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Criança sai para trabalhar com irmão mais velho, dorme em trem e passa 26 anos perdido da família

Rodrigo Casarin

02/02/2017 14h34

reecontro

Saroo e Kamla.

Saroo vivia com sua mãe, Kamla, e três irmãos em uma casa de cômodo único em Ganesh Talai, vilarejo na região central da Índia. Os cinco costumavam dormir sobre lençóis que forravam o chão normalmente repleto de palha, lama e esterco de bois e vacas. O dia a dia da família se limitava a tentar arrumar alguns trocados e o mínimo de comida. Todos ali precisavam ajudar de alguma forma, fosse auxiliando pequenos comerciantes locais em troca de uma fruta ou um saquinho de leite, fosse andando quilômetros e mais quilômetros para procurar o carvão que vendiam por uma ninharia qualquer.

Certa noite, quando Guddu, seu irmão mais velho, estava para sair de casa em busca do sustento, Saroo o convenceu a levá-lo junto. Foram para a estação de trem perto de onde moravam e não demorou para que o sono batesse e Saroo procurasse um lugar para dormir. Encerrado o expediente ferroviário, deitou no banco de uma das composições estacionadas e adormeceu. Ao acordar, contudo, o trem já estava em movimento. Trancado em um vagão, gritava desesperadamente por Guddu, mas a essa altura o veículo já andava bem longe do seu ponto de partida. Saroo não sabia onde estava, não sabia para onde o levavam e sequer conhecia seu sobrenome ou a pronúncia correta do nome de sua cidade. Ele tinha cinco anos.

Quando a composição finalmente foi aberta e ele conseguiu descer do trem, descobriu que vagava pelas ruas de Calcutá. Não fazia ideia de que estava mais de 1600 quilômetros distante de casa. Na cidade gigante, para piorar, as pessoas não falavam seu idioma (a Índia possui mais de duas dezenas de línguas reconhecidas pelo governo). Restou-lhe vagar novamente em busca de comida, mas agora procurando também algum norte. Conseguiu escapar de situações perigosas, de gente que parecia querer lhe sequestrar, e também contou com ajuda de estranhos. Ninguém, contudo, conseguia entender ou descobrir de onde era a criança.

Saroo acabou levado para uma espécie de internato onde parte das cerca de 80 mil crianças perdidas por ano no país são alojadas. Mesmo sem jamais esquecer da sua mãe biológica e de seus irmãos, não pôde relutar quando uma nova família quis lhe adotar. Seria um novo membro dos Brierley e se mudaria para a Austrália, onde passaria os mais de vinte anos seguintes.

O pequeno Saroo.

O pequeno Saroo.

O reencontro

Homem feito, aos 25 anos Saroo descobriu o Google Earth e decidiu usar o programa para achar sua primeira família. Cruzando lembranças com informações diversas, traçou um raio a partir de Calcutá para, seguindo as linhas de trem e analisando imagens de satélite, tentar encontrar o lugar onde nascera. Demorou, demorou muito. Entrou em crise, desistiu, brigou com sua família australiana, reconciliou, desencanou, voltou às buscas… Até que no dia 31 de março de 2011, cerca de cinco anos depois do início da empreitada digital, achou Ganesh Talai. Claro, viajou em busca de seu passado.

“Dois homens vieram ver o que estava acontecendo, e o segundo – devia ter uns 30 e poucos anos e tinha um bom inglês –, ao olhar para as fotos, pediu a mim que esperasse um pouco e caminhou viela abaixo. Eu não tive muito tempo para pensar no que estava acontecendo, pois outras pessoas começaram a se aglomerar ao nosso redor, curiosas para saber o que se passava e por que havia um estrangeiro ali, naquelas ruas que turistas nunca visitariam. Dois ou três minutos depois, o homem retornou e me disse aquelas palavras que eu jamais vou esquecer: ‘Venha comigo. Vou levá-lo até sua mãe’”.

As palavras de Saroo recordando do exato instante que descobrira que a busca tinha sido bem-sucedida estão em “Uma Longa Jornada Para Casa”, livro publicado originalmente 2013 e lançado pela Record no Brasil em janeiro deste ano. A obra serviu de base para o roteiro do longa-metragem “Lion”, que estreia por aqui em meados de fevereiro e que concorre a seis estatuetas do Oscar, inclusive a de melhor filme.

“Mesmo quando empregava todos os esforços tentando localizar minha cidade e minha família, nunca tive a intenção de voltar, de algum modo, à vida que havia perdido. Não se tratava de uma necessidade de consertar algo que tinha dado errado ou de retornar ao lugar ao qual supostamente pertencia. Não sou indiano. Vivi quase toda a minha vida na Austrália e tenho laços familiares aqui que não podem ser questionados ou rompidos. Eu queria saber de onde vim – para poder olhar para um mapa e apontar nele o lugar onde nasci – e esclarecer algumas das circunstâncias do meu passado. Acima de tudo, embora tentasse conter minhas expectativas como forma de me proteger da frustração, esperava encontrar minha família indiana para que ela soubesse o que tinha acontecido comigo. Meus laços com ela jamais serão rompidos e me sinto profundamente grato por ter a oportunidade de renovar nosso elo”, continua o autor em seu texto autobiográfico.

Depois de reencontrar a mãe biológica e sua primeira família, Saroo optou por seguir com a vida na Oceania ao lado dos pais adotivos. Atualmente vive em Hobart, na Tasmânia, onde ajuda a tocar a Brierley Marine.

A família Brieley.

A família Brierley.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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