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Quem são as mulheres vorazes por livros que leem até 20 obras por mês?

Rodrigo Casarin

20/04/2016 10h31

Gabriela_Fernanda_Kelly

Gabriela Teodoro, Fernanda Faria e Kelly Severo.

Elas têm entre 24 e 35 anos e costumam ler entre cinco e 12 livros por mês, mas, em alguns casos, esse número pode chegar até a 20 títulos. Para tal, dedicam duas, três ou, excepcionalmente, dez horas de seus dias às leituras – aproveitam o tempo que estão no ônibus, as brechas no trabalho, a hora do almoço, o silêncio na cama antes de dormir… Adoram romances de época, new adults, distopias, fantasias, dramas familiares e soft porns. Gostam de autoras como Sylvia Day, Collen Hoover e Carina Rissi. Pagam até R$34,90 por uma obra, mas, dentro dos seus parâmetros, são extremamente exigentes na escolha. Há quem garanta que essa geração de mulheres adultas que leem vorazmente seja um público-chave para as editoras sobreviverem no mercado em um futuro próximo.

Fernanda Faria, 24 anos, estudante de direito, é uma dessas leitoras. Fã de Jamie McGuire, Sophie Kinsella e Meg Cabot, diz gostar de viver outras vidas, conhecer lugares diferentes, culturas inusitadas e fugir um pouco da realidade por meio dos livros. "Cada leitura é especial, é uma espécie de entrega, é como se o enredo te envolvesse em uma bolha e fosse te apresentando um leque de coisas que você ainda não conhece, você vive a vida do personagem, quer tomar as decisões com ele, você chora, ri, se decepciona e se apaixona, é como realmente ter a possibilidade de viver algo impossível".

Fernanda Faria: "Se ele tiver um enredo que consiga prender a minha atenção, só vou parar quando terminar de ler, não importa quantas páginas tenha, dificilmente vou conseguir fazer o resto das minhas tarefas sem terminar o livro".

Fernanda Faria: "Se ele tiver um enredo que consiga prender a minha atenção, só vou parar quando terminar de ler, não importa quantas páginas tenha, dificilmente vou conseguir fazer o resto das minhas tarefas sem terminar o livro".

A estudante conta que, quando se interessa de fato por um livro, só consegue deixá-lo quando a história chega ao fim. "Não digo que há um tempo definido para minha leitura diária, tudo depende do livro escolhido no momento, se ele tiver um enredo que consiga prender a minha atenção, só vou parar quando terminar de ler, não importa quantas páginas tenha, dificilmente vou conseguir fazer o resto das minhas tarefas sem terminar o livro, acredito que esse seja o mal de pessoas curiosas como eu".

Um ótimo nicho para o mercado

Quem recentemente começou a delinear o perfil desse público foi Bruno Zolotar, diretor executivo de marketing do Grupo Editorial Record. Para identificar certas movimentações do mercado, realizou pesquisas focadas em grupos específicos para perceber como as pessoas se relacionavam com determinados livros e percebeu essa força consumidora do mercado editorial.

"São moças que não moram nos bairros mais privilegiados das cidades. Uma ou outra tem uma livraria no seu bairro. Vão a livrarias de shopping, mas a maioria compra em sites. Têm e-readers, mas leem tanto o digital quanto os livros físicos. Têm patamares fixos de preços de livro na cabeça. Se o seu livro ultrapassa esta faixa, dificilmente terá chance com elas. Não ligam para os prêmios dos autores ou para a crítica no caderno literário. Escolhem livros pela capa, mas principalmente pela indicação de outras leitoras como elas que trocam informações através de grupos de Facebook, blogs ou em encontros com amigas em lugares públicos. Dão pouca atenção a booktrailers. Ouviram falar em FLIP, sonham em ir lá, mas não curtem aquele tipo de autor e livro. O negócio delas são as Bienais", explica Zolotar, que também coordena o curso "Desvendando o Mercado Editorial", que acontece entre o final de abril e maio na PUC do Rio de Janeiro.

