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Desenganado pelos médicos, ele ficou 15 dias em coma, venceu o câncer e encontrou nos livros a força para se recuperar

Rodrigo Casarin

17/02/2017 11h03

Luiz no final do ano passado.

Em maio de 2011, Luiz Carlos Freitas superou um câncer no estômago. Tudo parecia bem com o seu corpo quando, em novembro do mesmo ano, em uma tomografia rotineira, teve uma surpresa: o mal novamente lhe tomava, mas agora de forma ainda mais séria. Estomago, pâncreas e baço estavam sendo atacados por tumores e uma necrose surgira em seu fígado. “É o fim”, pensou, lembrando que a doença já tinha vitimado seu pai muitos anos antes.

“Quanto tempo eu tenho de vida?”, perguntou, então, ao oncologista.

“Entre dois e cinco anos”, o médico lhe respondeu.

Para alcançar aquela meia década, no máximo, deveria passar por uma cirurgia, que foi agendada para os primeiros dias de 2012. A operação demorou oito horas, mas, aparentemente, foi um sucesso. “Acordei e percebi que continuava no mundo dos vivos”, recorda Luiz.

A calmaria durou pouco. A saúde de Luiz voltou a fraquejar e outras cinco cirurgias consecutivas precisaram ser feitas. Para piorar, infecção hospitalar. Litros de antibiótico não foram suficientes para matar as bactérias que o matavam. Choque séptico. Parada cardiorrespiratória. Rins, fígado e pulmão sem funcionar. “Eu me lembro de muita gente na minha volta, certa noite, e o meu médico correndo comigo na cama pelos corredores do hospital em direção à UTI”.

Depois disso, 15 dias em coma. A família já começava a se conformar com a iminente perda e a pensar nos cerimoniais e burocracias pós-morte. Estava claro que o médico tinha sido otimista demais em imaginar que Luiz poderia sobreviver por alguns anos. Não passaria de um mês entre a descoberta de novos tumores e o óbito. No entanto…

“Despertei ao ver três rostos com ares de santas: minha mãe, minha mulher e minha irmã caçula, não necessariamente nesta ordem. Acordei, os médicos trataram o assunto como ‘milagre’. Fui me recuperando, melhorando, derrubando todos os prognósticos contrários, após três meses voltei para casa, com 40 quilos a menos, e me recuperei totalmente. Ainda estou administrando o episódio intimamente, amadurecendo material para escrever um livro sobre tudo isso, considerando que sempre fui agnóstico inveterado…”, conta Luiz.

Literatura como tronco no qual se agarrou

Se Luiz ainda digere como transformará tudo o que viveu em um livro, ao menos parte do que passou já foi ficcionalizado em “Homo Perturbatus”, romance que lançou em meados do ano passado pelo Selo Jovem. “Na obra, transfiro à personagem principal, que ao final do livro descobre ter câncer, algumas experiências minhas como portador da doença e como paciente, especialmente no período em que estive hospitalizado pós-cirurgia”, conta.

O título dialoga com o biólogo francês Jean-François Bouvet, que inventou o termo “Homo Perturbatus” para teorizar o momento de evolução biológica que o ser humano vive. “Pela primeira vez em sua história, a modificação de seu meio ambiente pelo Homem é o principal fator de sua evolução, superando a seleção natural. Não é uma evolução no sentido de Darwin, mas uma retroevolução”, explicou o cientista em entrevista para a Agência France-Presse em 2014.

“Bouvet escreveu sobre a questão do ponto de vista biológico, eu escrevi do ponto de vista sociológico, antropológico e filosófico. Considero que a Família, a Sociedade e o Estado transformam seres humanos em humanoides, em autômatos a serviços do sistema, atualmente ultrapassado e clamando por mudanças. Quis mergulhar na literatura e escrever um livro que, apesar de criticar sociedade contemporânea, é um grito de esperança e uma ode à fraternidade, à tolerância e ao amor”, explica.

Luiz é também jornalista e autor de outros seis livros, dentre eles “MoriMundo”, publicado em 2011 pela Livraria Mundial, justamente no intervalo entre a cura do primeiro câncer e a descoberta dos tumores que o levariam até a beira da morte. Para deixar o estado moribundo, aliás, garante que a literatura foi uma valiosa alidada.

“O fato de ser romancista, a ânsia de escrever bons livros e conquistar leitores, foi o tronco no qual me agarrei quando a torrente me levou rio abaixo. Voltar a escrever após um período de recuperação física, tenho convicção, foi determinante para recuperar a saúde mental. Hoje, respiro literatura 24 horas, com breves pausas. Escrevo durante oito, nove horas diárias e me sinto plenamente feliz e realizado”. Atualmente, Luiz trabalha em um novo romance que já tem título definido, “Ninguém”, o nome do protagonista, um órfão pobre, negro, homossexual e sensitivo que tem três amigos: Maisum, Esperança e Benvindo.

Em 2011, após a primeira cirurgia.

Vida melhor do que outrora

Por falar nos dias de hoje, Luiz, aos 60 anos, vive na praia do Laranjal, na Lagoa dos Patos, em Pelotas. Define-se como um eremita antissocial, crítico feroz da civilização contemporânea e uma prova de que existe vida após o câncer – ele já superou os cinco anos máximos que o médico tinha dado de previsão para sobrevida. Não tem mais estômago, parte do pâncreas, o baço, a vesícula, a aparência e força física de outrora, mas garante viver bem.

“Levo uma vida praticamente normal. Posso comer de tudo, desde que moderadamente. Bebo vinho, cerveja… Embora tenha a saúde fragilizada por conta da falta de órgãos, me sinto melhor hoje, com 56, 57 quilos, do que antes, com 73 quilos, fumante, estressado, só pensando em trabalho. Sim, tenho pressa em concretizar meus objetivos, porquanto o câncer é uma enfermidade de humor instável, irônica, gosta de atacar quando a vítima está descuidada. Convivo diariamente com essa hipótese de ser pego novamente de surpresa pela doença, sem ter a oportunidade de fazer meus livros serem conhecidos e lidos nacionalmente”.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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