Página Cinco http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos ao e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos. Wed, 20 Nov 2019 09:22:45 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Ele trabalha para “romper a manutenção do racismo na literatura brasileira” http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/20/ele-trabalha-para-romper-a-manutencao-do-racismo-na-literatura-brasileira/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/20/ele-trabalha-para-romper-a-manutencao-do-racismo-na-literatura-brasileira/#respond Wed, 20 Nov 2019 09:22:45 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=7129

Vagner Amaro. Foto de Francisco Jorge.

Conceição Evaristo, Geni Guimarães, Miriam Alves, Salgado Maranhão, Muniz Sodré, Éle Semog, Cidinha da Silva, Cristiane Sobral, Carlos Eduardo Pereira, Eliana Alves Cruz, Tom Farias, Mel Duarte… Esses são apenas alguns dos muitos nomes que se destacam na produção literária de autores negros no Brasil de hoje. Eles dão sequência a uma tradição que norteia os rumos da própria história literária brasileira, como aponta o editor Vagner Amaro:

“Gosto de pensar na trajetória dos escritores negros. Esta trajetória não acontece na literatura brasileira, esta trajetória é a literatura brasileira, se iniciando com o negro Teixeira e Sousa, primeiro romancista brasileiro, com a negra Maria Firmina dos Reis, primeira romancista brasileira, passando pelo negro Paula Brito, importantíssimo editor brasileiro do século 19, passando pelo negro Machado de Assis, maior escritor brasileiro, e tantos outros dos séculos 19, 20 e 21”. Mais alguns nomes retumbantes para a lista? Que tal Lima Barreto e Carolina Maria de Jesus?

Trabalhando como bibliotecário, no entanto, Amaro notou que muitos autores negros, apesar da qualidade de suas produções, não conseguiam encontrar brechas no tal mercado editorial. Apesar de bancarem autopublicações e darem um jeito de encontrar o próprio público em diversos tipos de eventos, seus livros não estavam facilmente disponível a quem quisesse adquiri-los para colocar numa biblioteca, por exemplo, como era o caso de Vagner. Ele, então, reuniu suas economias, juntou-se a um amigo professor e em 2016 criou a Malê, editora focada em livros de temática afro-brasileira.

De lá pra cá, cerca de 60 volumes foram publicados. Neste mês chegam às livrarias títulos como “Firmina”, de Bárbara Simões, “Em Silêncios Prescritos: Estudos de Romance de Autoras Negras Brasileiras (1859-2006)”, de Fernanda R. Miranda, “Gosto de Amora”, de Mário Medeiros, e “República do Vírus”, de António Quino. Na entrevista a seguir, Vagner avalia o momento da literatura negra no país, fala sobre o racismo estrutural no qual o mercado editorial está metido e comenta a importância de termos cada vez mais negros produzindo e protagonizando nossa literatura.

“Ter mais escritores negros (bons e ruins), ter mais personagens negros, pode contribuir para a reelaboração deste imaginário social sobre o negro, que afeta todas as atitudes negativas pelas quais os negros são impactados e bloqueia as oportunidades que a população negra poderia ter, e não tem”, crê. “Ampliar o conhecimento sobre as tradições literárias africanas é importantíssimo para descolonizar o pensamento, o imaginário, para desvencilhar do pensamento de que tudo que é europeu é bom e tudo que africano é ruim”, complementa.

Qual é a importância de termos mais autores negros produzindo literatura brasileira e mais personagens negros protagonizando nossas histórias?

É importante para romper a manutenção do racismo na literatura brasileira. O racismo na literatura se atualiza quando as oportunidades de publicar são menores para escritores negros do que para escritores brancos, se atualiza nas representações estereotipadas que os autores brancos fazem dos personagens negros. Então, aliado a todos os textos e imagens que já desqualificam os negros de diversas formas, também está o texto literário; aliado a todos os apagamentos que são feitos sobre as personalidades negras, está o apagamento dos escritores negros, e nisso também se enquadra o branqueamento pelo qual alguns dos nossos escritores foram vítimas, como Machado de Assis e Maria Firmina dos Reis.

Os textos racistas formam as pessoas. Veja, por exemplo, a paixão que leva sempre a defesas calorosas de Monteiro Lobato, um escritor assumidamente racista e que, mesmo assim, segue recebendo homenagens em eventos literários. Não existe pudor em defendê-lo, e quem o defende não se lê, também, como racista, embora seja. Há uma diferença entre se colocar contra a censura dos livros do Monteiro Lobado e defendê-lo, e negar seu racismo. Muitas pessoas passaram a gostar de ler a partir da obra dele. Existe uma paixão, a paixão que sentimos quando um texto nos toca. Transferimos essa paixão para o autor do texto. É nítido que banir o texto de Lobato, ou qualquer outro texto, seria uma idiotice, mas negar o racismo declarado do autor é uma atitude que revela um descompromisso ético de quem nega. Negar o racismo é uma das mais perversas estratégias para que ele se perpetue.

A formação que o texto literário promove contribui para a elaboração de uma visão de mundo, de um imaginário social, em que características como o padrão, o normal, o bonito, o inteligente, o universal são atribuídas às pessoas brancas e as características negativas às pessoas negras. Ora, como não imaginar que as ideias que vamos formulando durante a vida, a partir destes textos racistas (não apenas os literários), não afetariam a recepção do texto literário? Não afetaria a curadoria dos editores das grandes editoras? Não afetaria os jurados dos prêmios literários? Não aferia a curadoria dos grandes eventos literários? As distribuidoras? Não afetaria até mesmo a vendedora da livraria que podendo indicar ou destacar um livro de um autor negro opta por indicar o de um autor branco? Não afetaria nossa compreensão sobre as relações humanas, sobre o outro, quando este outro é um sujeito negro?

Então, acredito que os impedimentos colocados para os escritores negros, para a publicação e divulgação dos seus textos, faz parte de um mesmo sistema que necessita atualizar constantemente o racismo, muitas vezes a partir da desqualificação dos negros ou dos bloqueios de acesso aos espaços mais disputados, para a manutenção dos privilégios dos brancos. Mas, focando em um dos muitos aspectos possíveis para responder essa pergunta, ter mais escritores negros (bons e ruins), ter mais personagens negros, pode contribuir para a reelaboração deste imaginário social sobre o negro, que afeta todas as atitudes negativas pelas quais os negros são impactados e bloqueia as oportunidades que a população negra poderia ter, e não tem.

Como você avalia esse momento da literatura feita por autores negros no país? Quais conquistas já foram feitas? O que ainda precisa ser conquistado?

Estamos em um momento em que há um aumento de interesse na literatura feita por autores negros. Há também um nítido interesse, também crescente, mais específico, na literatura escrita por autoras negras. Eu acredito que uma das primeiras conquistas foi pautar o debate sobre as desigualdades no mercado editorial brasileiro, e isso ocorreu de forma mais intensa a partir da Flip [Festa Literária Internacional de Paraty] de 2016, quando estávamos lançando o primeiro livro da Malê: “Histórias de Leves Enganos e Parecenças”, da Conceição Evaristo. Alguns escritores que vinham trabalhando de forma muito independente passaram a ter seus livros publicados pela Malê e por algumas outras editoras e isso contribuiu muito para que os leitores encontrassem os seus livros.

Então, os livros estarem mais acessíveis é uma grande conquista, e os autores negros estarem mais presentes nos eventos literários e nos cadernos culturais também é uma grande conquista. Serem citados nas provas do Enem e nos livros didáticos também. Hoje, se há uma característica marcante na literatura feita por autores negros, é a diversidade. Os textos que têm sido publicados trazem uma marca autoral muito definida.

Precisa ainda ser conquistada a compreensão de que a literatura negra brasileira não é uma literatura de nicho, e que as editoras que possuem maior fôlego para investimentos, invistam em escritores negros brasileiros. É interessante como no Brasil a atitude racista se sobrepõe até mesmo ao senso comercial. Não é preciso muito esforço para perceber que o interesse na literatura negra brasileira é grande e que os livros destes escritores possuem potencial comercial. Fica a pergunta. Por que tantos escritores negros continuam sendo ignorados pelo mainstream editorial?

Carolina Maria de Jesus.

Nesse sentido, mas olhando para a Malê, quais foram as grandes frustrações e satisfações nesses três anos e pouco de editora?

Eu estava em uma feira literária no MAR [Museu de Arte do Rio] e uma moça negra veio falar comigo: “Você é o Vagner Amaro? Não é isso?” Disse que sim. Então ela falou: “Muito obrigada pelo seu trabalho, era só isso que eu queria dizer”. E saiu.

A minha satisfação está em perceber que o trabalho que eu desenvolvo tem um significado grande para muitas pessoas, principalmente para muitas pessoas negras. Lembro de uma senhora, professora, em São Paulo, que veio conversar comigo, falou da importância do trabalho da Malê e disse enfaticamente: “Não desista!” Outra satisfação é ver alguns dos jovens do Prêmio Malê de Literatura seguindo uma carreira literária. Olhar para estes três anos em que venho publicando e perceber que houve uma ampliação do conhecimento sobre os autores negros é uma grande satisfação.

