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Do livro ao cinema: a vida do matador de aluguel com 492 mortes nas costas

Rodrigo Casarin

18/07/2018 09h35

Marco Pigossi interpreta Júlio Santana nas telonas.

“Sem falar mais nada, Júlio segurou a mulher pelo antebraço esquerdo, arrastando-a para fora do banheiro. Alzimara se agarrava a tudo o que via pela frente: no vaso sanitário, no cano da pia, no balde de roupa suja largado no chão. E gritava.

– Socorro! Pelo amor de Deus, alguém me acuda!

– Se a senhora não calar a boca, vai ser pior.

– Socorro! Socorro! – ela continuava gritando.

Para fazê-la calar-se, Júlio desferiu-lhe um murro no rosto. Alzimara desmaiou. Foi a primeira e única vez na vida que bateu numa mulher. Já tinha assassinado várias. Mas dar um murro numa mulher era covardia demais. Naquelas circunstâncias, no entanto, não viu outra alternativa”.

Considero este um dos trechos mais emblemáticos de “O Nome da Morte”, livro do jornalista Klester Cavalcanti que traça um perfil de Júlio Santana, o maior matador de aluguel de que se tem notícias no mundo. Nascido numa família pobre de Porto Franco, no Maranhão, Júlio tinha tudo para se tornar pescador, como seu pai. No entanto, aos 17 anos, após receber uma proposta do tio, virou pistoleiro, trabalho que lhe renderia um dinheiro que jamais imaginara ganhar. Entre 1971 e 2006, matou exatamente 492 pessoas – sempre a mando de terceiros, nunca por ódio ou vontade própria, garante, e tudo registrado em um caderno com o Pato Donald na capa.

Religioso, Júlio morre de medo de passar a eternidade no inferno, por isso, após cada assassinato, rezava dez ave-marias e vinte pai-nossos para pedir perdão. Logo depois que começou o trabalho de matador, foi parar no Araguaia, onde deu fim a uma guerrilheira e acertou de raspão José Genoino, que ajudou a capturar. Atuava principalmente no norte do país e escondia a atividade até mesmo da mulher com quem casou e teve filhos: dizia-se policial militar e saia uniformizado de casa, o que servia de fachada também para os vizinhos. A polícia, aliás, nunca foi um empecilho na sua torpe carreira. Na única vez em que foi preso, negociou a liberdade oferecendo uma moto para o delegado, que aceitou que Júlio fosse embora da delegacia levando consigo o boletim de ocorrência.

Klester Cavalcanti.

A história de Júlio contada por Klester foi publicada pela primeira vez em 2006, pela Planeta, logo depois que o matador decidiu aposentar sua pistola. Agora o livro está para ganhar uma nova edição, que aporta nas livrarias ao mesmo tempo em que uma adaptação cinematográfica da impressionante história chega às telonas. Dirigido por Henrique Goldman e estrelado por Marco Pigossi (imagem acima), “O Nome da Morte” tem estreia prevista para o dia 2 de agosto.

“Tem histórias muito fortes do livro que acabaram não entrando no filme, mas tem outras passagens bacanas que estão lá. O filme é uma adaptação, enquanto o livro é exatamente o que aconteceu, somente com os fatos. A história tem um lado humano, mas, por ser sobre um matador de aluguel, tem também muitas cenas de ação, numa linha parecida com ‘Tropa de Elite’. E a fotografia está linda, foi filmado no Tocantins”, diz Klester ao blog.

Para o autor, a trajetória de Júlio, que abarca algumas décadas da história do Brasil, serve de espelho para que possamos entender os rumos do próprio país. “Questões como impunidade, violência, corrupção policial, corrupção judicial… continuam acontecendo, e até mais intensamente. Então, acho que a vida do Júlio simboliza de forma muito forte a sociedade brasileira. No livro tem o nome real do matador, dos mandantes, das vítimas… Tem caso em que o mandante é o prefeito de uma cidade… Tudo está no livro e até hoje não aconteceu nada com ninguém”.

Na visão de Klester, a mesma lógica de descaso se repete no cotidiano de muita gente. “No Brasil todo mundo fala contra a corrupção, contra a impunidade, mas se o sujeito é parado numa blitz, paga dez reais pro policial deixar ele ir embora. Nossa sociedade é muito hipócrita. Hoje vemos muito isso na política: o que menos se tem é coerência, cada um quer que o seu lado vença independente dos meios. Temos um discurso de indignação, mas votamos nos mesmos caras. Então, acho que sim, a história do Júlio é um espelho muito forte de nossa sociedade”.

“O Nome da Morte” já foi traduzido para oito línguas e saiu ou está para sair em outros treze países. Com um trabalho bastante calcado na questão da violência nos rincões do Brasil, Klester ainda é autor de “Viúvas da Terra”, excelente e brutal livro-reportagem que também escancara crimes e a impunidade no interior do país, “Direto da Selva” e “A Dama da Liberdade”, além de “Dias de Inferno na Síria”. Relatos do tipo já lhe renderam três Jabutis e diversas congratulações relacionadas aos direitos humanos, como o Natali Prize e o Prêmio Vladimir Herzog.

Voltando a Júlio, Klester conta que segue em contato com o seu perfilado. “Passei sete anos falando com ele até lançar o livro, conheci a mulher e os filhos dele, acabei sendo a única pessoa no mundo com quem ele conversava sobre o trabalho, sobre seus dramas. Ele me liga todos os anos, sem exceção, duas vezes: no meu aniversário e no Natal. E eu ligo para ele todo ano no aniversário dele, até por retribuição. O livro termina com o Júlio decidido a parar de matar e ele realmente não voltou a matar – ao menos é o que me diz, e acho que não teria motivo para mentir para mim. Hoje ele está num lugar tranquilo, no interior do Brasil, e em paz, como sempre me fala”.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.