Página Cinco http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos ao e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos. Fri, 20 Sep 2019 03:36:33 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Podcast Página Cinco #5: Ursula Le Guin, Mel Duarte, Storytel e Valo Velho http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/20/podcast-pagina-cinco-5-ursula-le-guin-mel-duarte-storytel-e-valo-velho/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/20/podcast-pagina-cinco-5-ursula-le-guin-mel-duarte-storytel-e-valo-velho/#respond Fri, 20 Sep 2019 03:36:33 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6924

Nesta quinta edição do podcast do Página Cinco:

– A estreia do espetáculo Mormaço, da poeta Mel Duarte (aqui o link para o site da Mel).

– A chegada ao Brasil da Storytel.

– Os 50 anos de “A Mão Esquerda da Escuridão”, clássico de Ursula K. Le Guin.

– Dica: o crítico literário Jorge Carrión. Os três links prometidos estão nas palavras: “Livrarias“, Ursula e Twitter.

– Nos lançamentos: “My Way – A Periferia de Moicano”, de Valo Velho (aqui o link para o livro), e “A Cidade do Vento”, de Grazia Delleda.

– Meu umbigo: introdução de “O Fantasma da Ópera”, de Gaston Leroux, e orelha de “Bula para uma Vida Inadequada”, de Yuri Al’Hanati.

Nesta semana, no Página Cinco:

Comentário de “O Santo”, um dos mais de cem livros do argentino César Aira.

– Um comparativo entre “Reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato, e a adaptação da obra feita por Pedro Bandeira, que acaba de chegar às livrarias.

– Uma matéria sobre a peculiar figura de George Costentenus a partir de “A História da Tatuagem no Brasil”, livro da historiadora Silvana Jeha.

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Costentenus: o “freak” que fez grana mundo afora exibindo seu corpo tatuado http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/19/costentenus-o-freak-que-fez-grana-mundo-afora-exibindo-seu-corpo-tatuado/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/19/costentenus-o-freak-que-fez-grana-mundo-afora-exibindo-seu-corpo-tatuado/#respond Thu, 19 Sep 2019 09:51:36 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6919

Ao longo da história, muitos humanos se exibiram ou foram forçados a se exibir em praça pública em troca de alguma grana – para si ou para quem literalmente os possuía. O greco-albanês George Costentenus era um desses que empreendiam com as peculiaridades do próprio corpo. Um artigo de 1890 do jornal sergipano “O Republicano” o definia como um “indivíduo todo sarapintado que tendo estado em terra foi pasto de geral curiosidade”. Costentenus passou pelo Brasil no final do século 19. Antes disso, tinha feito fama nos Estados Unidos e na Europa graças ao seu corpo quase inteiramente tatuado.

Costentenus era cheio de histórias. Assegurava ter feito parte do exército grego e participado de uma revolução contra o imperador na China, onde acabou preso e torturado. Os brincos e pedras preciosas que usava eram presentes de um presidente dos Estados Unidos e de um primeiro-ministro inglês, garantia. Suas tatuagens tinham sido feitas na Birmânia, por onde passou na década de 1860, quando atuava como marinheiro. Uma peculiar tanga cravejada de ouro era parte de seu figurino. A “peruca trançada e um gorro encarnado completavam o visual exótico do ‘self-made freak’, aqueles que adquiriam características estranhas para ganhar dinheiro nos diversos shows de variedades do Ocidente”, aponta Silvana Jeha em “Uma História da Tatuagem no Brasil”, livro que acaba de sair pela Veneta.

Segundo a autora, o tatuado aportou por aqui contratado por um empresário estadunidense depois de, aparentemente, perder mercado no hemisfério norte. Antes de chegar na capital fluminense, passou por Belém, Natal, Recife e Aracaju. “No Rio de Janeiro, ele se expôs durante agosto e setembro de 1890, das 19 às 23 horas, cobrando de $500 a $1000 réis na rua do Espírito Santo, hoje Pedro I, na área da praça Tiradentes, que reunia vários locais de entretenimento. Meses depois, era anunciado como atração no Teatro Eldorado” e ainda passaria por São Paulo, aponta a pesquisadora.

As apresentações do greco-albanês aconteciam em espetáculos de variedades, shows que reuniam ainda esportistas e artistas que “entretinham a sociedade nas grandes cidades do Brasil”. Eram encontros “frequentados tanto pela elite como pelas camadas populares. Teatro, circo, música: tudo numa noite”, registra Silvana.

Faço um recorte específico por ter achado Costentenus um personagem curioso, mas a obra vai muito além de momentos peculiares. A autora é doutora em história pela PUC-Rio, defendeu sua tese estudando os marinheiros brasileiros do século 19 – o que serviu de inspiração para a pesquisa a respeito das tatuagens – e já se debruçou também sobre o passado de indígenas, de prostitutas e da escravidão. Os marginalizados, aliás, estão no centro da obra, que delineia como a história da tatuagem por aqui se mescla com a história dos povos que colonizaram, foram forçosamente trazidos ou vieram para o Brasil buscando por uma outra vida.

Para construir a obra que passa também por questões religiosas e afetivas, Silvana pesquisou desde os arquivos do Carandiru, da Biblioteca Nacional e da Marinha até textos literários de nomes como Machado de Assis, João do Rio e Plínio Marcos. Da literatura ela pesca, por exemplo, trechos de “Mar Morto”, um dos livros mais famosos de Jorge Amado, que logo de cara apresenta um tatuador: “Rufino pouco durara na escola. O que aprendera lá se reduzia a quase nada: a tatuar nos companheiros âncoras e corações, com uma pena e tinta azul”, escreveu Jorge. “Amado narra o hábito de tatuar o cais de origem no coração visando uma despedida apropriada de sua terra”, complementa a autora.