Algumas frustrações ocorrem quando não há uma compreensão sobre o nível sobrehumano de dedicação para que a editora dê certo. É preciso marcar que a Malê surgiu de investimentos próprios de dois trabalhadores, um bibliotecário e um professor, então seu tamanho, suas medidas, suas possibilidades refletem isso. Quando surgem comparações com editoras que já estavam aqui quando eu nem era nascido, ou era uma criança, ou com empresas familiares que estão no ramo desde a metade do século passado, é bastante cruel. Recentemente ouvi: “Em quinze anos, quantos livros você já publicou?” Não, pessoal, calma, são apenas três anos publicando.

Por conta da opção de formar um catálogo dominado por autores negros, em algum momento você já precisou lidar com gente acusando a editora de “racismo reverso” ou outra bobagem do tipo?

Existe este artifício desonesto de acusar o antirracista de racista, para assim desqualificar a fala que denuncia o racismo. Já fomos acusados diversas vezes e quase sempre que sai uma matéria sobre a Malê, comentários deste tipo aparecem. Já recebemos e-mails nos acusando de racistas. É uma disputa de narrativas.

Se em três anos eu publiquei textos literários de cerca de cem autores, como manter a narrativa de que não existem escritores negros, ou que existem poucos escritores negros? Se os livros da Malê aparecem nas listas de finalistas dos mais importantes prêmios literários, como sustentar a narrativa que os escritores negros não escrevem bem? Ou a narrativa absurda de que a desigualdade social que leva uma parcela da população negra a não concluir o ensino formal levou a não termos escritores negros? Então, a Malê, com a visibilidade que tem, desarticula essas falas de uma total desonestidade intelectual, cria outra compreensão, o que irrita os racistas. Da mesma forma, é bem interessante o argumento ‘eu não leio o livro pela cor do autor’, como se isso encerrasse a questão. Lendo ou não pela cor do autor, o racismo estrutural afeta o sistema literário, e essa deveria ser uma questão de todos.

O primeiro livro que vocês publicaram foi “Histórias de Leves Enganos e Parecenças”, da Conceição Evaristo. Qual a importância da Conceição hoje na nossa cena literária? Mais do que uma escritora, ela se tornou um grande símbolo?

Conceição Evarsito é uma das grandes intelectuais brasileiras. Ela tem uma legitimidade para falar o que fala e refletir sobre o que reflete que pouca gente tem. Ela viveu a pobreza na infância, mas também estudou nas melhores universidades do Brasil como a UFRJ e PUC. Lecionou em escolas públicas. Isso faz com que ela consiga conceber uma visão muito elaborada das relações de opressão na sociedade brasileira, o que reflete na sua obra aliado a um trato literário muito cuidadoso e competente. Foi importantíssimo começar a Malê com a Conceição, aguardamos quase um ano para isso.

Considero também que é um marco para a Malê que o “Histórias de Leves Enganos e Parecenças” tenha sido o primeiro livro da Conceição Evaristo que teve o investimento da editora para ser publicado. Até então, Conceição precisava investir nas suas publicações, autopublicação. Só não fez isso com o livro de contos “Olhos D’água” (Pallas) porque este contou com o apoio de um edital da Biblioteca Nacional. Então, essa estreia da Malê já trouxe uma certa medida de como trabalharíamos, das nossas intenções. Em cada época, os movimentos negros, os movimentos sociais, elegem espontaneamente seus representantes. Conceição Evaristo, sem dúvida, é uma representante de muitas minorias sociais do nosso tempo e a atuação dela na nossa sociedade é muito coerente com este posto em que, mesmo que virtualmente, ela foi colocada.

Conceição Evaristo.

Quão importante é também resgatarmos ou apresentarmos aos brasileiros as tradições literárias da África negra?

No Brasil existe um desconhecimento sobre os países africanos que é constrangedor, um país com a maioria da população formada por homens negros e por mulheres negras, descendentes dos africanos que foram escravizados. É interessante pensarmos que autores dos países africanos mais conhecidos no Brasil são brancos, descendentes dos colonizadores. O que levou a isso, senão as questões que já comentei nesta entrevista?

Nesta última década eu percebo um interesse maior das editoras em publicarem os escritores e as escritoras negras africanas, mas ainda é algo muito tímido. Pela Malê, no nosso pouco tempo de existência, publiquei obras individuais do Alain Mabanckou, da Fatou Diome e do Dany Wambire, e organizei com o Dany a coletânea “Do Índico e do Atlântico”, em que publicamos contos de cinco autores moçambicanos que ainda não tinham sido publicados no Brasil e de autores brasileiros que ainda não tinham sido publicados em Moçambique.

Ampliar o conhecimento sobre as tradições literárias africanas é importantíssimo para descolonizar o pensamento, o imaginário, para desvencilhar do pensamento de que tudo que é europeu é bom e tudo que africano é ruim. Precisamos, ainda, de antídotos, contradiscursos, contra todas as concepções que foram criadas para desqualificar os africanos, os negros… Concepções criadas apenas para dominar, explorar, escravizar, manter privilégios… Eu acredito que a literatura pode ser um desses antídotos.

Sabemos que o mercado editorial vive um momento especialmente delicado, principalmente em termos comerciais. Como foi nascer nesse cenário?

A Malê foi fundada já em um momento desfavorável, então foi pensada para caber dentro desta realidade. Hoje o país está com cerca de 13 milhões de desempregados, o livro que já não costuma fazer parte da “cesta básica” do brasileiro, é um dos primeiros itens a deixar de ser comprado. Conseguimos nos beneficiar da demanda que havia para os livros que vinham sendo publicados de forma independente ou estavam já há muito tempo fora de catálogo. Mas, além disso, o mercado precisa buscar outra forma de se estruturar. No caso das editoras pequenas, isso passa por uma relação comercial que garanta uma saúde financeira para estas empresas, pois muitas deixam de existir com dois, três anos, e nisso poderíamos pensar em percentuais diferenciados para consignações com livrarias e distribuidores, por exemplo. A própria consignação também é algo que precisa ser repensado, assim como os prazos.

Qual é o lugar da literatura brasileira no Brasil? Eu fico sempre lembrando de entrevistas de cantores e músicos que no início da década de 1980 “defendiam” a música brasileira. A pauta deles era: “não se toca música brasileira nas rádios, apenas música internacional”. Com o tempo essa realidade foi mudando. Então, será que não deveríamos refletir sobre as listas dos livros mais vendidos e tentar compreender o que faz aqueles livros estarem ali? Quais investimentos foram feitos para aqueles livros venderem tanto? Por que não se investe assim nos autores da literatura brasileira contemporânea? Existem trabalhos de formação de leitores para a literatura brasileira que vem sendo produzida a partir dos anos 2000?

Organizei um livro e publiquei pela Malê em 2017: “Olhos de Azeviche”. O que afirmo na apresentação dele é que as escritoras negras foram elaborando há muito tempo formas de conquistar leitores. Estando fora das editoras, elas passaram a autopublicar seus livros, organizar e participar de reuniões, coletivos, clubes de leitura, saraus, visitas em colégio, encontros diversos dos movimentos negros… Se empresariar é importante, mas também não podemos deixar de pensar em soluções para o mercado editorial que não signifiquem simplesmente vender para o governo. No Brasil, até a visão do livro como um objeto de consumo ainda é problemática. Persiste a ideia de que o livro é caro, mesmo que ele custe o preço de dois ingressos para o cinema, ou para um jogo de futebol, menos que um DVD… A questão não está no preço, mas em quanto o brasileiro está disposto a pagar por um livro, e até mesmo se está disposto a pagar por um livro.

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Escravidão é assunto esgotado? Livro de Laurentino Gomes comprova que não http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/19/escravidao-e-assunto-esgotado-livro-de-laurentino-gomes-comprova-que-nao/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/19/escravidao-e-assunto-esgotado-livro-de-laurentino-gomes-comprova-que-nao/#respond Tue, 19 Nov 2019 11:55:14 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=7126

Laurentino em visita ao cubículo de uma senzala no Engenho Uruaé, na Zona da Mata de Pernambuco, com argola de ferro usada para imobilizar escravos. Foto de Carmen Gomes.

“Na economia escravagista havia até um negócio paralelo, tão constrangedor que nunca recebeu grande destaque na história da escravidão: a reprodução sistemática de escravos, com objetivo de vender as crianças, da mesma forma como se comercializam animais domésticos. Era uma prática tão repulsiva que são esparsos os relatos de experiências conduzidas em Portugal, na Espanha e nos Estados Unidos. Uma delas foi registrada no palácio ducal de Vila Viçosa, sede dos duques de Bragança, a dinastia que assumiria o trono de Portugal a partir do fim da União Ibérica, em 1640, com a ascensão de dom João IV ao poder. Ao visitar o local, em 1571, o italiano Giambattista Venturino se surpreendeu com a existência ali de um centro de reprodução de escravos. Segundo ele, eram tratados da ‘mesma forma como manadas de cavalos são na Itália’, com objetivo de obter o maior número possível de crianças cativas, que seriam vendidas em seguida por preços entre trinta e quarenta escudos”.

Ler “Escravidão – Do Primeiro Leilão de Cativos em Portugal Até a Morte de Zumbi dos Palmares”, primeiro volume de uma trilogia do jornalista Laurentino Gomes sobre a história da escravidão em nosso país, é se deparar a todo momento com atrocidades como esta: um centro de reprodução forçada de cativos. Não é novidade o processo de desumanização pelo qual negros foram submetidos ao longo de séculos para que fossem utilizados como escravos, mas, ainda assim, impossível não se chocar com passagens como a mencionada acima. Já tinha entrevistado o autor sobre a obra e publicado com exclusividade a introdução do volume. Agora trago minhas impressões sobre o título.

