Stálin; e as condições da Rússia de 1923 não eram tais que fariam alguém se revoltar contra elas pelo fato de a vida estar se tornando segura e confortável demais. O que Zamiátin parece visar não é um país em particular, mas os objetivos inferidos da civilização industrial”.

Ainda sobre o texto de Orwell, concordo quando ele diz que “Nós” “não é excepcional” e, ainda, que a “trama é um tanto frouxa e episódica”, mas isso não diminui nem um pouco a relevância da obra, que encontra ecos em nossa atual sociedade – vale lembrar que após Trump ser eleito presidente dos Estados Unidos a venda de livros distópicos, puxados por “1984”, disparou.

Aqui no Brasil, um fã confesso de “Nós” é o escritor Cristovão Tezza. Enquanto lecionava no curso de Letras da Universidade Federal do Paraná, ele disponibilizava uma lista de aproximadamente 100 livros do século 20 que servia de referência cultural para os alunos. Ao lado de nomes como James Joyce, Jorge Luis Borges, Albert Camus e Clarice Lispector, lá estava Zamiátin.

 

Quebra essa, Stálin?

Zamiátin nasceu em 1884, formou-se em engenharia e, nas horas vagas, escrevia contos, peças e romances, além de traduzir livros do inglês. Autor também de obras como “Coisas de Província”, foi preso e exilado diversas vezes por conta de seus escritos – aliás, é impressionante como a vida dos escritores sempre foi difícil na Rússia, independente de quem estivesse no governo, tema que devo retomar em breve. Sua última saída do país, entretanto, aconteceu por vontade própria. Em 1931 ele escreveu a Stálin:

“Provavelmente, o senhor conhece o meu nome. Para mim, como escritor, ser privado de escrever é como uma sentença de morte. Ainda assim a situação que se delineou é tal que eu não posso continuar meu trabalho, pois nenhuma atividade criativa é possível em uma atmosfera de perseguição sistemática, que aumenta de intensidade ano após ano.

Não tenho intenção de me apresentar como imagem da inocência ferida. Sei que, entre as obras que escrevi durante os primeiros três ou quatro anos após a Revolução, havia algumas que poderiam oferecer um pretexto para ataques. Eu sei que tenho o hábito altamente inconveniente de dizer o que eu considero ser a verdade em vez de dizer o que pode ser conveniente para o momento. Em particular, nunca disfarcei minha atitude em relação ao servilismo literário, à bajulação e mudanças de cor camaleônicas: eu senti, e ainda sinto, que isso é igualmente degradante tanto para o escritor quanto para a Revolução”.

Zamiátin teve sua solicitação de exílio atendida e se mudou para a França, onde morreu em 1937.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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