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Ao adaptar Lobato, Pedro Bandeira tira racismo e corta Pedrinho da história http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/18/ao-adaptar-lobato-pedro-bandeira-tira-racismo-e-corta-pedrinho-da-historia/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/18/ao-adaptar-lobato-pedro-bandeira-tira-racismo-e-corta-pedrinho-da-historia/#respond Wed, 18 Sep 2019 10:30:00 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6909

Ilustrações: Renato Alarcão.

Fã assumido de Monteiro Lobato, Pedro Bandeira sempre exaltou a obra do criador do Sítio do Picapau Amarelo. Agora, com o trabalho de Lobato em domínio público, o escritor que já vendeu mais de 25 milhões de exemplares com títulos como “A Marca de uma Lágrima” e “O Fantástico Mistério de Feiurinha”, além da coleção “Os Karas”, revisita um dos grandes clássicos lobatianos.

Em “Narizinho – A Menina Mais Querida do Brasil”, ilustrado por Renato Alarcão e publicado pela Moderna, Bandeira adapta as aventuras da garotinha de sete anos. Dentre as modificações estão a previsível supressão de trechos racistas, a troca de algumas palavras e expressões e o corte completo do personagem Pedrinho da narrativa.

A comparação entre os dois trechos abaixo permite observarmos as principais interferências de Bandeira sobre o trabalho de Lobato. Esse primeiro fragmento foi retirado do texto original de “Reinações de Narizinho” (edição da Biblioteca Azul publicada em 2014; os destaques são meus):

“— Qual sapo, nem papagaio, nem elefante, nem jacaré. Quem vem passar uns tempos conosco é o Pedrinho, filho da minha filha Antonica.
Lúcia deu três pinotes de alegria.
— E quando chega o meu primo? — indagou.
— Deve chegar amanhã de manhã. Apronte-se. Arrume o quarto de hóspedes e endireite essa boneca. Onde se viu uma menina do seu tamanho andar com uma boneca em fraldas de camisa e de um olho só?
— Culpa dela, Dona Benta! Narizinho tirou minha saia para vestir o sapão rajado — disse Emília falando pela primeira vez depois que chegara ao sítio.
Tamanho susto levou dona Benta, que por um triz não caiu de sua cadeirinha de pernas serradas. De olhos arregaladíssimos, gritou para a cozinha:
— Corra, Nastácia! Venha ver este fenômeno…
A negra apareceu na sala, enxugando as mãos no avental.
— Que é, sinhá? — perguntou.
— A boneca de Narizinho está falando!… A boa negra deu uma risada gostosa, com a beiçaria inteira.
— Xé! Impossível! Isso é coisa que nunca se viu. Narizinho está mangando com mercê”.

Agora, o mesmo trecho na versão de Pedro Bandeira:

“— Se não é o sapo, então é o papagaio! — Continuou Narizinho, recordando-se de que tinha convidado o papagaio para visitá-la. — Ou o Polegar, que está fugindo da Carochinha!
— Qual polegar, nem sapo, nem papagaio, nem elefante, nem jacaré. E é mais que major. É o Coronel Teodorico que vem almoçar aqui no domingo e….
— Nesse ponto, espantou-se com o estado em que estava a boneca da neta: — O que é isso, Narizinho? Onde já se viu uma menina do seu tamanho andar com uma boneca em fraldas de camisa e com um olho só?
E foi aí que aconteceu o maior espanto: uma boneca falando como se nunca tivesse feito outra coisa desde que havia sido construída por Tia Nastácia:
— Culpa dela, dona Benta! Narizinho tirou minha saia para vestir o sapão rajado.
Tamanho susto levou Dona Benta, que por um triz não caiu de sua cadeirinha de pernas serradas. De olhos arregaladíssimos, gritou para a cozinha:
— Corra, Nastácia! Venha ver este fenômeno….
A cozinheira apareceu na sala, enxugando as mãos no avental.
— Que é, dona Benta?
— A boneca de Narizinho está falando!
Tia Nastácia deu uma risada gostosa:
— Xé! Impossível! Isso é coisa que nunca se viu. Narizinho está mangando com a senhora!”

Reparem que, no novo texto, a linguagem muda e Pedrinho desaparece, bem como a expressão “com a beiçaria inteira”. Outras comparações também permitem que observemos como o racismo de Lobato ficou de fora da adaptação de Bandeira. “Dona Carochinha botou-lhe a língua – uma língua muito magra e seca – e retirou-se furiosa da vida, a resmungar que nem uma negra beiçuda” e “Na casa ainda existem duas pessoas – Tia Nastácia, negra de estimação que carregou Lúcia em pequena, e Emília, uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo”, lemos no original. Já na adaptação, assim aparecem esses trechos: “Dona Carochinha botou-lhe a língua — uma língua muito magra e seca — e retirou-se danada da vida, a resmungar” e “Na casa ainda há duas pessoas: Tia Nastácia, a velha cozinheira que carregou Narizinho em pequena, e Emília, uma boneca de pano bastante desajeitada de corpo”.

Era mesmo de se esperar que a adaptação de Bandeira desse uma arejada na linguagem e driblasse o racismo de Lobato. No entanto, por mais que soubesse da pouca simpatia do autor por Pedrinho, fiquei surpreso ao notar que o personagem foi simplesmente decepado do texto. Para se ter uma ideia, são mais de 300 citações a Pedrinho em “Reinações de Narizinho”. Já no trabalho de Bandeira, há apenas três menções ao nome do personagem, sempre em textos paralelos: uma nota de rodapé que cita “Caçadas de Pedrinho”, obra ainda mencionada no posfácio, e uma referência direta ao garoto também no posfácio. Nesta ocasião, aliás, o escritor justifica a que, provavelmente, é a intervenção mais drástica no texto lobatiano:

“[Pedrinho] é o mais fraco de todos os personagens da saga. Não pensa nada, não imagina nada, nada resolve. Provindo da ‘‘capital’’ para o ‘isolamento’ da vida no campo, nada traz consigo, nenhuma informação urbana, dos progressos, de sua escola, nem quaisquer experiências que poderiam servir como contraponto à vida isolada e bucólica do Sítio do Picapau Amarelo. Deixa-se levar pela imaginação da prima e tudo o que faz durante as aventuras é enfurecer-se com os perigos ameaçando-os com ‘bodocadas’, como no Vale do Paraíba eram apelidadas as ‘estilingadas’. Como ele, todas e cada uma das personagens lobatianas são apenas coadjuvantes ou figurantes das fabulações dessa maravilhosa e apaixonante menininha”.