Laurentino acerta ao construir uma narrativa que a todo momento dialoga com o presente. Vivemos num país onde negros recebem menos do que os brancos, são mais assassinados pela polícia e costumam ser maioria nas áreas desprezadas pelo Estado. Realizando pesquisas para o trabalho, o escritor passou por mais de uma dezena de nações de três continentes diferentes e mostra como as consequências da escravidão ainda ecoam também nesses lugares – o leitor poderá ficar surpreso ao notar como o Brasil se assemelha, em diversos pontos positivos e problemáticos, muito mais a países africanos do que às nações ditas desenvolvidas com as quais normalmente nos comparamos. Diferente do que tentam pintar alguns, a ferida provocada por uma das maiores atrocidades da história humana ainda está longe de cicatrizar.

Destino de quase 5 milhões de africanos cativos – 40% dos cerca de 12 milhões enviados para a América –, o Brasil foi maior território escravista do Ocidente por quase 350 anos e hoje é o segundo país com a maior população negra ou de origem africana do mundo, atrás da Nigéria. Uma em cada três viagens de compra e venda de escravos foi organizada no Brasil. Os portugueses e brasileiros eram os campeões desse tipo de tráfico, o maior negócio do mundo até o começo do século 19, sendo responsáveis por praticamente metade dos escravizados embarcados na África. “Nos seus três séculos como colônia de Portugal, o Brasil foi sinônimo de açúcar. E açúcar era sinônimo de escravidão. [….] Só a partir de 1831 um novo rei despontaria no horizonte da economia brasileira: o café. E o café era, também ele, sinônimo de escravidão”, escreve Laurentino. Essas são apenas algumas informações que evidenciam como o tráfico de escravos é um elemento central na formação do país.

Laurentino passa por assuntos como a invasão, apropriação, exploração e matança dos europeus ao darem as caras por aqui (“Quando os portugueses chegaram à Bahia, todas as regiões brasileiras já eram habitadas”, recorda) e a escravidão dos indígenas – outra tragédia, esta bem menos documentada. Também constrói um panorama da África de séculos atrás, mostrando um continente muito mais vibrante e complexo do que pintam os esteriótipos, e explica de que forma líderes locais contribuíam para que os próprios africanos fossem escravizados.

Há mais informações que impressionam. Na África, cerca de 45% dos escravizados morriam no trajeto entre o lugar da captura e o litoral. Outros tantos não aguentavam as demais etapas da longa travessia. Estima-se que de cada cem pessoas capturadas, apenas 40 sobreviviam ao final da jornada. Ao longo de 350 anos, cerca de 24 milhões de pessoas foram lançadas nas “engrenagens do tráfico negreiro”, aproximadamente 12 milhões morreram antes de sair da África. A outra metade foi colocada em navios, mas pouco mais de 10 milhões suportaram chegar ao destino. A trilha de corpos lançados ao mar pelas embarcações que traficavam seres humanos mudou, inclusive, o hábito dos tubarões no Oceano Atlântico. Os animais passaram a seguir os navios esperando para devorar as pessoas que eram descartadas. Os próprios navios deixavam um rastro peculiar: fediam tanto que, segundo marinheiros, era possível detectar sua presença em alto-mar antes mesmo que aparecessem na linha do horizonte.

Laurentino com o guia Beni Nazáro na Rota dos Escravos, em Ajudá, na República do Benim. Foto de Carmen Gomes.

Traço característico de outras obras do autor, como os best-sellers “1808” e “1822”, diversos personagens são bem explorados por Laurentino. Há bom espaço para figuras incontornáveis num trabalho desta natureza, como a Rainha Ginga e Zumbi dos Palmares, mas o leitor pode ficar surpreso mesmo ao conhecer trajetórias de nomes que não costumamos ver com frequência por aí. Um exemplo? Francisco Félix de Souza. Ele nasceu em Salvador e, ainda jovem, mudou para a África, onde trabalhou como traficante de escravos. Tornou-se o mais rico, famoso e influente mercador de seres humanos da costa africana – teria mandado mais de meio milhão de escravizados para o Recôncavo Baiano. Quando morreu, em 1848, aos 94 anos, deixou 53 viúvas e mais de 80 filhos. Hoje, seus descendentes ocupam posições importantes na hierarquia social de quatro países: República do Benim, Nigéria, Togo e Costa do Marfim, outra comprovação de como a herança da escravidão impacta em nossos dias.

Seres humanos escravizando outros seres humanos não é algo que surgiu ali pelo século 15 nem teve a África como palco de estreia de tal atrocidade. “A escravidão é um fenômeno tão antigo quanto a própria história da humanidade”, registra Laurentino. Para o autor, contudo, a escravidão nas Américas se distingue de outras por dois fatores: o regime de trabalho (os escravizados eram utilizados em “condição equivalente à das máquinas agrícolas industriais de hoje”) e o nascimento da ideologia racista, “que passou a associar a cor da pele à condição de escravo…. O negro seria naturalmente selvagem, bárbaro, preguiçoso, idólatra, de inteligência curta, canibal, promíscuo, ‘só podendo ascender à plena humanidade pelo aprendizado da servidão’, explica o africanista brasileiro Alberto da Costa e Silva. Sua vocação natural seria, portanto, o cativeiro, onde viveria sob tutela dos brancos”. Duro notar que tal ideologia segue, de alguma forma, em vigor na cabeça de muita gente tosca por aí.

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A censura está aí, agora precisamos pensar em como combatê-la http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/14/a-censura-esta-ai-agora-precisamos-pensar-em-como-combate-la/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/14/a-censura-esta-ai-agora-precisamos-pensar-em-como-combate-la/#respond Thu, 14 Nov 2019 17:10:22 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=7119

Luisa em foto de Desirée Ferreira / Divulgação.

O que rolou desta vez: Luisa Geisler, autora de “Contos de Mentira”, “Quiça” (ambos publicados pela Record) e “Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente” (Alfaguara), premiada com o Sesc de Literatura de 2010 e que já figurou entre os finalistas do Machado de Assis e do Jabuti, tinha sido convidada para a 15ª Feira do Livro de Nova Hertz, que acontecerá entre os dias 27 e 30 na cidade gaúcha. A ideia, contou Luisa, era conversar com alunos do Ensino Fundamental sobre “Enfim, Capivaras” (Seguinte), seu romance juvenil que teve, inclusive, exemplares comprados pela prefeitura de Nova Hertz para disponibilizá-los a escolas da rede pública.

Guardiões da moral e dos bons costumes, no entanto, reclamaram do linguajar empregado por Luisa em sua obra. Escandalizaram-se com um palavrão aqui e outro ali, como se aquele tipo de coisa não fizesse parte da vida de adolescentes e pré-adolescentes. Após chiliques, teve escola que escondeu o livro de Luisa. Na Câmara local, teve vereador que comemorou a decisão. O convite feito à escritora para participar da Feira do Livro foi retirado. Tanto Luisa quanto a Companhia das Letras, casa do selo Seguinte, tratam o episódio como um caso de censura.

Há mais de dois anos, desde o cancelamento da mostra “Queermuseu”, então em cartaz no Santander Cultural de Porto Alegre, que trato de fatos de teor semelhante aqui no Página Cinco. Falei, por exemplo, da perseguição à escritora Ana Maria Machado, bizarramente acusada de fazer apologia ao suicídio infantil, dos rojões disparados contra Glenn Greenwald na Flip, das ameaças feitas pelos cidadãos de Jaraguá do Sul à jornalista Miriam Leitão e ao sociólogo Sérgio Abranches e da patrulha homofóbica de Marcelo Crivella durante a Bienal do Livro do Rio. No Twitter, há uma longa de lista com matérias e artigos que escrevi sobre esses episódios e o contexto social e político em que estão inseridos.

Não esgoto os episódios. Nesse tempo, ainda tivemos peça banida em Jundiaí, quadro apreendido em Campo Grande, Bienal do Livro estranhamente interditada em Contagem (MG), o filme sobre Marighella que nunca estreia… Há quem ainda discuta se estamos ou não vivendo uma era de censura às artes. Tempo perdido. Não há mais o que discutir: a perseguição, a patrulha, o desmonte e a censura já acontecem há mais de dois anos. Diferente de outrora, os dispositivos utilizados pelos censores não vêm de algum órgão oficial, mas são artimanhas que, perante olhares ingênuos ou já propícios a aplaudir a volta às trevas, soam como medidas razoáveis.

Mas não é razoável que uma mostra queer seja encerrada antes do previsto por temor do que poderia acontecer. Que uma peça seja cancelada porque uma transexual interpreta Jesus Cristo. Que uma escritora consagrada seja perseguida. Que rojões sejam disparados contra um jornalista. Que um prefeito reúna inquisidores para travar uma batalha contra uma HQ em que dois garotos se beijam. Que uma escritora seja boicotada e silenciada porque seu livro contém os mesmos palavrões que ouvimos em todos os ambientes do país, inclusive – ou principalmente – em escolas.

