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Nota do governo sobre protesto de Raduan faz parecer que intelectuais são trogloditas petistas

Rodrigo Casarin

17/02/2017 14h57

Raduan Nassar

“O Ministério da Cultura lamenta, mais uma vez, a prática do Partido dos Trabalhadores em aparelhar órgãos públicos e organizar ataques para tentar desestabilizar o processo democrático. Durante a cerimônia de entrega do Prêmio Camões de Literatura, em São Paulo, o ministro da Cultura, Roberto Freire, teve sua fala interrompida por manifestantes partidários, sinal de desrespeito à premiação oficial dos governos de Brasil e Portugal”.

Essa é parte da nota que a Assessoria de Comunicação do Ministério da Cultura distribuiu para a imprensa no começo da tarde desta sexta, posicionando-se sobre o fato do escritor Raduan Nassar protestar contra o governo de Michel Temer ao receber o Prêmio Camões na manhã de hoje. Na sequência, na mesma cerimônia, Roberto Freire, ministro da Cultura, achou que o melhor que poderia fazer era atacar o homenageado. A notícia do ocorrido está aqui.

É fato que boa parte dos escritores têm um pensamento voltado à esquerda e que, por isso, muitos se identificam com o PT, partido que até outro dia era sinônimo de iniciativas esquerdistas no país. Hoje, esses artistas mantêm a posição ideológica, mas a maioria também se tornou, com maior ou menor afinco, crítica ao PT – que, vale lembrar, parece já ter deixado do discurso de golpe para trás para voltar às articulações políticas, vide a amigável maneira que recentemente Lula recebeu e se colocou à disposição de Temer.

Em uma cerimônia cujo homenageado é assumidamente de esquerda, em uma classe de pessoas que se identificam com a esquerda e com um público também de esquerda, não surpreende o protesto contra Temer. Fazer acreditar que essas pessoas, por criticarem o governo, são manipuladas ou orquestradas pelo Partido dos Trabalhadores é menosprezar a inteligência dos indivíduos ali presentes. Ou, para pegarmos o próprio Raduan como exemplo, alguém acha que ontem o Lula ligou pra ele e disse “companheiro, esculacha com a bagaça amanhã”? Ou alguém acha que também mandaram o Julián Fuks bradar um “Fora, Temer” quando recebeu o Prêmio Jabuti no final do ano passado?

Sim, Raduan, bem como outros artistas, tem uma história vinculada ao PT, mas essa é uma posição política que parte dele, não o contrário. Outro exemplo? O constantemente apedrejado virtualmente Chico Buarque, claro. Agora, achar que intelectuais dessa envergadura não pensam por conta própria, que são meros trogloditas que obedecem a ordens de algum partido, tal qual a nota do Ministério da Cultura insinua, é de uma burrice – ou desonestidade? – tremenda.

A nota completa do Ministério está aqui:

“O Ministério da Cultura lamenta, mais uma vez, a prática do Partido dos Trabalhadores em aparelhar órgãos públicos e organizar ataques para tentar desestabilizar o processo democrático. Durante a cerimônia de entrega do Prêmio Camões de Literatura, em São Paulo, o ministro da Cultura, Roberto Freire, teve sua fala interrompida por manifestantes partidários, sinal de desrespeito à premiação oficial dos governos de Brasil e Portugal.
Considerada a mais importante distinção da Língua Portuguesa, o prêmio concedeu 100 mil euros (sendo 50 mil euros arcados pelo Ministério da Cultura) ao escritor brasileiro Raduan Nassar.
O agraciado foi respeitado por todos durante sua fala, ao contrário do que ocorreu com o ministro da Cultura, interrompido de forma agressiva. Apesar de ser um adversário político do governo, Raduan recebeu o prêmio, legitimando sua importância. Uma premiação literária com essa dimensão não merecia esse comportamento intolerante de alguns, que tentaram partidarizar o evento”.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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