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Direitos humanos, racismo, homofobia: as batalhas de Cidinha da Silva

Rodrigo Casarin

14/06/2016 09h49

Foto: Elaine Campos

Foto: Elaine Campos

“Sobre-viventes”, é este o título do nono livro da carreira – o sexto de crônicas – de Cidinha da Silva, autora de 49 anos que estreou em 2006 com “Cada Tridente em Seu Lugar” e publicou obras como “Os Nove Pentes D’África” e “O Mar de Manu”, que, no total, já venderam mais de 30 mil exemplares, um número expressivo para quem costuma sair por editoras pequenas e médias. Como o nome da obra entrega, os textos do novo trabalho majoritariamente como protagonistas pessoas de nosso tempo, como William Bonner – em “O Dia em Que William Bonner Chorou” -, e Marco Feliciano, tema de “O Pastor-deputado Feliciano e a Lei 10.639”.

sobreviventesAssuntos contemporâneos, como questões relacionadas aos direitos humanos, os aplicativos de internet e discussões relacionadas a gênero, sexualidade, racismo e preconceito dominam as 41 crônicas do livro, lançado pela Pallas, nas quais muitas vezes Cidinha usa o humor e a ironia para tratar de questões bastante delicadas. Indiscutivelmente o engajamento social está no cerne de seu trabalho. “Não utilizo a literatura para levantar bandeiras. Abordo em minha produção literária, que manufatura retratos do cotidiano, temas e personagens que estão nesse cenário, cujos gritos não costumam ser ouvidos, pelo menos não com a acuidade necessária”, diz.

Para Cidinha, a arte, e em especial a literatura, deve ser embasada por três pilares: a ética, a estética e a política. “Nesse sentido, a arte que se ocupa do cotidiano de sociedades racializadas como a brasileira, e das coisas do mundo desigual, desumano, autoritário e violento, que experimentamos na cena contemporânea, contribuirá para a construção da equidade racial se desmontar os mecanismos ardilosos do racismo, seja como prática, seja como construção discursiva”, acredita. Além disso, lembra do “óbvio”, que cabe aos artistas enfrentar os que “oprimem e apequenam os seres humanos” por meio de suas criações, pela liberdade de expressão e pela insistência na beleza todas as situações, reinventando, de alguma forma, o próprio mundo.

Ministério da Cultura e o fim do Ministério dos Direitos Humanos

Tendo essa visão sobre a arte e sendo a responsável por organizar os livros “Ações Afirmativas em Educação: Experiências Brasileiras” e “Africanidade e Relações Raciais: Insumos Para Políticas Públicas na Área do Livro, Leitura e Literatura no Brasil” – título que dialoga com o tema do seu doutorado no Programa Multi-institucional e Multidisciplinar em Difusão de Conhecimento da Universidade Federal da Bahia – que a autora se posiciona sobre a tentativa do governo interino de Michel Temer acabar com o Ministério da Cultura (MinC). “O primeiro ato foi irresponsável, burro e totalmente desconectado da compreensão das grandes economias do mundo que, além de reconhecerem o significado da cultura e da arte para a humanidade, compreendem que a cultura carrega em si significado econômico que não pode ser desprezado.

Cidinha também olha com desconfiança para a recriação do Ministério. “Não me aparece que tenha havido qualquer reavaliação do erro brutal da extinção do MinC, e da fanfarronice de transformá-lo em secretaria do Ministério da Educação. Foi resultado apressado da pressão interna sofrida por meio da ocupação de representações do MinC e da Funarte em mais de 10 estados brasileiros e também do escárnio internacional ao qual o país tem sido submetido em decorrência das ações reacionárias desse governo golpista e ilegítimo”.

Outro Ministério extinto – e esse de fato enterrado – por Temer que está diretamente relacionado aos temas abordados por Cidinha em seus textos é o das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, cujo ponto final a autora define como “uma atitude esperável e cabível na falta de perspectiva humanista e de respeito a direitos expressos na Constituição por parte desse governo transitório. Como é de domínio público, mulheres, negros, grupos étnicos não-hegemônicos, adolescentes marginalizados e pessoas em situação de vulnerabilidade nunca tiveram lugar garantido no panteão dos ministérios que importam. Contudo, o antigo Ministério era símbolo pleno de lutas políticas travadas pela visibilidade e empoderamento dos sujeitos e suas histórias”.

Escritores negros e a Flip

Se “Sobre-viventes” fala muito sobre o lugar que o negro ocupa em nossa sociedade atual, talvez um reflexo de como ainda lhe falta espaço na própria literatura esteja na ausência de autores negros na Flip, o principal evento literário do país. Ao comentar o assunto, Cidinha questiona argumentos apresentados por Paulo Werneck, curador da Festa, que alegou que alguns escritores recusaram o convite para participar das conversas e que na própria plateia do palco montado em Paraty a presença de negros é escassa.

“É preciso haver um compromisso político em ter representadas as tais vozes que refletem as questões sociais. Se houver esse compromisso, serão encontradas formas de realizar um plano B, caso o plano A não dê certo. E um plano C, um plano D, caso necessário”, responde a autora ao primeiro ponto apresentado por Paulo. “Quanto ao segundo argumento, que extrapola o compromisso político e resvala na superficialidade explicativa que impede o desmascaramento dos mecanismos de perpetuação e reprodução do racismo institucional, contra-argumento com uma xarada infantil: ‘quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha’? É certo que se tivermos mais autores negros e negras no palco, seus pares se animarão a estar na audiência. Autoras e autores negros devem estar na Flip (e em todos os demais espaços literários) porque constituem vozes importantes a serem ouvidas por todos os ouvintes. É simples e cristalino!”.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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