Aos que olham pra frente, a discussão não é mais se existe ou não perseguição e censura às artes, mas como combatê-las.

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Terra plana, nazismo de esquerda e outras formas de queimar livros http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/13/terra-plana-nazismo-de-esquerda-e-outras-formas-de-queimar-livros/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/13/terra-plana-nazismo-de-esquerda-e-outras-formas-de-queimar-livros/#respond Wed, 13 Nov 2019 12:25:22 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=7112

Pintura de Lucio Massari.

Acordei ontem com o alarde de que a biblioteca de Evo Morales, com cerca de 30 mil livros, tinha sido queimada. Anda difícil saber com precisão o que se passa na Bolívia, mas, pelo que tudo indica, a biblioteca do ex-presidente não ardeu em chamas. A do ex-vice presidente Álvaro García Linera, esta sim com seus 30 mil títulos, que estaria no alvo dos incendiários.

Fogueira acesa ou não, fato é que muita gente fica preocupada quando ouve falar nesse tipo de coisa. Há motivos. A queima de livros costuma acompanhar a ascensão de governos autoritários. Foi assim na Alemanha nazista, na União Soviética stalinista, no Brasil de Vargas, no Chile de Pinochet… “Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas”, escreveu o poeta alemão Heinrich Heine. É o maior clichê que temos sobre o assunto, mas, importante lembrar, foi cunhado por um homem da primeira metade do século 19, que morreu muito antes de todas as queimas e ditaduras aqui citadas.

Durante alguns milênios os livros foram os principais veículos para o registro e difusão do conhecimento, muito mais práticos e efetivos do que as paredes e tábuas de outrora. Por mais que no século 20 diversas mídias tenham surgido como alternativa para a propagação das ideias, o livro ainda é o maior símbolo do saber. Daí que dói tanto ver bibliotecas sendo queimadas: além de prenúncio de tempos sombrios, o ato não se resume à mera combustão de páginas e mais páginas, mas significa a perseguição ao conhecimento.

No entanto, por mais que me parta o coração ver churrasco de biblioteca, hoje presenciamos diariamente outras formas de queima de livros. Quando alguém diz que a Terra é plana, livros são queimados. Quando alguém afirma que o nazismo era de esquerda, livros são queimados. Quando alguém questiona a importância das vacinas, livros são queimados. Livros também são queimados por aqueles que colocam em xeque o aquecimento global.

Sempre que o conhecimento é desprezado, um livro é queimado, ainda que metaforicamente. Estejamos alertas, o horror é maior do que parece.

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Escraviza, mas cuidado com a “mercadoria”: deveres de donos de escravizados http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/12/escraviza-mas-cuidado-com-a-mercadoria-deveres-de-donos-de-escravizados/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/12/escraviza-mas-cuidado-com-a-mercadoria-deveres-de-donos-de-escravizados/#respond Tue, 12 Nov 2019 13:04:48 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=7107

Jean Baptiste Debret.

Agredir o escravo? Mais do que permitido, era uma das obrigações dos donos de escravizados junto com a provisão de alimentos, roupas, tratamento de doenças e o doutrinamento cristão. Pretendiam que os cativos entendessem: os erros jamais ficariam impunes. Se houvesse alguma rebeldia por parte do açoitado, a punição não se limitaria a pancadas. Correntes, grilhões e outros apetrechos de tortura estavam à disposição. No entanto, havia quem recomendasse parcimônia nas agressões físicas. Se o escravo ficasse calejado, passaria a desdenhar dos castigos e o patrão deixaria de obter os supostos benefícios da surra. O conselho era que o açoite fosse algo mais temido do que experimentado pelo escravizado, instaurando-se assim um clima de horror constante.

Sabemos que há uma boa distância entre o preconizado por autoridades e o cumprido por quem detém algum poder, mas havia muito mais regras na relação entre donos de escravos e escravizados do que costumamos supor. É o que aponta “Pano, Pau e Pão – Escravos no Brasil Colônia”, livro que nasce da tese de doutorado em História de Ana Carolina de Carvalho Viotti e acaba de ser publicado pela Editora Unifesp. Na obra, a pesquisadora se apoia em registros de médicos, religiosos e outros atores públicos para mostrar quais eram os consensos estabelecidos ou as práticas estimuladas que norteavam como donos de escravos deveriam tratar os seus cativos.

“O escravo, uma mercadoria, tinha valor – que oscilou nos séculos abordados, é verdade –, configurava um investimento e que deveria ser mantido; o escravo, um servo, deveria ser cuidado e instruído dentro de balizas cristãs; o senhor, responsável pela fazenda ou pelo pequeno comércio, não dispendia recursos ao léu; ao senhor, legal e moralmente encarregado pelo escravo, cabia mantê-lo vivo com alguma decência”, escreve Ana. Nesse sentido, tanto a Coroa Portuguesa quanto a Igreja Católica poderiam penalizar os donos de escravos caso o cativo não recebesse sustento corporal e espiritual adequados (não que, na prática, se preocupassem muito com isso). A repulsiva mensagem era: pode escravizar, sem problemas, mas tome cuidado com a mercadoria.

Pano, pau e pão, as três palavras que dão título à obra, resumem o que era imprescindível no trato dos escravizados. O pão, além do alimento físico, representa a questão espiritual, central na sociedade da época. O pau simboliza as agressões. E o pano se refere às vestimentas que os cativos podiam ou precisavam usar, campo que também guarda complexidades que dizem muito sobre a forma como a sociedade brasileira se organizava – e, de certa forma, ainda se organiza. Se donos de escravizados vestiam algumas de suas cativas de forma luxuosa (rendas, ouro….) para ostentar riqueza, certos setores reclamavam de negros bem-vestidos, fossem eles cativos ou não, conforme a pesquisadora nos conta:

“O trânsito livre de negros adornados pelas ruas, em festas, mercados ou igrejas era motivo de incômodo nesse meio que seguia classificando e desclassificando indivíduos diante daqueles que eram considerados iguais dos seus desiguais. As pompas e rococós, sinais mais imediatos e efetivos do poder econômico naquele ambiente extremamente visual, acabavam por perder sua função de distinção quando ‘qualquer um’ podia trajá-las. Inscrita, portanto, nos corpos e nas casas, a tentativa de mostrar-se enriquecido fomentava o desejo pelo vestir com luxos, corais, adereços valiosos e tecidos mais refinados, inclusive em alforriados e pardos remediados. Conta-se até que brancos menos favorecidos se incomodavam com essa possibilidade. Aos olhos de diversos legisladores e camarários, permitir que os pretos circulassem vestidos com requintes prejudicava, portanto, o firmamento de uma verdadeira barreira entre os negros – imediatamente identificados como escravos – e os demais agentes sociais que, mesmo pobres, eram brancos”.

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Eliane Brum: A esperança tem sido manipulada, virou mais uma mercadoria http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/08/eliane-brum-a-esperanca-tem-sido-manipulada-virou-mais-uma-mercadoria/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/08/eliane-brum-a-esperanca-tem-sido-manipulada-virou-mais-uma-mercadoria/#respond Fri, 08 Nov 2019 13:55:06 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=7097

Eliane Brum. Foto: Lilo Clareto.

Em 1998 que a jornalista Eliane Brum viajou pela primeira vez à Amazônia, para escrever uma reportagem sobre a Transamazônica para o jornal gaúcho Zero Hora. Depois, em 2000, colaborando com a revista Época, realizou diversas viagens para diferentes lugares da floresta. Em 2004 que descobriu uma das regiões, a seu ver, mais extraordinárias do lugar: a Terra do Meio, no Pará, onde só chegou após cinco dias cortando rios sobre uma voadeira – história que está contada no livro “O Olho da Rua” e que, por mostrar como grileiros ameaçavam os beiradeiros, foi decisiva para a criação da Reserva Extrativista do Riozinho do Anfrísio. “Era um Brasil que o Brasil oficial ignorava”, recorda.

A relação com a floresta, com os povos e com os rios da bacia do Xingu se aprofundou. Em 2011, passou a acompanhar de perto a construção da usina de Belo Monte, “uma catástrofe que os povos originários e os movimentos sociais tinham conseguido evitar por décadas”. Em 2016, finalmente, andando pelas ruas de Altamira, percebeu que era hora de deixar os centros urbanos do sul ou do sudeste e se mudar para a região. Logo passou a ter a própria Altamira como base. É a partir dessa cidade – o maior município em extensão do Brasil e também o mais violento, segundo dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) – que busca retratar e iluminar os conflitos e contradições que imperam pelo Brasil.

Essa tentativa de interpretar o país virou livro. Eliane acaba de publicar “Brasil, Construtor de Ruínas – Um Olhar Sobre o País, de Lula a Bolsonaro” (Arquipélago, mesma casa dos outros títulos aqui citados), no qual analisa o que vivemos nas duas primeiras décadas deste século, período em que “nos amamos tanto para em seguida nos odiarmos tanto”, como escreve. Traço fundamental de sua obra, a jornalista tece suas análises a partir da perspectiva dos menos favorecidos, dos povos das periferias, das florestas, dos que vivem sendo acossados no cotidiano. Também se preocupa em reestabelecer a verdade, conceito que, para muita gente, parece ter se tornado completamente abstrato.

