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Cansado do Brasil? Veja 7 histórias que podem inspirar alguma ação

Rodrigo Casarin

22/06/2017 09h37

“Cansei do Brasil”. É cada vez mais comum ouvirmos essa frase por aí, principalmente após sucessivos episódios de corrupção, desmandos da justiça, arbitrariedades e falcatruas dos mais diversos tipos protagonizadas pelos homens mais poderosos do país. Claro que todo mundo tem o direito de se sentir extenuado com a situação vivida. Então, para quem quer tentar algo novo, listo aqui, de maneira bem abreviada, as histórias de sete escritores que também se encheram da própria realidade:

Henry Thoreau (imagem acima): era contra qualquer forma de autoritarismo entre as pessoas e radicalmente contrário à interferência do governo na vida dos norte-americanos – bradava principalmente contra ter que pagar impostos, queixa cada vez mais comum entre os brasileiros. Defensor da natureza, para tentar levar uma vida de acordo com seus ideais foi morar sozinho no meio da floresta, afastado da sociedade, experiência relatada no livro “Walden ou A Vida nos Bosques”. Também é autor de “A Desobediência Civil”, no qual defende que os cidadãos devem descumprir suas “obrigações cívicas” quando discordam de seu governo. Ação: tente viver longe de tudo isso, isolado, ou então se rebele de verdade – e arque com as possíveis consequências de suas escolhas.

Horacio Castellanos Moya: apesar de ter nascido em Honduras, Horacio viveu desde pequeno em El Salvador. Já adulto, foi morar em países como Estados Unidos, Canadá, México e Espanha. De longe que escreveu o breve romance “Asco” – falei sobre ele aqui -, narrativa na qual o protagonista revela todo o desgosto que sente por El Salvador. Ação: canalize a metralhadora de mágoas para algo criativo – o livro, no caso.

Svetlana Alexievich: jornalista bielorrussa, a Nobel de Literatura de 2015 viveu boa parte de sua vida sob o regime soviético. Seu ceticismo e sua indignação com os desmandos e a indiferença de autoridades frente a diversas tragédias – fosse o cotidiano sofrido dos mais pobres, fosse as consequências do desastre nuclear de Chernobil – que a motivaram a se colocar em campo e ouvir relatos de vida de pessoas comuns. Disso surgiram livros de grande impacto, como “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher”, “Vozes de Chernobil” e “O Fim do Homem Soviético”. Ação: faça aquilo que você acha que faz bem e que é importante ser feito, independente de onde isso te levará.

Vladimir Nabokov: a história da família de Nabokov é marcada por mudanças e ameaças decorrentes da Revolução Russa. Na década de 40, foram para os Estados Unidos e Vladimir, que já era escritor, passou a escrever em inglês, língua utilizada originalmente em seus principais livros, dentre eles a obra-prima “Lolita”. Ação: essa é a mais batida de todas, para muita gente é sim possível recomeçar a vida em outro canto – os percalços, claro, variam de acordo com as possibilidades de cada um.

Carolina Maria de Jesus: escritora cuja importância está em uma crescente em nossa literatura, mesmo tendo morrido em 1977, é exemplo de alguém que dificilmente poderia sequer sonhar em começar a vida em outro país. Aos 33 anos, Carolina foi viver na favela do Canindé, em São Paulo. Enquanto trabalhava como catadora de lixo, registrava sua existência na miséria e suas indignações, principalmente com relação à fome, em cadernos que mais tarde seriam transformados em “Quarto de Despejo”, seu livro mais importante. Ação: use a arte para, de alguma forma, resistir e lutar.

Mario Vargas Llosa: vencedor do Nobel de Literatura de 2010, Llosa, um homem reconhecidamente de direita, foi candidato à presidência do Peru em 1990, quando perdeu as eleições no segundo turno para Alberto Fujimori. Outros escritores também já realizaram tal movimento, como o português Manuel Alegre, recém-premiado com o Camões, que tentou comandar seu país em duas oportunidades. Ação: vá para as cabeças, busque se engajar na política.

George Orwell: mais do que qualquer insatisfação pela sua nação, o britânico George Orwell era um grande crítico de questões que assolam praticamente o mundo inteiro, como o autoritarismo, a hipocrisia dos políticos e o abuso de trabalhadores. Autor de clássicos como “1984” e “A Revolução dos Bichos”, tem também uma respeitável coleção de textos não ficcionais. São artigos, resenhas e ensaios nos quais mostra uma independência intelectual invejável, principalmente quando olha para questões pertinentes ao seu próprio campo ideológico – falo mais sobre isso aqui. Ação: já que é essa situação que temos, aproveite para desenvolver radicalmente seu senso crítico, principalmente olhando para as incongruências do seu próprio lado da trincheira.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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