Página Cinco http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos ao e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos. Fri, 19 Jul 2019 10:00:20 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Aceitar um corpo gordo ou lutar por medidas menores? HQ ajuda na reflexão http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/hq-obesidade-navie-duplo-eu/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/19/hq-obesidade-navie-duplo-eu/#respond Fri, 19 Jul 2019 10:00:20 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6626

Quem em algum momento da vida passou por um processo de emagrecimento sabe como funciona a batalha. Primeiro você acha que só está gordinho. Depois, reluta em aceitar que a quantidade de gordura está se tornando preocupante. Resolve dar um basta. Corta um monte de coisas, testa dietas, procura nutricionistas (essa parte nem sempre, eu sei), caça algum exercício que seja agradável, priva-se de uma porrada de coisas. Acha que nunca mais poderá se empanturrar daquilo que gosta… Aí consegue perder um, dois, dez quilos. Recaída. Engorda um pouco. Volta pra linha. Mais cinco, oito, quinze quilos. Uma hora chega num peso que acha razoável.

Só que a balança desgraçada nunca aponta para os mesmos dígitos. Quer voltar a comer como antes, não pode. Engorda mais um pouco. Fica com peso na consciência. Puxa os números de novo pra baixo. Invariavelmente, em algum momento manda as calorias às favas e mergulha em todos os barris de cerveja e tonéis de vinho que encontra pela frente. Aproveita também para devorar peças gigantescas de gorgonzola, assar todas as fraldinhas do mundo e não fazer mais nenhuma refeição sem pão italiano e azeite. Assume que é gordo e volta a viver pelo prazer de comer e beber bem – e em quantidades momescas. Depois vem o peso não só na consciência.

Um tanto dessa luta está retratado em “Duplo Eu”, HQ francesa escrita e roteirizada por Navie e ilustrada por Audrey Lainé que acaba de sair por aqui pela Nemo em tradução de Renata Silveira. Com pegada autobiográfica, na história acompanhamos a relação de Navie com seu corpo. “Que sentimento infernal esse de ter a impressão de nunca ser boa o suficiente. Está constantemente nas nossas cabeças, como um diabinho que nos sussurra: ‘Você é só um merda’. Mas isso não nos impede de sorrir. Nem de fingir que está tudo bem. Manter as aparências é muito cansativo. Senti a necessidade de escrever este livro para mostrar a face oculta de um aparente bem-estar”, reflete a personagem nas páginas iniciais.

Aos 30 e poucos anos e com 127 quilos distribuídos em 1,54 m, Navie se debate entre a pressão social, a aceitação, a autoimagem e os diferentes sinais relacionados à saúde – apesar dos exames de sangue não apontarem problemas, sabe que a obesidade mórbida é um inimigo ao mesmo tempo espalhafatoso e silencioso. “Não faz sentido tentar se curar quando não se sente doente. E eu, despreocupada, ignorava a situação…Meu lento suicídio. Eu devorava minha vida. Sem saber”.

Em meio ao choque entre o fingir que leva uma vida completamente dentro dos supostos padrões de normalidade e a nítida necessidade de rever seus hábitos, Navie descobre a hiperfagia – “transtorno alimentar caracterizado pela ingestão excessiva de alimentos em um curto período de tempo” – e nota que vive como se tivesse sempre acompanhada de seu duplo, uma outra Navie que a impulsiona aos prazeres da comida. “Como se matar sem morrer?”, pergunta-se num momento. “Se o diabo existisse. Se ele estivesse bem aqui. Se oferecesse me deixar magra… Em troca de que eu aceitaria?”, pega-se pensando em outro.

A história segue um tom edificante, com reflexões construtivas e acolhedoras demais para o que esperamos da boa arte – sim, temos aqui um bom tanto de autoajuda, de jornada de superação e autoaceitação –, mas certamente será útil àqueles que se veem numa situação semelhante à da autora – falo como uma dessas pessoas.

Veja algumas páginas de “Duplo Eu” (clique nas imagens para ampliá-las):

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No Instagram, Laurentino Gomes dá breves aulas sobre história da escravidão http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/17/laurentino-gomes-escravidao-livro/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/17/laurentino-gomes-escravidao-livro/#respond Wed, 17 Jul 2019 11:56:33 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6622

Em agosto, durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, o jornalista e escritor Laurentino Gomes, autor dos best-sellers “1808”, “1822” e “1889”, lançará o volume inaugural de sua nova trilogia, sobre a história da escravidão no Brasil. “Escravidão: Do Primeiro Leilão de Cativos em Portugal até a Morte de Zumbi dos Palmares”, sairá pela Globo Livros e se debruçará sobre um período que vai de 1444, data do primeiro registro sobre portugueses comercializando escravos africanos, até a morte do líder quilombola Zumbi dos Palmares, em setembro de 1695. A previsão é que os outros dois volumes da série cheguem ao público em 2020 e 2021, dando conta do que se passou por aqui nos séculos 18 e 19.

“Eu acredito que, 127 anos depois da assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel, esse é um passivo histórico que os brasileiros ainda não conseguiram resolver. O grande abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco afirmava que o Brasil estava condenado a continuar no atraso enquanto não resolvesse de forma satisfatória a herança escravocrata. Para ele, não bastava libertar os escravos. Era preciso incorporá-los à sociedade como cidadãos de pleno direito, o que até hoje não aconteceu de fato. Por essa razão, escolhi a escravidão como tema dessa nova trilogia. Acredito que seja o assunto mais importante de toda a nossa história”, escreveu Laurentino em sua página do Facebook quando anunciou o projeto, em 2015.

