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Antonio Candido mostrou ao país a importância de termos uma literatura brasileira

Rodrigo Casarin

12/05/2017 09h58

Antes de um grande escritor, Antonio Candido foi um grande leitor que soube transformar em texto as impressões e análises que fazia das obras apreciadas. Seu grande clássico, “Formação da Literatura Brasileira”, de 1959, começa de maneira pouco animadora (“A nossa literatura é o galho secundário da literatura portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas”), mas tornou-se essencial para se analisar a literatura feita por aqui.

Sua grande contribuição foi encarar a literatura nacional como a única realmente capaz de retratar as pessoas que vivem no país, independente de como ela seja colocada no panorama literário global – mas sem ignorá-lo em termos estéticos. Ou seja, antes de qualquer coisa, é uma arte de extrema importância para os próprios brasileiros.

Observando a escrita para compreender a tensão histórica entre Brasil e Portugal, por “Formação da Literatura Brasileira” Candido seria colocado ao lado de outros nomes fundamentais para se entender a formação do país, como Sérgio Buarque de Holanda e seu “Raízes do Brasil”. Ao mesmo tempo, preocupava-se em analisar o que aqui era feito levando em conta referências de escritos de outros cantos do mundo e como as características nacionais se formam.

OS 11 LIVROS QUE ANTONIO CANDIDO CONSIDERAVA FUNDAMENTAIS PARA ENTENDER O BRASIL

Dentre as obras que considerava mais importantes estavam “O cortiço”, de Aluízio de Azevedo, por mostrar a violência que há nas relações sociais no Brasil, “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, por revelar a hipocrisia dos mais ricos, “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, pela crítica àqueles que buscam tudo pelo menor esforço, e “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, pois via em Riobaldo, o protagonista da obra, um exemplar do conflito moral e existencial do brasileiro.

Candido começou a escrever textos críticos na revista “Clima”, que ajudou a fundar em 1941 junto de outros nomes que também se destacariam no cenário cultural brasileiro, como Décio de Almeida Prado, crítico de teatro, Paulo Emílio Salles Gomes, crítico de cinema, e Gilda de Mello e Souza, ensaísta. Escrevendo para o jornal “Folha da Manhã”, a partir de 1943, foi o responsável por resenhas de autores que então começavam a carreira, tais quais Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto. Apesar disso, sempre considerou a crítica um gênero secundário, menos importante do que os essencialmente criativos, que serve apenas de suporte para o entendimento dos textos e do cenário literário.

Homem político e acadêmico

Outra área em que teve atuação de destaque foi na política, sendo, em 1980, um dos fundadores do PT, partido pelo qual prosseguiria militando. Antes disso já havia sido membro do Partido Socialista Brasileiro, no qual participava do Grupo Radical de Ações Populares, responsável pela edição do jornal clandestino “Resistência”, que fazia oposição ao governo de Getúlio Vargas e ia contra a política do Estado Novo. Como professor da Universidade de São Paulo lecionou para pessoas que seriam peças importantes no quadro político nacional, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

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Sua relação com a USP, aliás, começou antes mesmo do curso superior, quando fez, entre 1937 e 1938, o curso complementar no colégio da Universidade. Em seguida iniciou duas faculdades: de direito e de ciências sociais e filosofia, sendo que terminou apenas a segunda. Em 1942 já era docente da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência da USP. Obteve o título de doutor em ciências sociais em 1954 – a tese, “Os Parceiros do Rio Bonito”, viria a ser publicada em 1964. No final da década de 50 também deu aulas de literatura na Faculdade de Filosofia de Assis. Nos anos seguintes assumiu a disciplina de teoria literária e literatura comparada na USP e, a partir de 1964, começou a atuar também em escolas estrangeiras, como a Universidade de Paris e a Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Mesmo após sua aposentadoria, em 1978, continuou colaborando com o setor de pós-graduação e orientando trabalhos acadêmicos na sua casa de formação.

Ao longo de sua trajetória, tornou-se doutor honoris causa de instituições como a Universidade Federal de Pernambuco e Unicamp, além de ser professor emérito da USP e da Unesp. Pela sua obra, recebeu prêmios importantes, como os Jabutis de 1960 (por “Formação da Literatura Brasileira”), 1965 (por “Os Parceiros do Rio Bonito”), 1966 (por “Literatura e Sociedade” e como personalidade do ano) e 1993 (por “Brigada Ligeira e Outros Escritos”), o Machado de Assis de 1993, oferecido pela Academia Brasileira de Letras, e o Camões de 1998, um dos mais importantes da língua portuguesa.

Filho de Aristides Candido de Mello e Souza e Clarisse Tolentino de Mello e Souza, nasceu em 1918, no Rio de Janeiro, e passou a infância em cidades de São Paulo e Minas Gerais – viria a se fixar na capital paulista somente em 1937. Foi casado com Gilda, sua parceira na revista “Clima” e estudiosa da obra de Mario de Andrade, seu primo. Candido havia se tornado viúvo em 2005.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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