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V. Capesius: o nazista que fez fortuna roubando dentes de ouro em Auschwitz

Rodrigo Casarin

15/02/2019 10h53

Victor Capesius vivia uma vida tranquila na Transilvânia, Romênia. Boa praça, era bem quisto pela vizinhança que reunia pessoas de origens diversas. Farmacêutico, atuava como vendedor da Bayer, subsidiária da I. G. Farben, maior empresa da Alemanha existente na época. Quando a Segunda Guerra se intensificou e os nazistas chegaram à Romênia, o "sangue alemão" de Capesius fez com que fosse incorporado ao exército de Hitler. Logo estava trabalhando no complexo de Auschwitz, onde administrava o estoque de remédios e outras substâncias químicas utilizadas no local. E não só isso.

Na filial do inferno na Terra, não demorou para que Capesius fosse de um cara gente boa para uma incorporação do capeta. A violência banalizada e a completa desumanização no maior campo de concentração da Segunda Guerra Mundial transformou o romeno em um monstro. Em muitas ocasiões, era ele quem selecionava, utilizando-se de critério algum, quais prisioneiros recém-chegados permaneceriam vivos e quais iriam imediatamente para a câmara de gás, onde parte das substâncias administradas pelo farmacêutico eram empregadas em escala industrial.

Bestial, também deu um jeito de enriquecer em meio à carnificina. Especializou-se em saquear os poucos bens dos prisioneiros que chegavam, privilegiando dentes de ouro. "Todo o ouro dos dentes dos cadáveres, juntamente com o de moedas, relógios, cigarreiras e joias tiradas dos prisioneiros em sua chegada, era derretido em lingotes. Em média, os nazistas conseguiam entre trinta e 35 quilos de ouro por dia em Auschwitz". Se uma parte dessa pilhagem ia para as centrais nazistas, desviava outra para si. Relatos dão conta de que lotou algumas malas com dentes preciosos que encontrava até em mandíbulas putrefatas.

A citação está em "O Farmacêutico de Auschwitz", livro-reportagem da britânica Patricia Posner publicado aqui no Brasil pela Globo. Uma das camadas da obra é um perfil da faceta macabra de Capesius, que, após o fim da guerra, foi levado algumas vezes aos tribunais, passou certo tempo na cadeia, mas se safou de punições severas. Utilizando a desculpa dos canalhas – de que fez tudo o que fez apenas porque seguia ordens de seus superiores , jamais demonstrou algum remorso pela atividade em Auschwitz. De lá, aliás, que tirou uma fortuna que permitiu pagar seus caros advogados, investir em farmácias e spas e comprar sua casa em Göppingen, cidade no sul da Alemanha, onde vivia quando morreu em 1985, aos 78 anos.

Ler sobre o nazismo é constantemente se deparar com exemplos de quanto o ser humano pode ser cruel e bizarro. Não bastasse o grande ladrão de dentes de ouro que o livro apresenta, há ainda personagens secundários como Enno Lolling, tenente que atuava como médico em Dachau, chefiando os Serviços Médicos e de Higiene no campo, um obcecado por espólios macabros:

"Ele mandara reunir centenas de peles humanas tatuadas nos campos de concentração. Prisioneiros cujas tatuagens fossem consideradas colecionáveis eram mortos com injeções de fenol no coração e sua pele era cuidadosamente removida e seca antes de ser enviada a Lolling em pacotes intitulados 'Material de Guerra – Urgente'. Ele chegou a repassar alguns exemplares de pele para o Instituto Kaiser Wilhelm, em Berlim, um proeminente centro de pesquisa do Terceiro Reich dedicado à 'higiene racial' e à emergente disciplina sobre eugenia. Os melhores exemplares ele transformava em repulsivos presentes, como carteiras e cigarreiras, para dar a seus colegas oficiais", conta Patricia.

Em outra camada da história, temos como grandes indústrias químicas e farmacêuticas atuaram junto com os nazistas, utilizando prisioneiros de campos de concentração como cobaias em testes de novos produtos e fornecendo quantidades gigantescas de substâncias usadas para aniquilar aqueles que Hitler e seus asseclas queriam exterminar do mundo. Além de símbolo do horror, a autora mostra que o complexo de Auschwitz foi um "centro lucrativo de experimentos médicos, trabalho escravo e extermínio: um fruto mortal da parceria político-militar-industrial entre nazistas e a I. G. Farben".

Buscando maximizar os lucros, as empresas tinham à disposição diferentes categorias de pessoas que poderiam usar da forma que achassem mais oportuna. Eram desde homens saudáveis até pequenas crianças que podiam servir de mão de obra baratíssima ou de corpos para experimentos deprimentes que aconteciam não só nos pavilhões principais de Auschwitz, mas também em campos menores. Pelo uso desses seres humanos, pagavam taxas aos nazistas que variavam conforme a "qualidade do produto".

O relato sobre um pedido da Bayer nos dá a dimensão de como funcionava o asqueroso esquema. A empresa pediu aos nazistas 150 mulheres "com a melhor saúde possível" nas quais pudessem testar "uma nova fórmula indutora do sono". Quando recebeu as moças solicitadas, um funcionário comunicou os oficiais da SS: "Apesar de sua condição macerada, elas foram consideradas satisfatórias. Manteremos vocês informados sobre os desdobramentos dos experimentos". Algumas semanas depois, um executivo da indústria enviou uma nova mensagem para os militares nazistas: "Os experimentos foram feitos. Todas as pessoas que passaram pelos testes morreram. Nós entraremos em contato em breve a respeito de uma nova remessa".

Empresas que atuaram junto com os nazistas, seguiram sua história crescendo cada vez mais e hoje se destacam entre as principais de seus ramos não são nenhuma novidade. A promessa da edição brasileira de "O Farmacêutico de Auschwitz", no entanto, seria revelar como gigantes da indústria farmacêutica "usaram cobaias no campo de concentração para desenvolver medicamentos que usamos até hoje" – digo da edição brasileira porque o subtítulo não consta na versão original da obra. Aqui, o livro frustra. Se é evidente que estudos e experimentos contribuem muitas vezes de maneira indireta para o avançar da indústria, em nenhum momento fica claro quais remédios que utilizamos hoje só podem ser encontrados nas farmácias por conta das atrocidades cometidas em campos de concentração. Em que pese esse furado alarde marqueteiro e uma pavonice ou outra da autora, "O Farmacêutico de Auschwitz" é um bom livro.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.