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Chamada de “matrona imoral” e alvo de racismo, Gilka Machado foi pioneira do erotismo no Brasil

Rodrigo Casarin

03/03/2017 14h30

“Gilka Machado era diferente. Aos 26 anos, em 1919, ela já fizera tremer as porcelanas de ‘Colombo’ com seus livros ‘Cristais Partidos’ e ‘Estados de Alma’, cujos poemas eram de uma sensualidade capaz de ferver os sucos da mais recatada aluna do Sacré-Coeur. Não contente em pertencer à roda da bela Eugênia Moreyra (uma jornalista que fumava charuto, dizia palavrões e contava piadas escandalosas), Gilka era também amazona e nadava e remava pelo Flamengo. Como era inevitável, as pessoas acreditavam que Gilka Machado desempenhava na vida real todos aqueles pecados que lubrificavam seus versos”.

É assim que Ruy Castro se refere a Gilka Machado em “O Anjo Pornográfico”, biografia de Nelson Rodrigues, que sempre deixou claro que a escritora era uma de suas maiores referências literárias. E ele não foi o único grande nome das letras nacionais que reverenciou a poeta. Olavo Bilac foi esnobado quando, já consagrado, ofereceu-se para prefaciar o primeiro livro da autora. Para Carlos Drummond de Andrade, “Gilka foi a primeira mulher da poesia brasileira”.

Responsável por versos como “Teus beijos absorvi-os, esgotei-os:/ Guardo-os nas mãos, nos lábios e nos seios,/ numa volúpia imorredoura e louca”, a carioca Gilka nasceu em 1893 e foi uma das primeiras mulheres a escrever poemas expondo os desejos carnais femininos no Brasil. Na “Antologia da Poesia Erótica Brasileira” organizada por Eliane Robert Moraes e publicada pela Ateliê Editorial, apenas duas moças antecedem seu nome: Alexandrina da Silva Couto dos Santos e Francisca Júlia.

No entanto, o trabalho de ambas passou longe de repercutir da mesma forma que o de Gilka repercutiu na primeira metade do século 20. Estreou no mercado editorial em 1915 com “Cristais Partidos”, lançou livros nos três anos seguintes, outros três na década de 1920 e, em 1931, publicou “Carne e Alma”. Dois anos depois, em 1933, foi apontada pela revista “O Malho” como “a maior poetisa do século”.

As exaltações também vinham acompanhadas de duras críticas quase sempre calcadas no machismo. Quando ganhou o primeiro concurso de poesia, ainda com 14 anos, entendidos das letras a rotularam de “matrona imoral”. Numa época de forte repressão sexual contra as mulheres, muitos projetavam na autora o erotismo de suas personagens, como se Gilka só pudesse escrever tais versos após ter vivido cada situação.

Não bastasse, como negra, precisava lidar com o racismo e, como pobre, com o preconceito de classe – após ficar viúva aos 23 anos, faxinou estações ferroviárias para garantir o sustendo dos seus dois filhos. Em “Diário Secreto”, o escritor Humberto de Campos registra como seu colega Afrânio Peixoto se decepcionou ao encontrar Gilka e descobrir seu tom da pele e o lugar onde ela morava:

“Conta-me Afrânio Peixoto:

– Você não imagina a tristeza que eu senti outro dia. Eu havia recebido de Gilka Machado pedido de um enxerto de obra minha, ou um trecho inédito, para uma antologia que ela estava organizando. E davam-me o endereço. Como era aqui perto da Câmara, na Rua da Misericórdia, e eu tivesse a carta no bolso, resolvi entregar pessoalmente, isto é, a um criado, a pessoa que me aparecesse. Subi uma escadinha suja e escura e dei, no segundo andar, com uma porta fechando um corredor escuro. Bati e apareceu-me uma mulatinha escura, de chinelos, num vestido caseiro. Perguntei se era ali que morava D. Gilka Machado.

– Sim, senhor; sou eu mesma – respondeu-me a mulatinha. O doutor faça o favor de entrar…

Afrânio continua:

– Não entrei. Entreguei a carta, desculpando-me e sai… Mas ‘seu’ Humberto, que tristeza! Eu não conhecia a Gilka, senão de retrato: moça branca, vistosa… E fiquei penalizado de vê-la naquela alfurja, onde tudo respirava pobreza e quase miséria”.

A marginalização acabou sendo um fator decisivo para que a escritora caísse no ostracismo.

Volume reúne poemas de Gilka

Apesar de ser um ícone do simbolismo brasileiro, a obra de Gilka estava praticamente esquecida. Jamyle Rkain, jovem de 21 anos estudante de jornalismo, que é a responsável por dar nova vida ao nome da autora. Jamyle se apaixonou pela poeta quando tinha 13 anos e, após uma série de encontros, conheceu um dos netos de Gilka, que propôs uma nova edição da obra de sua avó. A estudante aceitou o desafio e organizou a publicação da coletânea “Poesia Completa”, que está chegando ao mercado pela Demônio Negro.

“Gilka também teve uma poesia voltada para o social. Ela brinca até mesmo com o futebol, então não dá pra reduzi-la ao erótico. Tinha um apelo muito popular na poesia dela, até porque ela não teve uma educação formal muito extensa”, diz Jamyle sobre a poeta, mostrando que em seus textos a carioca foi muito além das questões sexuais.

