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“Transformou a vida em uma aventura literária”, diz Milton Hatoum; escritores comentam a morte de João Gilberto Noll

Rodrigo Casarin

Um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea, João Gilberto Noll morreu hoje, ao 70 anos. Detentor de diversos prêmios, dentre eles cinco Jabutis, sua produção abarcou romances, contos e livros infanto-juvenis. Seu título mais famoso é “O Cego e a Dançarina”, de 1980, no entanto muitos de seus outros trabalhos foram marcantes para diversos colegas de profissão, como veremos mais adiante. Ouvi escritores como Luis Fernando Verissimo, Cristovão Tezza, Ignácio de Loyola Brandão, Laura Erber, Andréa del Fuego, Zuenir Ventura e Milton Hatoum para saber como Noll marcou cada um. Confira:

“O Noll era um ótimo escritor que não teve o reconhecimento que merecia, talvez, em parte, pela sua personalidade retraída. Convivemos pouco, mas senti muito a sua morte. Pode ser que agora venha o reconhecimento merecido”, Luis Fernando Verissimo, autor de “O Analista de Bagé”.

“Noll fez uma espécie de caminho solitário dentro da literatura brasileira. Um dos grandes talentos surgidos nos anos 1980. Ainda lembro o impacto que teve ‘O Cego e a Dançarina’. Viveu afastado da vida literária, não participava de panelas, confrarias, grupinhos e grupelhos e eu o admirei sempre. Foram cinco Jabutis ao longo da vida. Participamos de alguns encontros, leituras. Poucos. Ele parecia incomodado com a exposição, com o ter de ler coisas dele, ficava como que constrangido. Nunca esqueço o primeiro Prêmio Portugal Telecom na Sala São Paulo. Os livros desfilavam e recebiam as notas do júri, mostradas em telão. No final, ele se aproximou de mim: ‘Viu nós dois? Tive um ponto só. E você nenhum. Ninguém teve nada abaixo de cinco’. Fomos os dois tomar um pró seco dizendo que prêmios são prêmios, juris são juris, e livros são livros e ficamos a conversar. Foi nosso último encontro”, Ignácio de Loyola Brandão, autor de “Não Verás País Nenhum”.

“João Gilberto Noll consolidou uma nova direção da prosa brasileira na década de 1980, com os livros ‘O Cego e a Dançarina’, ‘A Fúria do Corpo’, ‘Bandoleiros’, ‘Rastros de Verão’ e ‘Hotel Atlântico’, refletindo uma mudança temática e estilística que marcaria a literatura brasileira na passagem para o século 21. Seu texto parecia movido por um intimismo absoluto, um sentimento perpétuo de deslocamento, o que pode ser sintetizado no título de seu último romance, de 2012, ‘Solidão Continental’. Perdemos um escritor inescapável do nosso tempo”, Cristovão Tezza, autor de “O Filho Eterno”.

“Sobre a excelência de Noll como escritor, outros mais credenciados falarão. De minha parte, quero lembrar nosso primeiro encontro, lá pelos anos 1980, quando timidamente ele entrou na redação em que eu trabalhava para divulgar seu primeiro livro de contos, ‘O Cego e a Dançarina’. O que mais me chamou a atenção foi a paciência pela demora com que foi atendido e a modéstia com que vendeu o seu peixe. Quase pediu desculpas por um livro que logo em seguida ganharia o Prêmio Jabuti, o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, entre outros troféus. A partir de então nos perdemos de vista. Fomos nos reencontrar muitos anos e 18 livros depois, com ele já consagrado. Sabe o que ele lembrou de fazer? Me agradecer por tê-lo atendido naquela distante tarde. Acho que esse recato, essa modéstia, num meio de tanta disputa de egos, impediram que ele recebesse o reconhecimento popular que merecia”, Zuenir Ventura, autor de “Cidade Partida”.

“Lamento a morte do Noll. Não o conhecia pessoalmente, mas li e admirei alguns livros dele. Fui amigo do Caio Fernando Abreu, outro escritor gaúcho da mesma geração. Penso que Caio Fernando e João Gilberto transformaram a vida numa aventura literária. Assumiram riscos e foram corajosos, duas coisas essenciais para quem pretende ser escritor ou artista neste país tão conservador e moralista”, Milton Hatoum, autor de “Dois Irmãos”.

“Noll era exuberante e litúrgico não só na escrita, quando lia seus textos publicamente mudava a voz e a postura do corpo como sacerdote em enunciação. Dizia que aquele era o ritmo com que ele escreveu, a mesma vibração. De algum jeito, Noll ensinava à plateia que esse não é mesmo um campo habitual, é um estado que se aprende a transitar. Uma frase de ‘A Fúria do Corpo’ marcou, para mim, sua força literária: ‘Ainda não dobrei o suficiente meus joelhos em adoração ao mistério vivo’”, Andréa del Fuego, autora de “Os Malaquias”.

