Página Cinco

Cinco fatos que fizeram de Ferreira Gullar um grande intelectual e poeta
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Rodrigo Casarin

 

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Ferreira Gullar. Difícil encontrar alguém que nunca tenho ouvido falar do poeta que morreu hoje, aos 86 anos, após ficar cerca de 20 dias internado em um hospital do Rio de Janeiro com insuficiência respiratória. No entanto, é bastante comum que as pessoas conheçam seu nome, mas não tenham familiaridade com a obra do artista. É aquela famosa posição de “sei quem era, sei que era importante, mas não lembro de já ter lido algo dele”. Eis aqui, então, um resumo dos motivos que levaram Gullar a ser tratado como grande escritor e intelectual:

“Poema Sujo”: escrito pelo autor enquanto estava exilado na Argentina e publicado em 1976, “Poema Sujo” se tornou o seu trabalho mais conhecido e celebrado. Com diversas passagens de extremo erotismo, a obra trata da repressão política que intimidava muitos brasileiros, dentre eles o próprio Gullar. Uma das motivações para escrever o texto foi deixar um testemunho final antes que o calassem para sempre.

Linguagem: Gullar foi um dos responsáveis por revolucionar a poesia ao romper com os habituais versos e dar uma maior flexibilidade à linguagem. Passou, então, a trabalhar com a palavra de forma bastante livre, sendo que o formato dos poemas também se tornou um aspecto importante da arte. Veja um exemplo:

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Música: a poesia de Gullar influenciou diretamente músicos do tropicalismo e o próprio escritor se dedicou a compor canções populares durante parte de sua carreira. Assina com Caetano Veloso, por exemplo, “Onde Andarás”, e com Milton Nascimento, “Bela Bela”. É também um dos responsáveis pela letra de “Borbulhas de Amor” – sim, aquela do “Quem dera ser um peixe…” -, um dos maiores sucessos de Fagner.

Teoria e crítica: não bastasse ser um artista respeitável, Gullar se dedicou sobremaneira a pensar a própria arte. Dentre seus trabalhos críticos e teóricos, destacam-se “Teoria do Não Objeto”, de 1959, no qual defende que a arte só atinge o patamar de arte quando encontra algum espectador, e “Argumentação Contra a Morte da Arte”, uma reunião de ensaios sobre elementos, principalmente mercadológicos, que ameaçam a produção contemporânea.

Independência intelectual: Gullar foi membro do Partido Comunista, temeu ser morto pelos militares ao longo da ditadura no país e viveu durante anos no exílio. Entretanto, na fase final de sua vida, comprou brigas, assumiu posições polêmicas e passou a ser visto por muitos como um reacionário. Bateu nos governos do PT desde os primeiros anos de Lula no poder e assumia uma posição bastante conservadora quando falava sobre a regulamentação ou descriminalização da maconha, por exemplo. Mesmo desagradando muita gente, principalmente colegas do meio intelectual e artístico, demonstrou ter uma postura bastante independente, algo cada vez mais raro em nossos dias.


De peruca para vagina à mordida de Tyson, livro reúne ideias medonhas
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Rodrigo Casarin

 

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Atendendo clientes com a higiene bastante precária, muitas prostitutas da Europa do século 17 começaram a sofrer com piolho e outros parasitas na cabeleira de suas partes íntimas. A solução encontrada para a questão era simples: depilação completa. No entanto, aquilo deixava claro que tinham passado recentemente por um problema, então, para enganar os homens que as procuravam, criaram o “merkin”, uma peruca para a região pubiana. Não foi uma saída muito inteligente, contudo, pois o apetrecho acabava se tornando um ótimo meio para que os parasitas e diversas bactérias se hospedassem.

A história da peruca para as partes íntimas está registrada em “As 100 Piores Ideias da História – As Piores Sacadas da Humanidade que se Transformaram nas Melhores Roubadas”, de Michael Smith, publicitário, e Eric Kasum, jornalista, recém-lançado no Brasil pela Valentina. A obra é uma coletânea de sandices, idiotices e bizarrices relacionadas à arte, à história, às invenções, à política, ao esporte, às guerras e à ciência, dentre outras áreas.

concordiaAinda que muitas das curiosidades venham dos Estados Unidos, país dos autores, diversas delas são de amplo conhecimento internacional. É o caso da famosa mordida que Mike Tyson deu na orelha de Evander Holyfield enquanto disputavam o título de campeão dos pesos-pesados de boxe em junho de 1997 – Tyson acabou desclassificado, teve sua licença para lutar cassada e foi multado em 3 milhões de dólares. Ou da ideia de jerico que o comandante Francesco Schettino teve, em janeiro de 2012, de passar com o Costa Concordia perto da ilha de Giglio, na Itália, para que a tripulação pudesse acenar para os habitantes do lugar – quem não se lembra do barco preso durante dias entre as rochas, em um desastre que vitimou 32 pessoas?

