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Ela está em alta no Brasil, mas é correto falarmos em “literatura LGBT”?

Rodrigo Casarin

21/11/2017 10h03

Há dez dias, uma mesa que integrava a programação da 63ª Feira do Livro de Porto Alegre foi mudada duas vezes de lugar. Os escritores Samir Machado de Machado e Natalia Borges Polesso conversaram sobre “Os Livros Fora do Armário: A Literatura Orgulhosamente LGBT” no Teatro Carlos Urbim depois que o papo foi marcado e na sequência cancelado para o Santander Cultural e para o Centro CEEE Érico Veríssimo. Os organizadores temiam por protestos como o que levou o próprio Santander Cultural a cancelar a exposição “Queermuseu”, em agosto.

Enquanto isso, a Companhia das Letras relança “Stella Manhattan”, de Silviano Santiago, publicado originalmente em 1985, um dos primeiros livros nacionais a abordar a transexualidade. Um pouco antes, a Hoo, editora que nasceu com a proposta de publicar obras com temática LGBT – e, dentre outros, lançou “E Se Eu Fosse Puta”, da travesti Amara Moira -, ganhou em pouco tempo uma relevância tão grande que foi comprada pela Universo dos Livros. É claro que narrativas com gays, lésbicas, bissexuais e transexuais estão longe de ser uma novidade em nossas letras – um exemplo cabal é Riobaldo, protagonista do clássico “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, um jagunço homossexual -, mas também é inegável que ela vive um momento particularmente interessante.

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Para ficarmos em mais duas das incontáveis amostras de como os LGBTs andam aparecendo em nossa literatura, a própria Natalia levou o Jabuti de 2016 na categoria “Contos e Crônicas” por “Amora” (Não Editora), cujas narrativas breves são estreladas por lésbicas. Uma das poetas brasileiras mais estimadas atualmente, Angélica Freitas, também traz a temática no respeitadíssimo “O Útero é do Tamanho de um Punho” (Companhia das Letras). Levando tudo isso em conta, fiz duas perguntas para alguns escritores: existe de fato uma literatura LGBT brasileira? Se sim, como ela poderia ser definida? As respostas, no geral, nos levam para ainda mais questões.

Samir Machado de Machado e Natalia Borges Polesso.

Termo inegável

Tanto para Natália quanto para Samir, que estiveram na mesa do Salão do Livro de Porto Alegre, a existência de uma literatura LGBT e do termo em si é inegável. “De Adolfo Caminha a João Silvério Trevisan, passando por Caio Fernando Abreu, Cassandra Rios, são tantos, a literatura brasileira possui uma bagagem muito rica nesse aspecto”, diz o escritor. Samir é autor de “Homens Elegantes”, livro de aventura que se passa no século 18 e traz personagens homossexuais, e “Quatro Soldados”, ambientado no mesmo período, que também tem a homossexualidade latente em certos trechos. Ambos foram publicados pela Rocco.

“A literatura LGBT não é simplesmente uma questão de livros que contenham o registro emocional de escritores LGBT. Um escritor ser gay, por exemplo, não faz da obra dele ‘literatura gay’. Uma literatura LGBT vai abranger obras cujo tema ou narrativa se relacionam de alguma forma à experiência de vida LGBT. E isso muda com o tempo e de acordo com cada geração. Inclui, por exemplo, um livro como ‘Moby Dick’, com suas dezenas de simbolismos fálicos e homoeróticos, ou o ‘Decamerão’, que usa um humor que hoje chamaríamos de kitsch como forma de manter a sanidade em temos de epidemia”, continua o autor na tentativa de definir o termo.

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Natália, por sua vez, lembra de parte do seu projeto de pós-doutorado, intitulado “Geografias Lésbicas: Literatura e Gênero”, na qual perguntou a autoras como elas definiriam “literatura lésbica” e ouviu respostas bastante díspares. “O que posso dizer, de forma resumida, portanto incompleta, é que a literatura LGBT é uma literatura que se relaciona com a experiência de mundo de pessoas LGBT e pode ou não ser escrita por um LGBT. Mas há quem diga que só uma lésbica pode entender mais completamente o que é ser uma lésbica, por exemplo, aí temos toda uma questão de lugar de fala, que se complexifica na ficção”.

João Silvério Trevisan.

Equívoco conceitual

Há, no entanto, quem discorde do termo. É o caso de João Silvério Trevisan, amplamente reconhecido pela maneira como trabalha com personagens homossexuais em sua literatura. Trevisan acaba de lançar “Pai, Pai” (Alfaguara), romance no qual constrói a história de um homem que precisa lidar com a brutalidade de seu pai, que não aceita os trejeitos “maricas” do filho. O autor assume que a questão é “complexa e espinhosa”, mas diz não acreditar na existência de uma literatura LGBT.

