Blog Página Cinco

Por que os cegos olham para o céu enquanto ouvem histórias?

Rodrigo Casarin

28/03/2017 14h05

O argentino Jorge Luis Borges, um dos maiores escritores da história, passou a vida tendo problemas com sua visão. A degeneração genética da retina fez com que o autor de clássicos como “O Aleph” e “Ficções” deixasse paulatinamente de enxergar. A situação se agravou até que, por volta dos 50 anos, não conseguia mais realizar sozinho a sua principal paixão: ler. Passou, então, a contar com amigos e familiares para que pudesse passear pelos livros por meio das vozes que lhe ajudavam. Assim, é comum que em muitas fotos Borges apareça com o olhar sereno, acompanhado de um leve sorriso e com a cabeça levemente inclinada para cima, como se procurasse pelo céu. E por que isso acontecia?

Essa é uma das questões que Denise Schittine, doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e Universidade Nacional de Rosário, na Argentina, aborda na entrevista abaixo. Ao longo de seu doutorado, Denise fez estudos para entender como as pessoas que ficam cegas reconstroem a relação com a leitura. A pesquisa resultou no livro “Ler e Escrever no Escuro – A Literatura Através da Cegueira”, recentemente publicado pela Paz & Terra.

Na obra, Denise analisa trajetórias de cegos famosos no meio literário, como o próprio Borges e João Cabral de Melo Neto – que lamentava não poder olhar mais para as palavras – e discute questões inerentes ao leitores e autores que deixam de enxergar, como o ambiente da leitura, o uso de alternativas como o audiobook e os livros em braile e o importante papel do ledor, o contador de história, aquele que se dispõe a ler para o cego.

Como as pessoas que ficam cegas reconstroem a relação com a literatura? Há algo do qual somente o leitor cego é capaz?

É um pouco o que eu discuto no livro: a partir do Renascimento o olho virou o mestre absoluto do conhecimento. Entender e desvendar o mundo passaram a ser duas ações realizadas pelo filtro do olhar. Então, não é apenas perder um dos cinco sentidos, mas antes perder o que acreditamos ser o mais importante dos cinco. O olhar usurpa de tal forma os outros sentidos que transfere essa autoridade para a linguagem, dizemos: “Olha esse sabor” ou “Veja como cheira bem”.

Então, o leitor cego é mais capaz de “observar” as outras sensações durante a leitura: um cheiro inesquecível, o gosto do café que tomou, a sensação do cobertor defendendo do frio lá fora. E essas sensações são fundamentais numa leitura, principalmente para a memória afetiva. Eu lembro que li o “Ulisses”, de James Joyce, no caminho da minha casa para a faculdade e que toda vez que passo no Aterro do Flamengo e sinto o cheiro característico de lá, lembro de trechos do livro. É impressionante.

Não tem fórmula para um leitor aficionado, mas cego, retomar a leitura. Há pessoas, como João Cabral de Melo Neto, que nunca mais conseguem restabelecer o prazer porque precisam da “presença física” desse amante que é o livro. Mas a saída que trabalho no livro foi a que se apresentou de forma mais frequente na pesquisa: ouvir a leitura através de uma voz amada, um “ledor”. Porque quem ama ler, em geral tem uma relação monogâmica e ciumenta com o seu livro, partilhar leitura é uma dificuldade, mas se a voz que lê é uma voz amada a coisa muda de figura porque o leitor dá a permissão para o amigo, o amante, o filho, os pais entrarem no seu mundo de papel. E isso é muito bonito porque, inconscientemente, o leitor está voltando à sua primeira experiência de leitura, quando no quarto ouvia as histórias da avó, do avô, do irmão, do pai ou da mãe. É uma espécie de “santíssima trindade” – o leitor interessando, um ledor experiente e o livro – que é restaurada.

Denise Schittine.

Quais as principais características do leitor cego? 

No meu processo de pesquisa, tive a oportunidade de conhecer, entrevistar e até ler para uma série de cegos. Eu tinha uma série de ideias preconcebidas sobre os cegos, o tipo de leitura, a escuta, a abertura deles para novos ledores… Algumas se confirmaram e outras caíram por terra quando eu entrei em contato direto com essas pessoas.

São leitores muito atentos e exigentes porque conhecem os autores e os livros e esperam que você, como ledor, ame esses autores e livros da mesma forma que eles. A falta de paixão “vaza” na leitura, toca quem escuta e desconecta do livro. Cegos são tão sensíveis que, pela sua voz, reparam que você não está num bom dia ou que está lendo um trecho do livro do qual não gosta. E há uma outra coisa que sempre me impressionou muito: olham para o céu. Enquanto o leitor comum se distrai levantando os olhos para uma paisagem ou uma cena, o cego parece se fixar num ponto de luz para absorver melhor o conhecimento. Parecem estar sempre em êxtase, talvez um pouco distraídos em seus mundos, mas se você interrompe a leitura, automaticamente te repreendem.

Hoje há alternativas para leitores cegos, como audiobooks e livros em braile, mas a oferta dessas opções já é satisfatória?

Infelizmente não. Os livros em braile são complicados de serem feitos e fisicamente pesados e pouco funcionais. Em geral, um livro de 50 páginas quase duplica seu número de páginas em braile. É um processo um pouco caro e que exige uma especialização para a feitura, então nem toda casa editorial tem meios de fazer uma parte da produção de seus livros em braile.

Os audiobooks já são um pouco mais simples, práticos e dão mais independência aos cegos: eles podem ter uma rotina parecida com a dos leitores videntes. Com a internet as coisas baratearam e se tornaram mais acessíveis para esses leitores. Muitos usam sistemas de voz para se comunicarem com os seus computadores e baixarem por conta própria os audiobooks. É um passo, mas ainda pequeno e que deveria ser mais ampliado.

Você vem de uma família de pessoas apaixonadas por livros e que sofreram com problemas de visão. Pode contar um pouco dessa história?

É mais um medo do que uma história. Não necessariamente isso está no DNA da minha família, mas família é formada de pessoas próximas, tios, tias, irmãos e primos de consideração. E, entre eles, as pessoas que eu sempre admirei eram aquelas que liam. E foi aí que eu acompanhei duas experiências de amantes de livros que ficaram cegos. Numa idade madura é muito mais difícil se adaptar a uma deficiência e também muito mais complicado aprender o braile – não impossível, mas complicado.

Eu sempre gostei muito de ser pesquisadora acadêmica e sempre acreditei nas minhas pesquisas como casamentos. E casamentos, a princípio, precisam de amor, então sempre tentei casar com os teóricos, assuntos e autores que me apaixonam e me interessam (afinal, um doutorado leva quase quatro anos de casamento). Veio então a ideia de lidar com esse “monstro” da cegueira. A atividade que eu mais amo fazer na vida é ler. Sempre imaginei que nada, nem a velhice, nem a solidão, nem o isolamento, me fariam perder o gosto pela vida se eu ainda tivesse a minha capacidade de ler e me transportar para outros mundos de conhecimento e fantasia. Então, escrever um trabalho sobre cegueira e leitura era um fantasma que eu precisava enfrentar, porque é o fantasma de todos os leitores apaixonados.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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