Diversos relatos, entretanto, são menos conhecidos do grande público, como o caso de dois livros que compunham “A Lei das Nações” que George Washington, então presidente dos Estados Unidos, pegou emprestado em 1789 de uma biblioteca pública e, por conta dos compromissos de sua agenda, esqueceu que precisava devolvê-los.

piores ideias capaEm 2010, um arquivista de tal biblioteca descobriu em velhos calhamaços de registros que a devolução dos volumes estava pendente desde que o antigo presidente lhes pegara emprestado. Se fosse aplicada, a multa por aquele atraso de 221 anos chegaria a cerca de 300 mil dólares. Avisado, o governo norte-americano vasculhou seus arquivos em busca dos livros. Como não os encontrou, procurou pelo mundo por uma edição idêntica de “A Lei das Nações”, comprou por 12 mil dólares e entregou à biblioteca, sanando assim a dívida deixada por George Washington.

Em “As 100 Piores Ideias da História” há também alguns casos que começaram mal, mas acabaram resultando em invenções importantes, como a criança francesa que aos três anos espetou o olho com um furador e ficou cego. Dez anos depois, o jovem usou o mesmo tipo de objeto para desenvolver o sistema de leitura em Braille (seu sobrenome). Mas não espere por esse tipo de registro aos montes, o foco – e a graça – da obra está justamente nos absurdos e burradas que os homens já fizeram ao longo de sua existência.


História de “O Filho Eterno” perde força na adaptação para o cinema
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Rodrigo Casarin

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Publicado em 2007 pela Record, “O Filho Eterno”, de Cristovão Tezza, ganhou praticamente todos os prêmios que podia: Portugal Telecom, São Paulo de Literatura, APCA, Jabuti… Hoje, difícil qualquer lista de romances nacionais contemporâneos que não o cite como um dos principais. Caso ainda mais raro, o sucesso de crítica também virou sucesso de público, tanto que quase 80 mil exemplares do título já foram vendidos.

Capa O Filho Eterno AG V2.inddA obra narra como a rotina de um homem é fortemente abalada após o nascimento do seu primeiro filho, Felipe, uma criança que, como diz o médico, tem um pequeno problema: mongolismo. De cara, o pai rejeita fortemente o rebento com síndrome de down e procura maneiras de que aquele ser não atrapalhe sua vida justamente no momento que sua carreira de escritor começa a decolar. Porém, em meio a um turbilhão de sentimentos, de maneira sutil o pai passa a aceitar, entender e se apaixonar pela criança.

“O Filho Eterno” agora foi adaptado para o cinema com produção de Rodrigo Teixeira e direção de Paulo Machline. O longa homônimo, que estreia amanhã nas salas do país, traz Marcos Veras interpretando o pai, Pedro Vinícius no papel do filho e Débora Falabella como a mãe do garoto. Poderia ser mais uma grande obra de arte, mas…

Em que pese a responsabilidade de se trabalhar sobre um dos nossos textos mais importantes nas últimas décadas, o filme não consegue levar para a telona aquela que talvez seja a principal virtude do romance: mostrar a transformação interna do pai – a aceitação e, digamos, o encantamento pelo filho – de maneira gradual e sutil, sem grande estardalhaço.

A adaptação também faz escolhas que distanciam consideravelmente o filme do romance. Machline opta, por exemplo, por usar a trajetória da Seleção Brasileira entre as Copas de 1982 e 1994 como pano de fundo e ponto de transformação no contato entre pai e filho. Além da alternativa render algumas cenas que se assemelham a comerciais de cerveja, foge bastante da maneira que o esporte aparece no livro de Tezza, no qual é a paixão pelo Atlético Paranaense que surge como um dos principais pilares da relação do pai e Felipe. Qualquer torcedor sabe que normalmente há uma distância abissal entre os sentimentos (e o que eles podem provocar) relacionados ao clube e à seleção. É acompanhando o futebol no dia a dia – algo inerente aos times, não aos selecionados – que vínculos podem ser  construídos e estabelecidos.

tezzaA visão de Tezza

Tezza, no entanto, apesar de ter ressalvas, gostou do filme. “É uma boa história, bem contada, que segura o espectador do começo ao fim. Também me agradou muito o fato de se centrar no drama do pai (aliás, com um Marcos Veras excelente), e não na criança especial, o que acaba sempre puxando pelo piegas e pela exploração sentimental. O que me desagradou? O que desagrada todo escritor que vê um livro seu na tela: será sempre uma outra obra, de outro autor. E, obviamente, é inevitável que muito do livro fique de fora. Mas essa é a regra do jogo”, diz em entrevista ao blog.

Por opção pessoal, o escritor em nenhum momento interferiu no roteiro do longa. “Acho que uma adaptação é uma leitura particular, autoral, do diretor do filme, e essa leitura deve ser respeitada. Literatura e cinema têm muitos pontos em comum, mas são linguagens substancialmente diferentes – uma adaptação 'fiel' não existe. Se alguém assiste a uma adaptação esperando fidelidade ao livro, vai se frustrar, sempre. Um filme é um recorte de escolhas (limitadas, também, pelos recursos da produção), o que fará dele sempre uma outra obra, com outro autor”.