“Essa definição, que pareceria simpática e inclusiva, na verdade induz a um equívoco conceitual. Antes de tudo, corre o risco de ser reducionista, tal como seria falar em ‘literatura negra’ ou ‘literatura feminina’. Em última análise, o resultado seria colocar tais obras num compartimento fechado, isoladas do contexto – como se fossem obras menores ao serem adjetivadas. Nunca ouvi a academia ou a crítica se referir a uma ‘literatura heterossexual’ ou ‘branca’ ou ‘masculina’”.

Para Trevisan, seria melhor usar o termo “literatura de ‘temática LGBT’”, que poderia trazer especificidades do tema sem que isso acarretasse na definição de algum estilo ou escola. “Se assim fosse, estaríamos tratando a orientação sexual como um carimbo, uma espécie de ‘destino’ infalível para tudo. Qualquer definição adjetivante criaria um estereótipo: se você é gay, tem que escrever deste jeito, se for lésbica, escreverá deste outro jeito, se for transexual, deverá escrever ‘como transexual’. Ora, nenhum gay ou nenhuma lésbica ou nenhum transexual escreve no piloto automático, em função apenas de sua orientação sexual”, argumenta. “Simplesmente, não há como enfiar no mesmo saco pessoas tão diferentes como são as pessoas LGBT. Criar uma identidade genérica corre sempre o risco de atropelar as subjetividades. Não será por sua orientação sexual que tais pessoas escreverão melhor ou pior”, conclui.

Eric Novello.

Mais perguntas

Autor do recém-publicado “Ninguém Nasce Herói” (Seguinte), distopia protagonizada por um jovem homossexual que vive em um Brasil dominado pelo totalitarismo, no qual minorias são violentamente perseguidas, Eric Novello faz um questionamento semelhante ao de Trevisan: “A primeira coisa que me vem em mente é retrucar com um ‘existe uma literatura heterossexual brasileira?’. Seu parecer, no entanto, é um pouco diferente:

“Digo, é claro que existe, 99% dela, mas imaginar nas livrarias uma prateleira com uma placa ‘Literatura Branca Hétero Cis Brasileira’ ou um tema de TCC assim parece ridículo, não? Por outro lado, literatura LGBT ou qualquer outro rótulo que defina um nicho serve para ajudar o interessado a encontrar livros com maior representatividade quando entra na livraria ou em um espaço virtual”, diz, lembrando que no Goodreads, por exemplo, há listas de livros como “literatura young adult LGBT”. “Nesse caso eu acho interessante porque são categorizações feitas pelos leitores para auxiliar outros leitores a encontrar algo que provavelmente a pessoa que criou a lista teve dificuldade de encontrar no início”.

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Voltando ao rótulo em si, Novello não o vê com simpatia. “O que está acontecendo já me parece um passo além: personagens LGBT estão começando a existir na literatura como um todo, seja em livros contemporâneos, de fantasia, ficção científica, de literatura do cotidiano, terror, romance histórico, aventura ou o que for. E aqui eu ressalto outro ponto importante: personagens LGBT cujas histórias não dependem necessariamente do fato de eles serem LGBT. Personagens LGBT que não tenham como dilema sofrer homofobia, transfobia, lesbofobia, ser rejeitado pela família e coisas do tipo”.

Além disso, o escritor levanta outras questões: recordando que em “Meia-noite e Vinte”, de Daniel Galera (Companhia das Letras), há um importante personagem homossexual, questiona se a obra passa a ser enquadrada como “literatura LGBT” por conta disso. “O Galera passaria a ser um autor LGBT? Ou só seria ‘literatura LGBT’ se o livro partisse de um autor também LGBT? Se fosse o segundo caso, isso não seria contraproducente se queremos justamente aumentar a presença de personagens LGBT na literatura como um todo? E, pior de tudo, não seria uma categorização excludente?”.

Carol Bensimon.

Quem também traz questões que deixam o debate ainda mais complexo é Carol Bensimon. Ela é autora do romance “Todos Nós Adorávamos Caubóis” (Companhia das Letras), outra história protagonizada por garotas homossexuais. Carol assume não ser muito fã do rótulo, apesar de respeitá-lo e considerá-lo politicamente importante. Ainda assim, levanta alguns pontos:

“Se entro em uma livraria nos Estados Unidos, não gosto de ver James Baldwin ou Michael Cunningham ou Ali Smith em uma estante especial. Por que eles estariam separados do resto? Nas lojas gaúchas da Saraiva, meus livros costumam estar em uma divisão estranha chamada ‘literatura rio-grandense’. Por que eu não estou na literatura brasileira? Há outras questões geradas desse ‘corte identitário’ que me parecem difíceis de resolver: se Michael Cunningham, por exemplo, que é gay, escreve um romance em que não há nenhum personagem homossexual, esse livro é literatura LGBT?”.

Ficam as questões, continua-se o debate.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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