Autora de títulos como “A Vida que Ninguém Vê”, que levou o Jabuti de livro-reportagem de 2007, o memorialístico “Meus Desacontecimentos” e o romance “Uma Duas”, a autora hoje colabora com reportagens para o The Guardian e é colunista do El País. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, pensa na ascensão da extrema direita no Brasil, comenta o que chama em seu novo livro de “boçalidade do mal” e conta o que mudou na Amazônia – ou nas Amazônias, como prefere dizer – desde que Jair Bolsonaro se tornou presidente. Também dispensa discursos esperançosos – “Ao contrário da maioria, eu não tenho grande apreço pela esperança. Acho que ela é supervalorizada e tem sido manipulada por políticos à esquerda e à direita” – e conta o que aprendeu convivendo com povos que já presenciaram, da sua forma, o fim do mundo:

“Viver numa das Amazônias, a do Médio Xingu, me deu uma outra compreensão da vida. Como convivo com povos cujos ancestrais já viveram o fim do mundo antes, caso dos indígenas, e com povos que acabaram de viver o fim do mundo de novo, caso dos indígenas e dos beiradeiros atingidos pela usina hidrelétrica de Belo Monte, tenho testemunhado como eles lutam. Nunca tinha visto ninguém lutar assim antes. Usam a alegria como ‘potência de agir’. A alegria de estar junto e de compartilhar a vida, mesmo na catástrofe. Riem por desaforo diante dos déspotas do mundo”.

Consequência de erros da esquerda, especialmente do PT, apoio de nossa elite empresarial e econômica, reflexo do que pensa parte considerável da população de nosso país, oportunismo com o desgaste do meio político, consonância com um movimento conservador, reacionário ou retrógrado global…. Na sua avaliação, o que causou a ascensão da extrema direita por aqui?

Tudo isso que você citou e mais algumas coisas. O que acontece no Brasil se inscreve na crise global das democracias. Vivemos o fenômeno dos “déspotas eleitos”. Além do Brasil, em diferentes níveis, os mais notórios são Estados Unidos, Hungria, Filipinas, Turquia, Índia e Rússia. Temos também o Reino Unido vivendo um momento patético com o Brexit. Mas, se o Brasil se inscreve num fenômeno global, há também as particularidades da crise brasileira. Primeiro, é preciso lembrar que, caso o judiciário não tivesse intervindo, as pesquisas mostravam que Lula poderia ter ganhado a eleição de 2018. Assim, a extrema direita venceu porque o candidato em primeiro lugar nas pesquisas estava preso por um processo povoado por abusos do poder judiciário e despovoado de provas. Lula foi preso para não ser presidente, o que é totalmente arbitrário. Antes disso, Dilma Rousseff havia sido tirada do poder por um impeachment sem consistência. No dia da votação do impeachment, Bolsonaro, então deputado federal, homenageou um torturador reconhecido pela justiça como torturador. Fez apologia ao crime literalmente diante das câmeras do mundo inteiro. Não foi responsabilizado. Naquele momento, a fragilidade e/ou omissão das instituições ficou explícita. Não sabíamos, mas aquele foi o lançamento da campanha de extrema direita. Seus protagonistas perceberam claramente que havia espaço para avançar.

O bolsonarismo representa uma parcela dos brasileiros. Sem Lula, Bolsonaro venceu a eleição. Dedico grande parte do meu livro analisando esse processo, o peso de cada um dos fatores e as responsabilidades de cada um dos protagonistas. O que me parece importante destacar é que a votação da classe média em Bolsonaro foi uma reação, em grande parte, às cotas raciais e à PEC das domésticas. Não há como compreender nenhum momento da história do Brasil sem compreender que o racismo estrutura o país. Não é por acaso que bolsonaristas dizem que “o PT inventou o racismo” ou que “o PT inventou a luta de classes”. Para uma parcela da esquerda, o PT fez muito pouco no poder porque não fez mudanças estruturais. Não tocou na distribuição de renda, por exemplo, nem fez a reforma agrária. Mas, para uma parcela significativa da classe média brasileira, a ocupação pelos negros de espaços de poder até então reservados aos brancos, como as universidades, atingiu privilégios que eram considerados direitos. Da mesma forma, no momento em que as empregadas domésticas passam a ter seus direitos (quase) igualados ao dos demais trabalhadores, interfere naquilo que também era compreendido como um direito das famílias de classe média.

A possibilidade de as mulheres de classe média terem uma carreira no Brasil e passarem a somar sua renda para sustentar a família não foi assegurada por políticas públicas como creches, por exemplo, mas pela existência e reprodução de uma categoria de mulheres trabalhadoras exploradas, que eram exauridas numa rotina com escassos direitos, na qual eram obrigadas a abrir mão do cuidado de seus próprios filhos. A maioria das domésticas é composta por negras. O pouco que foi feito, e com tanto atraso, na forma de ações afirmativas como cotas raciais e na ampliação de direitos trabalhistas básicos atingiu profundamente a classe média brasileira – e a “paz” que pressupõe manter os negros com as piores condições gerais de vida e as maiores probabilidades de morte por violência e por doença. Esta é a “pacificação” que as elites econômicas, políticas e às vezes também intelectuais costumam propor quando se sentem ameaçadas, ainda que apenas pela perda de privilégios como o de falar sozinha. A paz de a maioria da população se submeter passivamente a uma vida de precariedades e consumição de seus corpos.

Em certo momento de “Brasil: Construtor de Ruínas” você lembra de Hannah Arendt e do conceito de “banalidade do mal” para dar um passo além e constatar a “boçalidade do mal”, que emerge das redes sociais. Estas “abriram a possibilidade de que cada um expressasse livremente o seu ‘eu mais profundo’, a sua ‘verdade mais intrínseca'”, permitindo que descobríssemos a “extensão da cloaca humana”. É possível reverter esse processo? Além disso, essa cloaca humana exposta levou a grandes rachas não só na sociedade, mas também entre familiares, amigos… Como lidar com pessoas eventualmente queridas – ou outrora queridas – que passaram revelar e se orgulhar cotidianamente de ideias e posicionamentos cruéis, autoritários, elitistas, racistas, machistas, homofóbicos…?

Não sei. Acredito que as pessoas precisam se responsabilizar pelo que falam. Sempre defendi a necessidade de escutar e de conviver com as diferenças. Acredito que as diferenças são uma força, não um problema. Mas ser diferente não é defender crimes e fazer apologia a crimes. Isso é crime também. Se alguém defende o racismo, é racista, se alguém faz piadas de LGBTIs, está sendo homofóbico. Se alguém discrimina ou humilha mulheres, está sendo misógino e estimulando a violência contra mulheres. Não acredito que se possa criar uma sociedade em que todos possam viver suas diferenças com dignidade tolerando a violência. A violência é intolerável. E isso vale para as relações pessoais. Uma pessoa não pode ser querida para mim se ela é racista ou misógina ou homofóbica, por exemplo. Tento fazer essas pessoas entenderem que a piada delas, que acham que é indolor, mata gente. Há uma longa cadeia de acontecimentos entre a naturalização da piadinha racista e a naturalização do genocídio da juventude negra, mas a conexão existe, é real. Se a pessoa que eu gosto não percebe isso e mantém seu comportamento violento, ela não é mais querida para mim. Lamento, mas não pode ser. Posso entrevistar, como jornalista, mas não convivo na minha vida pessoal com racistas, misóginos e homofóbicos. Não frequento suas casas.

As pessoas têm direito à sua opinião, mas não a incentivar o crime e a violência. Acho que há uma certa confusão sobre isso na sociedade brasileira hoje. Fazer apologia ao crime não é ter opinião diferente. É fazer apologia ao crime. E isso não pode ser tolerado. É uma lógica semelhante às pessoas acharem que defender que a Terra é plana é uma opinião. Não é. A Terra é redonda. É um fato. Defender que a Terra é plana é só difundir uma mentira, é só expor a sua ignorância. E isso não podemos permitir, já que parte da ciência que movimenta nosso cotidiano – e também o cotidiano dos terraplanistas – é baseada neste fato. Temos que combater enfaticamente a ignorância, porque ela destrói, e destrói principalmente o corpo dos mais frágeis. Pegando emprestada a frase do senador americano Daniel Patrick Moynihan, “as pessoas têm direito a sua opinião, mas não a seus próprios fatos”.

Desmatamento na Bacia do Xingu.

“Em 2009, eu também acreditava que o país havia finalmente chegado ao futuro, embora com uma boa dose de passado exposta pelo ‘mensalão’ e pela decisão do governo do PT de materializar a hidrelétrica de Belo Monte no amazônico Xingu”, você escreve na introdução o livro. Isso me faz lembrar de um trecho de “Índios”, música da Legião Urbana: “Que o que aconteceu ainda está por vir/ E o futuro não é mais como era antigamente”. Qual é o futuro que você vislumbra para o Brasil a curto e médio prazo?

Fazer futurologia é o contrário do jornalismo, como você sabe. Mas há fatos, indicadores e modelagens que nos permitem fazer algumas afirmações. A mais importante delas é que o futuro não só do Brasil, mas do planeta, será pior. O que disputamos hoje é a diferença – bastante grande – entre um futuro ruim e um futuro hostil para a espécie humana e para muitas outras espécies. É a diferença entre o aquecimento do planeta ficar em 1,5 graus ou atingir 2 graus. Este meio grau já faz muita diferença. Com 2 graus, por exemplo, quase certamente todos os corais desaparecem. Viveremos num mundo sem corais, uma das maiores belezas deste planeta, algo vivo que se extinguirá.

