Página Cinco

Livro revela qual é o melhor momento para roubar um banco
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Rodrigo Casarin

 

 

Steven Levitt e Stephen Dubner.

Steven Levitt e Stephen Dubner.

Por que comissários de bordo não recebem gorjeta? Um aumento na remuneração dos políticos melhoraria a qualidade de seus serviços? Como os traficantes de crack poderiam ficar ricos? Quantos trabalhadores chineses são necessários para vender uma lata de leite em pó infantil? Qual a melhor maneira de diminuir as mortes por arma de fogo? Quanto a Pepsi estaria disposta a pagar pela fórmula secreta da Coca-Cola? Quando roubar um banco?

É justamente a última pergunta que dá nome ao livro que compila posts do blog “Freakonomics”, no qual o economista Steven Levitt e o jornalista Stephen Dubner abordam de maneira informal, leve e quase sempre bem-humorada diversas questões do mundo econômico e financeiro e, por consequência, do pensamento lógico, sempre relacionando-as com situações do cotidiano de pessoas comuns. Há ainda, por exemplo, explicações sobre os motivos de produtores de desenhos animados contratarem vozes famosas para duplar as criaturas, uma ideia sobre até onde vai o altruísmo de um cidadão e até como a falta de civilidade no trânsito rende lucros para alguns.

roubar um banco“Nossas postagens no blog tendem a ser mais informais, mais pessoais, mais categóricas que a maneira como escrevemos nossos livros; podemos tanto lançar no ar uma pergunta quanto dar uma resposta concreta. Escrevemos coisas sem ponderar o suficiente, para depois lamentar. Escrevemos coisas que ponderamos exaustivamente para depois lamentar também”, registram os autores na introdução de “Quando roubar um banco”, que já dá o tom do que o leitor terá pela frente.

Alguns textos mais provocativos causaram bastante incômodo quando publicados pela primeira vez e agora ganham uma nova chance de agradar ou perturbar novos leitores. Um deles é a resposta para a pergunta “Se você fosse um terrorista, como atacaria?”, publicada quando o blog passou a ser hospedado pelo site do jornal New York Times. O que era para ser uma elucubração sobre como terroristas poderiam agir – e, consequentemente, como essas ações poderiam ser evitadas –, soou para muitos leitores como uma apologia ao terror. (Aos curiosos pela resposta, os autores sugerem os ataques mais simples, sem uso de grandes tecnologias e que envolvessem poucas pessoas, pois dificilmente seriam descobertos por serviços de inteligência).

Mas, afinal, quando roubar um banco? Aqui os autores levaram alguns dados em conta: um assaltante costuma ganhar em média US$4.120 ao ser bem-sucedido em um roubo de banco nos Estados Unidos. No Reino Unido, por sua vez, as cifras ficam mais polpudas e os assaltos a essas instituições costumam render, em média, US$18 mil para cada um dos bandidos envolvidos. No entanto, em ambos os casos a taxa de detenção é bastante elevada: cerca de 35% das ações costumam acabar com os meliantes presos. Ou seja, na avaliação dos autores, não vale a pena correr tamanho risco para se obter um lucro relativamente tão baixo. “Se quisermos saber quando é o melhor momento para assaltar um banco, a resposta aparentemente seria… nunca”.

Este é o segundo livro de Levitt e Dubner, que também já escreveram “Pense Como um Freak”. Juntas, as duas obras foram traduzidas para mais de 40 idiomas e já venderam mais de sete milhões de exemplares.


Conheça o romance francês com mais de 220 páginas que não utiliza a letra E
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Rodrigo Casarin

Perec

Você já pensou em escrever – tá, ler já serve também – um romance inteiro sem a letra E? Pois foi justamente isso que o francês Georges Perec (1936 – 1982) realizou em “O Sumiço”, livro publicado originalmente em 1969 e recentemente traduzido pela primeira vez para o português por José Roberto Féres, o Zéfere, mestre em literatura comparada pela Sorbonne, em tradução literária pela Paris 8, doutor em literatura e cultura pela UFBA, professor e também poeta.