Ao falar da diferença entre as obras, lembra que “era preciso transformar uma ficção de natureza fundamentalmente reflexiva, em vários momentos quase abstrata, em algo que possa ser narrativamente 'mostrado', que é o que o cinema faz: mostra as coisas acontecendo. E é claro que, nessa passagem, paga-se uma taxa de infidelidade”. Cita a presença da mãe (“uma personagem ficcionalmente fraca, compensada entretanto pela força da interpretação da Débora Falabella”), quase ausente em seu livro e bastante presente no filme, e do pai do personagem, como alguns dos aspectos mais dissonantes entre os trabalhos. E, a respeito da Seleção Brasileira no lugar do Atlético Paranaense, considera ter sido uma “'infidelidade fiel' uma boa maneira de amarrar a história, aproveitando o sentido que a paixão pelo futebol tem no livro na socialização do filho e na aproximação do pai”.

O título é o primeiro livro de Tezza que vira um longa-metragem – “Beatriz” já tinha sido transformado em dois curtas: “Beatriz e a Velha Senhora”, de Leo Del Castilho, e “Aula de Reforço”, de Rodrigo Séllos. “Sempre sonhei em ver livros meus na telona, mas curiosamente não 'O Filho Eterno', que é uma história mais reflexiva que narrativa, muito difícil de adaptar”, conta. “Caio Blat comprou os direitos do meu romance 'Juliano Pavollini', que é uma história mais imediatamente adaptável, por assim dizer. E estou em negociações para a adaptação do romance 'Trapo', que é outro livro que dá filme – já foi uma peça de teatro de sucesso, nos anos 90”, completa o escritor.


A favela de Paraisópolis além da violência: tem até casa de garrafa pet
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Rodrigo Casarin

Paraisópolis, o cenário da novela das 7 da Globo

22.457. É esse o número de garrafas de plástico que compõem a casa de Antenor, uma residência “verde, sustentável, sem dúvida, uma das mais bonitas da comunidade”, que fica na baixada, próxima ao Bar da Mineirinha e do Lava-rápido J. A., na favela de Paraisópolis, em São Paulo. O homem chegara à cidade há 25 anos e desde que precisou se aposentar por conta de um marca-passo no peito passou a se dedicar à construção de artefatos com garrafas pet jogadas fora. Assim que fez boa parte dos apetrechos, móveis e decorações de sua morada, incluindo aí uma instalação com tampas brancas sob o teto do quarto que, quando Antenor está deitado, faz com que se lembre da água do mar.

A história de Antenor Clodoaldo Alves Feitosa está presente em “Cidade do Paraíso – Há Vida na Maior Favela de São Paulo”, livro-reportagem dos jornalistas Vagner de Alencar e Bruna Belazi. Na obra, a dupla dedica seu olhar aos moradores anônimos que vivem entre becos e vielas de um dos bairros mais conhecidos e temidos da capital paulista. Diferente do que normalmente é visto nos noticiários, no entanto, não são o tráfico e a violência os evidenciados pelas diversas narrativas presentes no volume.

cidadedoparaisoDessa forma que aparecem registros como o de Antonio Ednaldo da Silva, que transforma sucata em arte, de Manoel Ramos, que oferece raízes que curam quase qualquer doença, e de Joseane Silva, pintora que largou o telemarketing para tentar viver de sua arte. “Talvez a maior surpresa tenha sido ver por parte dos moradores um semblante de felicidade por saberem que existe uma obra que valoriza a comunidade a partir do que ela realmente é: da sua arte, do empreendedorismo latente, os becos e as vielas mostrando a geografia do local e a realidade que não a do tráfico e violência. Uma forma de ir para além do que a futura primeira-dama de São Paulo recentemente destacou: que Paraisópolis era a Etiópia”, diz Vagner sobre o impacto do livro em muitos dos habitantes do lugar.

O próprio Vagner, mestre em Educação pela PUC-SP e cofundador da Agência Mural de Jornalismo das Periferias, tem uma história de 21 anos com Paraisópolis, onde pisou pela primeira vez em agosto de 1995, em uma época que o bairro era “cheio de casas de madeira, assim como a nossa. Havia pouca infraestrutura, esgoto a céu aberto e poucas ruas asfaltadas”, lembra. Entre idas e vindas da família para a Bahia, construiu assim uma relação com a favela que deixou há alguns anos – atualmente mora em Pinheiros.

“Desde 2010, eu já escrevia sobre Paraisópolis para o blog Mural, hospedado na Folha de São Paulo, com o propósito de mudar o olhar negativo e estigmatizado em torno da favela. Sou um dos 60 correspondentes que escrevem para o Mural. Muitas dessas histórias foram reaproveitadas e ampliadas no livro; outras encontradas caminhando por Paraisópolis. Ser correspondente de Paraisópolis foi fundamental para que eu, embora morasse na favela, conseguisse sensibilizar meu próprio olhar para o que acontecia ao redor. Afinal, muitas vezes, a gente mesmo incute uma ideia ruim sobre o que somos e onde estamos”, explica.