No trecho o escritor acena para sua grande paixão. Não é de hoje que Bandeira coloca Narizinho ao lado de Capitu (de “Dom Casmurro”, de Machado de Assis) como a grande personagem feminina da história da literatura brasileira. Defendendo seu argumento, ressalta que as ações de todos os outros personagens (inclusive a incensada Emília) só são possíveis graças ao universo criado por Narizinho em sua mente; um ambiente fantástico que acertadamente dispensa justificativas lógicas. “Ora, ora, a lógica na fantasia! Quem precisa disso?”, questiona Bandeira, que explica por que admira tanto a garota:

“Narizinho é o protótipo perfeito de uma menina solitária de sete anos. Antecipando descobertas, hipóteses e descrições psicológicas que ainda viriam a ser escritas, muito antes de a psicologia mapear os cérebros infantis em seu desenvolvimento. Ele [Lobato] observou que essa é a idade da imaginação solitária, da criação ermitã de mundos maravilhosos, da busca do mágico, do fantástico, do fabuloso, do absoluto, é o momento em que se começa a aprender a ler e, genialmente, adivinhou que a menina traria para dentro de si (que é o espaço mágico do sítio) os personagens dos mundos de aventuras e dos contos de fada dos livros que agora é capaz de ler. Brilhante!”

Ainda que pesque cenas de histórias como “O Casamento de Narizinho”, “Narizinho – A Menina Mais Querida do Brasil” segue o encadeamento das narrativas iniciais de “Reinações de Narizinho”: “Narizinho Arrebitado” e “O Sítio do Picapau Amarelo” – os títulos dos capítulos, inclusive, são os mesmos até a nona parte, “As Formigas Ruivas”, exceto por “A Pescaria” ter virado “A Pescaria de Emília”. Daí para frente, as mudanças são mais incisivas. Não por acaso, essa ruptura acontece justamente quando, no original, chegamos ao capítulo “Pedrinho”.

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Poliana: a rainha de soluções toscas que faria sucesso no Brasil medieval http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/17/poliana-a-rainha-de-solucoes-toscas-que-faria-sucesso-no-brasil-medieval/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/17/poliana-a-rainha-de-solucoes-toscas-que-faria-sucesso-no-brasil-medieval/#respond Tue, 17 Sep 2019 10:37:17 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6904

Imagem: Daniel Beltrá/Greenpeace.

Herdeira de um reinado milenar na África, a rainha Poliana era a responsável por manter uma curiosa tradição para que catástrofes fossem evitadas em suas terras. Em uma montanha exatamente entre as duas principais cidades do reino, um gigantesco incêndio devorava o bosque e colocava em risco todas as aldeias próximas. As chamas não vinham de um acidente ou de algum acaso. Aquele era o método usado para, supostamente, evitar que grandes queimadas assolassem o território.

“Tinham-no acendido na crença de que, havendo um incêndio de semelhantes proporções em um ponto do reino, seria estatisticamente improvável que outro estourasse em outro ponto. Para que não fosse um mero simulacro, que não teria enganando a estatística, havia debandadas de animais fugindo apavorados do fogo e aldeões desesperados tratando de salvar seus pertences, além das brigadas de voluntários fazendo um patético e infrutífero esforço para apagá-lo. O espetáculo era imponente, as chamas lançavam línguas vermelhas que espantavam as nuvens, a fumaça girava em torvelinhos negros que dançavam como fantasmas colossais”.

Mística semelhante era usada para se prevenir de outros flagelos naturais. Tentando driblar as inundações, por exemplo, antecipavam-se e provocavam enxurradas altas e destrutivas. Difícil conhecer as soluções toscas de Poliana e seus predecessores e não lembrar que indigências são comuns também em nossa política. Protestos durante a Copa? Bota na lei que são terroristas e já era. Pindaíba econômica? Basta aprovar a reforma trabalhista que tudo melhora. Criminalidade? Mata os bandidos que as coisas se acertam. Direitos humanos? Só se for pra humanos direitos. Devastação da Amazônia? Acaba com as ONGs e boa. Todas soluções tão medonhas quanto acreditar que colocar fogo num pedaço do país é suficiente para que nenhuma outra área seja tomada pelas chamas.

Só que nossa mediocridade é palpável, enquanto Poliana é uma personagem fictícia. A rainha está em “O Santo”, romance do argentino César Aira lançado por aqui há algumas semanas pela Rocco. Conhecem o Aira? O cara nasceu em 1949 e talvez seja a maior máquina de escrever deste planeta. Já publicou cerca de 100 livros e, coisa rara, consegue aliar o trabalho bastante prolífico ao rigor formal. Costuma ser elogiado pelos críticos e, pelo menos segundos as bolsas de apostas, é o escritor sul-americano com mais chances de levar o Nobel de Literatura num futuro próximo.

A história de “O Santo” é bastante atraente: um velho monge tido como santo precisa fugir da cidade onde vive, na costa da Catalunha, para que consiga realizar seus desejos antes que a morte lhe alcance. De cara, a fuga se transforma numa presepada. O santo protagonista é feito de escravo e, na sequência, é impulsionado para uma peregrinação ao interior da África, numa viagem em que se confronta com realidades e situações distantes da bolha de outrora.

