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Clássico de Clarice Lispector, A Hora da Estrela completa 40 anos e ganha edição repleta de extras

Rodrigo Casarin

12/04/2017 11h07

Há 40 anos Clarice Lispector publicava “A Hora da Estrela”. Se não é fácil cravarmos que o título é o mais famoso da artista, ao menos sua atual editora, a Rocco, garante que ele, continuamente adotado por escolas e vestibulares, é o que mais vende da magnífica obra deixada por Clarice. A história que certa vez a escritora definiu como “a de uma moça tão pobre que só comia cachorro quente”, mas que também “é sobre uma inocência pisada, de uma miséria anônima” mostra fôlego para alcançar novos admiradores em diferentes culturas, tanto que em fevereiro sua tradução para o grego figurou pela primeira vez entre os livros mais vendidos da Grécia – chegou a ficar em terceiro lugar, desbancando a badalada Elena Ferrante.

No entanto, independente de qualquer feito recente, “A Hora da Estrela”, cuja primeira edição foi lançada em outubro de 1977 pela José Olympio, permanece como um dos grandes livros da literatura nacional principalmente pela maneira como impactou leitores ao longo dessas quatro décadas. Uma dessas apaixonadas pelo título é a escritora e editora Simone Paulino, que recentemente lançou “Como Clarice Lispector Pode Mudar Sua Vida”, publicado pela Buzz. Na obra, Simone fala da importância da autora para sua vida e dedica boa parte das páginas a pensar sobre “A Hora da Estrela”, livro que já leu “umas trinta vezes”, que decorou vários trechos e que define como “essencial”.

“Clarice, com sua ‘A Hora da Estrela’, nos faz ver, entre tantas outras coisas, quanta humanidade e desejo de beleza existe nos invisíveis, estes que caminham pelo mundo em cidades todas feitas contra eles. Para mim, ‘A Hora da Estrela’ é um livro imenso, e um livro para sempre, um livro absolutamente universal. Eu sempre o comparo muito com outro livro que amo: ‘Uma Criatura Dócil’, do Dostoiévski”, diz Simone.

Para celebrar esses 40 anos de “A Hora da Estrela”, a Rocco preparou uma edição comemorativa do livro repleta de conteúdos extras. Além do texto original, claro, há 16 páginas com manuscritos da autora (dois deles ilustram esta matéria, clique nas imagens para ampliá-las), uma apresentação da tradutora e pesquisadora Paloma Vidal comentando todo o processo de descoberta desses esboços, anotações e bilhetes deixados por Clarice e seis análises críticas da obra assinadas por acadêmicos e escritores.

“Como escreveu a crítica francesa Hélène Cixous, ‘A Hora da Estrela’ ‘é um texto sobre a pobreza que não é pobre’. Tem um jeito de ser acessível e misterioso, loquaz e peculiarmente refinado. Esconde e conta muito. Emite julgamentos amplos e observações miúdas”, aponta o escritor irlandês Colm Tóibín em uma dessas análises, fazendo referência à crítica francesa que também assina um dos textos presentes no volume.

A estrela Macabéa

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou”.

É assim que começa “A Hora da Estrela”. Pelas páginas do livro, o personagem Rodrigo S. M, apontado como alter ego de Clarice, mostra-se indeciso com diversos aspectos da narrativa que pretende desenvolver: a história de Macabéa, jovem órfã que deixa seu Alagoas natal para viver no Rio de Janeiro como datilógrafa. Com pouco estudo e tendo sido criada de forma bastante bruta, a moça tem dificuldades para lidar com a nova realidade e aplacar sua solidão.

“Sempre me emociono quando lembro de Macabéa conversando com Olímpíco, tentando conquistá-lo com seus parcos recursos. Tão necessitada de amor, de um olhar, de alguém que lhe desse existência concreta. Lembro de Macabéa querendo contar a ele o que sentia quando ouvia a música ‘Una Furtiva Lacrima’, de Caruso. Para mim, este é um dos trechos que nos mostra de maneira pungente a ideia expressa no livro, de que ‘até no capim vagabundo há desejo de sol’”, comenta Simone.

Outro texto presente na nova edição da Rocco é o prefácio da primeira publicação do clássico, assinado pelo crítico literário Eduardo Portella, que comenta um dos elementos mais relevantes do trabalho de Clarice: a linguagem:

“A opção de Clarice Lispector foi a opção da linguagem, na certeza de que ela é o verdadeiro lugar da existência. A linguagem como energia, atividade, trabalho, produtividade do sentido: não somente as palavras e as frases, mas um ‘sentido secreto’, que é mais do que elas. E este ‘sentido secreto’ só se dá por inteiro no nível do silêncio. Não a mudez opaca e doente, porém a forma dilacerada do grito. É preciso que se ouça o grito contido no interior do silêncio; que se perceba o destino sisifiano da palavra. Nós nos suicidamos em cada palavra que pronunciamos; e no entanto não podemos viver sem falar. O importante agora é saber escolher os modos radicais do verbo. E o narrador, entre pronunciar e prenunciar, não vacila: ‘O definível está me cansando um pouco. Prefiro a verdade que há no prenúncio’. O prenúncio, o dizer menos o fracasso. O prenúncio é mais do que o anúncio, porque sabe calar, na mesma medida em que a ocorrência é o prenúncio exaurido, porque não sabe silenciar”.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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