Página Cinco http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos ao e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos. Fri, 24 May 2019 13:49:01 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 “Vinho de cadeia”, a bebida feita até com ketchup por presos dos EUA http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/24/vinho-de-cadeia-a-bebida-feita-ate-com-ketchup-por-presos-dos-eua/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/24/vinho-de-cadeia-a-bebida-feita-ate-com-ketchup-por-presos-dos-eua/#respond Fri, 24 May 2019 13:44:29 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6447

Passeava pelo interessantíssimo “Fermentação Selvagem – Sabor, Nutrição e Prática dos Alimentos de Cultura Viva” (Sesi-SP Editora) quando me deparei com um tal de “Vinho de cadeia”. Conhece?

Sandor Ellix Katz, especialista em fermentação e autor do livro, conta que certa vez recebeu uma receita de Ron Campbell, que passou mais de 18 anos trancafiado em cadeias do Illinois, estado do centro-oeste dos Estados Unidos. Atrás das grades, Ron ganhou o apelido de “Bartles & Jaymes” (referência a uma marca de bebidas alcoólicas) por conta da grande quantidade de gorós fermentados que ele produzia clandestinamente.

O processo se dava da seguinte forma. Primeiro, algumas pessoas pegavam pêssegos ou saladas de frutas no refeitório. Essas comidas ficavam durante dois dias ao ar livre para que atraíssem leveduras e começassem a fermentar (ou apodrecer, para ilustrarmos melhor a situação). Depois disso, eram misturadas a seis latas de suco de laranja e meio quilo de açúcar dissolvido em um litro de água. “Tinha gente que dizia que eu usava açúcar demais, mas ninguém reclamava do produto final”, registra Ron.

Na sequência, a mistura era colocada em sacos de lixo de 20 litros e guardada por três dias em algum canto quente. De tempos em tempos os presidiários precisavam abrir um pouco os sacos para que os gases produzidos pela fermentação fossem liberados, o que obrigava alguém a passar a noite acordado cuidando da bebida. Quando a produção de gases diminuía, indicando que o consumo de açúcares pelas leveduras já estava chegando ao fim, retiravam as frutas da mistura e sabiam que a iguaria estava pronta para ser consumida.

“O processo todo era muito arriscado, porque era ilegal e a gente podia pegar solitária por isso. […] Só fui pego uma vez e foi só algumas semanas antes de eu sair da prisão. Fiquei um mês na solitária e fui para casa. Meu último lote foi compartilhado com um pessoal da solitária. Passamos dias guardando suco do café da manhã, açúcar, geleia e frutas e fizemos uns 10 litros. Tem gente na prisão que usa ketchup ou purê de tomate, mas eu sempre preferi usar frutas. É preciso se acostumar com o sabor, mas posso dizer que a bebida dá conta do recado”, conta o “vinicultor” improvisado.

Nas cadeias brasileiras nós temos algo não só semelhante, mas até mais difícil de ser feito: a Maria Louca, um fermentado à base de arroz e açúcar que ainda passa pelo processo de destilação.

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Incontáveis estupros e grana na Europa: o livro da travesti Luísa Marilac http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/23/incontaveis-estupros-e-grana-na-europa-o-livro-da-travesti-luisa-marilac/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/23/incontaveis-estupros-e-grana-na-europa-o-livro-da-travesti-luisa-marilac/#respond Thu, 23 May 2019 13:49:22 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6441

Imagem: Gabriel Cardoso/SBT.

“Alguns dos que me leem nasceram do amor. Outros, do acidente. Outros ainda, do tesão. Eu tenho desgosto de saber que sou filha de um rato. Um serzinho sujo, provavelmente morador de um beco encardido de Minas Gerais, que resolveu fazer barulho demais enquanto meus pais alcançavam o ápice sexual. Minha mãe, Maria, transpirando de prazer ilícito, revirou-se de susto, e o espasmo adiantou o controlado orgasmo do meu pai. E o gozo dele foi morar dentro dela em vez de sujar o chão da perua abandonada que lhes servia de motel”.

É dessa forma que Luísa Marilac abre “Eu, Travesti”, livro de memórias que acaba de sair pela Record. Na obra, conta que a única coisa que seu pai fez por ela foi mesmo “gozar na hora errada”. Já a mãe fazia o tipo durona, que tentava resolver tudo na base da truculência. Aos cinco anos, quando Luísa contou à progenitora que havia sido estuprada, por exemplo, recebeu como resposta gritos e algumas porradas. Toda sua formação sexual foi acompanhada de violência, aliás: consecutivamente assediada e intimidada na escola, estuprada e ameaçada por um traficante…

“Se for dar nome de estupro a tudo que as meninas bem-cuidadas de classe média chamam de violência sexual, já fui estuprada mais vezes do que posso contar. Por homens adultos que me buscavam na porta da escola primária e me comiam escondidos de suas esposas. Por estudantes que empurravam os pintos na minha boca no banheiro sem fazer caso ou pergunta e nem esperavam o gozo esfriar antes de me ameaçarem de morte caso eu contasse a alguém. Por muitos desses. Sobrevivi porque em todos os casos fui capaz de encontrar algum tipo de prazer e me refugiar nele. ‘Prazer’ eu chamei pra mim todas aquelas violências. Meu Deus!”, reflete.

