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Xico Sá: Neymar já assombra Cristiano Ronaldo, mas ainda falta muito para se igualar a Messi

Rodrigo Casarin

04/04/2017 10h32

O futebol foi um dos primeiros assuntos que o jornalista e escritor Xico Sá tratou em seus textos para a imprensa. Há 35 anos ele já escrevia sobre o esporte para jornais do Recife; hoje, dedica linhas sobre o assunto para veículos como Folha de São Paulo e El País. Autor de diversos livros, estranhava o fato de até então Xico nunca ter dedicado uma publicação aos textos futebolísticos, que considera o ponto alto de toda sua produção. Mas agora, com “A Pátria em Sandálias da Humildade”, publicado pela Realejo, finalmente muitas de suas crônicas sobre o mundo da bola estão reunidas em um único título.

O que temos nas 232 páginas do volume são 103 textos breves nos quais o autor segue o mesmo tom da entrevista que concedeu ao blog. Para ele, por exemplo, “o Maracanã acabou quando o último torcedor fantasiado foi expulso da geral do velho campo” e ainda falta muito para que Neymar se iguale a Messi, apesar de já se aproximar de Cristiano Ronaldo. Dentre as crônicas de “A Pátria em Sandálias da Humildade”, uma é inédita: “Na Noite com o Dr. Sócrates”. Nela, Xico relata a boêmia convivência com o ex-jogador corintiano, “o cara mais iluminado” com quem conviveu e que ensinou aos brasileiros “mais sobre democracia do que os gregos antigos ou qualquer aula na escola”.

Você olha para o futebol de maneira bastante romântica. Mas, dentro das quatro linhas – e indo além, até nas arquibancadas de nossas “arenas” -, ainda há espaço para o romantismo?

Sempre haverá. Esse romantismo vai muito além da questão da modernidade da roubalheira das arenas e das frescuras recentes que não contam com a minha simpatia. O romantismo está no drama e nos personagens do jogo de futebol. Por mais que o tal do “produto futebol” (que expressão ridícula) tenha uma embalagem “limpinha”, sempre haverá uma cusparada de um zagueiro, um frango, um gol imoralmente perdido, uma cegueira momentânea do juiz, um craque que perde as estribeiras ou os infernos pessoais de caras como o Imperador Adriano, o desastre financeiro de um Müller, o tango trágico de Maradona e as ilusões perdidas de um Adriano Gabiru – para citar personagens importantes do meu livro.

Nesse sentido, o que você pensa desse processo de “arenização” do nosso futebol, do chamado “futebol moderno”?

Ainda me recuso chamar estádio de arena e acho que o Maracanã, por exemplo, acabou quando o último torcedor fantasiado foi expulso da geral do velho campo. E olhe que nem vou entrar na discussão da maracutaia das empreiteiras e dos políticos enlameados até o pescoço. Vejo, porém, uma única vantagem no “futebol moderno”, uma solitária vantagem: o banheiro das mulheres. Elas mereciam uma casinha decente, mas óbvio que daria para melhorar as condições de limpeza mesmo nos velhos estádios.

O Sócrates é uma figura de destaque em diversas crônicas do livro. Qual é o papel que ele ocupou na sua vida? Em quais aspectos mais sentimos a sua falta?

É o grande nome do jogo, do livro, e o cara mais iluminado com quem convivi. Tanto no trabalho – fazíamos o “Cartão Verde” da TV Cultura – quanto nas belas noitadas nos bares de São Paulo, Rio, Ribeirão Preto, Sorocaba… O mais difícil nisso tudo foi me livrar da minha condição de fã e tratá-lo como um amigo fiel, mas nada como virar umas noites juntos para consolidar as grandes amizades. Sinto a falta do pensamento crítico do Magrão. Sócrates Brasileiro nos ensinou mais sobre democracia do que os gregos antigos ou qualquer aula na escola.

Há algum assunto relacionado ao futebol que você ainda não conseguiu transformar em literatura?

O meu assunto preferido nas crônicas sobre futebol é o drama pessoal dos craques em momentos considerados difíceis nas suas carreiras. Basta ler os textos sobre o drama de Ronaldo Fenômeno com os travestis cariocas ou o amor de Ronaldinho Gaúcho pelas moças da noite. Trato isso tudo como algo demasiado e lindamente humano. Nesse sentido, me falta uma maior atenção literária às Marias Chuteiras, essas incompreendidas. Ninguém faz coraçãozinho para elas no momento de comemorar os gols – é sempre tudo dedicado às esposas (risos).

Como fã do Neymar desde que ele despontou, o que acha da bola que ele está jogando? Coloca ele no mesmo patamar de Messi e Cristiano Ronaldo?

Tive a sorte, como torcedor e principalmente como cronista, de ver o menino da Vila desde o primeiro jogo no profissional do Peixe. Nos momentos críticos em que os técnicos questionavam ou davam duras no cara, sempre escrevi em defesa das firulas e da graça do craque. Com Dunga, andava estouradinho, com crises emocionais de criança mimada, agora se mostra maduro, aguenta porrada e segue com sua arte. Já assombra o CR7, mas ainda precisa comer muito churro na Espanha para se igualar a Messi. Só o tempo dirá.

A última crônica do livro faz referência à seleção brasileira a caminho da Rússia. O que espera da Copa do ano que vem?

Para quem corria o risco de não ir à Copa, vixe, estamos no paraíso. O perigo agora é a euforia burra, o pachequismo da “Pátria em chuteiras”, para citar o tio Nelson [Rodrigues] que inspirou o meu livro, do título à última linha. A “pátria” tem que seguir em sandálias da humildade, esse é o processo não só pós-7×1, mas que deveria ter sido adotado desde a Copa de 2006, quando começou um período de crise técnica do futebol brasileiro. Essa vodca russa da glória antecipada passa a ser o grande perigo.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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