Para realizar as pesquisas sobre a história da escravidão, Laurentino viajou por países da América, da África e da Europa. Nessas andanças, visitou lugares emblemáticos, conversou com especialistas e colheu documentos que ajudam a entender como acontecia o tráfico de seres humanos. Enquanto a obra não chega, o escritor tem mostrado parte dos bastidores de seu trabalho em breves vídeos no Instagram. São pílulas de aulas de história. Dê uma olhada nessa seleção:

Cabo Verde: “um grande supermercado de escravos”

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Em 1460, quando os portugueses chegaram ao arquipélago de Cabo Verde, na costa da África, não encontraram sinal de presença humana. “Só pombos”, escreveu um cronista. Logo, porém, encontraram um uso para a maior da ilhas, a de Santiago: serviria de depósito de africanos escravizados. Cabo Verde funcionou também como um laboratório da escravidão no Atlântico, onde foi testado o binômio açúcar e mão-de-cativa que depois seria implantado no Nordeste Brasileiro, ou seja, a fórmula “Casa Grande & Senzala” celebrizada por Gilberto Freyre. Este é o tema do segundo video com os bastidores das minhas pesquisas para a nova trilogia de livros, sobre a história da escravidão no Brasil, que será lançada no final de agosto na @bienaldolivro pela @globolivros. Este vídeo sobre Cabo Verde terá sequência na terça e na quinta da semana que vem, às 18h. #DiárioDePesquisa #LaurentinoGomes #Escravidão #GloboLivros #caboverde

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A escravidão em Angola

Museu da Escravidão (que o Brasil não tem)

“Açúcar era sinônimo de escravidão”

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O Brasil colônia foi sinônimo de açúcar. E açúcar era sinônimo de escravidão. Tema do vídeo de hoje com os bastidores das pesquisas para a trilogia sobre a história da escravidão no Brasil, que lanço no final de agosto na @bienaldolivro pela @globolivros O açúcar é o primeiro bem de consumo de massa na história da humanidade. No século 14, era artigo de luxo, incluindo nos dotes e testamento da nobreza. Em 1350, uma caixa com cinco quilos custava cerca de 10 gramas de ouro (1.420 reais). Hoje, a mesma quantidade custa 12 reais. De artigo de luxo a produto de consumo de massa, o açúcar é hoje responsável por uma epidemia mundial de obesidade. O Brasil é um dos maiores consumidores, com 52 quilos de por ano, ou um quilo por semana – mais do que o dobro da média mundial. #DiárioDePesquisa #LaurentinoGomes #Escravidão #GloboLivros #pernambuco #recife

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O Cais do Valongo

Seis meses na África

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Rojão na Flip, censura em Jaraguá do Sul: fingiremos que está tudo bem? http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/16/rojao-na-flip-censura-em-jaragua-do-sul-fingiremos-que-esta-tudo-bem/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/16/rojao-na-flip-censura-em-jaragua-do-sul-fingiremos-que-esta-tudo-bem/#respond Tue, 16 Jul 2019 22:27:25 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6618

Hoje a Folha publicou um ótimo artigo do professor Renato Janine Ribeiro, filósofo, cientista político e ex-ministro da Educação, sobre o que rolou na Flip há poucos dias. Para quem não sabe, em meio ao principal evento literário do país, manifestantes que apoiam o presidente Bolsonaro e o ministro Sérgio Moro fizeram de tudo para que a voz de Glenn Greenwald não pudesse ser ouvida durante a mesa onde ele esteve na Flipei – a Festa Literária das Editoras Independentes. Glenn é jornalista e editor do The Intercept Brasil, responsável por revelar a promíscua relação do então juiz Moro com procuradores da Lava Jato. No cardápio dos raivosos de Paraty, hino nacional remixado com funk tocado no talo e rojões. Estes começaram sendo atirados para o alto, mas em pouco tempo passaram a mirar o barco onde estava Glenn e, consequentemente, toda a multidão que queria escutá-lo. Como qualquer ser racional sabe, rojões soltam bombas, que jamais devem ser atiradas na direção de pessoas. A distância entre as margens do rio Perequê-Açu, que separava os agressores da plateia, impediu a tragédia.

No artigo, Renato aponta o que rolou na Flip como um exemplo claro do fascismo em nosso país. Se outrora ele estava em ascensão, como indiquei algumas vezes aqui (eis um exemplo), agora ele parece já caminhar pelas ruas com a barba feita, olhar confiante e rojão em punho para soltar em cima daqueles que deseja silenciar. “Essa violência é usada não só contra adversários do regime —a oposição política— mas também contra quem o regime odeia. Não foca apenas quem não gosta do governo. Mira aqueles de quem o governo não gosta. No nazismo, eram judeus, homossexuais, ciganos, eslavos, autistas. No Brasil, hoje, são sobretudo os LGBTs e a esquerda, porém é fácil juntar, a eles, outros grupos que despertem o ódio dos que se gabam de sua ignorância”, escreve o filósofo. Não custa lembrar que o atual presidente foi eleito prometendo, dentre outras coisas, “fuzilar” adversários.


Bem, os disparos de rojões contra Glenn e a multidão de espectadores na Flip aconteceu no começo da noite de sexta, o artigo de Renato saiu hoje pela manhã e agora já temos um novo exemplo do que o filósofo apontou em seu texto. A Feira do Livro de Jaraguá do Sul, cuja 13ª edição acontecerá entre os dias 8 e 18 de agosto, desconvidou a jornalista Miriam Leitão e o sociólogo Sérgio Abranches. Isso porque, após anunciá-los, manifestantes usaram a internet para atacar a escolha dos curadores por conta de um suposto posicionamento ideológico dos dois autores, inclusive os ameaçando fisicamente.

A organização afirmou não ter condições de garantir a segurança de Miriam e Sérgio na cidade. Repito com outras palavras: não sabem se Miriam e Sérgio não seriam atacados por uma horda de bárbaros em Jaraguá do Sul; poderiam ser agredidos (ou algo pior, vai saber) apenas por expor o que pensam. A pretendida censura foi consumada. Essa horda até outro dia mostrava braveza sobretudo atrás de uma tela, mas agora mostra sua truculência e violência também nas ruas, como aconteceu em Paraty.

Já tem rojão sendo disparado contra quem expõe o que pensa. Já tem gente sendo impedida de expor suas ideias em determinadas cidades porque sua segurança não está garantida. O que torna tudo ainda mais perigoso: esse povo que ameaça e solta bomba parece agir com a certeza de que está num plano moral superior, de que faz um inequívoco bem para o país. E se voltarmos no tempo, encontramos eventos lamentáveis que ajudaram a gestar este momento, como a perseguição à exposição Queer Museu, em 2017. Vamos continuar fazendo de conta que está tudo bem por aqui?