Hoje uma webcelebridade que luta contra o preconceito aos transexuais, Luísa escreveu “Eu, Travesti” em parceria com a jornalista Nana Queiroz, também autora do impactante e imprescindível “Presos que Menstruam” e de “Você Já É Feminista”. Longe de ser um primor narrativo, o lançamento é daqueles que valem pela história em si e por apresentar ao leitor parte do universo trans – com direito a um miniglossário de termos do Pajubá, dialeto que ficou famoso após aparecer na última prova do Enem.

Luísa se assumiu transexual aos 17 anos e encontrou um mundo no qual o único destino possível parecia mesmo ser a prostituição. Para se moldar, fez dívidas com cafetinas e deixou que carniceiras lhe injetassem 22 litros de silicone industrial. “O corpo é a peça de arte da travesti. É nosso pedaço de pedra-sabão, nossa tela em branco. É nele que expressamos nossa visão de beleza, de transgressão às normas, nossa leitura do feminino”, argumenta. Na luta por esse ideal, viu colegas ficaram deformadas e morrerem na mesa de cirurgia improvisada.

A morte, aliás, rondou Luísa ao longo de toda carreira. Foram muitas as prostitutas parceiras que ficaram pelo caminho afundadas em drogas, vitimadas pela AIDS, levadas a cometer suicídio ou brutalmente assassinadas. Foi este o caso da colega trans de apenas quinze anos que tinha “rosto de querubim em face humana” e terminou espancada e baleada na beira de uma estrada – “a mochilinha de ursinho de pelúcia me lembrava que ela era ainda uma menina”, registra ao recordar da cena do crime. Certa vez, em um boteco, ao ser atacada por um rapaz armado com uma faca, a coautora só sobreviveu por conta de sua força – “derrubei cinco homens no braço”.

Luísa nasceu em Minas Gerais, iniciou-se na prostituição quando morava em Guarulhos e ganhou projeção trabalhando na Europa, onde desembarcou com cerca de vinte anos como vítima de tráfico sexual. Passou por diversos perrengues e chegou a ficar presa durante três meses no banheiro de uma delegacia na Hungria. Por lá, no entanto, também conseguiu levantar uma grana. A atuação em 26 filmes pornôs rendeu bem e botou a mão num dinheiro alto quando, na Itália, começou a se envolver com gente rica e poderosa – um jogador de futebol da seleção italiana mantido no anonimato, por exemplo, ou um cliente que ostentava fotos ao lado de Berlusconi na parede de casa e que chegou a lhe recompensar com 15 mil euros e um cartão de crédito com sua senha.

Já na Espanha, onde transexuais são difíceis de encontrar, conta, era vista como uma raridade, por isso faturava bem mais do que as mulheres cis. No entanto, do mesmo jeito que ganhava dinheiro, via a grana indo embora. Foram muitas as vezes que Luísa foi vítima de extorsões, golpes e chantagens. Ao longo de suas memórias, interesseiros e oportunistas brotam aos montes e os chupins da família nunca desaparecem.

Como era de se esperar, muito dos hábitos sexuais daqueles que procuram pelo trabalho de transexuais também são revelados ao longo do livro. Luísa estima que a cada dez homens que foram seus clientes, oito desejavam ser passivos. “A heterossexualidade pura é uma fachada que acaba no escurinho com uma travesti”, garante.

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Jair Bolsonaro participará da entrega do prêmio Camões a Chico Buarque? http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/22/jair-bolsonaro-participara-da-entrega-do-premio-camoes-a-chico-buarque/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/22/jair-bolsonaro-participara-da-entrega-do-premio-camoes-a-chico-buarque/#respond Wed, 22 May 2019 13:22:05 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6437

Foto: Daryan Dornelles.

E o Camões deste ano foi para Chico Buarque. Criado em 1988 para premiar autores pelo conjunto da obra, chegou a Chico por conta do “caráter multifacetado” de seu trabalho, conforme apontou uma nota distribuída pelos membros do júri: os brasileiros Antonio Cícero e Antônio Carlos Hohlfeldt, os portugueses Manuel Frias Martins e Clara Rowland, o moçambicano Nataniel Ngomane e a angolana Ana Paula Tavares.

Fosse apenas pela novela “Fazenda Modelo” e pelos cinco romances – “Estorvo”, “Benjamim”, “Budapeste”, “Leite Derramado” e “O Irmão Alemão” –, alguém até poderia dizer, com certa razão, que outros escritores da língua portuguesa mereciam levar a honraria antes de Chico. Mas colocando letras de músicas como “Construção” e “Cálice” na jogada – e ainda há o teatro –, torna-se impossível contestar o acerto do prêmio.

Impossível também não associar o Camões a Chico com o Nobel de Literatura destinado a Bob Dylan há três anos. No entanto, como escreveu o colega Sergio Rodrigues, o prêmio da língua portuguesa entregue ao brasileiro tem um lastro literário muito maior do que o prêmio universal entregue ao norte-americano. Agora, o que pode aproximar ainda mais Dylan e Chico é a reação (ou a falta dela) à distinção. Se o músico de lá praticamente esnobou o que lhe conferiu a Academia Sueca, talvez o Camões represente mais uma encheção de saco do que uma verdadeira alegria para o artista de cá, cada vez menos afeito a bajulações.