Enquanto cursava jornalismo no Mackenzie que Vagner conheceu Bruna e, por terem como afinidade trabalhos de cunho social, resolveram se juntar para escrever “Cidade do Paraíso”, trabalho de conclusão do curso que terminaram em 2012 – já no ano seguinte a obra seria publicada pela Primavera Editorial. Apesar do título já ter três anos de mercado, enquanto pessoas como a futura primeira-dama de São Paulo continuarem achando que a favela é a Etiópia, como bem lembrou o autor, trabalhos do tipo sempre continuarão atuais.


Você conhece o argentino que se tornou “o fotógrafo dos escritores”?
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Rodrigo Casarin

 

Gonçalo M. Tavares, Andrés Neuman e Eduardo Halfon.

Gonçalo M. Tavares, Andrés Neuman e Eduardo Halfon.

Em 1978 que o argentino Daniel Mordzinski, então com 18 anos e trabalhando omo assistente de direção, pegou uma câmera a tirou uma foto de Jorge Luis Borges enquanto ele dava uma entrevista para o documentário “Borges Para Milhões”. Claro que naquele momento ele não imaginava o que estaria por vir, mas com desenrolar da carreira, Mordzinski, um apaixonado por literatura, passou a ser tratado como “o fotógrafo dos escritores”.

Rodando o mundo com suas lentes, registrou nomes como José Saramago, Salman Rushdie e Umberto Eco. Alguns de seus cliques vieram em momentos emblemáticos, como um solitário Gabriel García Márquez sentado na cama com o olhar disperso e Jorge Amado comprando frutas. Sim, fotografou diversos brasileiros também: João Ubaldo Ribeiro, Eliane Brum, Luiz Vilela, Marcia Tiburi, Eric Nepomuceno, Julián Fuks, João Carrascoza, Santiago Nazarian, Moacyr Scliar, Milton Hatoum, Paulo Coelho…

Agora uma parte significativa de sua obra foi reunida no livro “A Literatura na Lente de Daniel Mordzinski”, lançado pela Sesi-SP Editora. “Tenho a impressão de que ele, há um tempo, admira os escritores e se compadece deles. Esses seres que não raro pensam ser maiores do que são, que lutam em eventos literários para ter a autoria da frase mais brilhante, que constroem muralhas da China de hostilidades longevas. Mas que também estão ali, a alma em punho, de quando em quando, humildemente perseguindo sua própria voz. Que às vezes sofrem da sinceridade e acham que o mundo precisa de algum cutucão. Que abrem canais do Panamá de amizades sinceras. Que trabalham. Que trabalham muito”, escreve Adriana Lisboa, autora de “Hanói” e “O Sucesso”, no texto de introdução do volume.

Veja algumas fotos de Mordzinski presentes no livro:

Luis Fernando Verissimo.

Luis Fernando Verissimo.

Leonardo Padura.

Leonardo Padura.

José Saramago.

José Saramago.

José Luis Peixoto.

José Luis Peixoto.

Jorge Amado.

Jorge Amado.

João Ubaldo Ribeiro.

João Ubaldo Ribeiro.

Elaine Brum.

Elaine Brum.

Carmen Camacho.

Carmen Camacho.

Jorge Luis Borges.

Jorge Luis Borges.

Gabriel García Márquez.

Gabriel García Márquez.


Julián Fuks vence Jabuti de ficção e autores empatam em não ficção
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Rodrigo Casarin

fuks

O Prêmio Jabuti, promovido pela Câmera Brasileira do Livro, anunciou nesta noite de quinta-feira os vencedores de melhor livro do ano das categorias de ficção e não ficção, na qual houve um empate, de sua 58ª edição. Os troféus foram, respectivamente, para Julián Fuks por ''A Resistência'' e para Eduardo Jardim por “Mario de Andrade: Eu Sou Trezentos: Vida e Obra” e a dupla Nei Lopes e Luiz Antonio Simas por “Dicionário da História Social do Samba”.

Em um discurso bastante forte, Julián relacionou a ''A Resistência'', que trata da Guerra Suja e da ditadura Argentina por meio de um narrador que conta a história de ser irmão adotado, com o atual momento político que o país vive. Na fala, o autor ecoou o que Lygia Fagundes Telles, que havia sido homenageada como “personalidade literária” pelo conjunto de sua obra, pedira há pouco, afirmando que os escritores jovens não desistiriam de lutar.

Veja o discurso de Julián em vídeo feito pelos amigos do canal Literatorios:

Recentemente Leonardo Sakamoto, jornalista e também blogueiro aqui do Uol, conversou com Julián sobre seu livro:

Sobre os outros premiados, “Mario de Andrade: Eu Sou Trezentos: Vida e Obra” é um ensaio biográfico que mostra como o autor de ''Macunaíma'' ajudou a formular uma nova interpretação para o Brasil e “Dicionário da História Social do Samba” registra os primórdios do gênero no Brasil.

