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Lado mais maluco dos EUA é escancarado em Far Cry 5 e Wild Wild Country

Rodrigo Casarin

20/04/2018 10h21

Joseph Seed não é só um malucão, mas o líder de uma seita religiosa, a Portão do Éden, que aos poucos foi dominando Hope County, região fictícia perdida em Montana, no noroeste dos Estados Unidos. “Compraram tudo, nossas fazendas…”, queixa-se um dos antigos moradores do lugar, que viu sua tradicional comunidade aos poucos ser tragada por bandos em busca de um norte que chegavam ao local e acabavam abraçando cegamente os preceitos de Joseph. “Tomaram nossas armas, nossa cidade, nossa fé”, registra outro velho morador. “Começaram inocentes há alguns anos, mas agora estão armados até os dentes” queixa-se um terceiro.

Quando as forças de segurança dos Estados Unidos notam que um estado paralelo alicerçado por uma religião obscura pode se tornar uma ameaça para o Estado em vigor, resolvem intervir. Os fiéis da seita não estavam apenas armados, no entanto, mas preparados para salvar o guru. “Esse momento chegaria, nos preparamos para isso”, orgulha-se o próprio Joseph. “Eu avisei. Deus não deixaria que me levassem. Deus me manteve sob a sombra de suas asas. O colapso começou. Mataremos quem ficar no nosso caminho”, ameaça após se safar.

A loucura de Joseph tomou proporção tamanha que o líder precisou delegar o controle de partes de seu território a três arautos: Jacob, Faith e John, cada um com uma forma diferente de lidar com os integrantes da seita. Veterano de guerra, Jacob é o mais bélico: para ele o importante é fazer uma boa filtragem – leia-se provas com alto teor de carnificina – para que possa selecionar os membros mais fortes e formar um exército poderoso. “Ninguém acreditava que isso estava acontecendo porque ninguém queria acreditar”, resume alguém ao se deparar com seus métodos. Faith, insossa moça da comunicação, por sua vez, aposta no discurso manso e conciliador aliado à música e a alucinógenos para que tenha seu punhado de seguidores sob controle. John, finalmente, é irmão de Jacob, advogado e o homem da palavra: para ele, o que importa é fazer com que infiéis libertem-se de seus pecados aceitando os preceitos da seita, mesmo que precise usar a tortura para tal.

Choque de maluquices

Toda esse amontoado de loucura está em Far Cry 5, game lançado há algumas semanas pela Ubisoft, e é encarado pela perspectiva do próprio jogador (meio evidente, não?), um dos membros do exército formado para combater a seita. É a resistência da comunidade tradicional de Hope County. Como em outras edições da franquia, cabe a quem tem o controle em mãos desvendar um grande mapa, tomar áreas dominadas pelos inimigos, libertar reféns que se queixam que “esses fanáticos estão fora de controle”, lidar com malucos poderosíssimos e detonar centenas de adversários – dentre as estratégias que podem ser utilizadas, uma das minhas preferidas é, à distância, libertar animais selvagens enjaulados pelos inimigos e apenas observar o pandemônio que se instaura enquanto o bicho devora quem está ao seu redor.

Mas análises do jogo em si já existem ao montes por aí, inclusive aqui no Uol, voltemos ao seu enredo. Além das missões principais, o jogador se envolve em atividades paralelas que são praticamente caricaturas dos Estados Unidos. Em certo momento precisa dirigir um carro gigantesco em meio a labaredas de fogo. Em outro, auxilia um caipira patriota que lhe pede um favor garantindo que a nação “o reconhecerá” – e, ao cabo, dá o cano em nosso eu-protagonista. Já dentre seus aliados mais fiéis, um aviador faz de tudo para defender as terras de sua família, mas, machista daqueles que parecem se orgulhar das próprias mazelas, não se conforma com a ideia de que sua mulher grávida está prestes a ter uma menina, não um garoto. Todos eles sorririam ao ouvir Donald Trump falando em “fazer a América grande novamente”, aposto.