Em todo caso, torço muito para que Chico, 13º brasileiro a levar o galardão, tope encarar a cerimônia em sua homenagem. Fora a nomeação de Alberto da Costa e Silva, em 2014, das últimas vezes que o Camões veio para o país, mexeu com gente que andava entocada. Em 2012, ao escolher Dalton Trevisan, não conseguiu convencer o vampiro de Curitiba a pintar na premiação. Já em 2016, deu sorte: Raduan Nassar estava, de forma tímida, começando a reaparecer publicamente após décadas recluso num sítio no interior de São Paulo.

Se Chico anda cada vez menos afeito a badalações, como disse, também é inegável que leva uma vida pública muito mais agitada e predisposta a exposições do que Trevisan e Raduan. Então, supondo que estará no evento, quem apertará a mão do artista? Pergunto porque é comum que chefes de estado ou seus representantes de alto escalão prestigiem os vencedores do Camões. No ano passado, o presidente português Marcelo Rebelo de Sousa fez questão de parabenizar publicamente o cabo-verdiano Germano Almeida, o escolhido de então. Em 2013, só para citar outro exemplo, Dilma Rousseff esteve em Portugal para entregar a distinção ao moçambicano Mia Couto.

Já na cerimônia destinada a Raduan Nassar, coube a Roberto Freire, então ministro da Cultura, representar o governo de Michel Temer. Aí a coisa azedou. Após Raduan fazer duras críticas à politica de Temer, o ministro saiu em defesa do presidente e acabou discutindo com o homenageado. Agora nem Ministério da Cultura temos mais. Caberá, então, a Jair Bolsonaro, presidente da República, honrar o cargo que ocupa, superar divergências ideológicas e prestigiar o encontro dedicado a Chico, ferrenho defensor de Lula e do PT? Até aqui, nem em seu Twitter, canal preferido para a interação com o público, nosso mandatário máximo se manifestou sobre o principal prêmio literário de nossa língua destinado a um dos maiores artistas de nossa história.

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Massacre de Realengo inspira livro sobre amizade e violência contra garotas http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/21/massacre-de-realengo-inspira-livro-sobre-amizade-e-violencia-contra-garotas/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/21/massacre-de-realengo-inspira-livro-sobre-amizade-e-violencia-contra-garotas/#respond Tue, 21 May 2019 13:47:14 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6430

Homenagem às vítimas do massacre. Foto: Fabio Teixeira/ Uol.

No dia sete de abril de 2011, um ex-aluno invadiu o colégio Tasso da Silveira, no subúrbio do Rio de Janeiro, portando dois revólveres. Foram mais de trinta tiros que deixaram 12 estudantes mortos, numa tragédia que ficou conhecida como o Massacre de Realengo. Jornalista com passagens por empresas como Canal Futura, Editora Abril e HuffPost, a catarinense Daniela Kopsch trabalhou na cobertura do ataque contra as crianças e adolescentes. Especialista em literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, agora Daniela lança “O Pior Dia de Todos” (Tordesilhas), romance inspirado no que viu em Realengo e ouviu de sobreviventes e familiares das vítimas.

“Eu me envolvi demais com o trabalho, com as meninas que entrevistei – e senti que havia ali uma história que eu queria contar, uma história que ia além daquela notícia. Depois disso, acho que a trama do romance se desenvolveu sozinha em algum canto do meu inconsciente, porque quando me sente para começar a escrever, anos depois, sinto que a narrativa se contou sozinha”, conta Daniela.

O centro narrativa de “O Pior Dia de Todos” é dividido entre Malu e Natália, primas que representam “meninas que existem em todo o Brasil”, como registra a escritora no posfácio do volume, e que conduzem uma narrativa que discorre principalmente sobre a amizade. A dupla representa ainda uma escolha de Daniela: focar a história principalmente nas garotas que sobreviveram ao crime.

Daniela Kopsch.

“O atirador queria matar meninas, esse era o objetivo dele quando entrou na escola. Dos 12 alunos que morreram naquele dia, dez eram meninas”, recorda. “O caso de Realengo é um resultado doloroso de uma sociedade que odeia mulheres. Foi essa a linha de pensamento que me fez contar uma história sobre meninas. As personagens mostram como é a experiência de crescer menina no Brasil – percebendo, aos poucos, como é uma experiência perigosa”, continua, fazendo-nos lembrar dos frequentes casos de feminicídio pelo país.

Por conta da profissão, não surpreenderia se Daniela optasse por escrever um livro-reportagem a respeito da tragédia. Contudo, afirma que a escolha pela ficção foi um caminho “natural”, uma via para despertar ainda mais a empatia do leitor. “Acho que intuitivamente entendi que a ficção acessa de modo diferente as emoções do leitor. Nós conseguimos nos colocar no lugar do outro com mais entrega quando lemos um romance e eu busquei essa empatia. Quero que o leitor conheça essas meninas”.

Quando o livro estava prestes a chegar às livrarias, um massacre semelhante àquele ocorrido em Realengo voltou a entristecer o país. Dessa vez o crime se deu numa escola em Suzano, no último dia 13 de março, também foi protagonizado por antigos alunos do colégio e deixou 10 mortos, incluindo os assassinos. Na entrevista, a escritora afirma que aquele crime de 2011 foi o primeiro do tipo ocorrido no Brasil, mas não seria mesmo o último. “Nós vivemos hoje uma receita para que isso volte a acontecer: a cultura de ódio que só aumenta e o acesso facilitado às armas. Há poucas semanas, um decreto autorizou o acesso de armas para crianças e jovens praticarem tiros. É uma tragédia anunciada”.