Também foram anunciado os vencedores de categorias abertas para votação popular, feita em parceria com a Amazon. Os internautas apontaram ''Ainda Estou Aqui'', de Marcelo Rubens Paiva, como melhor romance, ''Amora'', de Natalia Borges Poleso, como o melhor de Contos & Crônicas,  e ''Vertigens'', de Wilson Alves Bezerra, como o destaque de Poesia.


Nélida Piñon: “Paira uma suspeita em relação à obra literária de mulheres”
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Rodrigo Casarin

Foto: Simone Marinho.

Foto: Simone Marinho.

Quando jovem, sempre que Nélida Piñon precisava voltar para casa se lembrava de Adoniran Barbosa e o seu “Trem das Onze”. Dizia morar longe, não podia correr o risco de perder o transporte. “A música me marcou muito porque eu a utilizava para me defender dos amores. Era a filha única que precisava voltar”, recorda. No entanto, somente há alguns anos que a escritora foi descobrir de fato a genialidade de Adoniran. “Fiquei encantada com a capacidade dele captar o cotidiano e traduzir em uma poesia descarnada, triste, conformada. Impressiona. Ele faz a critica por meio da conformidade. Suas frases são muito modestas, mas tem uma grande força dramática”, conta Nélida em uma entrevista por telefone.

filhosdaamericaA autora está lançando o livro “Filhos da América”, que reúne 28 escritos divididos entre ensaios, discursos e até um perfil da atriz Marília Pêra, dentre outros. No primeiro texto do volume, “Heródoto e a Aprendiz Nélida”, que ela fala sobre como foi descobrir o músico que define como o sambista de seu coração, “um criador que ousou mencionar o nome Iracema, seu grande amor, como pretexto para esclarecer que perdeu o retrato da amada, e dela só restou um sapato. Eu teria dado anéis e brincos para ter escrito essa frase”, confessa.

Um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea, Nélida, hoje com 79 anos, estreou em 1961 com “Guia-mapa de Gabriel Arcanjo”. Dentre seus grandes trabalhos estão os romances “A República dos Sonhos”, sobre imigração, e “Vozes do Deserto”, a respeito de narrativas árabes, que lhe rendeu o Jabuti de 2005. Entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1989 e presidiu a instituição entre 1996 e 1997, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo. No texto já citado, ela inclusive fala sobre como continua ativa nas reuniões da ABL:

“Não posso renunciar às experiências que as mulheres em priscas eras depositaram ao pé do lume. E nem deixar de ir à Academia Brasileira de Letras duas vezes por semana. Ou abdicar do hábito de deter-me diante da estátua de Machado de Assis, posta no pátio que dá acesso ao Petit Trianon, e lhe dizer palavras que me ocorram naquele dia. Sem ostentar, porém, qualquer intimidade. Trato o gênio nosso com máxima consideração, o que implica usar o tratamento senhor. Nem com o pontífice, no Vaticano, com pompas e auras, tenho tais cuidados. Mas está certo que eu aja assim, quem no Brasil supera Machado de Assis?”, registra.

Aliás, o nome e as reverências ao autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é algo recorrente em “Filhos da América”. “Acho que ele é um milagre brasileiro. Um escritor magnífico, extraordinário, que contrariou as possibilidades do seu tempo. Não era para ser como ele foi naquele Brasil pequeno, pobre e marginalizado. Ele não se tornou um escritor tribal, mas canônico, que pode ser comparado a Flaubert, Stendhal e todos os grandes romancistas do século 19”, argumenta a autora durante nossa conversa.

Nelida 1Mulheres na literatura

No livro Nélida também fala da Galícia, região da Espanha a qual é muito ligada por conta das raízes familiares. O reconhecimento internacional da escritora impressiona, diga-se. É catedrática da Universidade de Miami desde 1990 e passou como escritora-visitante por Harvard, Columbia, Johns Hopkins e Georgetown. É doutora honoris causa das universidades Poitiers, Santiago de Compostela, Rutgers, Florida Atlantic, Montreal e Unam. Já ganhou prêmios em países como México, Colômbia, Chile e Espanha, dentre eles o prestigiado Príncipe das Astúrias pelo conjunto de sua obra. Em 2012 foi nomeada Embajadora Iberoamericana de la Cultura e, em 2014, entrou para a Real Academia Galega. A sensação que dá é que seu nome é mais forte no exterior do que no próprio Brasil, algo que ela mesmo diz ser possível.

“Talvez seja verdade, mas isso tem muito a ver não só com a minha pessoa. O reconhecimento feminino é mais demorado. Paira uma suspeita em relação à obra literária de mulheres, que sempre estiveram em segundo plano”, diz. Na sequência, também fala sobre o fortalecimento de causas relacionadas às moças. “Surgiu uma geração de mulheres ativas, inteligentes, corajosas, que se deram conta que as conquistas das últimas décadas não foram suficientes. Em um momento achei a mulher jovem distraída, desatenta, parecia que já tinha conquistado tudo. Se o mundo é dominado pelos homens, por que a literatura não será? Só posso dar as boas vindas a esse movimento inteligente, sensível e corajoso”.