Tudo se passa no final da Idade Média e a narrativa é tão morosa quanto uma viagem feita naquele tempo. Apesar de breve, é daqueles livros que exigem boa dose de dedicação do leitor, que precisa estar permanentemente atento para não perder boas reflexões e o próprio encadeamento da história, além de encontros como o com Poliana, que, com soluções simplistas para problemas enormes, certamente faria sucesso também em nossa própria era medieval.

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Podcast Página Cinco #4: Elena Ferrante, Verissimo e Paris sem glamour http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/13/podcast-pagina-cinco-4-elena-ferrante-verissimo-e-paris-sem-glamour/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/13/podcast-pagina-cinco-4-elena-ferrante-verissimo-e-paris-sem-glamour/#respond Fri, 13 Sep 2019 05:39:28 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6901

Nesta quarta edição do podcast do Página Cinco:

– Novo livro de Elena Ferrante.

– Luis Fernando Verissimo em São Paulo e a imperdível exposição “A Biblioteca à Noite” no Rio de Janeiro (aqui o meu post sobre a exposição e o caminho para agendamentos).

– HQ conta a história da Guerra do Paraguai a partir da trajetória do pintor Cándido López.

– Nos lançamentos: “É Chique Morar em Paris”, de Marcia Camargos (Folhas da Relva Edições), “A Última Flecha”, de Emerson Medina e Romahs Mascarenhas (Monomito) e “Chama e Cinzas”, de Carolina Nabuco (Instante).

– Dica de leitura: “Ninguém Nasce Herói”, de Eric Novello (Seguinte) – o que escrevi sobre ele.

Nesta semana, no Página Cinco:

Opinião sobre a tentativa de Crivella censurar a Bienal do Livro do Rio

– Lista com parte dos livros adquiridos por Felipe Neto em sua ação na Bienal

– Uma análise do que impulsionou a tentativa de censura de Crivella a partir do livro “O Povo Contra a Democracia”, do cientista político alemão Yascha Mounk.

Entrevista com o autor de “O Garoto que Seguiu o Pai Para Auschwitz”, história sobre como pai e filho sobreviveram juntos ao Holocausto.

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O garoto judeu que foi como voluntário a Auschwitz para acompanhar seu pai http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/12/o-garoto-judeu-que-foi-como-voluntario-a-auschwitz-para-acompanhar-seu-pai/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/12/o-garoto-judeu-que-foi-como-voluntario-a-auschwitz-para-acompanhar-seu-pai/#respond Thu, 12 Sep 2019 13:03:17 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6896

Gustav é o de bigodinho. Fritz, o rapaz de pé no centro da foto.

“Tenho muito medo do futuro. Um dos objetivos ao escrever o livro foi mostrar como refugiados judeus nas décadas de 1930 e 1940 eram vistos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos [nações como Estados Unidos, Grã-Bretanha e Canadá aviltaram e negaram abrigo a muitos judeus que clamavam por socorro durante a ascensão nazista]. As terríveis coisas ditas sobre eles (que supostamente não se integram, que eram preguiçosos, um fardo para o país que os receberia, uma ameaça à cultura desse país….) eram idênticas ao que é dito sobre refugiados e imigrantes atualmente. Temos nacionalistas brancos, temos demagogos de extrema-direita no poder de vários países, e temos também refugiados se afogando no mar. Os Estados Unidos têm um campo de concentração para imigrantes. Eu acredito que o mundo pode facilmente repetir os horrores dos anos 1930 e 1940”.

Quem diz isso em entrevista ao Página Cinco é Jeremy Dronfield, escritor britânico que se aventura tanto pela ficção quanto pela não ficção. Ele está lançando no Brasil, pela Objetiva, “O Garoto que Seguiu o Pai Para Auschwitz”. É tendo a ascensão do nazismo e as barbáries dos campos de concentração, trabalhos forçados e execuções em mente que ele faz o alerta sobre a situação do mundo hoje, com o fortalecimento da extrema-direita, a fragilização da democracia e o crescente desprezo pelos direitos humanos. Sim, o livro de Dronfield é mais uma história sobre os horrores do nazismo. Mas sim, é também mais uma história impressionante sobre os horrores do nazismo, esta focada na relação de amor de um filho pelo seu pai.

Em muitos pontos a narrativa se assemelha a tantas outras. A família Kleinmann – o pai Gustav, a mãe Tini e os filhos Fritz, Edith, Herta e Kurt – tocavam a vida numa boa em Viena, capital da Áustria. Após Adolf Hitler e seus capangas invadirem o país, as coisas começaram a mudar. Antes mesmo de oficiais nazis aparecerem para destroçar a família, os próprios vizinhos se inspiraram nos discursos contra os judeus e começaram a acachapar os Kleinmann. Sentido-se fortalecidos pela estupidez que emanava de quem estava no poder, ameaçavam e humilhavam publicamente aqueles que até outrora eram tratados amistosamente.

Na visão de Dronfield, conforme o autor já apontou em outras ocasiões, é um erro achar que o holocausto se iniciou com prisões e deportações para campos macabros; começou, na verdade, com parte da sociedade negando a humanidade de outras pessoas, hostilizando aqueles vistos como diferentes – judeus, ciganos, homossexuais… –, pregando e praticando a intolerância contra minorias políticas. Voltando à história dos Kleinmann, o próximo passo da perseguição vocês já presumiram: campos de concentração e extermínio. Na obra, o escritor narra o destino de todos os membros da família, mas aqui foquemos no que se passou com Gustav e Fritz, os dois personagens principais.