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O dia em que Edmundo pediu licença à Mancha Verde para jogar no Corinthians http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/16/o-dia-em-que-edmundo-pediu-licenca-a-mancha-verde-para-jogar-no-corinthians/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/16/o-dia-em-que-edmundo-pediu-licenca-a-mancha-verde-para-jogar-no-corinthians/#respond Tue, 16 Jul 2019 13:15:20 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6604

Depois de uma passagem micada pelo Flamengo, onde em 1995 formou o decepcionante “ataque dos sonhos” ao lado de Romário e Sávio, Edmundo deixou o Rio de Janeiro para retornar a São Paulo. Já tinha feito sucesso com a camisa do Palmeiras poucos anos antes. Agora o seu endereço de trabalho não seria o Parque Antártica, mas o Parque São Jorge. Antes de fechar com o Corinthians, o Animal achou por bem procurar a Mancha Verde, torcida organizada palmeirense, para conversar sobre o seu futuro.

O papo foi com Paulo Serdan, então presidente da entidade, que não gostou do que ouviu. “Como assim, jogar no inimigo? Ao mesmo tempo, o gesto denotava um profundo respeito pelo clube e pela sua torcida. Ainda mais porque Edmundo deixou claro que sem a benção da Mancha não haveria negócio. Não fazia mesmo sentido colocar uma relação linda e autêntica no lixo, até porque Edmundo seguia morando em Perdizes, um dos bairros mais palmeirenses de São Paulo. Se fosse mesmo para o Corinthians queria ter certeza de que seguiria caminhando nas ruas sem ser importunado”. No final, Serdan cedeu. Enfatizou sua insatisfação, mas liberou o atleta para atuar pelo rival. “O encontro terminou em lágrimas. O jogador saiu verdadeiramente comovido com a compreensão da torcida organizada”.

Essa é uma das poucas passagens que se salvam em “Edmundo – Instinto Animal”, perfil do jogador escrito pelo jornalista Sérgio Xavier, publicado há poucas semanas pela Seoman e de onde retirei as aspas do parágrafo anterior. E se salva com restrições, pois mesmo esse trecho do livro merecia uma profundidade maior. A superficialidade é uma das principais características da obra que promete contar a “história do mais ousado craque de futebol brasileiro”, porém entrega ao leitor apenas uma revisão dos momentos marcantes da carreira do jogador pontuados por comentários do próprio Edmundo e adornados de generosa bajulação.

Poderia ser cômico, mas é constrangedor como as muitas confusões protagonizadas pelo Animal são tratadas no livro. A agressão a Sidrack Marinho, em 1993, vira uma mísera frase. O que o levou a ir além da reclamação e avançar contra o juiz? O que passou na cabeça naquele exato momento? E depois, quando já estava de cabeça fria? Não sabemos. Chute na câmera de um cinegrafista em Quito? É um “deslize”. Tapa na cara do zagueiro do Vélez Sarsfield – seguido de um dos revides mais enfáticos e covardes já visto numa partida de futebol? É um “tapinha” em nota de rodapé. Soco na cara de um boliviano durante a Copa América de 1997, em La Paz? Só um “rápido e sutil gancho de esquerda”. Apenas o acidente que deixou três mortos no qual Edmundo se envolveu em 1995 tem uma atenção maior. Ainda assim, a passagem parece escrita pelo advogado do atleta em parceria com seu assessor de imprensa.

Na ficha catalográfica, Sérgio Xavier aparece como autor da obra. Os direitos autorais, no entanto, são divididos entre ele e o próprio Edmundo. Ou seja, enquanto produto o livro pertence aos dois. Nesse caso, teria sido melhor se Sérgio, jornalista que assina títulos bons de ler (como “Boston – A Mais Longa das Maratonas”, que já comentei aqui), ouvisse as histórias de Edmundo e as contasse em primeira pessoa, dando voz ao próprio jogador, recurso tantas vezes já utilizados em obras do tipo. O que temos aqui é praticamente um relato autobiográfico escrito em terceira pessoa. Seria mais justo com o leitor deixar claro que estamos diante da história de Edmundo estritamente sob sua ótica pouco crítica a si mesmo – sobre as presepadas, há no máximo um mea-culpa ou outro.

Não bastasse, a edição do texto ainda é problemática. Logo no começo, ao rememorar uma das partidas mais importantes da carreira de Edmundo, descobrimos que o Animal fez gols a seu favor tanto em Clemer, então goleiro do Flamengo, quanto em Carlos Germano, arqueiro do próprio Vasco defendido pelo atacante – é um equívoco, claro, todos os tentos foram em cima do goleiro rubro-negro. Algumas informações também se repetem praticamente da mesma forma em momentos diferentes do livro (a de que Evair e Edmundo não se davam bem fora de campo por conta das personalidades opostas, por exemplo).

Edmundo é alguém digno de uma biografia ou de um bom perfil biográfico? Inegavelmente. Mas merece um olhar crítico que consiga dar conta de toda a sua complexidade.

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Ailton Krenak: consumidores são adulados até o ponto de ficarem imbecis http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/11/ailton-krenak-consumidores-sao-adulados-ate-o-ponto-de-ficarem-imbecis/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/11/ailton-krenak-consumidores-sao-adulados-ate-o-ponto-de-ficarem-imbecis/#respond Thu, 11 Jul 2019 13:20:36 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6598

Foto: Henry M. Nakashima/ Foto 21

Ailton Krenak tem uma trajetória admirável. Ativista socioambiental, reuniu comunidades ribeirinhas e indígenas da Amazônia na Aliança dos Povos da Floresta e ajudou na criação da União das Nações Indígenas (UNI). Ao longo das décadas de 1970 e 1980, encampou a briga que resultou na inclusão de direitos indígenas na Constituição de 1988. Foi ele, inclusive, que protagonizou uma das cenas mais emblemáticas da Assembleia Constituinte, em 1987, quando pintou o rosto com tinta preta enquanto proferia o seu discurso. Krenak, o sobrenome que Ailton utiliza, é o nome de seu povo.

