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Coroado Rei, Pelé parou cidade boliviana e quase saiu no tapa com militar

Rodrigo Casarin

18/06/2018 07h44

Campeão mundial em 1958, 1962 e em 1970, Pelé ostentava a coroa de Rei do futebol quando, dois ou três anos após o título no México com um dos maiores times de todos os tempos, o seu Santos foi fazer uma excursão pela Bolívia, onde teriam partidas em Santa Cruz de La Sierra e La Paz.

Ao chegarem na primeira cidade, uma recepção inesquecível, que ajuda a dimensionar a idolatria que as verdadeiras lendas do futebol despertam: milhares de pessoas invadiram a pista do aeroporto para tentar ver e, quem sabe, encostar em Pelé. Temendo pela segurança do atacante, as autoridades resolveram levá-lo até o hotel dentro de um tanque militar. Assim que chegaram na hospedagem, depararam-se com uma fila que dava voltas no quarteirão: eram torcedores que queriam ter seu momento com o mito e cantavam seu nome incessantemente: Pelé, Pelé, Pelé…

O Rei sequer almoçou, foi logo atender aquela imensa quantidade de súditos. Sentou-se numa cadeira, apoiou-se numa mesa e foi dando alguma atenção para cada um daqueles que por ele eram apaixonados. Eu não estava lá, óbvio, mas conheci essa história no livro “Causos da Bola”, de Michel Laurence, publicado pela Realejo. Na obra, o jornalista que morreu há quatro anos recorda de passagens peculiares que presenciou ou protagonizou ao longo da carreira – o que envolve muito das oito Copas que cobriu. É Laurence que conta quem eram aqueles devotos de Pelé:

“Na maioria eram pessoas humildes que não pediam nada. Ao contrário, traziam ‘presentes’ ao Rei. Um casco de tartaruga envernizado; um barquinho esculpido num galho de árvore; um retrato amarelado da família; uma imagem de um santo. Sinceramente fiquei observando aquela cena que mais parecia um filme relatando um momento bíblico, ou medieval, com os súditos homenageando reis, imperadores, papas”.

Certa hora, por volta das cinco da tarde, Pelé pediu para descansar um pouco e enfim comer alguma coisa. Acomodou-se numa outra mesa onde estavam colegas, mas logo o momento de tranquilidade foi interrompido. “Um homem moreno, forte, sorridente se aproximou da mesa, se curvou e quase cochichou no ouvido de Pelé: ‘Rei, olha, eu sou brasileiro e estou aqui com meus filhos e minha mulher, será que você poderia nos atender?’”, relata Laurence.

É claro que Pelé poderia atendê-lo, mas assim que voltasse a dar atenção àqueles que estavam na fila, não enquanto descansava. O homem retrucou, insistiu, mas Pelé manteve sua posição, não queria mudar as regras que tinham sido acertadas com todos que o aguardavam. Só que o brasileiro inconveniente não gostou nada daquilo e, com a arrogância cara a muitos que ocupam posição semelhante àquela que ocupava, explodiu, conta o jornalista: “Olha, seu negro f.d.p., eu sou o adido militar do Brasil aqui na Bolívia e estou mandando que você nos atenda agora”.

Ninguém merece ouvir esse tipo de asneira. “Pelé pulou da cadeira, enfiando os chinelos nas mãos, feito um malandro, pronto para se defender dos golpes de uma navalha imaginária. O time, claro, caiu em cima do militar, que levou algumas pancadas. Surgiu a turma do ‘deixa disso’ e os ânimos se acalmaram. As crianças e a mulher do adido militar choravam, quando ele novamente se aproximou de Pelé, que tinha retomado seu lugar na mesa”

E o que queria o adido? Queria pedir desculpas, veja só. Pelé, meio contrariado, aceitou e disse que atenderia os filhos do encrenqueiro assim que os portões fossem reabertos. “Agora, não quero mais ver o senhor por perto!”, disse por fim. E assim, tal qual fez com incontáveis marcadores, o Rei colocou o militar encrenqueiro no bolso.

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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