Blog Página Cinco

Para conhecer o mundo, aos 5 anos garotinho enviou cartas para pessoas de todos os países do planeta

Rodrigo Casarin

24/03/2017 14h14

“Mamãe, será que eu posso escrever uma carta para a Nova Zelândia?”

Era junho de 2013 quando o inglês Toby fez a inesperada pergunta para Sabine. O garotinho havia chegado da escola com um livro chamado “A Letter to New Zealand”, que descrevia o caminho de uma missiva até o país da Oceania. Como estava aprendendo a escrever, também quis enviar uma mensagem para aquele lugar tão distante de onde vivia. A mãe deixou e, sem conhecer nenhum habitante da ilha, tratou de procurar na internet por alguém que pudesse ser o destinatário da cartinha. Foi aí que Toby surpreendeu Sabine com outra pergunta:

“Mamãe, será que eu posso escrever uma carta para cada país do mundo?”. A ideia dele era, dessa forma, aprender sobre a vida em diferentes lugares do globo.

Sabine ficou perplexa com a ideia do filho, mas, certa de que não passaria de uma breve empolgação de uma pessoa que sequer havia escrito sua primeira carta na vida, deu corda para Toby. Combinaram que delimitariam os “países do mundo” às 193 nações que integram a ONU. A mãe apostaria na internet para achar gente de todos os cantos que quisesse se corresponder com seu filho. E o pequeno levou a missão a sério.

A primeira carta enviada não foi para a Nova Zelândia, como Toby propusera inicialmente, mas para os Estados Unidos. O garoto demorou mais de meia hora para escrever a seguinte mensagem a Patrícia, moradora do Havaí:

“Oi, Patricia,
Como vai? É verdade que você mora numa cidade chamada Volcano? Bem que eu gostaria de morar aí.
Tchau,
Toby”.

A resposta de Patrícia:

“Querido Toby,
Eu moro na ilha grande do Havaí, no estado do Havaí. Temos aqui um vulcão ativo e uma montanha que fica nevada no inverno. Obrigada por sua linda carta.
Aloha,
Patricia”.

E assim se sucedeu com cada país. Toby e sua mãe sempre faziam uma pesquisa prévia dos lugares antes de enviar as cartas, o que acabava por aguçar a curiosidade do garoto. Era comum que o menino se interessasse pelas comidas típicas, o estilo de vida e… por fósseis. Sim, nas cartas é possível perceber que Toby tem um interesse imenso por tudo que é, de alguma forma, ligado à arqueologia.

Você escuta Adoniran Barbosa?

É evidente que o Brasil estava na lista de Toby, e Sabine encontrou diversas pessoas interessadas em trocar correspondências com a criança por aqui. Uma delas era Luna, que o menino pensou ter esse nome por conta de uma personagem de “Harry Potter” e a quem ele perguntou sobre o sambista mais famoso de São Paulo:

“Querida Luna,
Como vai? Você se chama Luna por causa da Luna Lovegood? Qual é o seu lugar favorito em São Paulo? Qual é a sua profissão? O que é a Festa do Figo? Você já foi? Você escuta Adoniran Barbosa? Eu gosto dele.
Tchau,
Toby”.

A simpática e atenciosa resposta logo chegou ao Reino Unido:

“Oi, Toby!

Como vai? Estou muito feliz de ser uma das muitas pessoas do mundo inteiro que se correspondem com você!
Eu não me chamo Luna por causa da Luna Lovegood. Nasci alguns anos antes de serem escritos os livros da série Harry Potter. Comecei a ler o primeiro livro quando tinha dez anos de idade e já estava na faculdade quando foi lançado o último! Luna não é um nome muito comum no Brasil — significa “lua” em espanhol e italiano.

Acho que o meu lugar favorito em São Paulo é o parque Ibirapuera. Você já viu fotos desse parque? Ele é muito grande e fica bem no meio da cidade, mais ou menos como o Central Park, em Nova York. Ibirapuera significa alguma coisa como “árvore caída” em tupi, a língua que os nativos
falavam antes da chegada dos portugueses ao Brasil. Existem muitos lugares com nomes tupis, mas as pessoas em geral não sabem o que significam.

