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Sexo X Armas: na 2ª Guerra, DSTs causavam mais baixas do que tiros e bombas

Rodrigo Casarin

23/05/2018 10h54

“Durante a Segunda Guerra Mundial, a oferta de sexo era tão frequente que as doenças sexualmente transmissíveis se tornaram uma grande preocupação dentro dos setores de saúde militar. As estatísticas dessas doenças superavam as dos feridos em combate e, por incrível que pareça, representavam a maior causa das baixas entre os combatentes (sabendo-se que baixa não é sinônimo de morte, mas equivale à retirada de um soldado de ação). A enorme oferta de sexo entre as populações das cidades que sofreram com a guerra se explicava pelo estado de penúria no qual se encontravam seus habitantes, desprovidos dos elementos mais básicos de sobrevivência. Muitas vezes, só restava apelar para a prostituição”.

Você imaginava que durante a maior guerra da história o sexo causava mais desfalques aos exércitos do que as tropas inimigas? Pois eu não, mesmo levando em conta que feridas provocadas por balas e estilhaços de bombas costumavam ser tratadas nos ambulatórios improvisados pelos militares, enquanto evidências de gonorreia ou sífilis normalmente resultavam em baixas sumárias. Descobri a surpreendente informação ao ler “1942 – O Brasil e Sua Guerra Quase Desconhecida”, de João Barone – sim, o baterista dos Paralamas do Sucesso, que também é filho de pracinha e profundo interessado no que seu passou durante os conflitos que foram de 1939 a 1945 e deixaram milhões de mortos pelo mundo, tanto que já produziu e dirigiu documentários e escreveu um outro livro sobre o tema, “A Minha Segunda Guerra” (Panda Books).

Barone explica que muitos soldados, brasileiros ou não, partiam para a guerra ainda virgens. Na iminência de morrerem castos, procuravam uma forma de conhecer os ainda misteriosos prazeres assim que tinham um tempo livre entre uma batalha e outra. Para descobrirem o sexo, buscavam por garotas em bordéis ou cortejavam mulheres solitárias, que em muitos casos ainda choravam a perda de seus namorados, maridos ou familiares. Em certas ocasiões, relacionamentos do tipo acabaram até em casamento.

“Alguns dos namoros resultaram em união. Houve também muitos casos de pracinhas que deixaram mulheres grávidas e mães solteiras ao retornaram ao Brasil depois da guerra. Um relato comum entre muitos ex-combatentes era a profunda tristeza e o desconforto em ver aquelas moças se oferecendo em troca de uma barra de chocolate ou de um mero cigarro. Alguns se sensibilizavam e não chegavam às vias de fato, outros não resistiam ao impulso primitivo e faziam vista grossa para aquela triste condição humana”, registra o autor.

Essas condições fizeram com que o exército nacional incluísse aulas de educação sexual durante os treinamentos dos militares no Brasil. Os pracinhas “eram obrigados a assistir aos filmes exibidos nos acampamentos, que assustavam ao mostrar os efeitos terríveis da gonorreia e da sífilis”. Além disso, preservativos de borracha faziam parte, junto de lâminas de barbear e sabonetes, dos kits de higiene distribuídos aos combatentes. “Mesmo assim, houve uma grande incidência de doenças venéreas entre as fileiras da FEB [Força Expedicionária Brasileira]”, conta Barone.

Aviadores do Senta a Pua numa cantina em San Giusto, nos arredores de Pisa. Da esquerda para a direita: Perdigão, Nero, Pessoa Ramos (fundo), Rocha, Tormin e Horácio.

Treinando com lata de goiabada

Esses pormenores – que, no caso, por conta das baixas, acabam não sendo tão secundários assim – se destacam em “1942”, lançado pela primeira vez em 2013 e que acaba de ser revisto pelo autor e pela Harper Colins. A nova edição conta com nova capa, fotos exclusivas e mais de 30 páginas de escritos inéditos, incluindo um capítulo que apresenta detalhes sobre a história e a trajetória da FEB.

Dentre as peculiaridades está o jeitinho brasileiro. Enquanto o exército era formado e os equipamentos vindos dos Estados Unidos, principal parceiro militar nacional na ocasião, não chegavam, o 9º Batalhão de Engenharia, de Aquidauana (MS), foi obrigado a de alguma maneira simular minas terrestres para que pudesse treinar como detectá-las. “Seus integrantes pediram à população da cidade que doasse todas as latas de goiabada disponíveis, que seriam utilizadas para simular minas enterradas para que fossem localizadas pelos novos detectores eletrônicos, e, assim, possibilitassem os treinamentos em campo”.

Já em julho de 1944, quando o 1º Escalão da FEB desembarca em Nápoles, a situação dos quase 6 mil brasileiros é pouco edificante, o que provoca outra situação peculiar. Desarmados, surrados pela longa viagem de navio entre a América do Sul e a Europa e trajando um uniforme semelhante aos de alemães e italianos, então inimigos, a impressão causada não foi das melhores. “Aconteceu de os cidadãos locais suspeitarem de que se tratava de um contingente de prisioneiros alemães sendo translados, o que gerou algumas demonstrações de hostilidade por parte da sofrida população local”.

“1942 – O Brasil e Sua Guerra Quase Desconhecida”, claro, não se limita a momentos curiosos como esses e também traz os feitos mais conhecidos do exército brasileiro naquela guerra, como a tomada de Monte Castello e a formação do Senta a Pua, como ficou conhecido o Grupo de Caça da Força Aérea Brasileira.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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