Hoje países estratégicos para o enfrentamento da emergência climática, como Estados Unidos e Brasil, estão sendo governados por negacionistas do clima. Na minha opinião, o governante que nega uma evidência científica indiscutível como a emergência climática provocada por ação humana é um criminoso que deve ser responsabilizado, porque está condenando a humanidade inteira e também outras espécies a uma vida muito pior ao não fazer as políticas públicas necessárias. Como temos estes negacionistas no poder, que negam o colapso climático por razões de lucros privados imediatos, não por ignorância, o que os torna ainda mais asquerosos, o mais provável é que até o final deste século, ou mesmo antes, teremos um superaquecimento de 3 ou 4 graus. É a previsão se o ritmo atual se mantiver. Isso significa dizer que nossos filhos e netos terão uma vida muito pior.

Essa piora já está acontecendo, só que as pessoas não conseguem relacionar. O ambiente está corroído e as pessoas sentem isso no seu cotidiano, mas não conseguem nomear o que sentem como consequência da crise climática. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que na minha opinião é um dos mais incríveis pensadores vivos hoje no mundo, fez uma comparação muito interessante numa entrevista que fiz com ele alguns anos atrás. A partir do filósofo alemão Günther Anders, que afirmava que a bomba atômica foi o momento em que os humanos criaram algo cujas consequências não poderiam prever, Viveiros de Castro faz uma alegoria com o colapso climático. Existem aqueles fenômenos subliminares, que estão acontecendo o tempo todo, dentro e fora do nosso corpo, e que não podemos ver. A emergência climática é um fenômeno supraliminar. É tão grande que também não conseguimos ver. Mas tenho certeza que sentimos. E cada vez mais detectamos. Precisamos começar a nomeá-lo. Para os indígenas, beiradeiros e quilombolas da Amazônia e outros biomas isso é muito claro há décadas. Mas acho que os não indígenas, como nós, mesmo vivendo numa parte do planeta engessada pelo concreto, já podem sentir claramente os efeitos na sua vida.

A crise climática atravessa todas as grandes questões do nosso tempo. É tanto causada pela desigualdade, já que uma pequena parte da humanidade é a maior responsável pelo superaquecimento global, como também é também uma grande produtora de desigualdades, já que os que estão pagando primeiro e com menos condições de se proteger, porque dependem de políticas públicas que não são tomadas, são os mais pobres, as mulheres e os negros. É claro que todos serão radicalmente afetados, porque estamos falando de um planeta que muda. Mas há os que são afetados primeiro e com mais força, o que podemos perceber nas migrações e nos levantes populares que já estão ocorrendo. A água claramente vem se tornando a questão mais importante do nosso tempo. Tenho 53 anos. E sei que viverei num planeta pior ainda durante a minha existência. Já estou vivendo. Este futuro já é presente, já está acontecendo, é um futuro logo aqui. Se o futuro será apenas ruim ou francamente hostil vai depender de a população acordar e passar a pressionar os governantes. Acordar não amanhã, mas ontem. Acordar já em pé.

Altamira. Foto: Valter Campanato/ ABr

Você é uma jornalista que está em campo, em contato permanente com os problemas do país, mas também com suas virtudes. De tudo o que você presencia andando pelo Brasil e constata ao refletir sobre o país, quais são os elementos que lhe dão a esperança de dias melhores, se é que eles existem? E como seriam esses dias melhores?

Ao contrário da maioria, eu não tenho grande apreço pela esperança. Acho que ela é supervalorizada e tem sido manipulada por políticos à esquerda e à direita. Acho também que esperança é um luxo que já não temos. Não digo isso para criar uma frase de efeito, digo isso porque a esperança tem sido manipulada hoje como a felicidade foi manipulada anos atrás, virando mais uma mercadoria. A esperança hoje não está movendo, mas paralisando. É esperança para esperar. E não podemos esperar. Em tempos de emergência, temos que agir. Adoro quando a ativista Greta Thunberg diz: “Nossa casa está em chamas. Eu não quero a sua esperança. Eu quero que vocês entrem em pânico”. Ela tem toda razão. Não temos esse luxo de só agirmos se tivermos esperança. Temos que nos mover por imperativo ético, inclusive porque ferramos o planeta em que nossos filhos e netos viverão. Não dá para ser mimado e ficar exigindo esperança para nos mexer. Não tenho muita paciência com gente mimada quando o mundo está ruindo. Você precisa de motivação, precisa ter sua alma encerada pela esperança? É o seguinte. Se você não se mover, logo vai ter muita dificuldade para beber água não contaminada, como já acontece com alguns povos do mundo.

Prefiro responder ao que me dá alegria. Viver numa das Amazônias, a do Médio Xingu, me deu uma outra compreensão da vida. Como convivo com povos cujos ancestrais já viveram o fim do mundo antes, caso dos indígenas, e com povos que acabaram de viver o fim do mundo de novo, caso dos indígenas e dos beiradeiros atingidos pela usina hidrelétrica de Belo Monte, tenho testemunhado como eles lutam. Nunca tinha visto ninguém lutar assim antes. Usam a alegria como “potência de agir”. A alegria de estar junto e de compartilhar a vida, mesmo na catástrofe. Riem por desaforo diante dos déspotas do mundo. Para os não indígenas e os não beiradeiros é difícil compreender essa força da alegria, que não tem nada a ver com a esperança. Uns tempos atrás um novo procurador da República, que se mudou recentemente para Altamira, me disse que só tinha entendido a potência da alegria depois de ouvir um homem recém-libertado de um processo de escravidão contemporânea. Ao escutá-lo, deparou-se com um riso que era dignidade e resistência. Tenho chamado esse movimento de “vida feroz”. A vida feroz é muito potente.

Tenho convicção de que o movimento que pode criar um futuro onde possamos viver, mesmo com todas as dificuldades da crise climática, vem da nossa capacidade de recolocar as periferias, as urbanas e as da floresta, no lugar ao qual pertencem: o de centro. Temos de deslocar as visões hegemônicas, brancas, do que é centro e do que é periferia. Temos de conseguir tecer uma aliança entre os negros das periferias urbanas e os povos da floresta, entre os sem-teto, os sem-terra e os que não querem virar os sem-floresta. Esse movimento de insurreição, que vem tomando os Brasis pelas bases nos últimos anos, é o movimento que as elites que colocaram Michel Temer no poder e também o bolsonarismo tentam barrar. É neste movimento – e ele está em curso – que podemos criar um Brasil outro.

Tenho também testemunhado (e convivido com) essa novíssima geração maravilhosa que está emergindo. Sou muito fã destes jovens. Não os mimados filhos das classes altas e médias que acham que consumir é viver e que são merecedores de privilégios apenas porque respiram. Mas estes que recusam esse lugar e estão se contrapondo ao consumo e tecendo um movimento de solidariedade global. Essa geração está derrubando todo o tipo de muros criados pelos déspotas que nos governam. Para mim só faz sentido lutar ao lado deles. Quero que eles se sirvam de mim, do que sei, do que aprendi e do que ainda aprenderei. Estamos junt@s.

Há mais de duas décadas que você frequenta a Amazônia. Hoje mora na em Altamira, inclusive. Indo além do que a mídia retrata, como a questão das queimadas, quais as diferenças que você notou na região e quais problemas ou melhorias você vivenciou por aí desde que Jair Bolsonaro foi eleito presidente?

Numa época de emergência climática, a Amazônia é o centro do mundo. Se eu afirmo isso, se eu defendo isso, por que então eu não estava no centro do mundo? Levei um ano para organizar minha mudança. Inverti então o ponto de vista desde onde eu olhava para o Brasil. Me mudei em 2017 para Altamira para um projeto de um ano. E fiquei. Não se faz um gesto deste tamanho sem que a gente mude muito profundamente. Eu mudei. E sigo mudando. Isso causou vários rompimentos na minha vida. E mudou o meu olhar para o Brasil e para o mundo.

O que a gente percebe, vivendo numa região como a de Altamira, é a literalidade. Quando Bolsonaro ou outra pessoa com autoridade em Brasília diz algo, a repercussão aqui na Amazônia é imediata. Palavras lá em Brasília, mortes aqui na Amazônia.

Eu só consigo responder qualquer coisa contando o processo. Não dá para isolar os fatos. Dizem que faço textão. Faço mesmo. Alegremente. Por responsabilidade com contexto e processo. Por respeito à memória. Assim, preciso responder à tua pergunta recuperando o que é continuidade, apontando o que é ruptura, que é o que faço no meu livro. A construção de Belo Monte é uma articulação dos governos do PT-PMDB. A usina foi toda construída como se o Brasil estivesse vivendo um regime de exceção. A lei simplesmente não era aplicada. O Estado servia à empresa. Foi uma experiência aterrorizante para quem a viveu, principalmente, mas também para quem a testemunhou. E testemunha, porque os impactos mal começaram.

Amazônia em chamas.

