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Batalha de espadas do século 16 inspira Rafael Coutinho a criar HQ sobre moralidade e conflitos dos nossos dias

Rodrigo Casarin

10/03/2017 14h38


Você já ouviu falar em mensur? Trata-se de uma luta de espadas praticada inicialmente por estudantes universitários europeus no século 16. Parecida com a esgrima, porém muito mais sangrenta, o objetivo da batalha é fazer cortes no rosto do oponente. Após a cicatrização, as marcas na face se tornavam motivo de orgulho para os praticantes do esporte de gosto pra lá de questionável.

Apesar de não nos depararmos com pessoas que andam mirando o rosto uns dos outros com espadas por aí, foi essa luta que serviu de inspiração para que Rafael Coutinho fizesse sua nova graphic novel, que chama justamente “Mensur” e sai pela “Quadrinhos na Cia”. O artista conheceu essa forma de batalha quando lia “O Cultivo do Ódio”, do historiador Peter Gay.

“Havia um capítulo todo dedicado à prática, que de alguma forma dialogava com o que eu sentia a respeito de situações onde a violência era banalizada ou até mesmo ritualizada no Brasil. Passei um ano inteiro só pesquisando, conversei com um praticante americano, fui atrás de imagens e textos. Encontrei um trecho de um conto do Mark Twain sobre, depois fui mais a fundo e achei textos do início do século passado. Mas entendi também que meu assunto era o universo masculino, onde a violência se impõe e é assumida nos dias atuais, e as ramificações disso, como alienação, solidão, o estado de alerta continuo, essa tensão social que se torna violenta”, conta o artista ao blog.

O resultado é a história de Gringo, um andarilho que perambula por lugares como Ouro Preto e São Paulo em busca de biscates para levantar algum troco. O protagonista é também um dos últimos praticantes do mensur no país e, enquanto vaga pelas cidades, precisa se confrontar com situações delicadas do seu passado.

Esta é a primeira graphic novel que Coutinho assina sozinho – seu trabalho mais famoso, “Cachalote”, foi feito em parceria com Daniel Galera. Por conta das descobertas que fazia na própria narrativa, de outros deveres profissionais e de uma série de mudanças na vida pessoal, demorou sete anos para concluir a obra, mas entregou algo bastante digno, que é o que realmente importa. Apesar de o quadrinista ressaltar que a HQ não é um tratado social sobre o Brasil, ao longo da história o leitor se depara com uma série de questões em voga no país, como as situações precárias de trabalho e o conflito entre diferentes classes.

“É uma ficção. Sempre me incomodou histórias onde a orientação primordial é dar uma lição moral ao fim de tudo. São personagens que vão lidando com diferentes aspectos da vida adulta e visivelmente não dão conta da responsabilidade. E nesse jogo os personagens se deparam com a questão (ou as múltiplas questões) da violência no dia a dia em diferentes intensidades. Vivemos em uma sociedade onde o jeitinho brasileiro e as concessões morais e éticas que fazemos diariamente constroem um lugar impossível de ser moralmente rígido. Pra mim era importante que o ambiente e as personagens existissem nesse registro realista, mais próximos de como somos realmente no país, como falamos uns com os outros”, diz o autor.

Como já antecipou Coutinho, diversas questões morais também surgem na sua narrativa – o próprio protagonista é alguém que acredita ser “importante manter a palavra”, bem como a honra. “Ele gosta e admira uma prática antiga, mas seus problemas são com a permissividade moral dos nossos tempos, com ter que jogar o jogo das relações modernas. Pra mim ele não é um personagem fora de seu tempo, um cavaleiro medieval que está atrás de salvar a donzela. Ele está mais próximo de um sujeito patologicamente solitário, com problemas de sociabilização e com um desejo de buscar por conexão, um tipo específico de conexão, que possa de alguma forma estar acima das questões morais, o que é obviamente impossível”, afirma o autor.

Veja algumas páginas de “Mensur” (clique nas imagens para ampliá-las”):

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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