Há ainda outros traços comuns entre essas leitoras, garante o diretor. "São extremamente articuladas, falam com intimidade de autores dos quais você nunca ouviu e sabem explicar qual o universo das obras de cada um, em detalhes. Compram muita ficção comercial, principalmente escrita por mulheres, dão preferência a romances e foram as responsáveis por ondas como a dos livros eróticos. E uma característica muito forte é que são muito interativas. Como nenhuma outra geração de leitoras adultas, elas querem participar do processo de edição com as editoras. Sugerir autores, opinar sobre capas, títulos e preços", diz. "Fazer produtos para elas, envolvê-las no processo editorial e criar plataformas de marketing capazes de se engajar mais eficientemente estes grupos, é um desafio e tanto para as editoras que querem sobreviver nos próximos anos", alerta.

Iris Pereira: "Às vezes acabo optando por autores internacionais porque eles recebem maior atenção da editora: a diagramação é bem-feita e na maioria das vezes não há erros de português. Dá uma tristeza ler um livro bom numa diagramação ruim ou com erros de português".

Iris Pereira: "Às vezes acabo optando por autores internacionais porque eles recebem maior atenção da editora: a diagramação é bem-feita e na maioria das vezes não há erros de português. Dá uma tristeza ler um livro bom numa diagramação ruim ou com erros de português".

Leitoras exigentes

No entanto, segundo essas grandes leitoras, as editoras também precisam cuidar melhor de seus produtos para que, de fato, conquistem-nas.

A analista de sistemas Iris Pereira, de 28 anos, aposta nas ficções para conseguir "viver mais de uma vida" e "relaxar" e acredita que sem os livros "já teria enlouquecido". Ao falar sobre suas preferências, garante não se importar com a origem das obras, se são de autores nacionais ou internacionais, desde que sejam bem escritas. No entanto, faz críticas a algo que enxerga no mercado. "Às vezes acabo optando por autores internacionais porque eles recebem maior atenção da editora: a diagramação é bem-feita e na maioria das vezes não há erros de português. Dá uma tristeza ler um livro bom numa diagramação ruim ou com erros de português. A vantagem do autor nacional é que o leitor pode ter contato direto com ele, mas nem sempre há oportunidade para que sejam publicados por grandes editoras".

Gabriela Teodoro, 29 anos, que atua como agente educadora no Rio de Janeiro, também reclama do trabalho de editoras com autores nacionais. "A minha opinião sobre novas aquisições das editoras de autores nacionais é que deixam muito a desejar. Tem muita gente saindo do Wattpad com uma escrita amadora, histórias mal estruturadas e com um preço que não condiz com o material", queixa-se.

Gabriela Teodoro: "Desligue a televisão e vá ler. O mais importante é encontrar livros que você goste".

Gabriela Teodoro: "Desligue a televisão e vá ler. O mais importante é encontrar livros que você goste".

Dicas para ler mais

Agora, em uma realidade na qual é senso comum as pessoas alegarem que não leem por falta de tempo, como essas garotas conseguem arrumar tanto espaço em suas agendas para que se dediquem aos livros? Kelly Severo tem 24 anos, é estudante e lê de oito a dez horas por dia, de 15 a 20 livros por mês. Surpreendente, não? É ela que dá uma dica àqueles que gostariam de encarar ao menos um título ou outro de vez em quando. "Ler sempre é bom. Se a pessoa não gosta ou não tem tempo, precisa se disciplinar para ler uma ou duas páginas por dia, na hora do almoço ou antes de dormir. Há sempre um tempinho sobrando, é só saber se organizar. Muita gente diz que não gosta de ler, porém nunca leu um livro. Minha dica é: tente! Eu fiz isso e hoje a leitura é minha vida".

As outras entrevistadas indicam caminhos semelhantes. "Sempre digo para os meus amigos que ler é um costume e uma prática. Quanto mais a pessoa ler mais ela gosta e com isso acaba lendo cada vez mais rápido. A pessoa não deve desistir no primeiro livro que não gostou, ela só não encontrou o gênero certo", diz Iris. "Acredito que todo mundo pode arranjar um tempinho, seja na hora do almoço ou antes de dormir. Desligue a televisão e vá ler. O mais importante é encontrar livros que você goste. Existe uma variedade muito grande dentro dos gêneros. Se você for 'picado' pelo livro certo, não conseguirá parar e arrumará um tempinho para ler", garante Gabriela.

Ótimas inspirações àqueles que vivem dizendo que precisam ler mais, não?

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.