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Centenário de Anthony Burgess: Laranja Mecânica permanece como distopia indispensável

Rodrigo Casarin

Nascido em Manchester, na Inglaterra, em 25 de fevereiro de 1917, Anthony Burgess completaria cem anos neste sábado caso estivesse vivo. O nome pode até soar estranho para muitos, mas é difícil encontrar alguém que jamais tenha ouvido falar da obra-prima do escritor: “Laranja Mecânica”, livro lançado em 1962 e que se transformaria também em um clássico do cinema pelas mãos de Stanley Kubrick, com longa que ganhou as telonas em 1971.

Falando especificamente da versão literária de “Laranja Mecânica”, a obra está entre os principais títulos distópicos já escritos, ao lado de romances como “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury. Temos Alex contando sua história nas páginas do clássico. Ele é um adolescente que, junto com sua gangue, anda pelas ruas de uma Londres futurista praticando assaltos, estupros e espancamentos, até que em uma noite acabam por cometer um assassinato. Alex vai preso e só tem uma chance para que um dia consiga reaver sua liberdade: ser cobaia em uma experiência que eliminaria as tendências criminosas do cidadão por meio de sessões de lobotomia extremamente desumanas.

Não bastasse a complexidade do enredo, “Laranja Mecânica” ainda possui uma linguagem bastante própria, com todo um dialeto imaginário construído por Burgess, claramente influenciado pela leitura de “Finnegans Wake”, de James Joyce, um de seus autores favoritos. “Laranja destoa por causa da linguagem, que de fato é diferente do resto dos livros dele. Burgess era um apaixonado pela linguagem, e ele ainda faria um excelente trabalho criando as línguas pré-históricas do filme ‘A Guerra do Fogo’, de Jean-Jacques Annaud. Mas Burgess era um observador muito atento da realidade, e seus livros todos são um espelho disso”, aponta Fábio Fernandes, que assina a tradução da obra publicada pela Aleph – da caprichada edição comemorativa de 50 anos do clássico que as ilustrações desta matéria foram retiradas.

Ilustração: Dave McKean.

É importante notar que o interesse do público por distopias vem crescendo há algum tempo e, após a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, vimos uma guinada na procura por esse tipo de literatura, principalmente os clássicos. De cara, quem se destacou – e se mantém com boas vendas – foi “1984”; pessoas acreditam que podem encontrar muitas explicações para o mundo em que vivemos no ótimo trabalho de Geroge Orwell (e podem mesmo), mas uma leitura atenta de “Laranja Mecânica” também confrontara o leitor com alguns importantes dilemas do nosso tempo.

O principal deles, na minha opinião, é uma questão essencialmente moral: qual é o limite das práticas que o estado pode adotar para ressocializar um criminoso? É possível readequar plenamente uma pessoa para o convívio social sem que sua essência enquanto indivíduo seja deturpada? Se o que Alex fez antes da prisão é repugnante, o tratamento a ele dispensado no cárcere também enoja: não se limitam a fazer com que ele deixe de cometer os erros do passado, mas o transformam em alguém completamente diferente. É aceitável que o estado homogenize e pasteurize aqueles que têm sob tutela?

Não tenho respostas prontas, mas Adriano Fromer, editor da Aleph, tem opinião semelhante: “Como toda obra distópica de qualidade, ‘Laranja Mecânica’ foi, ainda é e será muito relevante, sobretudo pela reflexão sobre a delimitação do poder do estado e até onde ele pode influenciar na conduta ética e moral do cidadão”. Fernandes, por sua vez, alerta que “num mundo com Trump nos Estados Unidos, Brexit no Reino Unido e Temer aqui”, a relevância não só do clássico, mas também do seu autor, “é total”.

Ilustração: Angeli.

Além do clássico

No entanto, amanhã é o centenário de Burgess, não de “Laranja Mecânica”. “O próprio autor dizia que não considerava ela sua melhor obra. A tendência dele era escrever conteúdos mais eruditos. Na visão dele, ‘Laranja Mecânica’ foi o patinho feio que cresceu e fez sucesso, isso graças ao Kubrick, o que ele mesmo reconhecia”, diz Fromer.

E o escritor publicou mesmo muitos outros títulos além de seu clássico, como “The Wanting Seed”, “1985” – uma homenagem a Orwell -, “Earthly Powers” e “Enderby”, série de quatro volumes. Também foi professor de literatura, escreveu peças de teatro e se dedicou à crítica, realizando estudos de escritores ingleses como Shakespeare e o próprio Joyce. Acelerou sua produção literária na década de 1960, quando um diagnóstico médico equivocado apontou que ele teria pouco tempo de vida por conta de um câncer no cérebro – um tumor no pulmão que lhe daria cabo, mas isso só em novembro de 1993, quando tinha 76 anos.

Ilustração: Oscar Grillo.

Ilustração: Oscar Grillo.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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