Nobel para Dylan

Voltando à música, se Nélida daria anéis e brincos para escrever uma frase de Adoniran, o que ela pensa do Nobel de Literatura dedicado a Bob Dylan, um compositor? “Não tem sentido pra mim. Se queriam premiar os EUA, que fosse o Philip Roth, que tem uma obra completa, gigantesca. Foi uma leviandade. Há um predomínio da música sobre a letra. É uma literatura, sem dúvida, mas a letra submete-se à música. O mundo romanesco, poético, tem uma soberania absoluta, é o predomínio total e rigoroso da palavra. É a palavra solitária descrevendo o mundo com extraordinária dimensão. Não vejo razão para ele ganhar o Nobel”.

O nome da própria Nélida já foi ventilado como um possível vencedora do prêmio, aliás, mas ela acredita que a chance de algum brasileiro receber a honraria ainda é muito remota. “O Brasil é um país periférico. Temos escritores que acham que estão conquistando o mundo com literatura, mas é algo difuso, não temos um lugar predominante no mundo da cultura internacional. Até pouco tempo atrás nenhum europeu ou norte-americano de estatura conhecia o Machado de Assis, então estamos marginalizados”, opina. “Há um grande esquecimento em relação ao Brasil”, conclui.

Azar de quem ainda não conhece Machado ou jamais conhecerá Adoniran, pois.


Com filme, editoras apostam em livros de Animais Fantásticos e Onde Habitam
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Rodrigo Casarin

animais

Newt Scamander é um magizoologista que chega a Nova Iorque na década de 20 carregando uma maleta que abriga sua coleção de animais fantásticos coletados durante diversas viagens. Alguns desses bichos, contudo, escampam-lhe e ele precisa reavê-los antes que causem algo aos “trouxas”, os seres humanos comuns. A partir daí que a história de “Animais Fantásticos e Onde Habitam” se desenrola. O filme, que faz parte do universo mágico de “Harry Potter”, estreou no Brasil no dia 17 de novembro e levou milhares de fãs do bruxinho e do trabalho de J. K. Rowling aos cinemas.

46398826Como era de se esperar, editoras já enchem as livrarias com livros que se relacionam com o filme. A Rocco, que publica a série “Harry Potter” no Brasil, lançou dois volumes amplamente ilustrados e com títulos que deixam bem claro a proposta das obras: “Animas Fantásticos e Onde Habitam – Guia do Mundo Mágico do Filme” e “Animas Fantásticos e Onde Habitam – Guia dos Personagens”, ambos publicados em parceria com a editora Scholastic e a Warner Bros, responsável pelo longa. A Rocco também publicará no ano que vem, no primeiro semestre, o roteiro original do filme, assinado por J. K. Rowling.

A Record, por meio do selo Galera, lançou o “Animais Fantásticos e Onde Habitam – Newt Scamander – Um Scapbook do Filme”, de Rick Barba. O volume busca reproduzir a maleta encantada de Scamander e apresenta objetos destacáveis, como jornais mágicos e pôsteres, pelos quais o leitor tem contato com algumas das criaturas presentes na obra e conhece amigos do protagonista.

Itens da maleta da Record.

Proposta semelhante segue “A Maleta de Criaturas: Explore a Magia do Filme Animais Fantásticos e Onde Habitam”, publicada pela HarperCollins Brasil. A obra traz réplicas de objetos usados no filme e revela segredos da produção, fotografia e artes conceituais, além de histórias dos bastidores do longa. É da editora também o “Mergulhe na Magia: Os Bastidores de Animais Fantásticos e Onde Habitam”, que fala sobre os personagens, cenários e criaturas do filme, servindo como uma espécie de porta de entrada àquele universo. Sim, como é possível perceber, todas as publicações seguem uma linha bastante semelhante, uma espécie de “mais do mesmo”.

AnimaisFantasticos_livro_colorir_criaturasPara Colorir

A HarperCollins Brasil ainda lançará em dezembro o “Animais Fantásticos e Onde Habitam: O Livro de Colorir de Criaturas Mágicas”. Será o segundo volume “de colorir” baseado no filme que a editora coloca no mercado. Em setembro já tinham lançado “Animais Fantásticos e Onde Habitam: O Livro de Colorir de Personagens e Lugares Mágicos”.


Final do Oceanos terá 8 autores do Grupo Cia das Letras e apenas uma mulher
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Rodrigo Casarin

Ana Martins Marques

Ana Martins Marques

Julián Fuks, Marcelo Rubens Paiva, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Antonio Carlos Viana, Arthur Dapieve, Eucanaã Ferraz, Marcos Siscar, Ana Martins Marques e Nuno Ramos. São esses os dez autores finalistas da edição de 2016 do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa. Dentre os trabalhos que chegaram à final, que reconhecerá os melhores livros sem fazer distinção entre os gêneros, há quatro romances, quatro volumes de poesia e dois de contos. Eis os títulos:

