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Indicado pela Fuvest, Pepetela defende que brasileiros leiam mais africanos

Rodrigo Casarin

16/03/2016 10h55

Pepetela

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos. Se chamar pelo nome, pouca gente conhece, mas é o que consta na certidão de nascimento de Pepetela, escritor angolano e um dos principais autores africanos da atualidade. Aos 74 anos, está em evidência no Brasil porque a Fuvest, o maior vestibular do país, colocou um de seus livros dentre as leituras obrigatórias para a prova que dá acesso a diversas de nossas universidades, dentre elas a USP. O título em questão é "Mayombe", de 1980, sobre a vida dos guerrilheiros – o autor era um deles – do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) durante a guerra contra os portugueses, entre as décadas de 60 e 70, pela independência do país.

Como não poderia deixar de ser, a obra e a indicação norteiam a conversa abaixo. Pepetela se sente honrado com a escolha e por aparecer ao lado de nomes gigantes, como Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, e diz que "Mayombe" sempre terá um lugar central em sua vida. Por fim, ao falar sobre literatura africana, aponta nos livros do continente um caminho para que os brasileiros encontrem parte das origens de sua identidade. "Certamente que os leitores brasileiros vão descobrir na nossa literatura ecos das raízes da sua própria cultura, ou da parte dela que tem sido mais ocultada".

Página Cinco: Seu romance "Mayombe" foi escolhido para ser um dos livros que os alunos devem ler antes de prestar a Fuvest, o principal vestibular do Brasil. O que você pensa disso?

Pepetela: Fiquei muito honrado em ver meu livro escolhido por uma Universidade tão importante como é a USP. Certamente significará que esse livro, por alguma razão, terá sido considerado com mérito, o que só pode gratificar o seu autor.

Página Cinco: O que os brasileiros têm a aprender com "Mayombe", ainda mais em um momento politicamente conturbado como o que vivemos?

Pepetela: Será sempre muito difícil comparar situações e contextos radicalmente diferentes. Não poderei dizer grande coisa. De qualquer modo, há algo na estrutura do romance que na época foi considerada por alguns bastante ousada, mas duvido que hoje ainda se possa pensar da mesma maneira. Certamente que haverá sempre em qualquer livro algo que pode ser transposto para outra situação, mas isso é obra do leitor e não do escritor.

Página Cinco: "Mayombe" foi publicado em 1980 e fala sobre a guerra de libertação de Angola, da qual você participou ao lado do Movimento Popular de Libertação da Angola (MPLA), que combateu as tropas de Portugal. Quais são as lembranças mais vívidas daquela época? Hoje, qual o espaço que esse romance ocupa na sua obra e na sua vida?

Pepetela: Era uma época em que a nossa juventude estava empolgada em lutar pelo País, entendo com maior ou menor clareza que estava participando na História. É fantástico como sensação, porque ao mesmo tempo que havia orgulho, havia também um tremendo medo da responsabilidade que assumíamos voluntariamente. Um erro marcaria o futuro. Cometemos esses erros e o futuro não foi tão radioso como sonhávamos então. Esse romance nasceu das circunstâncias dessa guerra, escrito para mim, sem preocupação de algum dia o publicar. Por isso terá sempre um lugar central na minha vida.

Página Cinco: Com a indicação, seu nome aparece junto de gente como Eça de Queirós, João Guimarães Rosa, José de Alencar, Carlos Drummond de Andrade e Machado de Assis. O que isso significa para você?

Pepetela: Sinto-me um anão entre gigantes. Sem qualquer tipo de falsa modéstia. Intimida estar ao lado dessa gente. Prefiro ficar depois, é mais justo.

Página Cinco: No ano passado, outro importante vestibular do país, o da Unicamp, já havia incluído um livro de autor africano dentre as leituras obrigatórias ("Terra Sonâmbula", do moçambicano Mia Couto, no caso). Hoje, muito se discute sobre a representatividade não só na literatura, mas na arte em geral. O que representa você e o Mia, que são dois autores brancos, serem tidos aqui no Brasil como os exponentes da literatura africana escrita em português?

Pepetela: Não posso falar pelo Mia, embora suponha que ele responderia da mesma maneira. Sou apenas um escritor africano, a cor da minha pele não interfere na minha escrita nem na minha maneira de analisar o mundo. Por isso os livros não deviam ter, como agora é moda, a fotografia do autor. O que interessa é o escrito. E espero que os leitores entendam sempre assim.

Página Cinco: Os brasileiros deveriam prestar mais atenção à produção literária contemporânea dos países africanos que falam a língua portuguesa? Por quê?

Pepetela: Pouco a pouco, vai havendo maior interesse pelos nossos livros. Tem sido um trabalho de divulgação feito sobretudo pelas universidades brasileiras. Certamente que os leitores brasileiros vão descobrir na nossa literatura ecos das raízes da sua própria cultura, ou da parte dela que tem sido mais ocultada. Ajudar a pôr à luz do dia certos mitos ou dizeres ou maneiras de pensar enriquecem os povos. Nesse sentido, acho que faria todo o sentido que os brasileiros lessem bastante os africanos e que os africanos lessem bastante os brasileiros. Nos descobriríamos mais próximos do que pensávamos à partida.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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