“Faleceu João Gilberto Noll, um dos raros autores de ficção no Brasil a ter sustentado ao longo de toda a sua trajetória um tipo de prosa que sem pretender ser exatamente poética estava sempre tensionada e atravessada por questões que vão além do virtuosismo ficcional e da construção narrativa convencional. Para quem estava mais no campo da poesia mas desejava produzir algo em prosa era em autores como ele que durante os anos 1990 e 2000 a gente encontrava motivação e possibilidade de pensar a prosa num contexto inventivo mais amplo, mais ambíguo e desafiador. Conheci a literatura de Noll através do livro ‘O Quieto Animal da Esquina’ em um curso de literatura brasileira durante minha graduação na UERJ, esse livro e os outros dele que li em seguida modificaram minha maneira de pensar a articulação entre literatura e realidade e também deflagraram o desejo de sair da poesia em direção à prosa”, Laura Erber, autora de “Esquilos de Pavlov”.

“Noll para mim era o maior de todos. Vivi a obra dele desde 2000, quando li ‘Rastros do Verão’ chegando em Porto Alegre, muito como o protagonista do livro. Andava pela cidade com meu namorado da época, procurando os cenários descritos no livro… Poucos anos depois eu descobri que estava chegando em algum lugar quando dividi minha primeira mesa com ele. Foram algumas, em São Paulo, Buenos Aires, Ouro Preto. Tenho tudo dele. Mas esperava mais”, Santiago Nazarian, autor de “Neve Negra” (ainda em produção).

“Noll está, sem dúvida, entre os grandes autores contemporâneos da literatura brasileira. O que sempre me chamou a atenção em sua obra é a inquietação, um eterno desconforto dos personagens que perambulam, às vezes aparentemente sem rumo em busca de algo, em busca de uma resposta. Este perene deslocar-se e esta busca atravessam a obra de Noll de maneira atormentadora, deslocando sempre o leitor de uma zona de conforto, levando-o à inquietação, à reflexão que toda boa literatura almeja. Entre os livros de Noll, o romance ‘A Céu Aberto’ tem lugar garantido em minha biblioteca afetiva”, Rogério Pereira, autor de “Na Escuridão, Amanhã”.

“A literatura do Noll me ensinou tanta coisa, me ensinou que para escrever é necessário coragem, entrega, amor pelas palavras e por tudo o que é humano. Me ensinou também que não é preciso temer o caos. E nunca vou esquecer de uma conversa que tivemos sobre psicanálise no táxi, indo para um evento aqui em São Paulo, ele, longe de reproduzir discursos teóricos, falava a partir de um saber outro, um saber do inconsciente e da arte. E eu me senti tão privilegiada com aquele breve encontro”, Carola Saavedra, autora de “”O inventário das coisas ausentes”.

“Conheci João Gilberto Noll, em 2012, na Fliporto, em Olinda, em que ambos participávamos. Eu já tinha lido tudo dele até então. João já era mito para mim. Me programei para pegar um autógrafo do livro que ele lançava, do qual não me lembro nome. Cheguei atrasado e achei que a fila fosse estar enorme. Mas João estava sozinho, numa mesinha, completamente triste. Hoje, quando me lembro dele, essa imagem vem à minha cabeça, instantaneamente. Mas também lembro do João desinibido, interpretando de forma bastante engraçada trechos de um dos seus livros, no palco do Itaú Cultural, em São Paulo. João era tímido, mas podia ser ator. Interpretava seus textos como ninguém. Além disso, sempre foi o estilista da literatura brasileira. Vá com Deus, João!”, Alexandre Staut, autor de “Paris-Brest”.

“Conheci Noll em 1995 numa aula no segundo grau. O professor perguntou quem queria emprestado os livros ‘Harmada’ e ‘O Quieto Animal da Esquina’. Peguei os dois, levei pra casa e devorei nessa ordem. Cada página me apresentava uma literatura nova, fluída, que teimava em rodear um universo sempre em transição. Romances de fim de século que me marcaram e me influenciam até hoje”, Roberto Menezes da Silva, autor de “Julho É um Bom Mês para Morrer”.

“João Gilberto Noll quase sussurrava e mantinha os olhos baixos quando o vi em uma conferência sobre literatura brasileira em Boston. Tão logo terminou, sentou-se ao meu lado, num dos assentos da plateia: nascia ali uma conversa de profundidade cortante, inesquecível. De alma para alma. Confesso que enrubesci: Noll já me conhecia, sempre me conhecera, via no espelho dos olhos uma vida inteira, sofrimentos e alegrias. Noll, o magnífico escritor das tardes prosaicas. De luto e com imensa gratidão, faço pacto com a sua memória. Admirável João Gilberto Noll, as tuas palavras agora vibram com fulgor em seus passos para a eternidade!”, Katia Gerlach, autora de “Colisões Bestiais (Particula)res”.

“O Noll, ao lado de Sérgio Sant’Anna e Dalton Trevisan, foi um dos escritores que mais li na vida. Autor refinado. Nunca me esqueço o impacto radical que ‘O Cego e a Dançarina’ teve em minha vida literária”, Jovino Machado, autor de “Sobras Completas”.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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