No prefácio do livro, Maria Lúcia dal Farra, professora de Literatura Portuguesa na Universidade Federal do Sergipe, lembra dos percalços que a poeta enfrentou em sua trajetória. “Diante do que se lê, seria necessário avaliarmos com prudência e cautela tudo quanto se escreveu sobre Gilka Machado no seu tempo. Não é improvável que a crítica de época pudesse ter sido guiada por mais razões do que aquela que diz respeito apenas a uma mulher que escrevesse livremente sobre o seu desejo e de maneira tão extraordinária… Não teria sido Gilka, como poetisa (como mulher desvalida e sem tutor) também vítima do odiento crime de preconceito racial?!”

Já a crítica literária Heloísa Buarque de Holanda, que assina a orelha do volume, comenta a carreira da autora após a publicação do seu primeiro livro. “Quebrados os cristais, parte Gilka, em voo solo, em direção a caminhos poéticos mais agressivos, liberando o próprio verso que caminha rápido, em direção ao verso livre. Livre, como sua determinação de trazer à poesia os estados de alma femininos/feministas, as injustiças sociais, a miséria”.

“Nunca matei, nunca roubei, nem fiz mal ao próximo”

Além de ter encarado o racismo e o machismo de sua época, Gilka ainda se engajou na política formal. Lutou pelo direito das mulheres votarem e foi uma das fundadoras, em 1910, do Partido Republicano Feminino. “A publicação do livro vem bem a calhar porque estamos na efervescência do feminismo e ainda carecemos da representatividade de uma força tão grande quanto a Gilka”, acredita Jamyle.

A organizadora também lembra da recusa de Gilka ao prefácio de Bilac para seu livro de estreia: ela não queria que a assinatura de um escritor homem já famoso soasse como uma espécie de selo de qualidade para os poemas. “Ela não se rotulava como feminista, mas pensava no papel da mulher. O que fazia era mesmo uma forma de resistência”, explica a organizadora.

Muito por conta das diferentes formas de pedradas que levou, Gilka praticamente abandonou a poesia em 1938, ano que lançou “Sublimação”. Dentre o aparato crítico e informativo que acompanha “Poesia Completa”, há uma preciosa nota autobiográfica da autora publicada em 1978 na qual rebate a imoralidade que tentaram lhe atribuir. Nela lemos:

“Nunca matei, nunca roubei, nem fiz mal ao próximo; nunca bebi, nunca joguei, nunca fumei nem participei de orgias. Sonhei ser útil à humanidade. Não consegui, mas fiz versos. Estou convicta de que a poesia é tão indispensável à existência como a água, o ar, a luz, a crença, o pão e o amor”.

Leia um poema de Gilka:

Comigo Mesma

Numa nuvem de renda,
musa, tal como a Salomé da lenda,
na forma nua
que se estenta e estua,
— sacerdotisa audaz —
para o Amor de que és presa,
rasgando véus de sonho, dançarás
nesse templo pagão da Natureza!

Dançarás por amor das coisas e dos seres,
e por amor do Amor…
tua dança dirá renúncias e quereres!
faze com que desfira
tua lira
gargalhadas de gozo e lamentos de dor,
e possas em teu ritmo recompor
tudo que viste estática, surpresa,
e a imprevista beleza,
a beleza incorpórea
dos perfumes e sons indefinidos
de tudo que te andou pelos sentidos,
de tudo que conservas na memória.

Dize da Natureza em que à luz vieste,
dize dos seus painéis encantadores,
dize da pompa, do esplendor celeste
das suas noites, dos seus dias,
e animiza com teus espasmos e agonias
as expressões com que a expressando fores.

Alma de pomba, corpo de serpente,
enche de adejos
e rastejos
teu ambiente,
caiam em torno a ti pedras ou flores
de uma contemplativa multidão:
de lisonjeiros. e de malfeitores
cheias as sendas da existência estão.

Toda de risos tua boca enfeita
quando te surja um ser sincero, irmão,
e sejas sempre pura, espelhante, perfeita,
na verdade da tua imperfeição.
Musa satânica e divina
ó minha Musa sobrenatural,
em cujas emoções, igualmente, culmina
a sedução do Bem, a tentação do Mal!
em teus meneios lânguidos ou lestos
expõe ao Mundo que te espia
que assim como há na Dança a poesia dos gestos,
há nos versos a dança da Poesia.

Dança para esse gozo, o
grande gozo maternal
da Terra,
que te fez sem igual,
e, envaidecida,
em seu amor te encerra,
amando em ti a sua própria vida,
sua vida carnal
e espiritual.

Torce e destorce o ser flexuoso
ó Musa emocional!
maneja os versos de maneira tal
que eles se fiquem pelos séculos dispersos,
com os ritmos da existência universal.

E a dançar,
a dançar,
num delicioso sacrifício,
patenteia a nudez desse teu ser puníceo
ante o sereno altar
do Deus que te domina.
Que importa a injúria hostil de quem te não compreenda?
Dança, porém, não como a Salomé da lenda,
a lírica assassina:
dança de um modo vivificador;
dança de todo nua,
mas que seja a nudez da dança tua
a imortalização do teu Amor!

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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