Romance:
“A Resistência”, Julián Fuks (Companhia das Letras)
“Ainda Estou Aqui”, Marcelo Rubens Paiva (Alfaguara)
“Galveias”, José Luís Peixoto (Companhia das Letras)
“Uma Menina Está Perdida no seu Século à Procura do Pai”, Gonçalo M. Tavares (Companhia das Letras)

Poesia:
“Escuta”, Eucanaã Ferraz (Companhia das Letras)
“Manual de Flutuação para Amadores”, Marcos Siscar (7Letras)
“O livro das Semelhanças”, de Ana Martins Marques (Companhia das Letras)
“Sermões”, de Nuno Ramos (Iluminuras)

Conto:
“Jeito de Matar Lagartas”, de Antonio Carlos Viana (Companhia das Letras)
“Maracanazo e Outras Histórias”, Arthur Dapieve (Alfaguara)

Chama a atenção que entre os dez finalistas há apenas uma mulher (Ana Martins Marques) e somente dois livros que não foram publicados pelo Grupo Companhia das Letras (do qual a Alfaguara faz parte). Além disso, se dois estrangeiros chegaram à final, os portugueses José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares, outros ficaram nas semifinais, como o também português António Lobo Antunes e o moçambicano Mia Couto, dois nomes de grande peso na literatura contemporânea, que concorriam, respectivamente, com “Não é Meia-noite Quem Quer” e “Mulheres de Cinzas”.

Os jurados dessa etapa – que também formam o Júri Final – foram a professora e ensaísta Beatriz Resende, os escritores Cristovão Tezza, José Castello e Rodrigo Lacerda e os poetas Heitor Ferraz Mello e Sérgio Alcides, todos eles atuantes no campo da crítica literária. Promovido e realizado pelo Itaú Cultural, o Oceanos distribui R$230 mil entre os premiados, sendo R$ 100 mil para o primeiro lugar, R$ 60 mil para o segundo, R$ 40 mil para o terceiro e R$ 30 mil para o quarto colocado. Os vencedores serão divulgados no próximo dia 6.


Imortal da ABL defende leitura de Paulo Coelho: “Voz e anseio de multidões”
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Rodrigo Casarin

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“Paulo Coelho sempre correu o risco de ousar, de ir diretamente à essência do que mais lhe interessa: o conflito humano”, diz Arnaldo Niskier, educador, ex-professor de história e filosofia e membro da Academia Brasileira de Letras, onde foi recebido por Rachel de Queiroz, desde 1984. Se há algumas semanas, em entrevista ao blog, Janilto Andrade elencou argumentos contrários à leitura do mago, agora é a vez de um imortal da ABL sair em defesa de seu colega que já vendeu mais de 200 milhões de livros pelo mundo.

Niskier foi o responsável por fazer o discurso de recepção a Paulo quanto este entrou para a Academia, em 2002. “Nesta Casa pluralista, que cultiva basicamente a Língua Portuguesa e a Literatura Brasileira, como quiseram os seus fundadores, entre os quais Machado de Assis, o mais forte dos sinais é a palavra, especialmente a palavra escrita, aprisionadora de ideias. Nela, os gregos antigos sentiam a existência de 'sinais mortíferos'. É o que se pode depreender da vida e da obra do escritor Paulo Coelho, com as suas parábolas magnificamente elaboradas”, disse em sua fala o antigo acadêmico, que, ao ser perguntado sobre quais livros de Paulo merecem destaque, elenca diversos e afirma ser “difícil escolher um, gosto de todos”. Aprofundando-se em “O Alquimista”, inclusive compara Paulo a um dos maiores nomes da literatura mundial: “Há muito de Jorge Luis Borges nessa obra, de intensa busca espiritual e conflitos existenciais”.

ArnaldoPor que uma pessoa deve ler Paulo Coelho?

Paulo Coelho sempre correu o risco de ousar, de ir diretamente à essência do que mais lhe interessa: o conflito humano. Em seu estilo de escritor, acredita nas frases curtas, na síntese de ideias e poucas descrições, dando ao leitor o crédito da imaginação, da cumplicidade. Na busca desse estilo, resolveu contemplar a natureza e desenvolveu uma forma de criação literária semelhante a ela: a aragem do campo, um processo de revolução interior, de renovação de valores; a semeadura, a criação que tem origem na vida, que semeia o campo fértil do inconsciente; a maturação, que brota do fundo da alma do escritor – uma espécie de interiorização da mensagem e, finalmente, a colheita, quando a criação torna-se manifesta. É assim que nasce o estilo diferenciado e personalíssimo.

A literatura mística, em linguagem acessível e direta, revela rituais milenares, exercícios de percepção, um encontro com alguns dos grandes mistérios do Universo. As narrativas de Paulo Coelho, sempre de modo simples, atingem todos os públicos, há uma proposta permanente do alargamento da visão de mundo, incluindo o visível e o invisível. Essa literatura vai ao encontro de um forte anseio de busca espiritual, hoje presente praticamente no mundo inteiro, em que se registra a redução da taxa de racionalidade.