Krenak, um dos convidados da Flip deste ano, foi o entrevistado que mais me chamou a atenção quando assisti à série “Guerras do Brasil.doc”. É ele quem em certo momento mira o entrevistador e dispara: “Eu não sei por que você está me olhando com essa cara tão simpática. Nós estamos em guerra. O seu mundo e o meu mundo estão em guerra”. Esperava uma postura semelhante em “Ideias Para Adiar o Fim do Mundo”, pequeno livro que acaba de lançar pela Companhia das Letras, mas não é o caso. Na obra, as críticas e os alertas sobre os rumos do planeta são feitos, porém o tom é bem mais conciliador.

O volume reúne o conteúdo de duas conferências e uma entrevista realizadas em Portugal entre 2017 e 2019 – a palestra que dá nome à obra é a mais recente, rolou no último mês de março. Ao longo dos três textos, Krenak critica a maneira como o ser humano se vê separado da natureza – ou como um animal superior aos outros seres – e argumenta que essa postura é a responsável por encaminhar a humanidade à própria ruína. As ideias para que evitemos o fim do mundo aparecem mais nos alertas e entrelinhas do que como um didático compêndio de sugestões práticas.

“Como justificar que somos uma humanidade se mais de 70% estão totalmente alienados do mínimo exercício de ser? A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra em centros urbanos. Essas pessoas foram arrancadas de seus coletivos, de seus lugares de origem, e jogadas nesse liquidificador chamado humanidade. Se as pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos”, questiona e explana Krenak.

Mencionando nomes como Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, e Davi Kopenawa, líder yanomami que também já esteve na Flip, autor de “A Queda do Céu, Krenak discorre sobre a necessidade de culturas distintivas coabitarem de forma saudável um mesmo espaço e ataca o consumismo:

“Precisamos ser críticos a essa ideia plasmada de humanidade homogênea na qual há muito tempo o consumo tomou o lugar daquilo que antes era cidadania. José Mujica disse que transformamos as pessoas em consumidores, e não em cidadãos. E nossas crianças, desde a mais tenra idade, são ensinadas a serem clientes. Não tem gente mais adulada do que um consumidor. São adulados até o ponto de ficarem imbecis, babando. Então para que ser cidadão? Para que ter cidadania, alteridade, estar no mundo de uma maneira crítica e consciente, se você pode ser um consumidor? Essa ideia dispensa a experiência de viver numa terra cheia de sentido, numa plataforma para diferentes cosmovisões”.

Nessa linha, uma resposta que deu em 2018 a uma pergunta sobre o futuro dos indígenas no Brasil serve de resumo para a maneira como Krenak parece encarar os atuais problemas da humanidade: “Tem quinhentos anos que os índios estão resistindo, eu estou preocupado é com os brancos, como que vão fazer para escapar dessa”, disse. “A gente resistiu expandindo a nossa subjetividade, não aceitando essa ideia de que nós somos todos iguais. Ainda existem aproximadamente 250 etnias que querem ser diferentes umas das outras no Brasil, que falam mais de 150 línguas e dialetos”.

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Com direito a Glenn Greenwald, confira dez destaques da Flip deste ano http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/09/flip-2019-destaques-glenn-greenwald/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/09/flip-2019-destaques-glenn-greenwald/#respond Tue, 09 Jul 2019 08:39:52 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6591

Glenn Greenwald.

Entre esta quarta, dia 10, e o domingo, dia 14, rola a 17ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Há anos que os encontros entre escritores não se limitam ao palco principal, mas também acontecem nas diversas casas com programações paralelas que se espalham pelo centro histórico da cidade.

Neste ano, a grade da Flip e de outras 19 casas estão reunidas no site do evento. Mas vale dar uma boa olhada na programação de espaços importantes que não ostentarão a bandeirinha de “parceira oficial” ou algo do tipo (e, por isso, não aparecem no site da Flip), como a Cadeia Literária, o Sesc e a Casa da Porta Amarela. De tudo o que vai rolar por lá, esses são os meus dez destaques:

Dia 11 – quinta-feira

Quirinquinquá
Local: auditório da Matriz – programação principal da Flip
Horário: 20h30 às 21h45
Autores: Kalaf Epalenga e Gael Faye. Mediação de Marina Person.
Ainda não os li, mas só ouvi elogios a esses escritores profundamente influenciados pela música – Faye, natural do Burundi, já integrou o Milk Coffee and Sugar e hoje tem carreira solo, Falaf, angolano, foi líder da badalada Buraka Som Sistema. Se não tiver tempo de encarar os livros, vale procurar pelos sons deles por aí.

Bate-papo com booktubers
Local: Casa TAG
Horário: das 13h às 14h30
Booktubers: Isa Vichi, Mell Ferraz, Pedro Pacífico e Yuri Al’Hanati. Mediação de Luise Spieweck.
Se as questões mais quentes envolvendo os booktubers forem colocadas à mesa – resenhas pagas, publieditorial, transparência, diferença entre crítica e propaganda disfarçada de crítica, independência… –, tem tudo para ser um papo bem importante para o mercado.

Dia 12 – sexta-feira

Jeremoabo
Local: auditório da Matriz – programação principal da Flip
Horário: das 17h às 18h15
Autores: Karina Sainz Borgo e Miguel Del Castillo. Mediação de Guilherme Freitas
Uma coisa é escrever bem, outra é falar bem, óbvio. Em todo caso, a qualidade de “Noite em Caracas” coloca Karina Sainz Borgo como uma das atrações para se prestar muita atenção nesta Flip. Pode jogar luz em alguns pontos das trevas em que a Venezuela, seu país, está metida.

Karina Sainz Borgo. Fotos de Lisbeth Salas.

Sobre Lutas e Lágrimas: Uma Biografia
Local: Casa Libre & Santa Rita da Cássia
Horário: das 18h30 às 20h30
Autores: Mário Magalhães e Mônica Benício
Autor de “Marighella” e “Sobre Lutas e Lágrimas: Uma Biografia de 2018”, Mário Magalhães é uma voz que precisa muito ser ouvida. Não bastasse, ainda papeará com Mônica Benício, viúva de Marielle Franco, outra pessoa que tem muito a dizer sobre o momento do nosso país.