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Batom, lingerie e revólver cal. 32: a vida das mulheres no bando de Lampião http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/17/batom-lingerie-e-revolver-cal-32-a-vida-das-mulheres-no-bando-de-lampiao/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/17/batom-lingerie-e-revolver-cal-32-a-vida-das-mulheres-no-bando-de-lampiao/#respond Fri, 17 May 2019 13:50:18 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6424

Foto: Benjamin Abrahão

“As mulheres exibiam sua riqueza e elegância proporcionalmente à importância de seu companheiro no bando. Carregavam nos bornais tudo o que tinham: remédios, ouro, dinheiro, mudas de roupa, comida, munição, maquiagem (batom e pó de arroz) e toucador (espelho e pente). E guardavam um segredo: sob o tecido grosso, vestiam traje de seda e lingerie – não existia sutiã entre as cangaceiras –, e se perfumavam com os caros e concorridos Dorli ou Serenata. Tudo isso mais um revólver calibre 32, por vezes outro, 22, e um pequeno punhal na cintura”.

Dessa forma que as moças do cangaço andavam pelo sertão nordestino segundo o jornalista Wagner G. Barreira, autor de “Lampião & Maria Bonita – Uma História de Amor e Balas”. Apesar do famoso romance só aparecer mesmo já para o final do livro lançado pela Planeta há alguns meses, é a partir dele que temos os momentos mais interessantes da obra. Lampião e seus comparsas não permitiam que mulheres se juntassem ao bando que tocava o terror ao mesmo tempo em que levava esperança a muitos daqueles que cruzavam seu caminho. Entretanto, as coisas mudaram quando Virgulino Ferreira, o maior cangaceiro da história do país, conheceu Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita. Por conta da paixão, alterou as regras do próprio cangaço e passou a “incorporar mulheres a uma organização militarizada, clandestina e baseada no nomadismo”.

Existiam normas de conduta, é claro. As moças só permaneciam no bando enquanto estivessem compromissadas com algum dos cangaceiros. As raras mulheres flagradas traindo seus parceiros eram penalizadas com a morte – vingar o chifre com sangue era parte do torpe código de honra dos bandoleiros. Como o grupo estava sempre em movimento, não havia casa que as moças precisassem cuidar, portanto estavam dispensadas dos serviços domésticos. E aquelas que optavam por – ou eram forçadas a – seguir com o bando, tinham algumas outras vantagens em relação às mulheres que levavam uma vida comum na região naquele mesmo começo de século 20.

“Havia uma dupla moral cangaceira. As companheiras levavam uma vida de liberdade inimaginável para os padrões sertanejos, mas, em ações públicas, o bando punia, por exemplo, moças de cabelo curto (anos depois, Maria introduziria o corte à la garçonne entre as cangaceiras, diante de um perplexo Lampião), maquiagem e roupas que mostravam o corpo – as mesmas que as garotas do bando usavam nos esconderijos. Qualquer postura que os cangaceiros julgassem indecente era castigada”, registra Barrera.

Também podiam beber e fumar. Maria Bonita, contudo, por mais que gostasse de um tabaco, não fumava na frente de Lampião – aquilo era visto como um sinal de respeito. Não que se submetesse sempre aos caprichos, desmandos ou absurdos vindos do chefe do cangaço. Logo que tiveram a única filha do casal que vingou, Expedita, Maria Bonita solicitou que o grupo se locomovesse mais devagar por conta do bebê. Lampião não gostou daquilo e ordenou que a mulher se livrasse do rebento. Furiosa, Maria Bonita recusou a ordem e atacou Lampião com uma cabaça. O homem apenas riu.

Indo além da relação entre os dois, o ágil livro de Barreira é uma boa pedida para quem deseja conhecer a história de Lampião, cuja trajetória traz muitos elementos em comum com a de outros homens e mulheres que despertaram o pavor, o ódio e a paixão de tantos pelo Brasil em diferentes épocas. Órfão, sem terra, sem dinheiro e querendo vingar a morte do pai, viu no cangaço uma chance para sobreviver e, quem sabe, ter alguma coisa na vida.

Perambulava por regiões desprezadas pelo Estado e que possuíam leis e moral próprias. Muitas vezes atuava não apenas como bandido, mas como o justiceiro de onde a justiça formal não existia. Apostava no terror para que, se não o respeitassem de fato, ao menos o temessem. Quando o próprio Estado ausente achou conveniente tê-lo como aliado – para combater a Coluna Prestes –, não se importou em abastecê-lo com armas, munição e dinheiro, além de lhe conferir patente militar. Mais tarde, o mesmo Estado o matou, degolou e exibiu sua cabeça em praça pública. Figura repleta de nuances, não por acaso sua história foi contada e romantizada por muita gente ao longo do tempo, por isso que Barreira opta por tratar boa parte dela como uma “ficção coletiva”, um acerto do jornalista:

“A história de Lampião é ficção coletiva, contada há quase um século por narradores e protagonistas dos eventos que, por vezes, moldam a História às suas necessidades, convicções e ambições, por autores que tomam partido ou simplesmente escancaram a ficção. Há de tudo nas narrativas, um arco que vai do herói sertanejo que combateu desigualdades, passa pelo homem de negócios que transformou o cangaço em meio de vida e chega ao assassino sanguinário, bandido sem escrúpulos. São formas justas e possíveis de tratar um sujeito complexo feito Lampião, que foi tudo isso – e muito mais”.

