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Escrava que virou majestade, Xica da Silva foi a Cinderela Negra, afirma biógrafa

Rodrigo Casarin

22/02/2017 14h41

Desenho de Ana Miranda sobre ilustração Lavage d’um Minerai d’or près la montagne Itacolumi, de Ferdinand Denis/Fundação Biblioteca Nacional.

“Uma Xica da Silva feita de deleites, ódio racial, sede de vingança, sensualidade politizada, humor satírico, que carrega em si e faz explodir toda a violência de que teria sido vítima em sua vida de escravizada, mestiça pobre, mulher colonial, amante. Uma criação literária dotada de razões varonis, que propiciam essa ousadia na devassidão, porque aos homens jamais oprimiu a mesma força social e religiosa que repudia as mulheres malcomportadas. Uma ‘redenção’ ideológica da imagem de uma mulher com origem escrava, que passou a fazer parte do sistema de poder, pois a Xica da Silva criada por João Felício dos Santos jamais se curva ao comportamento exigido por brancos e poderosos. Pelo contrário, submete-os aos seus modos populares, abusando da linguagem, da sexualidade, dos gestos”.

Sim, Xica da Silva existiu, como sabemos. Chamava-se Francisca da Silva de Oliveira e foi alguém com trajetória completamente diferente da biografia de outras mulheres de sua época. No entanto, a Xica da Silva que temos hoje, como podemos ver, também é fruto da imaginação daqueles que contaram suas histórias ao longo do tempo. Por mais que estudiosos se debrucem em cima de arquivos e registros diversos, é difícil separar o mito da cidadã Xica, as histórias reais daquelas inventadas, mas que podem muito bem simbolizar a grandeza da moça que a escritora Ana Miranda considera “A Cinderela Negra”.

Ana é autora de “Xica da Silva”, recém-lançado pela Record (e de onde retirei a citação acima), obra biográfica na qual busca recriar a realidade brasileira do século 18 por meio da história da personagem que, aponta, é quase completamente feita de mitos. “A Francisca da Silva de Oliveira como cidadã, mulher real, personagem histórica, tem sido investigada quase sem esperanças, não há quase documentos, ela não deixou nada escrito. Mas os modos modernos de investigar figuras históricas, usando documentos referentes à mesma época e lugar, e observando pessoas com o mesmo perfil, tem jogado alguma luz sobre quem poderia ter sido a Xica. E parece que foi bem mais complexa, rica e interessante do que supúnhamos”, diz em entrevista ao blog.

Ana Miranda. Foto: Mauricio Pokemon.

A escrava que virou uma poderosa madame

Escrava que cresceu alternando brincadeiras nas matas com os deveres na cozinha e se transformou na senhora mais poderosa de minas de diamantes, dona de cem escravos e mãe de catorze filhos, Xica foi não apenas uma liderança comercial que influenciou toda a sociedade onde viveu, na região do Distrito Diamantino, em Minas Gerais. Ela também foi uma grande fomentadora cultural, incentivando como mecenas peças de óperas, danças e teatro. “Além disso, ela participava de irmandades, era piedosa, religiosa, caridosa. E há um depoimento surpreendente de que ela teria sido feia e com aquele corpo de mulher sedentária e comilona, imagino que já na idade avançada”, aponta a Ana. Curiosa, para sanar a curiosidade a respeito daquilo que ouvira falar, Xica chegou a exigir que lhe construíssem um lago e um navio, assim contornava a frustração de nunca ter visto o mar.

Pensando em qual tipo de papel uma mulher como Xica exerceria em nossos dias, Ana aposta que seria uma curadora artística, com preferência pelo teatro, pela dança e pela música. Seria “uma mulher riquíssima, a mais rica da sociedade, muito empreendedora, poderosa, generosa, ostentadora de riqueza, animada, muitos bailes, surpreendente. Seria talvez um mecenas, uma mulher como a Olívia Guedes Penteado [apoiadora do movimento modernista], com mais pimenta e sal por suas origens, com a glória de ter sido escrava e ter conseguido superar essa condição com majestade. Um símbolo do empoderamento da mulher”.

E por falar em sal e pimenta, a sexualidade e o erotismo são elementos sempre destacados de forma latente nas histórias a respeito de Xica da Silva. No entanto, para Ana Miranda, achar que o sexo foi um fator decisivo na trajetória da ex-escrava apenas demonstra um “preconceito arraigado contra as mulheres e as negras. Se você pensar que tantas outras escravas do período colonial brasileiro se uniram a um homem rico, conquistaram a alforria, enriqueceram, e não se tornaram um mito, um símbolo, você vai decerto procurar os motivos em outras qualidades da Xica. Ela devia ter uma inteligência fora do comum, e uma grande habilidade nas relações humanas”, diz. E conclui lembrando novamente de outra personagem que majestosamente superou sua condição de oprimida. “A Xica encarnou com força extraordinária um arquétipo universal, do qual também faz parte a Cinderela”.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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