Os Desafios do Jornalismo em Tempos de Lava Jato
Local: Barco Flipei – Festa Literária Pirata das Editoras Independentes
Horário: das 19h às 20h30
Participantes: Glenn Greenwald, Alceu Castilho, Gregorio Duvivier e Sergio Amadeu. Mediação de Sabrina Fernandes.
Com todo respeito aos outros envolvidos, aqui eu deixaria apenas a Sabrina puxando uma conversa profunda com Glenn Greenwald, editor do The Intercept Brasil e um dos responsáveis pelas reportagens sobre as escandalosas articulações entre o então juiz Sérgio Moro e procuradores da Lava Jato. Gostem ou não de seu trabalho, Glenn é uma das figuras mais importantes do Brasil atual. Uma pena que o papo acontecerá exatamente na mesma hora da conversa entre Mário Magalhães e Mônica Benício.

Vaza-Barris [O Irapiranga dos Tapuias]
Local: auditório da praça – programação principal da Flip
Horário: das 20h30 às 21h45
Autores: Ailton Krenak e José Celso Martinez Corrêa. Mediação de Camila Mota.
Um ativista indígena e um ativista dos palcos, do teatro. Tem tudo para ser um dos encontros mais incisivos desta Flip, daqueles cheios de frases fortes e momentos marcantes.

Dia 13 – sábado

O Grande Romance Holandês
Local: Barco Holandês
Horário: das 11h às 12h
Participantes: Daniel Dago, Guilherme Gontijo Flores e Flavio Quintale
É empolgante ouvir Daniel Dago, especialista em literatura holandesa, falar sobre o seminal “Max Havelaar”. Dago é o responsável pela primeira tradução do clássico de Multatuli sobre absurdos do colonialismo direto para o português.

Prêmio Sesc de Literatura
Local: Sesc Unidade Santa Rita
Horário: 20h
Autores: Felipe Holloway e João Gabriel Paulsen. Mediação de Henrique Rodrigues.
Dois nomes que aparecem para a literatura já galardoados. Será o debute de Felipe Holloway, do romance “O Legado de Nossa Miséria”, e João Gabriel Paulsen, da reunião de contos “O Doce o Amargo”. Sempre legal acompanhar a primeira vez junto ao público dos vencedores do Prêmio Sesc, que se habituou a revelar artistas de primeira.

Ana Maria Gonçalves.

Dia 14 – domingo

Jornalismo Literário ou Literatura Jornalística?
Local: Sesc Unidade Santa Rita
Horário: 11h
Autores: Chico Felitti e Sérgio Rodrigues. Mediação de Schneider Carpeggiani
Encontro entre autores de livros recentes bem badalados: “Ricardo e Vânia”, de Chico Felitti, um perfil do homem apelidado de Fofão da Augusta, e o humorado volume de contos “A Visita de João Gilberto Aos Novos Baianos”, de Sérgio Rodrigues. Aposto numa conversa divertida, mas com bons momentos de reflexão sobre o fazer literário e jornalístico.

O Romance Como Identidade
Local: Sesc Unidade Santa Rita
Horário: 14h
Autores: João Cezar de Castro Rocha e Ana Maria Gonçalves. Mediação de Maria Fernanda Rodrigues.
A autora de um dos romances mais importantes deste século – “Um Defeito de Cor” – e um dos críticos que melhor consegue cruzar a literatura com o que acontece no, digamos, mundo real. Papo cabeça, mas com discuso bastante acessível.

Minha Flip

Além disso, estarei em Paraty para tomar umas cachaças (isso se os preços não estiverem ainda mais absurdos do que no ano passado) e fazer a mediação de três mesas (para estas, quando existentes, deixo as descrições oficias dos eventos):

Dia 12
A Palavra Performada
Horário: 11h
Local: Sesc Unidade Santa Rita
Autores: Luna Vitrolira e Ricardo Aleixo
“Dois poetas conversam sobre o processo de levar a poesia para o palco e para as ruas”.

Narrativas Malandras
Horário: 17h
Local: Sesc Unidade Santa Rita
Autores: Reinaldo Moraes e Giovana Madalosso
“A malandragem está mais viva do que nunca na literatura brasileira?”.

Dia 13
A Carreira do Autor Independente: Dicas e Lições para Autopublicar com Sucesso
Horário: das 15h30 às 16h30
Local: Casa Libre & Santa Rita da Cássia
Autores: Maílson Furtado, Juliana Dantas e Felipe Sali

Nos vemos por lá?

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Na literatura, João Gilberto fumou um beque e deslumbrou os Novos Baianos http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/08/joao-gilberto-novos-baianos-sergio-rodrigues/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/08/joao-gilberto-novos-baianos-sergio-rodrigues/#respond Mon, 08 Jul 2019 18:09:56 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6583

“O homem chegou num fim de tarde de sábado, tipo cinco horas. O Moraes tinha inventado aquele dia de fazer uma moqueca mas, típico, perdeu o pique e a Ritinha teve que assumir. Moqueca atrasada, todo mundo faminto e quase de porre da cerveja na barriga vazia, um táxi Opala novo e de banho tomado para na estradinha de terra e me desce um cara de terno preto carregando um violão.

Eu ri. Fazia um calor de melar cocaína, quase todo mundo no banho de mangueira, neguinho de sunga, Teresa Olho de Peixe, Baby e Pepita nuns deliciosos biquínis quase teóricos, de repente me desce do táxi a porra de um coroa de terno preto carregando um violão. De olhar, só olhas, pinicava o cocoruto. O táxi engatou uma ré e sumiu. Lembro de pensar, sujou, mas não deu tempo de ir longe na paranoia porque de repente o tempo parou”.

Bebês gêmeos se aproximaram engatinhando e balbuciando “ho-ba-la-lá, ho-ba-la-lá”. Pepeu saiu de casa esbaforido em busca das crianças, levou um susto quando se deparou com a cena e soltou um “epa!”. Moraes tinha “fumado três charros da grossura da canela da Ritinha” e estava numa leseira só; demorou um pouco para se dar conta do que acontecia. Quando a ficha caiu, ficou logo de pé, abriu os braços e começou a gritar: “João, meu rei, João, lá vem meu rei João, meu rei”.

Parte dos Novos Baianos.

