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O nazismo era de esquerda? Trechos de Minha Luta, o livro de Hitler, comprovam que não

Rodrigo Casarin

16/08/2017 09h14

Depois de manifestações nazistas e de outros grupos de extrema direita nos Estados Unidos, voltou a circular pelas redes sociais a ideia de que o nazismo teria sido um movimento de esquerda. Como, para alguns, livros de história passaram a ser ignorados, resolvi recorrer ao texto que serviu de base para toda a barbárie que presenciamos na Alemanha e em parte da Europa na primeira metade do século 20.

Esses trechos de “Minha Luta”, autobiografia panfletária de Adolf Hitler, mostram claramente que o mentor de toda a tragédia jamais imaginou alguma proximidade entre os nazistas e qualquer ideia que possa ser atrelada ao pensamento de esquerda. Veja como o ditador do bigodinho ridículo ataca os principais nomes e ideologias associados a tal espectro político e a todo momento olha para os comunistas e marxistas da mesma forma que olhava para os judeus.

Para Hitler, o marxismo era uma ameaça tão grave quanto o judaísmo:

“Foi durante esse período que meus olhos foram abertos a dois perigos cujos nomes eu mal conhecia e não tinha nenhuma noção de seu terrível significado para a existência do povo alemão. Estes dois perigos eram o marxismo e o judaísmo”.

Tem mais marxismo e judaísmo:

“Se os judeus, com o auxílio do marxismo, conquistarem as nações do mundo, essa aliança será a coroa fúnebre da raça humana, e este planeta mais uma vez vagará pelo éter, sem ser habitado por qualquer vida humana, como aconteceu há milhões de anos”.

Aqui, vai mais além e ataca diretamente Marx:

“Entre os milhões de indivíduos de um mundo que lentamente se corrompia, Karl Marx foi, de fato, um que reconheceu, com o olho seguro de um profeta, a verdadeira substância tóxica e a apanhou para, como um necromante, aniquilar rapidamente a vida das nações livres da terra. Tudo isso, porém, a serviço de sua raça”.

Sobre o crescimento do comunismo na Rússia:

“A massa de russos analfabetos não foi arrastada para uma revolução comunista pela leitura de um teórico como Karl Marx, mas sim pelas promessas de paraíso feitas por milhares de agitadores que pregavam para o povo a serviço de uma ideia”.

As pessoas de esquerda não eram amigas, bem pelo contrário:

“Escolhemos o vermelho para nossos cartazes depois de uma deliberação especial e cuidadosa, nossa intenção era irritar a esquerda, de modo a despertar a atenção [de seus simpatizantes] e tentar atrai-los às nossas reuniões – apenas para quebrá-los – para que, dessa forma, tivéssemos uma oportunidade de falar com essas pessoas”.

Para Hitler, quem estava por trás da Revolução Russa eram os “judeus internacionais”

“Não devemos esquecer que o judeu internacional, que hoje comanda a Rússia, não olha para a Alemanha como um aliado, mas como um estado condenado à mesma sorte da Rússia”.

Ele assume diferença entre socialismo e sua concepção de social-democracia:

“Aos dezessete anos, conhecia muito pouco a palavra ‘marxismo’, enquanto socialismo e social-democracia me pareciam termos idênticos. Também neste caso foi preciso que um golpe do destino me abrisse os olhos para a incomparável natureza desse sistema e sua maneira de ludibriar o povo”.

Foto: Samuel Corum/ Anadolu Agency/ Getty Images

Enfadonho e repetitivo, o ditador retoma diversas vezes esses pensamentos ao longo de “Minha Luta”.

Ah, Rodrigo, mas o partido de Hitler se chamava Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães e, se é socialista e de trabalhadores, então é de esquerda. Bom, inúmeros historiadores e cientistas políticos já explicaram que não, como o último trecho de “Minha Luta” aqui selecionado comprova. Além disso, avaliar o posicionamento ideológico ou político apenas pelo nome de uma organização ou país é um erro crasso. Ou alguém acha que a República Popular Democrática da Coreia, nome oficial da Coreia do Norte, é realmente uma democracia?

Hitler nunca quis implementas o comunismo, o socialismo, o marxismo ou qualquer coisa que se aproxime disso na Alemanha. É fato comprovado que o nazismo não tinha nada a ver com a esquerda, bem como é fato que os ideais nazistas foram abraçados pela extrema direita, não há informação ou contextualização histórica intelectualmente honesta que permita qualquer afirmação diferente dessas. No momento, é preciso se preocupar com quem prefere ignorar ou deturpar a história, mas é urgente focar ainda mais em frear a evidente ascensão de grupos nazistas, dois fenômenos que estão diretamente relacionados.

*

Em tempo, como a confiável e crítica edição da Geração Editorial para “Minha Luta” está absurdamente proibida de circular pela justiça, restou-me apelar para outras duas versões do livro de Hitler: a em inglês publicada pela Imperial Collegiate, com tradução assinada por James Murphy, que me serviu de base, e outra em português sem informações complementares.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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