De certa forma, todos membros da resistência, inclusive o protagonista que aniquila quem aparece em seu caminho, também representam certa loucura: a loucura já estabelecida, a loucura do tal status quo. Historicamente, boa parte dos norte-americanos acredita fazer parte de um povo abençoado por Deus que está na Terra para espalhar suas “virtudes” por aí – quem quiser saber mais sobre isso, recomendo pesquisar sobre a doutrina do Destino Manifesto. Isso é reforçado por uma poderosa máquina de propaganda que a todo momento reforça o patriotismo (o refúgio dos canalhas, como Samuel Johnson definiu): bandeiras se espalham por todos os cantos do país, o hino é tocado em tudo que é evento, a paixão pelo militarismo e a reverência aos heróis de guerra impressionam.

No jogo, seita e resistência mostram uma das faces mais malucas (para mim, a mais maluca) dos Estados Unidos: a forma como muitos de seus habitantes acreditam piamente em algo “maior”, seja esse algo um deus, os preceitos de um guru, a benção divina para que mandem nos outros, o utópico ideal de liberdade ou uma mistura de alguns desses elementos. Naquele canto do mundo, para onde olhamos nos deparamos com situações que nos fazem concluir de maneira incrédula “eles realmente acreditam nisso pelo que lutam”, seja lá o que for esse isso.

Teste do ácido

Após exuberâncias como “The Last Of Us” (e sua expansão, que traz uma fabulosa camada de dramaticidade) e “The Witcher 3”, quem ainda insiste em torcer a cara para os games menosprezando suas narrativas passa a mesma vergonha de quem ainda acha que só existem HQs para crianças. “Far Cry 5” é mais um dos jogos que confirmam o ótimo momento para que boas histórias sejam contadas nesse formato. A loucura de Joseph Seed e seus arautos aparenta ser absurda, concordo, mas ela encontra muitos momentos levemente semelhantes e até mesmo incrivelmente parecidos, quase espelhos, na própria história dos Estados Unidos.

Primeiro, relevante lembrar do grupo cristão ultraconservador Amish, que encara encaram a “Bíblia” como uma espécie de manual de conduta para o cotidiano e cuja maior comunidade atualmente fica na Pensilvânia, estado colado a Nova York. Um livro que aparenta ser uma boa escolha para quem quiser saber mais sobre o assunto é “The Amish Way: Patient Faith in a Perilous World”, de Donald Kraybill, Steven Nolt e David Weaver-Zercher.

Os Mórmons, por sua vez, também arrumaram um canto nos Estados Unidos. Expulso do estado de Nova York, o profeta Joseph Smith sofreu com perseguições até que arrumasse um lugar para seu povo, que hoje ocupa uma região do Oregon, oeste do país. Em uma lista sobre livros para entender os Estados Unidos feita para o jornal Nexo, Benjamin Moser, biógrafo norte-americano de Clarice Lispector, indicou “No Man Knows My History”, biografia de Smith escrita por Fawn Brodie. São dois exemplos de comunidades religiosas de características bem singulares que conseguiram se estabelecer por lá (sendo cristãs, não pegando em armas e não incomodando demasiadamente o próprio Estado, vale ressaltar).

Já sobre a formação de comunidades alternativas com propósitos malucos, uma boa é a leitura de “O Teste do Ácido do Refresco Elétrico” (Rocco), livro-reportagem de Tom Wolfe, que acompanhou um grupo chamado “Festivos Gozadores”. Seus membros, que rodavam de ônibus pelos Estados Unidos nos anos 1960, acreditavam que tinham vindo ao mundo para divulgar o uso de LSD, substância que serviria para a abertura e expansão da mente. Mais do que um apanhado de situações bizarras, o livro é um bom retrato de toda a loucura que foram os anos de ruptura dos padrões até então estabelecidos pela sociedade norte-americana. Loucura essa que quase sempre visava fazer uma verdadeira revolução, o mesmo objetivo do malucão Joseph Seed.