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Conceição Evaristo será a homenageada do Prêmio Jabuti deste ano http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/16/conceicao-evaristo-sera-a-homenageada-do-premio-jabuti-deste-ano/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/16/conceicao-evaristo-sera-a-homenageada-do-premio-jabuti-deste-ano/#respond Thu, 16 May 2019 15:21:07 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6418

A edição deste ano do Jabuti, principal prêmio da indústria do livro no Brasil, homenageará a escritora Conceição Evaristo, autora de títulos como “Olhos D’Água”, “Ponciá Vivêncio” e “Becos da Memória”, todos publicados pela Pallas. Em grande evidência no cenário literário nacional desde 2016, quando brilhou na Flip, Conceição se transformou em um símbolo da luta dos negros por um espaço digno em nossas letras.

É a primeira vez que o Jabuti anuncia com antecedência quem será festejada na cerimônia de entrega do prêmio. A ideia é que, com isso, o mercado possa se movimentar e promover ações que envolvam o nome da homenageada.

ENSINAR QUE MACHADO DE ASSIS ERA NEGRO TAMBÉM SERÁ DOUTRINAÇÃO IDEOLÓGICA?

Essa não é a única novidade para a 61ª edição do Jabuti, que neste ano conta com a curadoria de Pedro Almeida, editor da Faro. As categorias infantil e juvenil voltam a receber premiações diferentes – no ano passado tinham sido agrupadas em infantojuvenil – e livros de documentário e reportagem passam a concorrer junto com as biografias, não mais na categoria Humanidades. Além disso, coletâneas compostas por textos que não sejam inéditos não poderão concorrer nas categorias destinadas à literatura.

Dentre as novidades, há também uma mudança na fase final da premiação, que passará a contar com duas etapas: primeiro a Câmara Brasileira do Livro, responsável pelo Jabuti, anunciará os dez finalistas de cada uma das 19 categorias; em um segundo momento, uma nova lista será divulgada, dessa vez reduzindo o número de concorrentes a cada troféu a cinco nomes. O vencedor de cada categoria embolsa R$5.000 e o agraciado com o Livro do Ano leva para casa R$100.000. O anúncio dos vencedores ocorrerá em novembro.

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Sem nome de peso, Flip dá indícios de que será mais política neste ano http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/15/sem-nome-de-peso-flip-da-indicios-de-que-sera-mais-politica-neste-ano/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/15/sem-nome-de-peso-flip-da-indicios-de-que-sera-mais-politica-neste-ano/#respond Wed, 15 May 2019 18:49:32 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6413

A organização da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) anunciou na manhã desta quinta a programação da 17ª edição do evento, que neste ano homenageará Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”, acontecerá entre os dias 10 e 14 de julho e contará com a participação de 33 convidados de dez nacionalidades diferentes – as 21 mesas já podem ser vistas no site da Festa, onde também há orientações para a compra de ingressos. Abaixo, listo minhas impressões após a coletiva de imprensa que contou com a participação de Mauro Munhoz e Betina Cermelli, responsáveis pela Flip, e Fernanda Diamant, que pela primeira vez assina a curadoria:

Sem nomes de peso: Faltou um grande nome da literatura na programação principal. Esta reclamação já surge há algumas edições, mas desta vez fica até difícil de colocar alguém no posto de principal atração. Kristen Roupenian, dos Estados Unidos, ou Sheila Heti, do Canadá, como ventilaram? Sei não… A primeira é uma contista que, apesar do barulho que fez com “Cat Person”, acabou de estrear com um livro bastante fraco – falo de “Cat Person e Outros Contos”. Já “Maternidade”, principal trabalho de Sheila publicado por aqui, é um tanto capenga, ainda que traga uma abordagem original para um tema importante. O nome mais forte desta edição junto ao grande público acaba sendo o do navegador Amyr Klink, autor de “Cem Dias Entre o Céu e o Mar”, que, no entanto, participará apenas da mesa de encerramento lendo trechos de seu livro favorito.

Mas com bons nomes: Os africanos aparecem mais uma vez com força e costumam surpreender com o carisma e a relevância de suas histórias, então vale prestar atenção no angolano Kalaf Epalanga, em Gael Faye, do Burundi, e na nigeriana Ayobami Adebayo. Karina Sainz Borgo, venezuelana radicada em Madrid, pode ter muito a dizer sobre a lamentável situação de seu país natal. Por não enxergar barreiras entre o popular e o “erudito”, Jarid Arraes e Braulio Tavares são dois brasileiros que merecem receber os holofotes que acompanham os escritores convidados para a programação principal da Flip. Do diretor de teatro Zé Celso, que dividirá o palco com Ailton Krenak, sempre podemos esperar alguma “zé celsice”.