Primeiro destino: Buchenwald. Por lá, a praxe contra os judeus ao longo do holocausto: trabalhos extenuantes, privações severas, condições insalubres, torturas, pouca comida… Pai e filho acabavam, de alguma forma, apoiando um ao outro na luta pela sobrevida. Quando Gustav, com aproximadamente 50 anos, descobriu que seria transferido para Auschwitz, Fritz, prestes a fazer 18, se preocupou. Não queria ficar separado de seu pai. Cometeu, então, o que muitos consideraram um ato de loucura: pediu para também ser encaminhado a Auschwitz, lugar visto como um sinônimo de morte certa.

Transformando o resto da história em um parágrafo, Gustav e Fritz realmente foram juntos para Auschwitz, mas não permaneceram próximos ao longo de toda a Segunda Guerra. Passaram ainda pelos campos de Mauthausen, Mittlebau-Dora e Bergen-Belsen e em alguns momentos seus destinos ganharam rumos forçosamente distintos. Bons de trabalho e com um raro suporte afetivo familiar ao longo de parte considerável do absurdo ao qual foram submetidos, sobreviveram. Após o fim da guerra, retornaram para Viena, onde residiriam até o final de suas vidas.

Para reconstruir a história dos Kleinmann com foco no que Fritz e seu pai suportaram, Dronfield contou com um objeto raro: os diários que Gustav escreveu entre outubro de 1939 e julho de 1945, registrando passagens, sensações, aflições e desabafos do período em que resistiu aos campos de extermínio. Com isso em mãos, apostou ainda em entrevistas, documentos e fontes como o livro de memórias escrito por Fritz para construir a narrativa de “O Garoto que Seguiu o Pai Para Auschwitz”.

Na entrevista a seguir, o autor fala sobre como foi trabalhar com os diários de Gustav e reconstruir essa história:

Como foi reconstruir a história do Gustav e do Fritz a partir dos diários do Gustav?

É complicado trabalhar com esses diários. Eles foram escritos como uma maneira do Gustav preservar sua própria sanidade, nunca com a intenção de que fossem lidos; portanto, a escrita é muito superficial, com referências enigmáticas a passagens, incidentes e também a outras pessoas. Algumas vezes precisei recorrer a muitas outras fontes para esclarecer o que Gustav queria dizer. E quanto mais eu entendia, mais extraordinária ficava a história.
O que ajudou foi o pequeno livro de memórias que Fritz escreveu. Também o entrevistei diversas vezes ao longo da vida. Seu relato iluminou muitos pontos do diário de Gustav, especialmente naquele momento-chave da história: o que levou Fritz a se voluntariar para acompanhar o pai a Auschwitz.

Quais são os elementos mais importantes presentes no diário do Gustav?

Pouquíssimos diários sobreviveram aos campos de concentração. Há duas coisas muito incomuns nos diários do Gustav. Uma é que ele sobreviveu e seus registros cobrem o que aconteceu durante sua libertação e as consequências disso (muitos diários sobre o Holocausto foram escritos por pessoas que acabaram tragicamente mortas). O segundo ponto incomum é o período que o diário cobre. Começa em 2 de outubro de 1939, o dia em que Gustav e Fritz chegaram no campo de Buchenwald, e termina no verão de 1945, quando Gustav regressava a Viena após o fim da guerra.

Outro elemento muito importante encontrado nos diários é o poema “O Caleidoscópio da Pedreira”. Embora a maior parte do diário seja muito breve e obscura, ele também inclui um poema que Gustav escreveu sobre as condições na pedreira de Buchenwald, onde ele e Fritz trabalhavam. A pedreira era um campo de extermínio, onde os prisioneiros eram rotineiramente torturados e assassinados pelos guardas da SS. Gustav descreve o lugar de maneira muito sugestiva em seu poema lindamente escrito.

Emocionalmente, quais foram os momentos mais difíceis do trabalho?

Foi lidar com o horror. Foi escrever a história da Tini, esposa do Gustav, e de Herta, segunda filha do casal, que foram brutalmente assassinadas pela SS em 1942, junto com outras centenas de crianças, mulheres e homens judeus. Temos cartas escritas por Tini para seu filhinho Kurt, em 1941, cheias de amor, mas também de temor pelo que aconteceria com as crianças. Mesmo agora, é difícil falar sobre isso. Mencionar essa história traz lágrimas aos meus olhos.

É possível traçar algum paralelo entre os diários do Gustav e outro diário bastante famoso sobre a Segunda Guerra, o de Anne Frank?

Provavelmente, a maior diferença entre esses diários é a maneira como foram escritos. Enquanto o diário de Anne Frank tem méritos para ser lido como obra literária, o de Gustav é obscuro, com uma escrita difícil. Essa foi a principal razão para que eu decidisse escrever meu livro: para que a incrível história do Gustav estivesse acessível aos leitores em geral. Outra grande diferença é a emocional. Apesar dos horrores descritos no diário de Gustav, você sabe que ele acaba com sua sobrevivência e com a sobrevivência do Fritz. O diário de Anne Frank é mais trágico de se ler, assombrado por sabermos que ele acaba abruptamente, pouco antes da morte dela.

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Obscurantismo de Crivella contra Bienal é outro monstro da lama do WhatsApp http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/10/obscurantismo-de-crivella-contra-bienal-e-outro-monstro-da-lama-do-whatsapp/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/10/obscurantismo-de-crivella-contra-bienal-e-outro-monstro-da-lama-do-whatsapp/#respond Tue, 10 Sep 2019 10:35:24 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6882

Passando a régua no movimento obscurantista de Marcelo Crivella, prefeito carioca, contra a Bienal do Livro do Rio, um dos eventos mais importantes da cidade, dois elementos me chamaram especial atenção.

