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Como Vampeta inspirou um escritor brasileiro campeão de vendas na Amazon

Rodrigo Casarin

11/05/2017 09h33

A maior influência para que o escritor Raiam Santos continue contando suas histórias é o ex-jogar de futebol Vampeta. Sim, Vampeta. Nada de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Lima Barreto, Érico Verissimo ou Jorge Amado, mas o volante campeão do mundo com a seleção brasileira em 2002 e que é lembrado principalmente por ter rolado a rampa do Palácio do Planalto quando a equipe de Felipão foi recebida por Fernando Henrique Cardoso logo após retornar do Japão.

Como qualquer apaixonado por futebol sabe, além de ter sido um bom jogador, Vampeta é um magistral provocador e contador de histórias, é por isso que Raiam o admira. “Estudo muito o jeito dele através de vídeos; não tem ninguém que conte histórias do jeito que ele conta, com toda aquela informalidade, fazendo com que imagens pipoquem dentro do cérebro de quem o escuta. Tento usar isso nas minhas narrativas. Brinco que meu escritor número um não é escritor, mas o Vampeta. Ele é o melhor contador de histórias do Brasil”, diz o autor em entrevista ao blog.

Seguindo o tom do ídolo, Raiam se tornou um dos brasileiros que mais comercializam livros publicados de forma independente na Amazon, onde diversos de seus títulos aparecem em relações dos mais vendidos. É também o vencedor do Prêmio Amazon 2016 graças a “Wall Street – A Saga de um Brasileiro em Nova York”, recentemente publicado em versão física pela Astral Cultural. E se a maior referência do escritor é um tanto improvável, a história de Raiam, hoje com 27 anos, mostra-se tão surpreendente quanto.

Queria dançar igual ao Jacaré, do É o Tchan!

Raiam cresceu na periferia do Rio de Janeiro. Quando criança, sonhava em ser dançarino como Jacaré, do grupo É o Tchan!, um raro negro que via fazendo sucesso na televisão brasileira. “Era a única pessoa parecida comigo ali, então queria ser igual ao Jacaré”, recorda. Só notou que poderia ser negro e se realizar em outras frentes quando assistiu ao filme “Space Jam” e aprendeu que Michael Jordan alcançara o estrelato por meio do basquete.

Passou a ter em mente, então, que deveria ir para os Estados Unidos para que tivesse algum valor. Bom aluno, conseguiu uma bolsa de estudos para cursar o ensino médio no país norte-americano e, na sequência, principalmente por ter se dado bem jogando futebol americano, ingressou na Universidade da Pensilvânia. Mesmo morando como imigrante ilegal durante boa parte dos estudos, driblou as questões burocráticas e conseguiu o diploma em Economia, Relações Internacionais e Letras.

Arrumou emprego como analista financeiro em Wall Street, mas aquele mercado, da mesma forma que lhe deu um bom dinheiro, rendeu-lhe desgostos e uma aparente depressão. Quando resolveu largar tudo e voltou ao Brasil, ainda se arriscou como comentarista de futebol americano na televisão, mas não foi muito longe. “Tentei ser jogador, não consegui. Fui demitido do trabalho que tinha na Bolsa de Nova York. Tentei ser comentarista, não deu certo. Foi um fracasso atrás do outro”.

“Vou ser escritor”

Morando na casa da avó no Complexo do Alemão, o jovem pensou que era hora de tentar colocar em prática um sonho de infância. Quando tinha 11 anos, uma redação de Raiam fora selecionada para um livro feito com outros textos de alunos da sua escola. Depois, a mesma história entrou em uma coletânea carioca. Antes mesmo que alimentasse o sonho de ser escritor, no entanto, ouviu que escrever deveria ser apenas um hobby, que aquilo jamais lhe daria dinheiro.

