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Na Alemanha nazista, jovem brasileiro saiu para comprar pão e virou soldado do exército de Hitler

Rodrigo Casarin

23/02/2017 10h29

Horst e seus pais.

“Vou tentar comprar pão”.

“Não, meu filho. É perigoso”.

“Eu corro até o armazém perto da estação. Se também não tiver pão, volto na mesma hora”.

Foram essas palavras que Horst Brenke disse para Margarete, sua mãe, antes de sair de casa. Era dia 6 de janeiro de 1945 e, enquanto estava na fila do pão, o brasileiro de 18 anos que vivia em Berlim, na Alemanha, foi levado pelo exército nazista de Adolf Hitler para combater na Segunda Guerra Mundial. Quando os militares o encontraram, não adiantou explicar que tinha nascido no Brasil. Como os pais eram alemães, foi obrigado a pegar em armas para guerrear pela ideologia do lunático com bigode de gosto duvidoso.

Encaminharam Horst para o campo de batalha quando a derrota alemã já se mostrava inevitável. Os russos se aproximavam rapidamente de Berlim e pouco tempo depois, no final de abril, Hitler estaria morto. Por fim, no dia 8 de maio, a rendição alemã seria assinada. No entanto, a essa altura o destino do jovem já não dependia de seus próprios esforços ou dos caprichos dos conterrâneos de seus pais.

No dia 28 de abril, o grupo em que Horst estava foi cercado no vilarejo de Halbe, ao sul de Berlim. Após dois dias de batalha que, estimam, deixou mais de 40 mil mortos, os sobreviventes que lutavam pelo nazismo foram cercados e capturados pelo exército russo. Assim, o jovem brasileiro se tornava um prisioneiro de guerra.

O campo de Vladimir.

História que deu um livro

A história de Horst está no livro “Era um Garoto – O Soldado Brasileiro de Hitler”, do jornalista Tarcísio Badaró, recém-lançado pela Vestígio. Para reconstruir a trajetória do jovem, o autor se baseou principalmente nos relatos que o protagonista deixou em diários escritos entre maio de 1945 e outubro de 1946, além de entrevistas e viagens para os lugares por onde o militar passou.

“Os diálogos têm duas fontes: o diário e as lembranças de personagens secundários. Horst reproduzia diálogos constantemente em seu diário. Isso é revelador do tipo de relação que ele tinha com suas notas, e da expectativa para elas. Da mesma forma os detalhes de cena. Horst era detalhista em seu diário. Mas a narrativa do livro precisa ir além. Consegui muitos detalhes na visita aos locais, nas entrevistas com ex-soldados e ex-prisioneiros, na leitura de outros diários e memórias e também da literatura sobre o tema”, conta o autor, que, além da narrativa principal, também reconstitui na obra a vida da mãe e da irmã do garoto enquanto a Alemanha era devastada.

Horst nasceu em Curitiba e, depois de uma temporada em Belo Horizonte, seus pais decidiram voltar com a família para o país de origem em 1939. Queriam aproveitar a aparente prosperidade que acreditavam que a Alemanha vivia. “A volta à Alemanha é uma passagem pouco clara. Cravar o que entendiam ou pensavam sobre Hitler é difícil. A pesquisa me sugeriu que eles não eram bem informados, que não tinham conhecimento sobre o que ocorria por lá. Ouviam sobre o ressurgimento econômico do país, se interessaram por esse ressurgimento e, possivelmente, até o relacionavam a Hitler. Mas não entendiam o caminho que a Alemanha e a Europa tomavam. Muito menos as práticas usadas para isso. O fato é que, nem antes nem depois da volta, não encontrei qualquer indício de nacionalismo, interesse político, simpatia ou concordância com as ideias nazistas. Pelo contrário”, diz Badaró.

Passaporte de Horst na volta ao Brasil.

Horst, um sobrevivente

Depois de capturado, primeiro Horst foi levado para o campo de Stalag VIIIC, mas o lugar que se transformou sua “casa” por mais tempo foi a fábrica de tratores em Vladimir, cidade a cerca de 200 quilômetros de Moscou. Para chegar lá, longas viagens de trem em vagões superlotados, onde não era raro que prisioneiros morressem no deslocamento. Para aplacar a constante fome, restava-lhe dormir – e dormir em pé, pois sequer havia espaço para sentar no chão das composições.

“O que trará o futuro?”, Horst registrou certa vez em um dos diários. E o futuro trouxe campos para escavar e terra, pedras e tijolos para carregar. Trouxe ainda mais fome, desnutrição, desesperança e frio, muito frio, com temperaturas que batiam os 30 graus negativos. No entanto, às vezes alguma surpresa aplacava seu sofrimento, como o dia no qual os prisioneiros ganharam dois camarões junto com a refeição que normalmente se limitava a pão duro e sopa rala de batata. “O coração de um prisioneiro de guerra se alegra com pouco!”, registrou o jovem depois daquele singelo banquete.

Após passar mais de um ano como prisioneiro de guerra, Horst foi libertado. Em nova viagem de trem, foi deixado em Udine, na Itália, em julho de 1946. Por lá, perambulou pelas ruas e dormiu em sanatórios até que conseguisse arrumar a documentação para retornar ao Brasil. De lá que também retomou contato com sua família, que permanecia em Berlim, por meio de cartas e cartões-postais.

Horst voltou ao Brasil em outubro de 1946, dois anos antes do regresso de sua mãe, seu pai e sua irmã. O garoto que saiu para comprar pão, foi transformado em um militar do nazismo e passou mais de um ano nas mãos dos russos, conseguiu, como foi possível, reestruturar sua vida. Casou-se, teve 7 filhos e viveu em Belo Horizonte até maio de 1984, quando, aos 57 anos, foi vitimado por um câncer.

Um das páginas do diário de Horst.

Desenho que Horst fez em seu diário.

Um dos postais que Horst enviou à família quando estava na Itália.

Verso do postal.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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