“Wild Wild Country”

Agora, se esses livros flertam com “Far Cry 5”, o que realmente impressiona é a semelhança entre a história do jogo e a história de “Wild Wild Country”, série documental da Netflix. Ao longo dos seis episódios acompanhamos como os Rajneeshees, comunidade de origem indiana encabeçada pelo guru Bhagwan Shree Rajneesh, mudou-se da Índia e se estabeleceu nos Estados Unidos, onde angariou adeptos aos montes. Compraram uma área relativamente grande no Oregon, construíram a cidade de Rajneeshpuram e logo estavam sendo achincalhados pelos vizinhos, pacatos aposentados que viam seu sossego sendo abalado por uma gente estranha, que vestia sempre vermelho, pregava o amor livre, o sexo aberto, construía uma comunidade idílica e parecia estar predisposta a rir e aplaudir absolutamente tudo.

Bhagwan, um barbudo que tentava transmitir uma aparência de calma e bondade, mas era sempre traído por um olhar frio, às vezes ameaçador, difundia suas ideias principalmente por meio de livros e encontrou eco para seus preceitos naquele mundo ainda fortemente influenciado pelo movimento hippie. Também construiu comunidades em outros cantos do mundo, como Europa e Ásia. Em 1983, muitos de seus seguidores se reuniram exatamente nos Estados Unidos, onde fizeram o festival mundial da seita.

No entanto, experiências anteriores apontavam que aquele tipo de comunidade poderia resultar em problemas. Na Guiana, por exemplo, Jim Jones, mais um guru que conseguiu angariar um rebanho de fiéis que adoravam o seu Templo do Povo e viviam em uma comunidade aparentemente fraterna, induziu que quase mil seguidores se matassem ingerindo veneno.

Não tardou para que a violência começasse a rondar também os Rajneeshees nos Estados Unidos. Quando começaram a ser ameaçados com tiros pela vizinhança que os odiava, armaram-se com revólveres, fuzis e bombas, passaram a praticar exercícios bélicos e deixavam claro: se fossem atacados, reagiriam. Além disso, cresciam num ritmo impressionante e logo começaram a dominar tudo ao seu redor. Depois de assumirem a prefeitura de uma cidade, planejavam conquistar o governo do condado e, em seguida, quem sabe, do próprio estado. Para as autoridades norte-americanas, estava claro que os adoradores do guru – que tinha suas ideias potencializadas pela ardilosa Ma Anand Sheela, sua secretária e figura central da série – tinham se tornado uma ameaça às forças já estabelecidas.

FBI, Swat e Força Nacional

Para não melindrar os sensíveis a revelações sobre enredos, não esmiuçarei os detalhes, mas tudo o que acontece em “Wild Wild Country” beira o surrealismo. Com o desenrolar do conflito, drogas começam a ser usadas para dopar os integrantes repentinamente indesejáveis da própria seita. Para atacar as cidades inimigas, cultivam salmonela em laboratório e distribuem chocolates envenenados. Investem também na espionagem dos próprios membros e erguem casas repletas de passagens secretas. Olhando para “Far Cry 5”, tanto John quanto Faith, dois dos arautos de Jacob, poderiam muito bem ser, em determinado momento, um dos líderes dos Rajneeshees nos Estados Unidos.

Alguns outros fatores dão ideia da dimensão que tomou o conflito que começou como um grupo de quase hippies incomodando alguns aposentados de uma cidadezinha minúscula. Françoise Ruddy, que foi casada com Albert Ruddy, produtor de “O Poderoso Chefão”, virou um braço da seita em Hollywood – artistas chegaram a presentear Bhagwan com um relógio cafoníssimo, cravejado de diamantes, avaliado em 1 milhão de dólares. Depois, adotando outro nome (Ana Hasya), Françoise se tornou uma das lideranças da comunidade.

Os Rajneeshees também chegaram a recrutar moradores de rua para se fortalecer e estiveram por trás do maior caso de fraude imigratória da história dos Estados Unidos. Ao cabo, o FBI, a Guarda Nacional e a Swat estavam envolvidas no processo movido para desarquitetar tudo o que havia sido montado. Não custa lembrar: lidavam com um grupo fortemente armado, treinado e que estava pronto para batalhar pelas ideias nas quais acreditavam. Eram duas forças prestes a se confrontar por algo supostamente maior. Exatamente como em “Far Cry 5”.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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