Com Lula, pelo menos havia uma preocupação com as aparências, com simular um diálogo. Lula conversou com as lideranças contra Belo Monte, em Brasília. Só que não as escutou. Conversou apenas para dizer que conversava. Já estava tudo decidido. Dilma não se preocupava com aparências. Para além de Belo Monte, porém, até perto do impeachment havia algumas instâncias democráticas que funcionavam na região durante os governos do PT. Ainda que os governos do PT tenham se aproximado cada vez mais dos ruralistas, a ponto de Katia Abreu ter se tornado ministra da Agricultura do governo de Dilma Rousseff, restavam alguns compromissos com políticas públicas voltadas às comunidades. Já no processo de impeachment, a violência se acirrou e era possível sentir claramente a crescente desenvoltura dos grileiros.

Com Michel Temer, o ambiente se corroeu muito rapidamente. Isso aparece nas ameaças contra pequenos agricultores, indígenas, ribeirinhos e quilombolas, que se multiplicaram. A violência é algo que se pode sentir até na postura corporal de quem passa a se sentir respaldado. Tudo na Amazônia é imediato. Quando a reforma trabalhista passou a valer, alguns empresários de cidades da região demitiram seus empregados no dia seguinte. De um dia para o outro eles perderam todos os benefícios legais e entraram na informalidade. Passaram a trabalhar para as mesmas empresas, sem limite de horário, sem benefícios e por uma diária de fome. É assim que funciona o Brasil real, enquanto na sala de jantar os engravatados ficam regurgitando que “é preciso modernizar as relações trabalhistas”. Estas pessoas precarizadas vão reclamar dos donos da cidade para quem? Se reclamarem, terão que migrar. Em alguns lugares da Amazônia, como se sabe, as reclamações trabalhistas são enterradas junto com os corpos dos escravos modernos. Ninguém vive pior e tem seu corpo mais esgotado do que aqueles que foram arrancados da floresta para virar pobres nas periferias urbanas das cidades amazônicas. Essa conversão de povos tradicionais em pobres urbanos é um crime hediondo.

Dito isso, é preciso afirmar muito claramente que, desde o fim da ditadura militar, não há precedentes para o que acontece na Amazônia com Bolsonaro no poder. Desde antes da eleição eu escrevo que o principal projeto do bolsonarismo é abrir a floresta para a exploração predatória: boi, soja, mineração e grandes obras. Enquanto seguem as tentativas de deformar a Constituição de 1988, no Congresso e na Justiça, o projeto bolsonarista avança rapidamente. E como? Primeiro, todas as demarcações de terras indígenas foram suspensas. Ou seja. Não se avançará na proteção da floresta e de outros biomas.

Segundo, todo o sistema de proteção está sendo desmontado e os órgãos de fiscalização estão sendo enfraquecidos. Bolsonaro e seu ministro contra o meio ambiente, Ricardo Salles, dão recados claríssimos de que está tudo liberado, ao mesmo tempo em que desautorizam a fiscalização, colocando funcionários públicos em risco de morte. Enquanto isso, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, liberou e segue liberando um número recorde de agrotóxicos: 490 desde janeiro. Não é apenas o ambiente do país que está envenenado por ódios. Este governo está literalmente envenenando o Brasil com pesticidas que estão na nossa comida, na nossa água e no nosso ar. Fico sempre pensando como essa gente dorme, que tipo de explicações dão para si mesmos para conseguir se manter no próprio corpo envenenando milhões de pessoas para lucros e vantagens privadas, matando gente com suas palavras e canetadas. Mas aparentemente eles dormem.

A expressão mais exata de como agem os grupos que destroem a floresta é o Dia do Fogo, ocorrido em 10 de agosto. Grileiros e fazendeiros da região de Novo Progresso entenderam que Bolsonaro pedia uma declaração de lealdade e uma demonstração de força para respaldar a sua política contra a floresta. Entenderam corretamente, porque Bolsonaro não se cansa de deixar clara a sua escolha. Anunciaram então o Dia do Fogo. Saiu no jornal cinco dias antes de acontecer. No jornal! Nenhuma providência foi tomada pelo governo. E a floresta queimou.

Se as pessoas do Centro-Sul do Brasil não compreenderem que, sem a floresta, a vida delas será muito ruim e se unirem pelo objetivo comum de salvar a Amazônia, a floresta poderá chegar ao ponto de não retorno com Bolsonaro. Lutar pela Amazônia hoje significa não só zerar o desmatamento, mas reflorestar a floresta. Infelizmente, parece que a população segue paralisada e achando que a floresta é longe, sem entender que tudo o que acontece na Amazônia já está corroendo a sua vida cotidiana, mesmo vivendo numa grande cidade como São Paulo.

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Podcast Página Cinco #12: Joca Reiners Terron e The Pessoa Festival http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/08/podcast-pagina-cinco-12-joca-reiners-terron-e-the-pessoa-festival/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/08/podcast-pagina-cinco-12-joca-reiners-terron-e-the-pessoa-festival/#respond Fri, 08 Nov 2019 04:53:30 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=7095

Nesta edição do podcast do Página Cinco:

– Curso “O Processo de Tradução do Livro Grande Sertão: Veredas” e oficina “No Princípio, Era o Brasilianismo”.

– A chegada do The Pessoa Festival a Lisboa.

– Os finalistas do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa.

– Feira de livros na Unibes Cultural.

– Na dica de leitura: “A Morte e o Meteoro”, de Joca Reiners Terron (Todavia).

Nesta semana, no Página Cinco:

Comentário de “Pequeno Manual Antirracista”, de Djamila Ribeiro.

Resenha de “Serotonina”, o mais recente romance do francês Michel Houellebecq.

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Houellebecq e o mundo incômodo para machões que cultuam a estupidez http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/06/houellebecq-e-o-mundo-incomodo-para-machoes-que-cultuam-a-estupidez/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/06/houellebecq-e-o-mundo-incomodo-para-machoes-que-cultuam-a-estupidez/#respond Wed, 06 Nov 2019 12:35:51 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=7090

Ele se orgulha de não ser ecorresponsável, de sabotar o programa de coleta seletiva de lixo e de andar num 4×4. “Pode ser que eu não tivesse feito grandes coisas na vida, mas pelo menos contribuiria para destruir o planeta”. Dirigindo, acredita que é a velocidade que garante a atenção do motorista nas estradas, então qualquer tipo de limitação aos ponteiros do velocímetro seria a causa direta do aumento de acidentes fatais. Pisa fundo. Despreza completamente nações, pessoas, produtos, qualquer coisa que não seja de meia dúzia de países europeus – o mundo que entende como civilizado se limita a alguns milhões de habitantes. Indigna-se quando não pode acender seu cigarro em lugares fechados ou em quartos de hotéis. É racista, homofóbico e machista – e não vê problemas nisso.

É fácil que discussões ou análises sobre os livros do francês Michel Houellebecq sejam centradas ou, em alguns casos, limitadas aos seus odiosos protagonistas. Temos o tradicional tipinho novamente em “Serotonina”, romance lançado no começo do ano na França com a expressiva tiragem inicial de 320 mil exemplares e que há pouco chegou no Brasil pela Alfaguara, em tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Nele, acompanhamos Florent-Claude Labrouste, 46 anos, que debate-se contra a própria ruína anímica enquanto não consegue compreender o que acontece no mundo ao seu redor. Despedindo-se de sua libido, talvez esteja dando início à despedida da própria vida. Ele é o cidadão pintado acima, mas é também um homem babão de meia idade que é feito de trouxa pela ex e que se acha bastante exigente por consumir certa marca de café em pó (atenção: se quiser falar que é exigente com café, diga que prefere grãos moídos na hora, já é um começo).

A boçalidade do narrador e protagonista pode fazer com que o leitor tenha vontade de arremessar o livro longe a cada página percorrida. Torço para que não faça isso. Não prestamos atenção quando Houellebecq nos mostrava, nos romances anteriores, que o mundo está repleto de coisas como Labrouste. Tivéssemos nos atentado – ou escutado quem nos atentava sobre isso -, talvez pudéssemos ter tido a chance de, na vida real, freá-los, contorná-los ou, sei lá, mantê-los envergonhados, mas não foi o que aconteceu. Entendo, seria esperar muito que a literatura, no século 21, conseguisse alertar multidões. Fato é, hoje precisamos lidar com gente da estirpe do protagonista (ou ainda mais tosca, por incrível que pareça) em cada esquina por onde passamos, nos grupos de WhatsApp, nos encontros de família, no meio político…

Dispensemos a tentação de cruzar (ou fundir) o personagem com a maneira como o próprio autor se apresenta ao público. Foquemos na obra, que deveria ser o principal. Digo que o leitor não deve arremessar “Serotonina” longe porque, superada a odiosa (e necessária) primeira camada da história, Houellebecq, como é habitual, toca em temas extremamente importantes do mundo contemporâneo. O escritor, ao menos neste romance, escreve muito mais sobre o hoje, sobre o que já está acontecendo, do que a respeito do que teremos no futuro, contrariando sua fama de vidente, visionário, mensageiro do caos ou qualquer coisa do tipo. A ruína, como a de Labrouste, é agora.

