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Bernie Krigstein: ele desafiou os super-heróis e projetou as HQs do futuro

Rodrigo Casarin

15/01/2019 10h51

Autorretrato de Bernie Krigstein.

"Você nunca vai esquecer, não é, Carl Reissman? Mesmo aqui… na América… dez anos depois e a milhares de quilômetros de sua Alemanha natal… Nunca vai esquecer os anos da sangrenta guerra. As lembranças vão assombrá-lo para sempre… o assombram agora mesmo, descendo as escadas do metrô para a silenciosa semiescuridão…".

É assim que começa "Raça Superior", tão magistral quanto breve HQ de Bernie Krigstein, considerada por Art Spiegelman, de "Maus", "um feito da mais alta qualidade, uma obra de mestre […] um impacto – simultaneamente visceral e intelectual – que é único nos quadrinhos". Em 67 quadros ritmados com cadência perfeita em oito páginas, o quadrinista entrega ao leitor um conto extremamente potente sobre como a Segunda Guerra Mundial continuou perseguindo e assombrando aqueles que dela participaram mesmo após mais de década do fim do conflito, numa espécie de revanche que o destino poderia se encarregar de dar nos responsáveis por uma das maiores carnificinas da história humana.

Não é apenas Spiegelman que é fã confesso da história. Certa vez, perguntado sobre os paralelos entre "Raça Superior" e o seu badalado "Batman – O Cavaleiros das Trevas", Frank Miller foi enfático: "Não há paralelo. Ele [Krigstein] veio primeiro e eu o imitei". Como já foi possível perceber, "Raça Superior", de 1954, é a narrativa mais celebrada do quadrinista e, para muitos, a maior história já publicada e um gibi. Krigstein, por sua vez, é um nome que todo fã de quadrinhos deve conhecer.

Trecho de "Raça Superior".

Há poucos meses a Veneta lançou no Brasil "O Perfeito Estranho", primeiro livro de Krigstein a sair por aqui. O volume reúne 33 de suas principais histórias – dentre elas está, claro, "Raça Superior". Na visão de Rogério de Campos, editor da casa e especialista em HQs, "os quadrinhos de Bernie Krigstein são uma janela para um futuro que poderia ter acontecido", conforme escreve no texto de abertura da obra.

Carregando uma sólida formação acadêmica e tendo entre suas referências pintores como Paul Cezanne e Pablo Picasso, Krigstein encontrou nas HQs uma forma de ganhar dinheiro para se sustentar. No final da década de 1940, enquanto o mercado para esta arte crescia nos Estados Unidos e o público se mostrava aberto para gibis com temas variados e com personagens cada vez mais complexos, saindo da pasmaceira das histórias de super-heróis, Krigstein encontrou um terreno relativamente favorável para que ousasse em suas criações. Nelas encontramos a gênese da excelência narrativa que a arte alcançaria no futuro principalmente com as graphic novels. Não que o lido com os editores fosse fácil, no entanto.

"Seu desejo de explorar as possibilidades de linguagem, sua impaciência com roteiros banais e com esquematismo das descrições psicológicas dos personagens, seu rigor estético e sua exigência de fazer ele mesmo a arte-final de seus trabalhos entraram em choque com a lógica das editoras da época", escreve Campos. Para piorar, por conta de suas ideias radicais, Krigstein foi rotulado como comunista. "Em pleno macarthismo, ser comunista nos EUA não fazia bem para a saúde. Assim, Krigstein entrou para a lista negra de editoras conservadoras como a DC Comics", segue o editor.

Junto com o macarthismo veio também a caça às bruxas feita contra os quadrinhos na década de 1950 – os gibis seriam os responsáveis por desvirtuar uma geração de jovens, argumentavam políticos e figurões da época – e leis que acabariam por concentrar o mercado na mão de poucas empresas. Empresas essas que, coniventes com o momento, não aceitariam publicar alguém que criava histórias que mexiam em temas delicados de sua época, questionando o racismo, o belicismo e os ditos "homens de bem", quase sempre mais cruéis no cotidiano do que os monstros combatidos pelos super-heróis.

Krigstein ainda conseguiu fazer o que almejava na libertária e provocativa EC Comics, a casa da jocosa revista "Mad". Mas depois, com o cerco se fechando cada vez mais – e o dinheiro minguando para as editoras que de alguma forma resistiam ao macarthismo -, foi tentar salvar sua carreira de quadrinista fazendo alguns trabalhos para a Atlas, mais tarde transformada em Marvel Comics. Só que esbarrou em Stan Lee, que considerava insuportável.

"Fico encantando em saber que Lee adquiriu o status de autoridade no campo de quadrinhos. Vinte anos de esforço ininterrupto para suprimir qualquer avanço artístico, encorajando o mais miserável mau gosto, inundando o mercado com degradadas imitações e roteiros porcos, tratando desenhistas e roteiristas como gado, e seu fracasso em conseguir um sucesso independente como artista, tudo isso certamente o qualifica para a respeitável posição", disse em uma entrevista em 1965, após ser questionado sobre Lee ser tratado como mestre das HQs.

A essa altura Krigstein já tinha se retirado de cena. Passaria o restante da vida trabalhando como ilustrador e professor de artes plásticas, além de se dedicar à pintura. Morreu em janeiro de 1990. Seu nome integra o hall da fama do Will Eisner Award.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.