Política: Com a programação anunciada no mesmo dia em que manifestações pela educação tomam conta das ruas brasileiras, o fator político esteve presente nas falas principalmente de Fernanda sobre cada uma das mesas. Vanice Nogueira Galvão, pesquisadora da USP que comandará abertura, também representa a importância do trabalho na universidade pública. Aparecida Vilaça, antropóloga autora do ótimo “Paletó e Eu”, serve como referência tanto para a questão indígena quanto ao trabalho realizado no Museu Nacional. José Miguel Wisnik falará da relação entre poemas de Carlos Drummond e a mineração. O quadrinista Marcelo D’Salate, outro grande nome, é também um representante dos professores de ensino médio…

Mencionadas na apresentação, todas essas questões estão no centro ou tangenciam discussões a respeito das políticas públicas promovidas pelo governo Bolsonaro. Mauro Munhoz encara a questão como algo que segue a tradição da Flip, já Fernanda disse que “seria impossível homenagear Euclides sem esse viés”, mas que os debates serão menos acerca do que se passa neste momento e “mais uma reflexão histórica sobre o país”. Fato é que há muito não se via um anúncio de programação tão pontuado por elementos em voga no nosso atual cenário político.

Casas parceiras: Indo além do palco principal, as casas parceiras deverão seguir responsáveis por boa parte do que acontece de interessante em Paraty durante a Flip. Para este ano, a organização já conta com 21 parcerias oficiais, como Barco Holandês, Barco Flipei, Casa das Mulheres Negras Insubmissas, Casa Libre & Santa Rita de Cássia e os diversos espaços do Sesc. A novidade: a programação desses lugares poderá ser vista no site oficial da Flip, facilitando a vida de quem deseja saber de quase tudo o que rola pelas ruas do Centro Histórico ao longo da Festa. Quase tudo porque, não custa lembrar, há ainda espaços com propostas interessantes que não figuram entre os parceiros oficiais.

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Conde de Bolsonaro: o vilão homofóbico inspirado em nosso atual presidente http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/14/conde-de-bolsonaro-o-vilao-homofobico-inspirado-em-nosso-atual-presidente/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/14/conde-de-bolsonaro-o-vilao-homofobico-inspirado-em-nosso-atual-presidente/#respond Tue, 14 May 2019 13:37:42 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6409

Ano de 1760. O soldado Érico Borges é enviado a Londres para investigar uma rede de contrabando de livros eróticos que começavam a cair nas mãos dos brasileiros. Na capital inglesa, enquanto se deleita com prazeres proibidos em seu país natal, acaba por cruzar o caminho de Reinaldo Olavo de Gavíria y Azevedo, o líder de uma rede de espionagem. Grande vilão de “Homens Elegantes” (Rocco), romance publicado pelo gaúcho Samir Machado de Machado em 2016, não é por acaso que o homofóbico Reinaldo Olavo é mais conhecido como “conde de Bolsonaro”.

“Eu tinha a ideia de escrever uma história de aventura de capa e espada, que fosse uma cruza de James Bond com Barry Lyndon [de ‘As Memórias de Barry Lyndon’, romance de William Thackeray levado ao cinema por Stanley Kubrick]. Érico Borges, meu protagonista, seria o herói que desbarata uma conspiração, derrota o vilão e salva o dia, a única diferença seria ele ser gay. Além de questões circunstanciais que isso traria naturalmente à trama, ao final ele ficaria com o padeiro parrudo ao invés da mocinha”, conta Samir. Em busca de um antagonista que tivesse um plano “megalomaníaco e absurdo” em mente, pareceu-lhe bastante adequado que, tendo um herói homossexual, o vilão fosse ainda homofóbico. Assim que o título de nobreza pelo qual Reinaldo Olavo é tratado veio à mente do escritor.

Autor também de “Quatro Soldados” (Rocco) e “Tupinilândia” (Todavia), em 2013, quando Samir delineou a trama de “Homens Elegantes”, Jair Bolsonaro, então um deputado do baixo clero, arrumava espaço na mídia e ganhava projeção entre os brasileiros por conta de suas declarações. “A figura política do mundo real não era mais que um ex-militar de carreira medíocre que se destacava na política havia anos por, justamente, se declarar ‘homofóbico sim, e com orgulho’, nas palavras do próprio”, recorda o escritor, que, conta, buscou explorar no romance a conexão direta entre o “conservadorismo reacionário” do Brasil atual com a reação contrária ao Iluminismo que aconteceu no século 18.

“No meu livro, o vilão é tão movido pelo sentimento de ódio que, ‘aos olhos de quem vê o outro como inferior, que este tenha os mesmos direitos não é visto como igualdade, mas como privilégio, pois diminui a noção que tem de si próprio ver-se igualado com o que mais despreza’. Enquanto anda pela Londres de 1761, Érico Borges vai encontrando no caminho panfletos de ódio contra mulheres, pobres, negros e ‘sodomitas’. No livro, os textos foram construídos mesclando folhetos sectários do século 18 com textos escritos por figuras conservadoras da imprensa brasileira dos anos 2010”.

Olhando para o plano megalomaníaco que imaginou para seu vilão, Samir indica que a realidade já deu conta de superar ou ao menos se aproximar daquele elemento ficcional que nasceu aparentemente distante de nossa realidade. Em “Homens Elegantes”, conde de Bolsonaro pretende espalhar a pornografia pelo Brasil para corromper a moral pública e atrair a ira divina. “Era tão absurdo que, pensei eu, só poderia funcionar no século 18. Mas isso foi antes do terraplanismo virar moda, ou do nosso presidente espalhar um vídeo pornográfico de golden shower no Twitter. Meu Bolsonaro fictício já espalhava pornografia no Brasil um bom tempo antes”.