O primeiro deles está na base de sustentação para os atos e o discurso de Crivella. Não é novidade que a homofobia é um traço bastante presente em nossa sociedade. Também não é novidade que muita gente acredita em qualquer porcaria que é compartilhada principalmente em mensagens de WhatsApp. Desta vez, no entanto, a tosquice atingiu um nível impressionante.

Gritando contra o já famoso beijo dos personagens de Vingadores, pais e mães compartilharam fotos indicando que trechos de “As Gémeas Marotas”, de Brick Duna, fariam parte da HQ publicada pela Marvel/ Panini. Será que nenhuma dessas pessoas que espalhou e alardeou a notícia falsa notou que os traços de Duna e os traços da história dos heróis são um tanto diferentes? Ninguém notou que o encadeamento das narrativas não batem – um é um livro ilustrado, o outro traz quadros sequenciais? Não perceberam a linguagem completamente diferente? Não observaram que até o formato das páginas não é o mesmo? Para ser gentil com esse povo, digamos que tenha sido distração.

Só que desse povo distraído e virulento surge o absurdo máximo da história. Numa adaptação da notícia falsa original, a prefeitura do Rio de Janeiro foi à justiça contra a Bienal se queixando da venda do livro de Brick. Livro este que nunca ganhou edição no Brasil e jamais foi visto pelos corredores do Riocentro nesta ou em qualquer outra edição da Bienal. A canastrice é tão grande que as imagens que teoricamente embasariam a tese de Crivella e seus parceiros inquisidores mostram “As Gémeas Marotas” ao lado de objetos sendo vendidos em euros. Em minhas andanças por eventos literários, só vi objetos sendo vendidos em euros em encontros na Europa mesmo.

Difícil perceber de cara que um livro não tem nada a ver com o outro?

Não achemos que se trata de uma distração também do prefeito. Ele sabe muito bem o que está fazendo. O objetivo é acenar para os intolerantes, mostrar que estão juntos e, com isso, se fortalecer com essa turba. Se a notícia falsa nasceu nas correntes reacionárias da população, Crivella logo se apressou para abraçar a narrativa e se colocar do lado dos farsantes. O que importa não é a legislação, não é a verdade, não é a pluralidade, não é a sociedade, nada disso. É fincar posição nessa narrativa.

Estamos diante de mais um caso em que o lodo do mundo virtual impacta diretamente no mundo real. Saco aqui da minha pilha de desejáveis leituras o livro “O Povo Contra a Democracia – Por Que Nossa Liberdade Corre Perigo e Como Salvá-la”, do cientista político alemão Yascha Mounk, publicado há pouco pela Companhia das Letras em tradução de Cássio de Arantes Leite e Débora Landsberg. A obra ainda merecerá uma atenção maior, mas miro o capítulo sobre o ambiente virtual para ver como o autor encara essa urgente questão.

Traçando um histórico do impacto das redes sociais na política, Yascha lembra que, no começo desta década, plataformas como o Twitter foram fundamentais para a derrubada de regimes totalitários (lembremos da Primavera Árabe, por exemplo). O momento era de esperança: pluralidade de vozes recém-empoderadas seria uma ameaça aos autoritários. Em poucos anos, porém, a percepção já era outra. Com usuários se confinando em bolhas e políticos inventando mentiras e oferecendo amplamente às hordas aquilo que elas gostariam de ouvir, qualquer sistema estabelecido passou a estar na berlinda.

Ao relembrar da ascensão de Donald Trump, o autor registra: “Muitas histórias inventadas e difundidas em portais como Vdare, InfoWars e American Renaissance eram tão forçosas ou escabrosas que ficava difícil entender como alguém podia acreditar nelas. ‘Papa Francisco choca o mundo e declara apoio à candidatura de Donald Trump à presidência’, alardeava certa manchete. ‘Bomba: revelamos a rede satanista de Hillary Clinton’, anunciava outra”. A estratégia de determinados políticos passou a ser repetir mentiras exaustivamente até que ganhassem ares de verdade ao menos para a parcela mais radical – ou distraída, para ser novamente gentil com esse povo – de seu eleitorado. Crivella bancando a bizarra briga centralizada agora num livro português que jamais deu as caras na Bienal é, ao mesmo tempo, exemplo e consequência desse movimento que tem como grande representante no Brasil o tal “kit gay” – estrelado pela mamadeira de piroca -, farsa que convenceu 84% dos eleitores de Jair Bolsonaro.

Talvez por não viver numa surrealidade como a que vivemos, a visão de Yascha para a relação entre redes sociais e política é levemente positiva – ou não tão negativa como a minha ultimamente. Ele reafirma que, por um lado, a oposição democrática tem muito mais ferramentas hoje para derrubar ditadores do que outrora, mas também reconhece que “os mercadores do ódio e da mendacidade encontram muito mais facilidade para solapar as democracias liberais”. Até aí, estamos de acordo.

Mais adiante o autor diz restar “pouca dúvida de que, no curto prazo – ou seja, pelo resto de nossas vidas – [a nova tecnologia] vai contribuir para o mundo mais caótico”. Também lembra que “em anos recentes, foram os populistas que exploraram melhor a nova tecnologia para solapar os elementos básicos da democracia liberal. Desimpedidos das coibições do antigo sistema midiático, eles estão preparados para fazer tudo o que for necessário para serem eleitos – mentir, confundir e incitar o ódio contra os demais cidadãos”. No final do capítulo, no entanto, a tentativa de alento:

“Assim como os ativistas pró-democracia que usaram as mídias sociais para derrubar ditadores subestimaram como seria difícil consolidar sua vitória, os populistas em ascensão talvez ainda venham a considerar o futuro tecnológico mais desafiador do que esperavam. ‘O vencedor no momento, seja quem for’, escreveu George Orwell, ‘sempre vai parecer invencível’. Mas, depois que os populistas chegam ao poder e passam a quebrar as inúmeras promessas que fizeram, podem ser bruscamente lembrados do potencial das mídias sociais para empoderar os novos outsiders contra seu governo”.