Sou farmacêutica e trabalho com cosméticos. Produzo protetores solares e fórmulas de maquiagem. Gosto do que faço, porque é muito dinâmico e, além disso, ainda me permite viajar para uma porção de conferências e feiras — e eu adoro viajar! Colei um mapa na parede da cabeceira da minha cama e marco lá todos os lugares que visitei. Também coleciono postais de lugares em que estive e sempre peço para os amigos que vão viajar que me mandem postais de onde quer que estiverem.

A Festa do Figo faz parte do “Circuito das Frutas”, que é formado por dez cidades, cada uma delas famosa por produzir determinada fruta. Valinhos é a cidade do figo! Assim, em janeiro, temos a Festa do Figo, na qual podemos comprar todo tipo de coisa feita com figo, como geleias, sucos, compotas. A festa ainda inclui música, brincadeiras para as crianças e vários tipos de comida. Nas outras cidades, há a Festa da Uva, a Festa da Goiaba, a Festa do Morango e assim por diante. Festas de fruta o ano inteiro! Eu fui à Festa do Figo e à Festa da Uva algumas vezes, mas este ano perdi as duas. Se eu for no próximo ano, vou lhe mandar uma foto!

Fico contente em saber que você gosta de Adoniran Barbosa. Ele foi um grande cantor e compositor. Todo mundo aqui no Brasil sabe cantar pelo menos uma canção dele. Com certeza você vai gostar também dos Demônios da Garoa, um grupo de samba que gravou muitas canções de Adoniran Barbosa. Acho que “Trem das onze” é a mais famosa…

Espero que um dia você tenha a oportunidade de vir ao Brasil!

Do Brasil, com carinho,
Luna J”.

Agradecer Mandela e fazer do mundo um lugar melhor

Contrariando o que Sabine pensara quando deu trela para que o filho escrevesse para todos os países do mundo, Toby persistiu na empreitada. Em poucos meses já tinha mandado mais de 250 cartas e, em outubro de 2013, enviou uma correspondência para a última nação que ainda não riscara de sua lista: San Marino.

“Muitas pessoas já perguntaram de onde saíram todos os contatos. Algumas achavam que Toby escrevia ao acaso, mas não é verdade. Cada carta era endereçada a uma criatura bondosa que havia concordado em estabelecer contato, encontrada porque o mundo está cheio de gente boa que se dispôs a ajudar Toby a realizar o seu sonho”, escreve Sabine na apresentação de “Querido Mundo, Como Vai Você?”, livro que sai no Brasil pela Fontanar e que reúne 150 das cartas escritas pela criança – que também podem ser encontradas no site do garoto.

Entre as correspondências enviadas, uma merece especial atenção: Toby não se importou com a saúde já bastante debilitada de Nelson Mandela; disse para a mãe que gostaria de escrever de qualquer forma, mesmo praticamente sem chances de obter alguma resposta. Dessa vez ele não queria perguntar nada, apenas agradecer ao líder sul-africano cuja vida conhecera há pouco, após ler com Sabine a versão infantil de “Um Longo Caminho para a Liberdade”, autobiografia de Mandiba.

“Querido Sr. Mandela,
Como vai? Eu me chamo Toby e tenho cinco anos. Gosto do livro que o senhor escreveu sobre a sua vida. Obrigado por fazer do mundo um lugar melhor. Estou escrevendo para todos os países do mundo para que as pessoas se entendam melhor. Sinto muito que o senhor não esteja bem. Espero que melhore logo.
Tchau,
Toby”.

Por falar em lugar melhor, quando Toby conheceu a realidade de países como a Somália, começou a perguntar em certas cartas como poderia ajudar crianças que vivem uma vida bastante diferente da que ele leva. “Tratamos de procurar uma instituição de caridade cujo trabalho fosse fácil de explicar para um menino de cinco anos”, escreve a mãe. Assim, quando possível, passaram a colaborar e incentivar doações para a ShelterBox.

Toby hoje tem 9 anos, já enviou mais de mil cartas e recebeu quase 500 respostas. O que o motivou a continuar na empreitada? A resposta traz a ingenuidade típica das crianças: “Fazer do mundo um lugar melhor”.

Veja algumas cartas escritas por Toby:

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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