Samir relata que, até aqui, a reação do público ao seu vilão tem sido positiva – “alguns gargalham quando veem o nome do personagem, o que funciona como teste de sanidade, atualmente” – e que, inicialmente, não imaginou que aquele político falastrão que lhe serviu de inspiração poderia se transformar em presidente da República. “Até certo momento, achei que seria francamente impossível uma figura tão caricata e despreparada chegar tão longe. Mas, claro, não previ o efeito da propagação de notícias falsas nas correntes de WhatsApp. Isso foi até o momento em que vi pessoas que até então considerava sensatas e lúcidas endossando os absurdos mais descabelados, como as paranoias de Ursal, kit gay e mamadeira de piroca”.

E o que sentiu quando viu o Bolsonaro real chegando à presidência? O que tem achado dos primeiros meses de governo? “Uma vez vi um acidente de automóvel ocorrer bem na minha frente, e a lembrança que tenho até hoje é de como, nessas horas, por mais rápido que a coisa ocorra, tudo parece acontecer em câmera lenta. Quanto aos primeiros meses, bem, só posso dizer que não é coincidência que aqueles que dizem ser os mais patriotas, de cantar hino e se enrolar na bandeira nacional, sejam também os que mais desprezam os elementos da cultura nacional que são a própria definição da identidade que os hinos e bandeiras simbolizam. A história está cheia de exemplos de lideranças dispostas a destruir tudo para reinar sobre cinzas”.

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Pense bem antes de ser mãe, talvez você não queira de verdade ter um filho http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/10/pense-bem-antes-de-ser-mae-talvez-voce-nao-queira-de-verdade-ter-um-filho/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/10/pense-bem-antes-de-ser-mae-talvez-voce-nao-queira-de-verdade-ter-um-filho/#respond Fri, 10 May 2019 13:57:28 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6404

Sheila Heti.

Você quer ter um filho? Mas você quer mesmo ter um filho? Tem certeza de que você deseja atrelar o resto de sua vida (ou boa parte do resto de sua vida) a um ser primeiro indefeso e depois cheio de nuances que poderão te desagradar? Esse ser ainda não existe, então não há problema algum se ele continuar não existindo. Agora, o contrário não é possível. A partir do momento em que ele estiver no mundo, o prejuízo será muito maior se você se arrepender de ter gerado a cria – e, pode ter certeza, isso acontece com uma frequência considerável, ainda que não seja um sentimento comumente externado, como mostrou a socióloga israelense Orna Donath em “Mães Arrependidas” (Civilização Brasileira).

Mas repito a pergunta: você quer mesmo ser mãe? Tem certeza de que essa é um sentimento genuíno? Que esse vontade não é fruto da encheção de saco da família, das amigas, da igreja ou de qualquer outra pessoa, instituição, entidade ou seja lá o que for que curta se intrometer na vida dos outros? Tem certeza de que o desejo de procriar é seu mesmo, não algo extrínseco, não uma mera e bovina sequência da vida que a sociedade espera – e cobra – de você?

Não precisa me responder, mas pense nessas perguntas e chegue à própria conclusão. Para suscitar indagações como essas o livro “Maternidade” (Companhia das Letras), da canadense Sheila Heti, uma das convidadas da Flip deste ano, cai muito bem. Na obra, uma mistura de romance biográfico com ensaio, acompanhamos uma escritora que se aproxima dos 40 anos e que se questiona qual é o seu real desejo: ser ou não ser mãe?

Se optar pelo sim, terá a experiência com o rebento, mas jamais saberá como seria levar a vida sem carregar essa responsabilidade. Se optar pelo não, o óbvio contrário: a experiência da maternidade permanecerá inédita tanto quanto sua liberdade permanecerá intocada. É preciso que escolha qual caminho seguir e qual abrir mão antes que as limitações biológicas imponham suas próprias condições. “Se eu quero ou não ter filhos é um segredo que escondo de mim mesma”, reflete a personagem. “É o maior de todos os segredos que escondo de mim mesma”, conclui.

“Será que eu quero filhos porque quero ser admirada como o tipo admirável de mulher que tem filhos? Ou porque quero ser vista como uma mulher normal, ou porque eu quero ser uma mulher do melhor tipo, aquela que não tem só o trabalho, mas tem também o desejo e a capacidade de cuidar, tem um corpo que pode produzir bebês e ainda é uma pessoa com quem outra pessoa quer fazer um bebê? Será que eu quero ter um filho para me apresentar como o tipo (normal) de mulher que quer, e por fim tem, um filho?”, bombardeia-se em outro momento.

Enquanto a pressão pela maternidade vai crescendo e dominando a mente da personagem, outros questionamentos vem à tona: seria a reprodução uma espécie de boicote que frearia o momento de ascensão profissional e maturidade pessoal? Encarada por muitos como um “fracasso biológico”, seria a impossibilidade de ter filhos – ou a deliberada escolha por não tê-los – a “vanguarda da modernidade”? E o aborto, por que ainda é encarado com tanto temor?