Errata: Diferente do que foi publicado inicialmente, a HQ em questão é sobre o Vingadores, e não Demolidores. A informação foi corrigida às 13h28.

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Os livros LGBTs comprados por Felipe Neto e distribuídos na Bienal http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/09/os-dez-livros-lgbts-comprados-por-felipe-neto-e-distribuidos-na-bienal/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/09/os-dez-livros-lgbts-comprados-por-felipe-neto-e-distribuidos-na-bienal/#respond Mon, 09 Sep 2019 16:22:20 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6872

Por conta de um beijo entre dois heróis numa HQ dos “Vingadores” (Marvel/ Panini), o prefeito Marcelo Crivella tentou censurar livros com temática LGBT expostos e vendidos na Bienal do Livro do Rio. A justiça logo podou os desejos do mandachuva, depois, em outra instância, deu esperança ao obscurantista, mas, finalmente, voltou a barrar a investida das trevas contra os quadrinhos e a literatura.

Nesse meio tempo, o youtuber Felipe Neto comprou 14 mil exemplares de títulos que poderiam ser perseguidos pelo prefeito, mandou colocá-los numa sacola preta, tascou o adesivo “Este livro é impróprio para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas” no pacote e distribuiu gratuitamente essas obras. Em poucas horas, milhares de leitores afrontaram Crivella e esgotaram os livros dados por Felipe.

Se você ficou curioso para saber quais foram os títulos distribuídos na ação, aqui está a lista fornecida pela assessoria do youtuber:

“Dois Garotos se Beijando”, de David Levithan (Galera Record)
“Boy Erased”, de Garrard Conley (Intrínseca)
“Ninguém Nasce Herói”, de Eric Novello (Seguinte)
“Me Chame Pelo Seu Nome”, de André Aciman (Intrínseca)
“Arrase!”, de RuPaul (Harper Collins)
“Com Amor, Simon”, de Becky Albertalli (Intrínseca)
“Os Prós e os Contras de Nunca Esquecer”, de Val Emmich (Intrínseca)
“Confissões de um Garoto Tímido, Nerd e (Ligeiramente) Apaixonado”, de Thalita Rebouças (Arqueiro)
“O Homem de Lata”, de Sarah Winman (Faro)
“O Garoto Quase Atropelado”, de Vinicius Grossos (Faro)

Três desses livros já deram as caras aqui no blog. Na entrevista que fiz com David Levithan no ano passado, oportunamente ele afirmou que agora há um lugar na literatura para garotos beijando garotos. “Boy Erased”, título necessário num país cheio de preconceito contra os LGBTs, eu resenhei em fevereiro por conta do vem-não-vem de sua adaptação cinematográfica para o Brasil. Já “Ninguém Nasce Herói”, publicado no final de 2017, anteviu algumas das questões que estamos vivendo hoje; é daqueles livros que deveriam ter tido uma recepção muito mais ampla do que teve.

Outros títulos, no entanto, também entraram na campanha. Pela internet, leitores informam que ganharam ou viram gente ganhando obras de autores como Vitor Martins, Samir Machado de Machado e Becky Albertalli.

Atualização

Na tarde desta terça, 10/09, a Record e a Companhia das Letras me procuraram para informar que outros títulos foram adquiridos pela equipe de Felipe Neto. Do Grupo Record, também entraram na ação os romances “Will e Will” e “Garoto Encontra Garoto”, ambos de Levithan, e “Guia do Cavaleiro Para o Vício e a Virtude”, de Mackenzie Lee. Já da Companhia das Letras e de todos os seus selos, foram adquiridos os seguintes livros:

“Desejos Secretos”, Ines Rieder
“Do Fundo do Poço se Vê a Lua”, Joca Reiners Terron
“Muchacha”, Laerte
“O Pacifista”, John Boyne
“Guadalupe”, Angélica Freitas
“Você é Minha Mãe?”, Alison Bechdel
“Todos Nós Adorávamos Caubóis”, Carol Bensimon
“Sergio y Vai a America”, Alexandre Vidal Porto
“Mil Rosas Roubadas”, Silviano Santiago
“Middlesex”, Jeffrey Eugenides
“As Meninas Ocultas de Cabul”, Jenny Nordberg
“Prazeres Perigosos”, Maria Filomena Gregori
“Simpatia Pelo Demônio”, Bernardo Carvalho
“Como Ser as Duas Coisas”, Ali Smith
“Queer”, William S. Burroughs
“O Ministério da Felicidade Absoluta”, Arundhati Roy
“Stella Manhattan”, Silviano Santiago
“Contos Completos”, Caio Fernando Abreu
“Cloro”, Alexandre Vidal Porto
“Controle”, Natalia Borges Polesso
“Devassos no Paraíso”, João Silvério Trevisan
“Fera”, Brie Spangler
“Ninguém Nasce Herói”, Eric Novello
“A Lógica Inexplicável da Minha Vida”, Benjamin Alire Sáenz
“Tash e Toltói”, Kathryn Ormsbee
“Aparelho Sexual e Cia.”, Hélène Bruller
“Conectadas”, Clara Alves
“Cinco Júlias”, Matheus Souza
“Fabian e o Caos”, Pedro Juan Gutiérrez
“Conversas Entre Amigos”, Sally Rooney
“Minha Querida Sputnik”, Haruki Murakami
“Aristóteles e Dante Descobrem Segredos”, Benjamin Alire Sáenz
“Diferentes Não Desiguais”, Beatriz Accioly Lins
“Olivia Tem Dois Papais”, Márcia Leite
“Ceci e o Vestido do Max”, Thierry Lenain
“Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente”, Luisa Geisler
“Fedro”, Platão
“Supernormal”, Pedro Henrique Neschling
Ele – Quando Ryan Conheceu James”, Elle Kennedy
“Nós”, Elle Kennedy

Post atualizado às 15h do dia 10/09 para acrescentar a informação de outros títulos que fizeram parte da campanha.