De forma velada, os livros dele provocam questionamentos interiores, de todas as latitudes, ao entrar em outra frequência. Recorro à milenar sabedoria chinesa para afirmar que em todos nós há um oráculo interno, pronto para nos fornecer informações necessárias e precisas a qualquer tempo. Paulo Coelho foi agraciado com o recebimento desses sinais, privilégio de poucos.

Quais são os motivos que levam tanta gente a torcer o nariz para ele? Acredita em inveja por conta do sucesso ou esses críticos podem ter uma parcela de razão?

Preconceito e inveja, talvez, sejam motivos de críticas direcionadas ao Paulo Coelho. Além do que, a grande maioria critica sem ter lido.

O acadêmico e crítico literário Antônio Olinto, ao analisar cuidadosamente a obra de Paulo Coelho, elogiou o perfeito sentido do ambiente nos romances. Segundo Olinto, “um feito literário, que é um dos motivos do seu êxito”. Os passos de Santiago estão gravados para sempre na alma do mundo, termo corrente na alquimia, que estima para este século uma forte característica mística e espiritualista. Não poderá estar aí, na capacidade de antevisão do escritor Paulo Coelho, uma das melhores explicações para o êxito indiscutível?

A versão em inglês publicada nos Estados Unidos de “O Alquimista” está há mais de oito anos ininterruptos na lista dos mais vendidos do The New York Times, nunca um livro tinha ficado nela por tanto tempo. O que isso representa?

A aceitação em outros países é a melhor prova de que Paulo Coelho é consagrado autor, ao lado de John Grisham, um dos dois mais vendidos neste planeta sedento de cultura. Sua obra traz-me à lembrança o louvor de Antônio Vieira a Luís de Souza, em 1767: “O estilo é claro com brevidade, discreto sem afetação, copioso sem redundância, e tão corrente, fácil e notável que, enriquecendo a memória e afeiçoando a vontade, não cansa o entendimento”. É a simplicidade sem superficialidade, por isso fácil de ser traduzida em tantos países de culturas distintas.

Vender milhões de livros, ser traduzido para 56 línguas e editado em 150 países [80 línguas e 170 países, segundo os últimos dados divulgados] são fatos concretos de uma esplendorosa carreira, sobre a qual desejo avançar em considerações especiais.

A obra dele, com forte ênfase na espiritualidade, rejeitando gurus, mestres e o fundamentalismo, busca exatamente resposta para essa angústia universal. Talvez aí resida o segredo do vosso êxito planetário, que recusa a expressão de literatura mercadológica. É a voz e o anseio de multidões à procura de uma perspectiva mais favorável, que se pode encontrar na leitura, valorizada pela certeza de que o livro jamais será superado pelo computador.

Quais livros você leu do Paulo? Quais recomenda?

“O Diário de um Mago”, em 1987, o primeiro de grande vendagem, é o encontro espiritual com a simplicidade na busca de Deus. A seguir, “O Alquimista”, em 1988, recordista de vendas, é o percurso metafórico, a histórica peregrinação. Um livro arriscado, passando de um título anterior de não-ficção para um de ficção, sabendo-se que muitos escritores costumam acabar, literariamente, quando fazem essa mudança. Há muito de Jorge Luis Borges nessa obra, de intensa busca espiritual e conflitos existenciais. Longe da ideia de guru misterioso e enigmático, construístes uma pedra filosofal marcada pelo Brasil.

“Brida” é de 1990, um livro de nossos dias, grande reportagem de uma vida. É o romance mais longo, onde procurastes dar ideia da busca da mulher pelo conhecimento. Em “As Valkírias”, de 1992, aborda o casamento. Não era um livro sobre anjos, como muitos chegaram equivocadamente a crer. Seguiu-se, em 1994, “Na Margem do Rio Piedra, Sentei e Chorei”, quando consegue realizar sonho antigo, qual seja, aceitar o lado feminino e utilizá-lo como forma de expressão. Vieram “Maktub” em 1994 (o que está escrito é sempre real) e “O Monte Cinco”, em 1996, um texto bíblico em que promove a incursão na vida de um homem obrigado a seguir o destino. Apresenta-se o tempo todo o equilíbrio entre o rigor e a compaixão. Em “Verônika Decide Morrer” (1998) lida com a necessidade de aceitar as diferenças humanas, O “Demônio e a Srta. Prym” (2000) é um livro sem final maniqueísta. Enfim, difícil escolher um. Gosto de todos.

Quais são os méritos literários de Paulo Coelho que justificam ele ser um membro da casa fundada por Machado de Assis?

As pessoas se elegem para a ABL por méritos literários e/ou por serem notáveis, como foi o caso de Jacques Cousteau, na França, de onde emana o modelo brasileiro. Paulo Coelho tem as duas qualidades. Não venderia 100 milhões de livros se não tivesse méritos.

Quando vocês conversam entre si, o que os outros imortais costumam falar do Paulo Coelho? Aliás, como tem sido a participação dele na ABL desde que foi eleito?

A participação é difícil, pois ele mora na Europa. Sobre conversas com acadêmicos sobre outros acadêmicos, não nos pronunciamos.