A narrativa, lançada aqui pela Autêntica, conta a história do sumiço de Anton Voyl, um entusiasta de jogos de palavras. Não por acaso, evidentemente, a vogal mais utilizada na língua francesa também desaparece das páginas da obra. “A ambição do 'Scriptor', o propósito, digamos, o alvo, sua visada contínua, foi, acima de tudo, criar um produto final tão original quanto instrutivo, um produto apto a propulsionar ou, quiçá, a vir a proporcionar um impulso instigador à construção, à narração, à fabulação, à ação, ou, digamos, numa palavra, ao padrão da narrativa longa atual”, escreve Perec, também autor de “Prix Médicis: A Vida Modo de Usar”, dentre outros, no posfácio – que, como é possível perceber, também abre mão do E.

o sumicoE quem imagina que o escritor optou por algo breve, o que poderia facilitar as coisas, engana-se: a história traduzida ocupa mais de 220 páginas. Com uma empreitada tão grande e desafiadora quanto a de Perec pela frente, Zéfere começou a verter “O Sumiço” para o português em 2008, enquanto fazia seu mestrado, e só foi conclui-lo em 2015.
“Antes de mais nada, antes de estudar as minúcias do livro e investigá-las ainda mais nas dissertações de mestrado e tese de doutorado que escrevi em torno de Perec e sua obra, senti a necessidade de experimentar essa restrição com a língua portuguesa, fazer exercícios textuais sem o E. Meu primeiro teste foi, então, reescrever lipogramaticamente, sem a letra E, alguns versos de Manuel Bandeira, o que resultou em 'Caio fora pra Pasárgada’'”, conta o tradutor.

O resultado é uma prosa com uma estética um tanto estranha para o leitor. Veja esse trecho como exemplo: “Na ponta, surgiu um sacristão com uma túnica da cor limão agitando um turíbulo do ouro mais maciço, aí uma padraria (um trio) brandindo um crucifixo sob um baldaquim um pouco baranga, com babados a frufrulhar, aí cinco funcionários da casa mortuária Borniol, içando um caixão acaju com alças cromadas. Um dos funcionários tropicou: o oblongo caixão balançou, caiu, abriu: danação! Hassan Ibn Abbou havia sumido!”

O próprio tradutor assume que foi obrigado a buscar “estratégias e estruturas que implicam a construção de um outro português, ou, ao menos, a sua reconstrução, a sua reciclagem, reativando potencialidades latentes ou adormecidas, colocando em relação termos que jamais ou raramente se encontrariam no nosso falar cotidiano, reformulando grande parte dos pensamentos e falas que nos saem, em geral, tão naturalmente, que sequer nos damos conta do que estamos realmente dizendo”.

Os desafios da tradução

Para Zéfere, a maior dificuldade do trabalho esteve principalmente na necessidade de se criarem jogos de linguagem que apontem constantemente para a ausência da letra. “Foi essa a jogada de mestre do autor, a sua grande sacada: escrever um livro sem o E, mas que fala, exatamente, do sumiço do E. Quanto à fidelidade da tradução, precisei refletir a cada momento sobre aquilo a que eu deveria ser fiel, e sempre optei por oferecer ao leitor lusófono jogos que não se prendiam, necessariamente, àquilo que estava explícito, mas mais ao implícito, isto é: não me deixei limitar pelo dito, busquei explorar igualmente o não-dito, ou melhor, o interdito entredito, o proibido exibido nas entrelinhas”, conta.

Como exemplo cita o jogo que existe em uma das passagens. “O protagonista, Anton Voyl, antes de sumir e, consequente, colocar todos seus amigos aflitos em busca de uma solução para o mistério do seu sumiço, instala no seu carro um dispositivo antirroubo, 'anti-vol'; só que esse 'vol' de 'anti-vol', em francês, pode ser pronunciado como Voyl, o sobrenome do personagem, sob o qual, nas entreletras, lê-se a palavra 'voyelle', vogal, ou seja: o dispositivo era não somente antirroubo mas, igualmente, anti-vogal, duplo sentido que não se produz num simples 'antirroubo' em língua portuguesa”, diz, expondo um dos problemas que encarou.