Nosso narrador ficou surpreso: “Era a primeira vez que eu via esse comportamento de fã no Moraes, um cara no geral bem altivo e tal. Comecei a entender que normal era uma coisa que aquele dia não ia ser”. Daí pra frente, tudo é spoiler, mas ainda dou algumas pinceladas do que rolou no encontro entre João Giberto e os Novos Baianos segundo a imaginação do escritor Sérgio Rodrigues: Teresa tentou patolar João. Beque com bitola de charuto passou de boca em boca. Tinha também pimenta dedo-de-moça curtida em azeite (iguaria capaz de “matar cavalo”) e cachaça de Pernambuco. Quando o gênio pegou o violão, o de sempre: ritmo preciso, sutilezas harmônicas, “mão de metrônomo, voz reduzida a uma ideia de voz, sentido verbal totalmente evaporado”.

Uns disseram ter visto disco voador sobrevoando o pomar, outros tinham certeza de que admiravam um extraterrestre na sala. A viagem era mesmo louca. Dissonante, apenas uma das opiniões, convenientemente mantida em sigilo, sobre tudo aquilo que João fazia com seu violão. Opinião recorrente à boca miúda, é verdade, mas que não convém ser explicitada aqui, seja pelo spoiler (a esta altura concretizado, provavelmente), seja pelo respeito a um dos maiores artistas da história deste país, que no último sábado nos deixou.

João Gilberto e os Novos Baianos realmente estiveram juntos, sabemos. O gênio que inventou a bossa-nova e projetou a música brasileira para além das fronteiras do país também teve um papel decisivo para que a trupe de doidões compusesse “Acabou Chorare”, um dos maiores álbuns de nossa história. O encontro acima relatado é um conto que nasce justamente dessas trocas entre a loucura e a sobriedade, entre a ousadia e a precisão. “A Visita de João Gilberto Aos Novos Baianos” é a história breve que abre o livro homônimo escrito por Sérgio Rodrigues e há pouco lançado pela Companhia das Letras.

Ainda não cheguei ao fim do volume. Pretendia indicá-lo um pouco mais adiante, porém a morte de João tornou este texto urgente. Em todo caso, já percorri duas das três partes em que a obra se divide e acho improvável que o terço que me falta mude a visão que tenho sobre este trabalho de Rodrigues – ainda mais porque a leitura que resta é uma novela futebolística, campo no qual o autor manda muito bem (é dele o excelente “O Drible”) e onde nossos santos se abraçam.

Humor e ironia são elementos recorrentes nos textos sempre precisos de Sérgio. Na primeira parte de “A Visita de João Gilberto Aos Novos Baianos”, além do conto já relatado, ainda bisbilhotamos Capitu e acompanhamos uma farsa erótica que se passa na Vila Rica dos inconfidentes – como é fácil deduzir, nesse trio a imaginação do autor brilha. A segunda parte é metaliterária demais pro meu gosto (talvez isso seja mais problema meu do que do livro ou de outros leitores), mas tem ótimos momentos, como a imperdível microssérie “História do Mundo em Treze Tuítes”.

Falei da loucura e da sobriedade, da ousadia e da precisão que contrastam no encontro de João Gilberto com os Novos Baianos. Pois na literatura poucos dominam tão bem essa necessária mistura quanto Sérgio Rodrigues.

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Com “adversidade no DNA” e aposta em canadense, Ferréz lança editora de HQs http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/05/comix-zone-hq-editora-ferrez-thiago-ferreira-michel-rabagliati/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/05/comix-zone-hq-editora-ferrez-thiago-ferreira-michel-rabagliati/#respond Fri, 05 Jul 2019 13:17:57 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6572

Tem editora nova de quadrinhos na área: a Comix Zone, que chegará oficialmente ao mercado no dia 21 de julho com o a graphic novel “A Canção de Roland”, do canadense Michel Rabagliati, até então inédito no Brasil. O trabalho levou, em 2010, o prêmio do público no Festival de Angoulême, um dos mais importantes das HQs. O título já está em pré-venda e sairá com uma tiragem de 2000 exemplares.

O youtuber Thiago Ferreira e o escritor Ferréz são as cabeças por trás da editora. Thiago vive no Canadá há nove anos e comanda o Comix Zone, canal especializado em HQs que dá nome à iniciativa. Já Ferréz é uma das referências da literatura marginal no Brasil, autor de livros como “Capão Pecado” e “Manual Prático do Ódio”, e assumido fã de quadrinhos – lançou duas graphic novels em parceria com Alexandre De Maio, inclusive: “Desterro” e “Os Inimigos Não Mandam Flores”.

“A principal meta é publicar HQs que fujam do lugar-comum e carreguem uma mensagem edificante”, conta Ferréz, que propôs a parceria a Thiago depois que viu seu hoje sócio falando que gostaria de montar uma editora em um de seus vídeos no Youtube. “Eu já estava com essa ideia na cabeça, aí, quando vi que ele também tinha essa vontade, peguei o telefone e alinhamos tudo por WhatsApp”.

Desde 2009 Ferréz também administra o Selo Povo, que está prestes a lançar o livro “My Way – A Periferia de Moicano”, de Valo Velho, sobre o movimento punk em São Paulo. Na entrevista ao blog, o escritor comentou a decisão de iniciar uma nova empreitada num momento em que o mercado editorial não para de apresentar números desanimadores. “Nunca liguei pra essa coisa de ruim ou bom. Quem vem da periferia nunca viu nada bom. Então, a adversidade também faz parte do nosso DNA. Adoro desafios e creio que tem sempre uma oportunidade em meio a tantas adversidades. E, acima de tudo (não o jargão do Bolsonaro), fazer por amor e porque precisa ser feito”.

Quem escolheu o título de estreia da editora foi Thiago, que se apaixonou pelo trabalho de Rabagliati assim que se mudou para o Canadá. “Em 2010, descobri os quadrinhos dele e imediatamente ele se tornou um dos meus autores favoritos. Ele tem uma sensibilidade ímpar. É capaz de abordar temas do cotidiano como ninguém. Desde que abri o canal, em 2015, venho a cada oportunidade indicando esse cara. Já cheguei a recomendar diretamente para outras editoras, mas ninguém se interessou. Então, quando surgiu a ideia da gente montar a nossa editora, imediatamente me veio à mente o trabalho dele. ‘A Canção de Roland’ é seu álbum mais famoso, inclusive virou filme [‘Paul à Québec’] há dois anos”, conta.