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Diferente do que havia sido publicado inicialmente na abertura do texto, a HQ em questão é dos Vingadores, e não dos Demolidores. A informação foi corrigida às 16h31.

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Base da tentativa de censura de Marcelo Crivella tem nome: homofobia http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/06/base-da-tentativa-de-censura-de-marcelo-crivella-tem-nome-homofobia/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/06/base-da-tentativa-de-censura-de-marcelo-crivella-tem-nome-homofobia/#respond Fri, 06 Sep 2019 13:18:26 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6865

Um beijo.

Um afago, um carinho e um mísero beijo.

Cebolinha e Mônica já se beijaram. Cascão e Cascuda já se beijaram. Mickey e Minnie já se beijaram. Homem-Aranha e Mary Jane já se beijaram. Nos filmes e nas novelas as pessoas se beijam. Nas ruas, nas praças, na praia, no meio da Bienal do Livro… Em todos lugares as pessoas se beijam. E podem se beijar, não há erro – muito menos crime – nisso.

Só que um beijo entre Wiccano e Hulking na HQ “Vingadores: A Cruzada das Crianças”, publicada originalmente em 2010 e lançada no Brasil pela Panini, incomodou. A cena é bonita, ainda que um tanto clichê: por conta dos perrengues, um personagem conversa com o outro, consola o outro, apoia o outro, afaga o outro… No final, se beijam. Quantas vezes não vimos algo semelhante por aí? Se alguém enxergar problema em jovens presenciando e apreciando esse tipo de ato, essa pessoa terá um sério desafio pela frente.

Se a cena de “Vingadores” representa um “conteúdo sexual” que deve ser proibido para menores, como apontou o prefeito carioca Marcelo Crivella (PRB), o mandachuva e sua trupe já podem preparar os incineradores, pois terão um desafio monumental pela frente. Precisarão tirar de crianças e adolescentes uma infinidade de revistas, filmes, livros, séries e afins que, pasmem, trazem referências sexuais muito mais claras do que um simples beijo entre duas pessoas vestidas. Aliás, segundo a classificação indicativa em vigor no Brasil, obras que possuam sexo explícito, nudez ou violência devem ser apontadas como impróprias para menores de 18 anos, então podem começar pedindo para que lacrem a Bíblia e metam o selinho preto com o número 18 em sua capa.

Povo sem discernimento acreditou que essa cena de “As Gémeas Marotas”, de Dick Bruna, uma paródia pornô lançada em Portugal, também estaria no livro dos “Vingadores”.

Crivella não agiu sozinho na tentativa de censura à Bienal do Livro do Rio de Janeiro – quem ainda não entendeu o que está acontecendo, assista ao vídeo abaixo; a organização do evento, felizmente, já falou que não acatará o absurdo do prefeito. Há alguns dias que circula pelo “zap” as imagens dos heróis se beijando junto com um texto-chilique de uma mãe lamuriando: o filho teria acesso a “coisas horríveis” ao ler “Vingadores: A Cruzada das Crianças”. Como há algum tempo ignorância e canalhice se misturam, uma outra mensagem também se queixa do beijo entre os personagens, mas ainda afirma que a obra conta com cenas que, na verdade, pertencem ao livro “As Gémeas Marotas”, de Dick Bruna, uma paródia pornô lançada em Portugal.

Não é de hoje que afirmo e reafirmo que o Brasil está se jogando na Idade das Trevas. Mães e pais com a cabeça parada no século 13 não querem que seus filhos vejam dois rapazes se beijando; acreditam que atos de afeto e amor sejam coisas repugnantes ou, pior, do capeta. Crivella abraça a causa e ordena a censura da Bienal. Isso tem nome: homofobia – prática que é crime no Brasil.

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Podcast Página Cinco #3: Harry Potter, Ray Bradbury em HQ e Felipe Castilho http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/06/podcast-pagina-cinco-3-harry-potter-ray-bradbury-em-hq-e-felipe-castilho/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/09/06/podcast-pagina-cinco-3-harry-potter-ray-bradbury-em-hq-e-felipe-castilho/#respond Fri, 06 Sep 2019 03:16:44 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6860

Nesta terceira edição do podcast do Página Cinco:

– Harry Potter é banido de escola nos Estados Unidos.

Financiamento coletivo do livro “Os Cem Nomes da Edição no Brasil”, de Leonardo Neto.

– A chegada ao Brasil de um dos principais livros sobre o Massacre de Columbine.

– Nova coletânea de Eduardo Galeano.

– Nos lançamentos: “Três Objetos”, de Teresa de la Parra (Arte & Letra) – e a dica de Karina Sainz Borgo -, a adaptação para HQ feita por Tim Hamilton de “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury (Excelsior), e “Serpentário”, de Felipe Castilho (Intrínseca).

– Dica de escuta: podcast “Sertões: Histórias de Canudos”.

– Meu umbigo: o curso no Sesc São José dos Campos.

Nesta semana, no Página Cinco:

– Meu comentário do livro “5… 4… 3… 2… 1… – Mônica e Menino Maluquinho Perdidos no Espaço”, mais um encontro dos personagens de Mauricio de Sousa e Ziraldo orquestrado pelo escritor Manuel Filho.

– A resenha de “O Educador – Um Perfil de Paulo Freire”, de Sérgio Haddad.

– A indicação do quadrinho e do financiamento coletivo de “Olga – A Sexóloga”, de Thais Gualberto.

Lembrando que o podcast do Página Cinco está disponível no Spotify, no Deezer, no SoundCloud e no Youtube.

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