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Freud explica? HQ sobre pai da psicanálise faz sucesso e incomoda machistas

Rodrigo Casarin

18/01/2018 10h10

Uma tirinha retratando o relacionamento entre Sigmund Freud, o pai da psicanálise, e seu pequeno filho. Difícil imaginar que uma proposta dessa daria tão certo quanto deu pelas mãos do quadrinista Pacha Urbano. Foi em 2012, durante uma aula de Psicanálise e Educação na graduação em Pedagogia, que ele teve a ideia da HQ.

“A professora exibiu uma cinebiografia do Freud – um filme do John Huston de 1962 -, quando me peguei pensando: ‘Deve ter sido um saco ser filho desse cara’. Esbocei a tirinha no meu caderno de desenhos e depois a publiquei no Facebook. Em pouco tempo se alastrou. Enxergo no Freud um tipo de ironia no discurso, principalmente quando ele se defende ou coloca na berlinda seus opositores teóricos, mas mais ainda quando relata casos e mais casos nas notas de rodapé de suas obras. Trouxe muito disso para as tirinhas”, recorda Pacha.

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Desde então, a série “Filho do Freud” angariou quase meio milhão de seguidores, foi indicada duas vezes ao Troféu HQMix na categoria web tiras, ganhou versões para outras três línguas e virou três livros, sendo que o mais recente deles, “As Traumáticas Aventuras do Filho do Freud – Por Que Tudo é Sexual”, está sendo lançado agora – sábado, dia 20, a partir das 16h, acontecerá a tarde de autógrafos na Livraria Blooks do shopping Frei Caneca, em São Paulo.

Se nos dois primeiros livros os filhos do psicanalista ditavam o tom das tirinhas, nesse terceiro volume quem aparece com força é Carl Gustav Jung, primeiro pupilo, depois rival intelectual de Freud. Com 120 páginas, a obra conta com HQs inéditas, uma galeria assinada por artistas convidados e um jogo de tabuleiro encartado.

“Me vi obrigado a banir alguns cabras”

Ao falar sobre público que conseguiu atingir, Pacha cogita que o segredo pode ter sido a maneira que trata os conceitos de Freud. “Sempre que a gente vê uma charge ou tira de humor que trate de psicanálise é a mesma coisa: personagem deitado no divã, um Freud com bloquinho na mão, e alguma piada sobre mãe. Fim. Nas tirinhas do ‘Filho do Freud’, procurei criar tiras que o leigo e o entendido pudessem rir, e passeei por vários temas e teorias freudianas. O meu público vem das áreas de psicologia, psicanálise e pedagogia, o meio acadêmico. São esses meus principais interlocutores, a eles que me dirigi todo esse tempo. Há alguns poucos leitores entre a galera de quadrinhos”.

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Não que tenha sido exatamente fácil. Já tinha lido os livros de Freud na década de 1990, mas explica que revisitou a obra tanto dele quanto de Jung e Otto Rank para buscar inspiração, entender melhor os conceitos e perceber como eles poderiam virar humor, gênero que não estava acostumado a trabalhar em suas HQs.

“Fui lá investigar sobre a mecânica por trás da tira de quadrinho e de humor, e também investigar o próprio conceito de humor pelo viés psicanalítico. O formato de quadrinhos em tiras tem uma semântica própria, ritmos. O que fiz foi criar níveis de compreensão nas tirinhas, de maneira que quem fosse completamente leigo em psicanálise poderia rir, e quem já tivesse algum conhecimento, também. Os que têm bastante intimidade com as teorias psicanalíticas acabam tirando conclusões que eu nem sonharia”, conta aos risos.

Quem conhece minimamente as ideias de Freud sabe que seus conceitos são profundamente baseados em questões sexuais, então, ao longo das tiras de Pacha, é normal que haja muitas referências ao pênis ou às fases do desenvolvimento psicossexual, por exemplo. O quadrinista diz que isso lhe traz um grande desafio: fazer humor sem resvalar no preconceito e fugindo do lugar-comum (evitando principalmente o famoso e batido bordão “Freud explica”, ao qual não resisti para o título da matéria). Ainda assim, sempre há quem se sinta incomodado quando certos assuntos são abordados:

“Tenho procurado prestar mais atenção e depositar mais cuidado na hora de tocar em certos assuntos. Curiosamente, quando alguém criticava, era sempre algum homem reclamando do posicionamento das personagens femininas da tira em relação a algum assédio, abuso ou enfrentamento contra os personagens masculinos. Ou então as que eu publiquei em homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Sempre aparecia algum conservador chiando. Poderia aparecer falos desenhados – como em uma das tirinhas em que o Jean-Martin [o filho de Freud] desenhou ‘trutas’ pelas paredes da casa – ou algum personagem falando sobre desejos sexuais; mas se a Anna, a Martha ou a Senhorita Müller [filha, mulher de Freud e babá das crianças, respectivamente] se manifestasse contra atitudes machistas, ou mesmo o Freud se pronunciasse contra esse ou aquele discurso machista dos personagens, era certo de aparecer algum cabra reclamando. Me vi obrigado a banir alguns cabras da página, por ofenderem outras leitoras”.

Veja algumas tirinhas de “Filho do Freud”, a começar pela do Dia Internacional da Mulher (clique nas imagens para ampliá-las):

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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