Antes mesmo de terminar a leitura, indiquei uma passagem da obra num outro post, sobre o CRAV, grupo de vitivinicultores do sul da França responsável por promover ataques contra grandes corporações para tentar defender a fatia de mercado em que atuam. Eis o momento, agora transcrito: “Quando fossem assinados os acordos de livre-comércio que estavam sendo negociados com os países do Mercosul, os produtores de damasco de Roussillon não teriam a menor chance, a proteção que a denominação de origem ‘damasco vermelho de Roussillon’ oferecia não passava de uma farsa ridícula, a invasão de damascos argentinos era inevitável, desde já se podia considerar praticamente mortos os produtores de damascos de Roussillon, não ia sobrar nenhum, nem um só, nem sequer um sobrevivente para contar os cadáveres”.

Em “Serotonina”, as mudanças globais que impactam localmente levam agricultores da Normandia a tomarem atitudes mais drásticas do que as já tomadas pelo CRAV. Está aí uma das camadas mais interessantes da obra: a possibilidade de discutir como a competição global tem provocado o fim dos empregos, o fim dos negócios e o fim das perspectivas em diversas partes do mundo até outrora acostumadas a uma segurança, a uma confiança no futuro. Algumas pinceladas sobre o fim de profissões que até há pouco empregavam bilhões de pessoas e reflexões sobre pessoas que simplesmente perdem o seu lugar no mundo também compõem a narrativa. “O dinheiro vai atrás do dinheiro e acompanha o poder, essa é a palavra definitiva sobre a organização social”, constata Labrouste. E aqui voltamos ao protagonista.

Se podemos lamentar, nos preocupar, solidarizar ou qualquer coisa do tipo com quem se vê desnorteado por conta de grandes movimentos que soam incontroláveis ou inevitáveis e incidem diretamente na própria vida, por outro lado há certa satisfação em acompanhar alguém como Labrouste perdido entre as mudanças. “Deus me deu uma natureza simples, a meu ver infinitamente simples, foi o mundo ao redor que ficou mais complexo; de repente me deparei com um estado de complexidade excessiva do mundo e, simplesmente, não era mais capaz de assumir essa complexidade em que estava imerso, e então meu comportamento, que não pretendo justificar, foi ficando cada vez mais incompreensível, chocante e errático”.

O mundo está mudando. Há muitos motivos para se preocupar e questões para resolver – questões que, em muitos casos, sequer estão sendo debatidas com a seriedade que exigem. No entanto, e apesar de alguns indicadores que desanimam quem olha pra frente, esse mundo já não é mais um lugar tão cômodo e seguro para machões abjetos como Labrouste cultuarem sua estupidez.

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Clareza e didática contra o racismo: o pequeno manual de Djamila Ribeiro http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/05/clareza-e-didatica-contra-o-racismo-o-pequeno-manual-de-djamila-ribeiro/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/05/clareza-e-didatica-contra-o-racismo-o-pequeno-manual-de-djamila-ribeiro/#respond Tue, 05 Nov 2019 11:10:31 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=7085

Foto: Flip.

“Este pequeno manual serve, assim, como um guia para adentrar debates complexos e com desdobramentos diversos. Esta leitura pretende refletir na tomada de atitudes antirracistas, sobretudo para quem busca uma postura ética em sua existência. Claro que há diferentes modos de percepção dos temas aqui tratados. Assim como ocorre com o movimento feminista, o movimento negro não é homogêneo e tem profundas discordâncias internas, portanto este manual está longe de querer esgotar qualquer assunto.

Pessoas brancas devem se responsabilizar criticamente pelo sistema de opressão que as privilegia historicamente, produzindo desigualdades, e pessoas negras podem se conscientizar dos processos históricos para não reproduzi-los. Este livro é uma pequena contribuição para estimular o autoconhecimento e a construção de práticas antirracistas”.

É desta forma que a filósofa Djamila Ribeiro, colunista da Folha de São Paulo e uma das vozes mais potentes do movimento negro no país, resume, já no final do volume, o seu novo livro: “Pequeno Manual Antirracista”, que chega às livrarias nesta semana pela Companhia das Letras. Apesar de realmente pequeno – quase um pocket, 136 páginas, leitura que pode perfeitamente ser feita numa sentada… –, a obra, graças à síntese, à clareza e ao didatismo, tem bom potencial para bagunçar a cabeça e abrir os olhos dos racistas ao nosso redor desde que se disponham a lê-la, claro. E não apenas isso. Também faz com que mesmo o leitor pretensamente livre de preconceitos repense suas atitudes frente ao problema. E se você estiver revirando os olhos e pensando “lá vem essa chateação de novo”, já deixo aqui uma frase da autora: “Se disserem que ser antirracista é ser ‘o chato’, tudo bem. Precisamos continuar lutando”.

Inspirado por “How To Be an Antiracist”, livro do historiador Ibram X. Kendi publicado em agosto nos Estados Unidos, “Pequeno Manual Antirracista” se divide em onze capítulos cujos títulos explicitam o caminho sugerido para que nos atentemos, de verdade, às questões raciais. Começamos por “Informe-se sobre o racismo”, “Enxergue a negritude”, “Reconheça os privilégios da branquitude” e “Perceba o racismo internalizado em você”. Passamos pela importância de se apoiar politicas educacionais afirmativas, de transformar o ambiente de trabalho, de ler autores negros, questionar a cultura que consumimos e conhecer nossos desejos e afetos. Finalmente, chegamos em “Combata a violência racial” e “Sejamos todos antirracistas”.

Se vivemos numa sociedade em que vira e mexe encontramos alguém que afirma não ser racista utilizando argumentos toscos (“até tenho uma funcionária negra”, “já sai com rapazes negros”…), importante ressaltar a paciência de Djamila ao explicar como o problema racial no Brasil não é algo apenas pontual, pessoal, e sim estrutural. “É fundamental trazer a perspectiva histórica e começar pela relação entre escravidão e racismo, mapeando suas consequências. Deve-se pensar como esse sistema vem beneficiando economicamente por toda a história a população branca, ao passo que a negra, tratada como mercadoria, não teve acesso a direitos básicos e à distribuição de riquezas”, escreve, demonstrando com exemplos como isso impacta no cotidiano e sugerindo:

“Nunca entre numa discussão sobre racismo dizendo ‘mas eu não sou racista’. O que está em questão não é um posicionamento moral, individual, mas um problema estrutural. A questão é: o que você está fazendo ativamente para combater o racismo? Mesmo que uma pessoa pudesse se afirmar como não racista (o que é difícil, ou mesmo impossível, já que se trata de uma estrutura social enraizada), isso não seria suficiente — a inação contribui para perpetuar a opressão”.

Pensar na questão, questionar-se, indagar o que parece natural – ou nos é empurrado goela abaixo como algo natural –, falar sobre o racismo, não titubear em apontá-lo, constatar que a branquitude também é um traço identitário, atentar-se para a importância da representatividade, respeitar – ou seja, não se apropriar e banalizar – símbolos de culturas historicamente subjugadas… Todos esses elementos são tratados por Djamila como vias para combater esse racismo estrutural.

Por fim, uma frase específica abraçou um ponto sobre a qual venho refletindo muito: “Não é realista esperar que um grupo racial domine toda a produção do saber e seja a única referência estética”. Tem tudo a ver com a constante necessidade de não apenas confrontarmos o que é tido como canônico – e aqui me refiro especificamente à literatura –, mas procurarmos resgatar e construir linhas que representem culturas e tenham propostas estéticas diferentes daquelas habitualmente estabelecidas. Quantos grandes autores não se perderam ao longo da história porque a África estava sendo pilhada e massacrada pelos europeus, com sua produção intelectual desprezada ou destruída? E na história da nossa própria literatura, como isso se reflete? Nesse sentido, Djamila vai bem ao se debruçar principalmente sobre escritores negros para embasar “Pequeno Manual Antirracista”.

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Podcast Página Cinco #11: Holocausto Brasileiro, Graciliano e Yuval Harari http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/01/podcast-pagina-cinco-11-holocausto-brasileiro-graciliano-e-yuval-harari/ http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/2019/11/01/podcast-pagina-cinco-11-holocausto-brasileiro-graciliano-e-yuval-harari/#respond Fri, 01 Nov 2019 03:57:26 +0000 http://paginacinco.blogosfera.uol.com.br/?p=7083

Nesta edição do podcast do Página Cinco:

– A peça “Entre Muros”, inspirada no livro “Holocausto Brasileiro”, de Daniela Arbex (Intrínseca). Aqui o caminho para a peça e o caminho para o meu texto citado.

– A 6ª edição da Feira Miolo(s).

Ciclo de palestras “A Angústia, de Graciliano Ramos: Uma Visão Abrangente” no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc.

– A vinda de Yuval Noah Harari ao Brasil.

– Nos lançamentos: “Daniel Está Viajando”, de André de Leones (Quase Oito), e “Macha”, de Claudia Tajes (L&PM).

– No Meu Umbigo: a indicação do Página Cinco ao Prêmio IPL – Retratos da Leitura.

E nesta semana, no Página Cinco:

Comentário e seleção de trechos familiares aos nossos dias de “Confesso que Vivi”, o livro de memórias do poeta chileno Pablo Neruda (Bertrand Brasil).

Matéria sobre o CRAV, grupo de vinicultores do sul da França tido como terrorista por alguns (ou muitos) por se valer de táticas violentas para defender seu mercado.

Resenha de “Morra, Amor”, da argentina Ariana Harwicz (Instante), um dos grandes lançamentos do ano no Brasil.

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