Livro com pegada autobiográfica, em “A Canção de Roland” acompanhamos o quadrinista Paul, batizado pela mídia como “Tintin do Quebec”, em uma jornada sobre perda e a importância da família. Como pano de fundo, questões políticas canadenses, como os movimentos de independência de Quebec (causa foi derrotada em um referendo em 1995), também são traçadas.

A Comix Zone apostará na Amazon para fazer com que seus livros chegue a leitores de todo o país. “Ter uma parceira desse tamanho nos dá impulso pra arriscar mais capital. Podermos entrar de cabeça num negócio que, a princípio, tem cauda muito longa. E vamos distribuir em várias comic shops e livrarias dedicadas a HQs. Somos admiradores das lojas de quadrinhos e isso pra nós é fundamental”, comenta Ferréz. A promessa é que ainda este ano a editora coloque na praça mais dois ou três livros de “autores inéditos e bem fora da curva”.

Veja algumas páginas de “A Canção de Roland” (clique nas imagens para ampliá-las):

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Karina Sainz Borgo: a Venezuela para onde desejo voltar já não existe mais http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/03/karina-sainz-borgo-venezuela-noite-caracas-flip/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/03/karina-sainz-borgo-venezuela-noite-caracas-flip/#respond Wed, 03 Jul 2019 13:07:25 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6564

Karina Sainz Borgo. Fotos de Lisbeth Salas.

Os alimentos são raros. Materiais básicos para a saúde, mais raros ainda. Remédios são encontrados apenas no mercado negro. Adelaida Falcón gasta os tubos para tentar dar um tratamento digno à mãe doente. O final, no entanto, é inevitável. O caos se aproxima do surrealismo quando Adelaida precisa lidar com as burocracias do enterro.

“Pagar o velório foi ainda mais complicado que custear os últimos dias da minha mãe na clínica. O sistema bancário era uma ficção. Os caras da funerária não tinham maquininha de cartão, também não aceitavam transferências e eu não tinha dinheiro vivo suficiente para completar o valor que me pediam, algo em torno de duas mil vezes o meu salário. Se tivesse, também não o teriam aceitado. Naqueles dias ninguém queria notas. Eram papéis sem valor”, relata a personagem.

Não bastasse, ainda precisaria ser ligeira. Assaltos tinham se tornado comuns enquanto os vivos se despediam de seus mortos. Não havia canto realmente seguro naquela cidade. “Estar na rua às seis da tarde era uma maneira estúpida de rifar a existência. Qualquer coisa podia nos matar: um disparo, um sequestro, um assalto. Os apagões duravam horas e conectavam o pôr do sol a uma escuridão perpétua”, nos conta Adelaida. Nem a própria casa era um abrigo confiável.

Os Motoqueiros da Pátria se responsabilizavam pelo terror permanente nas ruas tomadas por milicianos. Infantaria com a qual a Revolução varria qualquer protesto contra o Comandante-Presidente, os Motoqueiros ganharam carta branca para saquear e arrasar o que bem entendessem quando o Estado deixou de ter dinheiro para pagá-los. Eram bandidos intocáveis e incontroláveis despidos de qualquer traço de humanidade. “Aquela não era uma nação, era uma trituradora”, reflete Adelaida, protagonista de “Noite em Caracas”, romance de estreia de Karina Sainz Borgo, jornalista venezuelana que vive desde 2006 em Madri.

Autora de obras não ficcionais como “Caracas Hip-hop”, Karina apostou na ficção porque estava mais preocupada em emocionar do que em informar o leitor, conforme conta na entrevista abaixo. E conseguiu. “Noite em Caracas”, que acaba de sair por aqui pela Intrínseca, é uma bordoada. Por meio de forma e tratamento estético dignos, nos coloca em meio à tragédia vivida há anos pelos venezuelanos. É um livro tão bom que nem o fato de termos mais uma protagonista formada em Letras e que atua como jornalista me fez torcer o nariz.

No romance, Karina não se limita a retratar o pandemônio que tomou conta de Caracas e de outras cidades. Também passa brevemente pelos bons tempos venezuelanos e pincela como se deu a derrocada do país. Se de início havia preocupação em estocar comida e surpresa quando, em meio a saques, via-se até um homem arrastando um piano pelo meio da rua, com o avançar da ruína até mesmo a personagem se pega pensando no que ela está se transformando. Em certo grau, a decadência moral a todos acomete, invariavelmente. “Já não éramos um país, éramos uma fossa séptica”, lemos.

O messianismo, a truculência e a vida de aparências, elementos que não são exclusivos da Venezuela, mas parecem inatos aos países latino-americanos, fazem parte da construção de “Noite em Caracas”. “Ninguém queria envelhecer nem parecer pobre. Ocultar, maquiar. Este era o distintivo da pátria: aparentar. Dava na mesma que houvesse ou não dinheiro, dava na mesma que o país estivesse caindo aos pedaços: o assunto era embelezar, aspirar a uma coroa, ser rainha de algo… do Carnaval, da cidade, do país. A mais alta, a mais bonita, a mais tola. Mesmo na miséria que impera na cidade, ainda consigo perceber traços dessa tara. Nossa monarquia sempre foi assim: a dos mais enfeitados, o mais vistoso ou vistosa. É disso que se tratava aquele assunto que rompeu o fluxo das ondas no cataclismo da vulgaridade. Na época podíamos nos permitir esse tipo de coisa. O petróleo pagava as contas pendentes. Ou era isso que pensávamos”, nota a protagonista que luta para deixar o país conhecido pela quantidade de coroas de Miss Universo que já ganhou.

Karina é uma das atrações da 17ª edição da Flip, que acontece entre os dias 10 e 14 deste mês – ela conversará com Miguel Del Castillo no dia 12, sexta-feira. Se você ainda não leu nada do pessoal convidado deste ano, recomendo fortemente que deixe as badaladas Sheila Heti e Kristen Roupenian pra lá e comece pela venezuelana, que me respondeu as perguntas abaixo:

Quando você olha para a atual situação da Venezuela, qual é o seu sentimento? Sonha em um dia voltar a viver no país?

