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Editora francesa aposta na literatura marginal brasileira

Rodrigo Casarin

02/04/2015 11h50

Paula Anacaona 2"Há contatos entre as periferias da França e do Brasil. O sentimento de exclusão é igual em todo o mundo, por mais que as reações às vezes sejam diferentes. A luta que a literatura marginal brasileira faz para que jovens não entrem no tráfico de drogas, aqui pode ser para que eles não entrem em guerras santas, o que está acontecendo muito". Quem diz isso é Paula Anacaona, editora da Editions Anacaona, que desde 2009 publica autores da literatura marginal brasileira na França, apostando no retrato e na voz das minorias raciais e socioeconômicas.

As ligações de Paula com o Brasil praticamente inexistiam. O único ponto de contato com o país era o domínio da língua portuguesa, que a levou a ser intérprete na França de Paulo Lins, autor de "Cidade de Deus". Foi ele quem lhe recomendou a leitura de "Manual Prático do Ódio", de Ferréz. Gostou muito, entretanto, seus pares tiveram uma percepção diferente. "Trabalhava em outra editora como tradutora, mas odiaram o livro. Foi uma reação de desgosto, de nojo, o que não é normal. Grandes editoras já o tinham tido em mãos e também não fizeram nada. Aí que percebi que havia algo nele".

Então, para publicar "Manual Prático do Ódio" e outras obras que fugissem do que havia na produção literária francesa, criou a Editions Anacaona. "Eu não era única decepcionada com o que via por aqui. A literatura marginal brasileira teria seu público", apostou a editora. "A França é como o Brasil, muito dividida, com uma elite branca, conservadora, mas também com lugar para essa literatura alternativa, com um pouco de cor", argumenta.

Depois de Ferréz vieram nomes como Marcelino Freire, Rodrigo Ciríaco, Ronaldo Bressane, Marçal Aquino, Alessandro Buzo e Victoria Saramago, seja com títulos individuais, seja com contos reunidos em livros como "Je Suis Favela", de 2011 (em português, "Eu Sou Favela", que acaba sair pela editora Nós). Seus maiores sucessos são duas mulheres: Ana Paula Maia e Conceição Evaristo. Segundo a editora, ganharam respeito por questionarem a ideia do Brasil como uma democracia racial e por apresentarem realidades múltiplas. "As pessoas não podem ficar fingindo que não veem outra parte da sociedade".

Ilustração de Tinho para

Ilustração de Tinho para "Je Suis Favela".

Com a preocupação de sempre deixar o livro "sexy" com um belo projeto gráfico – "Je Suis Favela", por exemplo, foi ilustrado pelo grafiteiro Tinho – para que o objeto se torne interessante aos jovens, Paula leva para os seus conterrâneos uma vanguarda que diz não existir em seu país. "No final dos anos 90, começo dos 2000, até tivemos algo semelhante de escritores da periferia, mas não pegou, não havia um movimento e os escritores tinham até medo do rótulo de periférico. Gostei de no Brasil as pessoas assumirem e se orgulharem disso".

A vida de Paula como editora não é fácil, tanto que continua trabalhando também como tradutora para que consiga se manter. O próprio "Manual Prático do Ódio", sua aposta inicial, começou a ganhar espaço somente agora. "O francês não queria ver essa realidade de exclusão", lembra.

Um fato bastante recente fez com que houvesse a mudança de postura: os atentados ao jornal Charlie Hebdo, em janeiro deste ano. "Para muitos foi um choque porque quem cometeu eram franceses, pessoas nascidas na França, mas que não se sentiam parte daqui. Isso mostrou que há uma fratura que divide o país".

O despertar desse interesse resultou em boas vendas da Editions Anacaona no Salão do Livro de Paris deste ano, que teve o Brasil como país homenageado. No estande da editora, justamente Ferréz, integrante da comissão brasileira, foi um dos autores mais vendidos – o escritor, que na França conversou com o UOL, também passou a ser comprado por diversas bibliotecas.

Apesar do bom momento, Paula lamenta que seu público seja formado principalmente por uma "classe média aberta, curiosa", gostaria de ter uma penetração maior junto aos moradores da periferia francesa. Continuando sua luta, a editora procura por novos autores para publicar, mas também sonha em ter em sua casa dois grandes nomes da literatura brasileira, que podem ser vistos como alguns dos precursores da atual cena marginal que há em nossas letras: Lima Barreto e Plínio Marcos.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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