“Quando penso em todas as pessoas que querem proibir o aborto, isso parece significar apenas uma coisa: não é que eles queiram uma nova pessoa no mundo, o que eles querem é que aquela mulher tenha o trabalho de criar um filho, mais do que querem que ela faça qualquer outra coisa. Há algo de ameaçador em uma mulher que não está ocupada com os filhos. Uma mulher assim provoca certa inquietação”.

Como é possível perceber, são muitos os elementos que Sheila Heti tinha em mãos para tecer uma grande história. Não é o que acontece. Debatendo-se com a questão central de seu conflito durante anos, a protagonista trabalha na escrita de um livro que serve essencialmente para postergar a sua decisão sobre a maternidade. Vivendo um relacionamento estável, conversando – e sendo pressionada – por amigas e colegas, recordando do passado com os pais e confiando até numa adaptação do I Ching – o que rende momentos especialmente modorrentos , o que temos são 300 páginas de uma mulher em conflito com a mesma questão. Sim, o arrastar da dúvida, com o acréscimo paulatino de novos elementos ao debate, faz parte da construção da confusão da personagem, mas acaba por deixar o livro um tanto cansativo – uma protagonista escritora (mais uma protagonista escritora!) e a opção pela verve ensaística, nesse caso, também contribuem para isso.

“Maternidade” é um livro mais útil e necessário do que exatamente bom. Fica aquém do que se pretende enquanto literatura, acaba perdido entre a ficção e o ensaio, mas, como provocação, traz uma contribuição importante para discussões sobre o tema que dá título à obra e, por extensão, sobre o feminismo. Porque, como a autora já chegou a dizer em entrevistas, não ter filhos ainda soa como uma escolha bastante corajosa para uma mulher. Mulher esta que sempre será indagada pelos motivos de não querer um rebento, enquanto aquelas que optam por engravidar jamais são inquiridas sobre as razões de sua escolha.

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Seguindo macaco, cientista descobre esconderijo de traficantes na Nicarágua http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/08/seguindo-macaco-cientista-descobre-esconderijo-de-traficantes-na-nicaragua/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/05/08/seguindo-macaco-cientista-descobre-esconderijo-de-traficantes-na-nicaragua/#respond Wed, 08 May 2019 13:51:38 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6395

Lilia Illes, biogeógrafa nascida nos Estados Unidos e que atua na busca por soluções para que humanos e animais selvagens consigam coexistir, perambulava por uma floresta na ilha de Ometepe, na Nicarágua, quando avistou um bugio macho. Investigando como os habitats dessa espécie de macaco foram fragmentados por conta de atividades humanas, resolveu segui-lo. Mirando a copa das árvores, prestava mais atenção no que estava sobre sua cabeça do que à altura dos seus pés. Só quando o primata sossegou em uma figueira cheia de frutos que se deu conta de onde estava.

“Quando olhei para baixo, vi meia dúzia de rifles automáticos, um pequeno heliponto perfeito e uma doca para barcos. Eles estavam tão bem escondidos que não apareciam nas imagens de satélites. Então olhei em volta, vi alguns homens e percebi em que eu havia tropeçado. Quando eles se aproximaram, eu fingi ignorância e dei início à minha melhor atuação de turista confusa, sorrindo e apontando para o macaco. Pedi desculpas por incomodá-los e saí de lá na hora”. Sim, pesquisando sobre bugios, Lilia caiu bem na toca de traficantes.

O causo é uma das 25 histórias presentes em “Desventuras na Ciência” (Blucher), livro ilustrado do desenhista francês Jim Jourdane. Divertida e com uma pegada infantojuvenil, a obra reúne lambanças e enrascadas vividas por cientistas em diversos cantos do mundo enquanto tentavam realizar seu trabalho. Lançado no Brasil no começo do ano, o volume saiu primeiro na França e nos Estados Unidos e nasceu a partir de testemunhos dados pelos pesquisadores no Twitter utilizando a hashtag #fieldworkfail. Coube ao autor entrevistar esses profissionais para lapidar as trapalhadas.

A colombiana Angela Bayona, por exemplo, estava em sua terra natal quando acabou perseguida por uma onça após urinar na mesma árvore em que o bichano costumava fazer xixi. Na Indonésia, a britânica Agata Staniewicz conseguiu a proeza de se colar ao crocodilo em que tentava fixar um radiotransmissor. Mari Parrott, australiana, estava na África do Sul quando macacos roubaram seu último papel higiênico. Já o norte-americano Jeff Stratford estava na Pensilvânia quando reuniu crianças para acompanhar a libertação de um pintassilgo – que, assim que levantou voo, foi capturado por um falcão, deixando todos os pequenos horrorizados.

Indo além das lambanças, cada capítulo também traz alguns ensinamentos sobre os animais e o trabalho dos cientistas. Após acompanhar Lilia se enrascando por conta de um macaco, por exemplo, o leitor aprende que “as vocalizações profundas do bugio são sua característica mais marcante. Podem ser ouvidas a 5 quilômetros de distância”, isso graças à mandíbula profunda e à laringe aumentada, que forma uma “câmara de ressonância”. Uma das lições da passagem de Mari Parrott, por sua vez, é primordial: se faltar papel higiênico no meio da floresta, procure por alguma espécie de acácia que possua folhas macias – são ótimas para, digamos, finalizar o serviço.

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