É um sentimento de profunda desolação. É quase um duelo, um luto muito profundo e doloroso que se mistura com a raiva, a dor e a sensação de ter sido objeto de um ultraje. Como se no lugar de destruir um país, houvessem-no matado. A Venezuela para onde desejo regressar já não existe mais.

Em que momento você percebeu que a crise no país era incontornável? O que exatamente te fez buscar outro lugar para viver?

Foi logo. Quando em 2006 saí da Venezuela e vim para a Espanha, o fiz porque sempre quis viver em outros lugares, zanzar e aprender com outras experiências, porém, ao mesmo tempo eu tinha uma sensação de ser expulsa. O país não me reconhecia e eu não reconhecia o país.

Na sua análise, qual foi o fator decisivo para que a Venezuela chegasse à situação atual?

O que temos vivido é o resultado de um processo complexo, no qual muitos elementos convergem, todos eles associados a uma democracia jovem, que não soube se defender. No entanto, ressalto uma das causas mais importantes: creio que, como sociedade, temos que corrigir nossa relação desproporcional e tóxica com os líderes messiânicos, desde Simón Bolívar e o culto à sua figura até Hugo Chávez.

E o que a Venezuela precisaria fazer para começar a sair dessa crise?

Convocar eleições livres e transparentes, com observadores internacionais confiáveis.

Você é jornalista, mas optou por escrever um livro de ficção. Por quê?

Não vejo o exercício da literatura como algo alheio ao jornalismo. Dito isso, quero ressaltar que há muitos anos faço jornalismo e também escrevo ficção. Esse é o meu primeiro romance publicado, mas tenho outros três escritos. Além disso, se quisesse informar, teria escrito uma reportagem, mas eu queria emocionar. Por isso escrevi um romance.

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Com direito a conjes, Caco Galhardo escolhe 5 de suas tiras mais marcantes http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/02/com-direito-a-conjes-caco-galhardo-escolhe-5-de-suas-tiras-mais-marcantes/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/07/02/com-direito-a-conjes-caco-galhardo-escolhe-5-de-suas-tiras-mais-marcantes/#respond Tue, 02 Jul 2019 12:46:51 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=6554

É monumental o livro “Cinco Mil Anos: E Quase Todas as Tiras”, que o quadrinista Caco Galhardo acaba de lançar pela Quadrinhos na Cia. Em 1997, Caco estreou na Folha de São Paulo com tirinhas que apresentaram aos leitores personagens como Lili (que viraria série pela GNT), os Pescoçudos, Chico Bacon, o Amabilíssimo Homem das Neves e a dupla Umberto Ego e Gilberto Gideleuze.

Todos esses ícones de nossos quadrinhos – e diversos outros – estão presentes na antologia que reúne trabalhos feitos pelo artista nesses últimos 20 e poucos anos. São principalmente tirinhas cheias de humor, provocações ao cotidiano e reflexões existenciais, mas também algumas charges, histórias breves e releituras de quadros famosos (aqui assumo minha paixão pela versão galhardiana para “Nighthawks”, de Edward Hopper).

Na apresentação, o escritor Reinaldo Moraes define “Cinco Mil Anos” como uma “máquina de arrebentar diafragmas de tanto rir”. Na sequência, afirma que as HQs de Galhardo são “verdadeiros haicais de humor fulminante que te fazem também abanar a cabeça, vez por outra, em concordância filosófica com as sacadas dos personagens, cheias de uma sabedoria de vida, em versão pop, encontrável, penso eu, apenas na obra dos melhores cartunistas”.

A pedido do Página Cinco, Caco selecionou cinco tiras presentes na antologia que considera representativas de sua obra. “Tarefa árdua, a coletânea é um tijolo de mais de 300 páginas e tem muuuuuita coisa”, diz ele. “Acabei optando por cinco personagens que são meus xodós, lá vai”:

“Essa é a primeira tira de ‘Lili, A Ex’, lançada em 2009 (lá se vão dez anos). Na época, várias amigas tinham se separado e minha ex-mulher ficava horas com elas no celular, falando sobre os exs. Acabei desenhando a ex obcecada. Deu tão certo que virou uma premiada série no GNT, estrelada pela Maria Casadevall. Marcou também minha entrada no mundo dos roteiros de filmes e séries”.

“Alguns séculos antes de criar a Lili, estreei na Folha de São Paulo com esses personagens esquisitos, os ‘Pescoçudos’. Eles não só tinham uma visão distorcida da realidade, mas contorcida também. Era um povinho neurótico, que só trabalhava, tomava remédio e não enxergava uns aos outros. Isso é década de 1990. E quer saber? A coisa só piorou, acho que entortamos o pescoço de vez! Se bobear, tá na hora de voltar a desenhar esses ‘caritchas’”.

“Depois de alguns milênios desenhando ‘Pescoçudos’, restou-me um baita torcicolo. Me enchi de fazer tanta crítica comportamental e resolvi soltar o frangolhão. O Chico Bacon é um personagem sem superego, sem filtros, um cara que pode fazer qualquer coisa que lhe dê na telha. Pra ele, tudo é possível. Foi uma espécia de libertação, que combinou com uma fase de excessos na minha vida pessoal. Sim, eu estava precisando”.

“Os Conjugal Fighters são ‘conjes’ com superpoderes que vivem em um mundo de picuinhas de qualquer casal normal. Só que, no caso, as picuinhas são resolvidas com jatos de raios gama, socos com a potência de mil cavalos e chutes no vácuo com joelhada”.

“Tudo que o Pequeno Pônei quer é ser um poeta underground, um Bukowski, um guitarrista punk rock. O problema é que ele é um pônei, um maldito bicho fofo. Por isso ele está sempre resmungando: ‘odeio o sistema!’ O Pônei também foi adaptado para a televisão, em uma série de animações no Cartoon Network, na época em que eles tinham uma faixa de animações adultas, o ‘Adult Swim’. E lá se foram cinco mil anos, that’s all folks!”

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