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Romance retrata drama de meninas roubadas e escravizadas por traficantes

Rodrigo Casarin

17/03/2015 11h13

Raze pelas_capa"Agora vamos deixar você feia, minha mãe disse. E assobiou. Sua boca estava tão próxima que ela cuspiu perdigotos em meu pescoço. Senti o cheiro de cerveja. No espelho, eu a vi passar o pedaço de carvão em meu rosto. É uma vida sórdida, murmurou". É assim que Ladydi (sim, tudo junto) começa a narrar a sua história. Poucas linhas depois, crava: "A melhor coisa que você pode fazer no México é ser uma menina feia".

A personagem é uma criação da jornalista, poeta e escritora Jennifer Clement, que levou quase onze anos fazendo pesquisas e entrevistando mais de cem mulheres para que pudesse escrever "Reze Pelas Mulheres Roubadas". O resultado é de grande impacto: um romance que se passa em Guerrero, no México, um lugar praticamente sem homens – que se mudaram para a cidade grande ou para qualquer canto dos Estados Unidos –, onde garotinhas são roubadas para se tornarem escravas de poderosos traficantes. Para escaparem desse drama, que se repete no mundo real, resta às meninas que se mascarem, enfeiem, façam-se de meninos e até mesmo se mutilem, assim buscam causar repulsa aos olhos dos malfeitores .

"Comecei entrevistando as mulheres escondidas pelos narcotraficantes. Depois, passei a entrevistar mulheres que viviam em Guerrero e imigrantes da América Central. A última parte aconteceu no presídio para mulheres da Cidade do México", explica Jennifer sobre suas pesquisas. Depois, ao invés de apostar em um livro-reportagem, como seria de se esperar de uma jornalista, optou pela ficção por considerá-la mais "poderosa". "Quando pensamos em 'Oliver Twist', 'Jane Eyre' ou nos romances de Émile Zola ou Victor Hugo, sequer nos lembramos das reportagens daquela época. A literatura mudou hábitos sociais e até mesmo as leis", diz, elencando grandes nomes do realismo e naturalismo do século XIX.

Para Jennifer, as piores histórias ouvidas vieram exatamente das mães que tiveram suas filhas roubadas. "Não é um sequestro, não pedem nada como resgate", pontua. No livro, é isso que acontece com Paula, a mais bela amiga de Ladydi, que é tirada de sua família aos 11 anos. A protagonista consegue escapar deste final, mas também se depara com um futuro bastante trágico, como costuma acontecer com praticamente todas as pessoas miseráveis da região que habita, onde as leis são ignoradas e o que impera é a força – às vezes oriunda da simples necessidade de sobreviver.

Amor e ternura na cadeia

Ladydi abraça a oportunidade de ascender socialmente sendo babá em Acapulco, na casa de um traficante. Entretanto, após ser acusada de cumplicidade em um assassinato, é presa. Na cadeia, surpreendentemente para os padrões brasileiros, encontra carinho e bastante suporte de suas colegas detentas. "Há muita ternura no presídio. Creio que é um clichê pensar que não há amor nesses lugares", opina a escritora.

Ao longo de toda a obra, também está em questão a delicada relação do México com os Estados Unidos. O sonho americano aparece tanto como a oportunidade, por vezes única, de uma vida melhor para a população dos pequenos povoados quanto o responsável por fazer com que muitos homens abandonem suas famílias. Um problema histórico, a autora enxerga na tensão entre os dois países um dos principais motivos para a violência que impera em diversas regiões mexicanas. "México e Estados Unidos estão em um casamento terrível. O México não pode resolver seus problemas sem o compromisso dos Estados Unidos. O consumo de drogas está nos Estados Unidos e as armas vêm dos Estados Unidos para o México", argumenta a escritora.

Por "Reze Pelas Mulheres Roubadas", Jennifer Clement é uma das cinco pessoas indicadas à final do PEN/Faulkner Award for Fiction, importante premiação literária dos Estados Unidos. Apostando numa prosa fluente para tratar de um tema extremamente pesado, a escritora mexicana entrega uma obra que provoca reflexão sobre a condição de milhões de pessoas que são completamente reféns da violência, em lugares onde o estado não tem força alguma e o respeito ao ser humano se dá apenas, e quando muito, entre as classes mais enfraquecidas da sociedade.

Título: "Reze Pelas Mulheres Roubadas"
Autora: Jennifer Clement
Tradução: Léa Viveiros de Castro
Editora: Rocco
Páginas: 240
Preços: R$39,50 (físico) e R$25,50 (e-book)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.