A solução encontrada para tal foi também trabalhar com uma dupla interpretação. Rebatizou Anton Voyl para Antoin Vagol – um nome relativamente conhecido dos brasileiros, Antoine, mas sem o E, acompanhado de um sobrenome que é um anagrama da palavra 'vogal' – e no lugar do dispositivo antirroubo, colocou na tradução “uma invocada ignição ativada por discriminação vocal”. “É algo um tanto quanto futurístico, sim, anacrônico, talvez, mas que garante, implicitamente, que se diga o indizível, que se apresente a ausência da vogal, graças à polissemia de 'discriminação vocal', que pode significar reconhecimento por voz e, quem sabe, atitude discriminatória em relação a uma certa vogal”, argumenta.

E, ao cabo, o que Zéfere achou da experiência? “Uma coisa é certa: ninguém sai ileso de um trabalho como esse, e muito menos a língua! Foi engraçado me ver tão profundamente habitado por esse sumiço, que me peguei escrevendo até mesmo artigos acadêmicos em que eu evitava certas palavras, sem perceber, porque elas continham E”. Sorte que a vogal já voltou ao vocabulário do tradutor.


Matt Groening, criador dos Simpsons, lança coletânea de HQs de “autoajuda”
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Rodrigo Casarin

groening

Em 1989 o norte-americano Matt Groening criou “Os Simpsons”, desenho que se ternou um dos maiores sucessos da televisão e um dos principais fenômenos culturais do século 20, projetando o nome do artista para todo o mundo. Hoje, Homer, Marge, Bart, Lisa, Maggie e as demais pessoas amareladas da animação já estrelaram mais de 520 episódios divididos em 27 temporadas. No entanto, o que pouca gente sabe, ao menos aqui no Brasil, é que o criador da série produzia cartuns já na década de 70 e continuou com essa atividade por mais de 25 anos, mesmo com o sucesso do programa.

Vida no InfernoEsses quadrinhos apareciam na série “Vida do Inferno”, cujos livros já venderam milhões de exemplares pelo mundo e que antecipava diversas características que depois veríamos no trabalho mais famoso de Groening. Com traços simples, quase infantis, que remetem principalmente a “Comichão e Coçadinha”, desenho animado protagonizado por um gato e um rato que a família Simpson costumava assistir, o artista já abordava temais delicados, trazia críticas ácidas aos costumes de seus conterrâneos e, claro, destilava um humor que para alguns flerta com o mau gosto.

Agora parte desse trabalho está sendo lançado no Brasil pela editora Veneta. A coletânea “Vida no Inferno” traz quase 200 páginas de tirinhas selecionadas pelo próprio Groening. “É uma série de quadrinhos de autoajuda – no caso, a pessoa ajudada sou eu. Não sei o quanto esses quadrinhos podem ser úteis, mas desenhá-los ao longo dos últimos dez anos foi divertido para mim. Espero que se divirta também, mas se você é um daqueles que consideram meu trabalho irritante, tudo bem. Para minha sorte, ser irritante também é uma diversão e tanto”, escreve o artista em um texto de 1990 utilizado como introdução à obra.

Veja algumas das tirinhas e cartuns de “Vida no Inferno” (clique nas imagens para ampliá-las):

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Sucesso no Youtube, garota trans lança livro sobre sua redesignação sexual
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Rodrigo Casarin

Mandy Candy

Certa vez, quando Amanda caminhava para empresa de telemarketing onde trabalhava, quatro ou cinco rapazes em um carro passaram ao seu lado e imediatamente começaram as provocações: “Oi, gatinha, quer carona?”, “Gostosinha você, hein?”, diziam. A garota, com medo, apertou o passo. Quando Amanda já estava quase que correndo, um dos garotos gritou “Ih, rapaz, não é gatinha, não! É um traveco”. Aceleraram, então, mas antes de irem embora um deles arremessou uma lata de cerveja contra as costas da menina.

