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Ele vive na musculação, mas também gosta de falar de livros “top”: conheça o Crítico Literário Hétero

Rodrigo Casarin

15/02/2017 14h15

Machado de Assis foi um dos alvos do Crítico Literário Hétero.

“Dom Casmurro” é “a história de um corno manso que só no fim da vida resolve tomar uma atitude e deixar a mulher” e não há dúvidas disso. “Aqui não tem aquela polêmica de se Capitu traiu Bentinho ou não. É óbvio que traiu. O brother não está dizendo? O cara passa o livro todo falando que é corno e no fim ainda vão duvidar da palavra do cara. É isso aí. Vocês são analfabetos? Por isso é preciso inteligência pra ler esse livro, senão nego fica dizendo essas besteiras”.

É essa a opinião do Crítico Literário Hétero sobre o clássico de Machado de Assis. Quem é o Crítico? Um personagem do Facebook que vive na academia, mas também gosta de dedicar algum tempo à leitura e à reflexão da literatura para avaliar o que leu com notas que vão de 0 a 5 “top”. “Fico até nervoso com a responsa de fazer uma crítica desse livro, que foi escrito pelo pai da Academia Brasileira, Machado de Assis. Brother, todo mundo sabe que academia é minha vida, treino todo dia, não é fácil ser bodybuilder. Por isso, maior respeito pelo brother Machadão”, escreve sobre a responsabilidade de falar do trabalho de um dos seus ídolos.

E não é só isso. Para ele, em “Ficções”, Jorge Luis Borges “queria fazer uma espécie de Contos da Carochinha, tipo um livro de fábulas, mas o sujeito é tão burro que nem colocou lição de moral no fim dos contos. Ainda por cima o cara se confunde e no meio das historinhas ele coloca uns textos de crítica literária”. Considera “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, por sua vez, um livro difícil de ler porque “é todo confuso, o pessoal tem tudo o mesmo nome” e ainda critica Gabo: “Acho que o autor viu muito filme de ‘Senhor dos Anéis’, ‘Harry Potter’, ‘Naruto’, essas coisas de criança, mas não sabe amarrar as coisas direito. Tudo é tipo história de contos de fadas, mas parece que a galera tá vivendo no mundo da gente”.

Gabriel García Márquez.

O pai da criatura

A iniciativa de criar um marombeiro que adora ler livros e criticá-los de acordo com seu olhar de mundo foi do funcionário público Lucas Antunes, que tem 32 anos e possui formação em Letras e doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco.

“A ideia surgiu com uma brincadeira de tentar fazer crítica literária, que é mais do que um passatempo para mim, faz parte da minha formação, de uma maneira absurda e propositalmente ridícula – uma espécie de piada com o que eu havia feito por muito tempo. Eu tinha algumas opções de tipos de críticos malucos que eu poderia utilizar, mas acabei escolhendo o crítico hétero meio por acaso, porque eu achava bastante engraçada as sátiras com o hétero ‘top’. Criei o personagem procurando juntar o maior número de clichês possível desse pessoal, coisas que vejo na internet sendo ridicularizadas o tempo todo”, diz ao blog sobre sua criatura.

Todos os livros resenhados pelo personagem, claro, também são lidos por Lucas, mas o autor conta que os gostos de ambos são bem diferentes. “Um livro que eu amo ele pode detestar, como é o caso de ‘Macunaíma’ ou de ‘Ficções’. Eu sempre o deixo livre para ter suas próprias opiniões”.

E a recepção das satíricas resenhas tem sido positiva até aqui. “A maioria das pessoas entende que se trata de uma brincadeira, e fico satisfeito quando elas se divertem junto comigo. De vez em quando surge algum comentário negativo na página de alguém que não entendeu a piada, mas isso é natural”, conta o autor.

No entanto, um problema ou outro já ocorreu. Um post sobre “Grande Sertão: Veredas”, por exemplo, foi deletado pelo próprio Facebook após ter sido denunciado “se não me engano por homofobia”, diz Lucas. Sim, nem sempre a posição do Crítico Literário Hétero perante alguns temas agradará todo mundo. O machismo do personagem, por exemplo, é uma característica latente. Considerou “Os Detetives Selvagens”, de Roberto Bolaño, o “livro ideal pra conquistar aquela gata top que adora uma aventura cheia de poesia e latin lovers” e finaliza o próprio texto sobre “Dom Casmurro” apontando que “todo mundo sabe que mulher não presta mesmo. Bom livro para mostrar para aquela gata top meio rebelde que quem manda mesmo é o homem. Traiu? Vai pra rua”.

E Lucas assume que esse é um traço proposital de sua cria. “Acho que o machismo -bem como outros tipos de preconceito, como a homofobia – é uma característica do tipo de hétero que procuro satirizar, então acabo incorporando isso ao meu personagem”.

Para o Crítico, Paulo Coelho é “topzera”.

“Literatura é tipo uma baladinha top onde as palavras são open bar”

Mas voltemos à criatura. Pedi para que Lucas “encaminhasse” algumas perguntas ao Crítico Literário Hétero para que pudéssemos conhecê-lo um pouco melhor. O nome do intelectual marombeiro é Johnatan Rodrigues de Mello Júnior, mas todos costumam chamá-lo de Johnnie. No momento diz trabalhar “só os músculos, que é o que importa”, mas faz faculdade de Direito e almeja ser juiz – “não quero ser pobre no futuro”, justifica.

Garante que a inspiração para que começasse a encarar os livros foi seu pai, que um dia lhe disse: “Johnatan, tu tem 25 anos e não faz nada da vida. Não sou sustentar filho vagabundo” e obrigou o agora crítico a entrar na faculdade, onde logo percebeu que precisaria ler muito. “No início foi difícil, mas com o tempo fui pegando o jeito da coisa. Daí decidi usar a leitura pra uma coisa útil: ajudar a pegar as gatas”.

Sim, mesmo quando questionado se prefere ler ou ir para a academia, as mulheres que vêm à cabeça de Johnatan. “O mais importante é pegar mulher. Tu tem que fazer o que for necessário para conseguir esse objetivo, seja ler ou ficar monstrão”. E garante que “se tem uma coisa que mulher gosta é de quem tem lábia, e a literatura serve mesmo é pra ensinar a usar bem a língua, tá ligado? [risos]. Pode usar essa que sempre funciona”.

Para o Crítico Literário Hétero, “literatura é tipo uma baladinha top onde as palavras são open bar”. Indica Deus como seu autor favorito porque “o melhor livro do mundo é a Bíblia. Já li ela inteirinha, com atenção. Levei uns sete anos para ler. Você tem bons exemplos ali” e garante que conforme a pessoa vai lendo, “cada vez mais o cérebro vai bombando, vai ficando mais monstro, até que tu vira tipo um Arnold Schwarzenegger da inteligência, um Conan dos neurônios”.

Por fim, diz achar Paulo Coelho “topzera”, por mais que os colegas críticos digam o contrário. “Respeito qualquer autor que esteja na Academia, como já falei, a academia é minha vida. Pra mim essa perseguição com o Paulo Coelho é pura inveja de quem não pega ninguém escrevendo coisa que ninguém lê”.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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