“Tinha vontade reprimida, daí eu falei ‘vou ser escritor’. Sabia que precisaria formar meu público, ter pessoas que comprassem meus livros, e fui aprender a lidar com a plataforma da Amazon”. Estreou com “Hackeando Tudo”, no qual se propõe a ensinar jovens a contornar diversos problemas cotidianos. A publicação aconteceu às vésperas de seu aniversário, então, quando ouvia os parabéns dos amigos, pedia para que as pessoas lhe dessem um presente: entrassem no site e baixassem o livro, o que deu um empurrão no seu nome. “Fizeram uns 300, 400 downloads, o que ajudou a desencadear um marketing boca a boca. Era um livro mal escrito, cheio de palavrões e erros ortográficos, mas acabou entrando nos best-sellers da Amazon. Ali percebi que estava tendo culhão para fazer o que realmente queria”.

Depois de receber o primeiro pagamento pelos direitos autorias, viu que precisaria escrever muito para levantar uma boa grana. Passou, então, a produzir com uma velocidade assustadora – garante que bitola na atividade e que já chegou a redigir três livros em três meses. Assim vieram “Classe Econômica #1: Europa Comunista”, “Imigrante Ilegal: O Lado Negro do Sonho Americano”, “Arábia: A Incrível História de um Brasileiro No Oriente Médio”, “Turismo e Ousadia: Como Conquistar o Mundo Ainda Jovem” e o já citado “Wall Street”. Todos os títulos possuem certo teor autobiográfico – como é possível imaginar, por exemplo, no último ele fala da experiência no mercado financeiro dos Estados Unidos.

Também passou a desenvolver conteúdos em vídeo e áudio, contratou a tradução de alguns de seus escritos para outras línguas e começou a ministrar palestras. Garante que a estratégia de ter um grande volume de material produzido e replicado deu certo, conta que hoje ganha o suficiente para viver bem. “Penso muito como empresário, transformo cada livro em vários subprodutos. Contrato freelas para me ajudar, invisto em marketing… Hoje meu foco é internacionalizar essa coisa”.

Fã da trajetória de Paulo Coelho

Raiam diz que a maneira que encara sua própria geração também é essencial para conseguir ganhar dinheiro a partir dos livros, algo reconhecidamente complicado de se alcançar no Brasil. “Quem entra no mercado agora está acostumado a literalmente hackear tudo. O jovem, em vez de comprar, procura o pdf dos livros. Sinto que preciso ir além, porque esse sistema é facilmente burlável. Nossa atenção é cada vez menor também. Eu mesmo às vezes não consigo ficar 20 minutos sentado lendo. Escrevo da maneira que falo, coloco espaço em branco entre os parágrafos, uso linguagem informal e palavrões que sequer usaria na vida real, tudo para me aproximar do público”.

Ainda sobre leituras, conta que tem o costume de baixar audiobooks e, enquanto joga videogame, escutá-los sempre em ritmo acelerado, como se fosse alguém conversando em uma mesa de bar, tudo isso para alcançar o tom que, de alguma forma, remeta ao modo que Vampeta conta suas histórias. “Só conquisto o leitor, o meu cliente, se eu fizer com que ele termine o livro rápido e para isso o texto precisa ser rápido”.

Mas Vampeta não é a única fonte na qual Raiam bebe. Diz-se leitor assíduo de Joseph Murphy, de onde tira lições de como trabalhar a autoajuda, de Tucker Max, sua referência para a linguagem vulgar, e de Paulo Coelho, uma grande inspiração extraliterária. “Sempre me espelhei muito no Paulo. A vida dele tem muito a ver com a minha e ele está onde quero chegar. Leio o ‘Manual do Guerreiro da Luz’ quase toda semana”.

Raiam já deu até um jeito de encontrar com Paulo na Suíça (e também registrou a saga em livro: “Missão Paulo Coelho: Uma Peregrinação em Busca do Mago”). “Queria conhecê-lo de qualquer jeito. Descobri onde ele morava, peguei a grana que tinha na conta e fui, bati na porta atrás dele”. Conseguiu o encontro. E o que disse para o Mago? “Falei que não era fã dos livros, mas da história de vida dele. Nunca gostei muito do que ele escreve, na verdade”.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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