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Do Rio ao Maranhão, franceses rodam mais de 5 mil quilômetros para desvendar a história dos heróis negros brasileiros

Rodrigo Casarin

 

Retrato de Maria Firmina dos Reis, autora de "Úrsula".

Retrato de Maria Firmina dos Reis, autora de “Úrsula”.

Em 2011 que o etnólogo francês Jean-Yves Loude e a conterrânea e colega de profissão Viviane Lièvre fizeram uma viagem de carro que partiu do Rio de Janeiro e foi até o Maranhão, percorrendo mais de 5 mil quilômetros. O norte era claro: desvendar o passado dos heróis negros brasileiros, quase sempre suprimidos ou pouco valorizados quando a história oficial é escrita, pessoas que descenderam de escravizados e contribuíram para a construção da cultura nacional. Da aventura nasceu o livro “Pepitas Brasileiras”, escrito por Loude com colaboração de Viviane, que saiu na França em 2013 e no final do ano passado chegou ao Brasil pela Autêntica.

“’A obra veio do desejo de inventar uma nova maneira de viajar. Os ocidentais conseguiram atingir todas partes desconhecidas do planeta e também a lua. Mas existem lugares ainda mais remotos, pouco frequentados: as sombras periféricas da nossa memória. A nossa vontade é alcançar essas zonas afastadas e resgatar alguns atores esquecidos das tragédias do passado. Já viajamos para África em busca de memórias assassinadas do continente. Era normal prosseguir essa viagem pelo Brasil, o segundo país mais negro do mundo, após a Nigéria”, explica Loude, autor também de “O Rei da África e a Rainha-mar” e “Cabo Verde: Notas Atlânticas”.

“Pepitas Brasileiras” mescla a narrativa da viagem com a história de nomes relativamente conhecidos dos brasileiros, como Zumbi dos Palmares e Aleijadinho, mas também de personagens que, segundo os autores, mereceriam ocupar um papel maior – ou algum papel, ao menos – no imaginário da população. Gente como Luzia, nossa primeira antepassada e importante figura para a história da humanidade, João Cândido Felisberto, o almirante negro da Revolta da Chibata, Emerico Lobo de Mesquita, o “Mozart negro” de Minas Gerais, Maria Firmina dos Reis, primeira mulher romancista e abolicionista da história literária do Brasil, autora de “Úrsula”, e Esperança Garcia, a primeira escrava a ter a audácia de escrever e endereçar uma carta de queixa ao governador do Piauí, em 1770.

Quem indica esses nomes e feitos é o próprio Loude, que lembra que “os escravos africanos que desembarcaram vivos no Brasil e os descendentes deles não foram só braços e costas explorados pelos colonizadores. Eles levaram tradições, conhecimentos, explicações da vida e da morte, culturas ricas que foram espalhadas, diluídas na cultura imposta pelos portugueses, e esses elementos participaram fortemente na edificação do gênio brasileiro”.

pepitas brasileiras

Brasil longe dos clichês

A rota traçada pelos autores não foi mero acaso, evidentemente. Entre os extremos da viagem, passaram por lugares como Minas, Salvador e o nordeste, destinos de grande concentração de comunidades afro-brasileiras. “No caminho, encontramos figuras vivas da força cultural negra do país, a lembrança dos heróis da resistência dos escravos e os lutadores da dignidade na época moderna. Aquelas figuras que chamamos de ‘Pepitas’ para opor as duas ideias de riqueza: ouro do Minas Gerais e tesouro humano”.

Loude define a viagem como uma “colheita literária” para mostrar o Brasil que tanto ele quanto Viviane escolheram amar. “Estamos fartos da redução do Brasil a cinco clichês: beleza fácil, praias, garotas desnudas, futebol e carnaval. O Brasil merece melhor representação. O Brasil ainda não é, para nós, o país mágico da mestiçagem, mas, um dia, poderá se tornar o laboratório de uma humanidade do futuro, isso quando os três componentes da população tiverem o mesmo respeito: indígenas, europeus e africanos”.

Ainda contrariando os clichês, o autor afirma que os franceses andam saturados da imagem de um país que se disfarça por meio de obras de artistas como Jorge Amado, Caetano Veloso e Clarice Lispector. Para ele, é necessário que se valorize mais nomes como dos escritores Conceição Evaristo, Carolina de Jesus e Abdias do Nascimento e do músico Zé Ramalho, além dos “gênios negros da música barroca de Minas Gerais”.

E, ao cabo da viagem, para Loude o Brasil é um país racista? Sim. “O Brasil permanecerá um país racista enquanto a injustiça social reinar. Como em todas partes do mundo. Tentei escrever esse livro para matar alguns preconceitos enraizados no solo brasileiro e mundial. Só educação e mais educação pode derrubar o racismo e combater as injustiças. Esses são os desafios do Brasil e os nossos”.

Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.

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