Esse é um dos episódios de violência e preconceito que Amanda Rodrigues, transexual de 27 anos, já passou e que revela em “Meu Nome é Amanda”, livro autobiográfico recém-lançado pela Fábrica 231. A garota é mais uma das web celebridades que aproveitam a popularidade alcançada na internet para estrearem no mercado editorial. No caso dela, o canal Mandy Candy, no Youtube, onde fala sobre temas que interessam aos jovens e, claro, sobre questões de gênero, já alcançou quase 300 mil assinantes e alguns dos seus vídeos rompem a marca de um milhão de espectadores.

“Sempre quis ter um livro, acho que esse item consta na lista de muitas pessoas para coisas que pretendem fazer antes de morrer, né? Mas o mais importante foi atingir gente de fora da internet para que entendam e vejam que nós, mulheres e homens transexuais, somos iguais a qualquer um”, diz ela ao blog sobre sua nova empreitada, na qual contou com a parceria de Lielson Zeni, escritor que a ajudou a organizar as ideias e a construir o texto.

Meu nome e AmandaDessa forma, temos um relato onde Amanda relata como nunca se identificou com o corpo outrora masculino (desde criança dizia que o que mais queria era “ser menina”), lembra do bullying que sofria na escola – o medo dos colegas fazia com que faltasse às aulas, o que prejudicou seu desempenho escolar a ponto de repetir dois anos –, narra como foi fazer a cirurgia de redesignação sexual na Tailândia, em 2012, e também como é sua vida hoje, em Hong Kong, para onde mudou por conta do trabalho e onde conheceu o parceiro com quem se casou.

Amanda acredita que sua vida teria sido bem diferente se, quando era adolescente, tivesse alguém transexual que conversasse com ela da mesma forma que ela dialoga com seu público. “Teria começado a transição mais cedo e não teria tido toda angústia por não saber quem eu realmente era durante a infância e adolescência”. E para quem hoje tem dúvidas sobre a real identidade de gênero, aconselha: “Procure ajuda de alguém capacitado, existem diversos psicólogos pelo Brasil que podem te ajudar a entender tudo que está acontecendo. Você não está sozinha! O início da transição é difícil, parece que nunca vamos conseguir ser quem realmente somos, mas tenha paciência! Não tem nada melhor do que olhar no espelho e se enxergar”.

Enxergando-se plenamente no espelho, relata que continua sofrendo preconceito, mas que isso se limita basicamente ao mundo virtual. “Já mudei de sexo há bastante tempo e quem não me conhece e sabe da minha história não tem ideia que sou uma mulher trans. Mas é complicado, todo dia recebo mensagens de pessoas falando que vou para o inferno e que deveria morrer, ou que se me vissem na rua iriam me bater. Denuncio todos! Fica a dica para quem sofre preconceito dentro ou fora da internet, denunciem! Não ignorem pois essas pessoas estão cometendo um crime”. Além de denunciar, a garota também conta com ajuda de seus seguidores. “Meus inscritos que se encarregam de colocar o preconceituoso no lugar dele. Acho bacana ver que tanta gente me defende e está ao meu lado”.

E sobre viver tão longe dessa gente, seus conterrâneos, o principal público de seu canal, a moça diz que sente falta principalmente da proximidade física com os fãs. “Essa troca de energia é maravilhosa, nunca tinha me sentido tão querida e amada como me sinto hoje em dia”. E esse contato deverá ser intenso pelos próximos dias, já que Amanda está em turnê de divulgação do livro pelo Brasil: entre os dias 18 de agosto e 10 de setembro, passará por Salvador, Fortaleza, Brasília, Manaus, São Paulo, onde participará da Bienal, e Rio de Janeiro.


A 1ª vez de Geraldão e Dona Marta: livro de estreia de Glauco é relançado
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Rodrigo Casarin

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Capa MinoEm 1982 o cartunista Glauco Villas Boas, assassinado em 2010, lançou seu primeiro livro, “Minorias de Glauco”, impresso de maneira semiamadora pela pequena gráfica Lira Paulistana, importante nome da cultura alternativa de São Paulo naquela década. A publicação independente trazia personagens que se tornariam famosos nos anos seguintes, como o roqueiro Botinha e, principalmente, a célebre dupla Geraldão e Dona Marta, provavelmente o casal mais neurótico de toda a história de nossas HQs.

Além disso, o volume também revelava alguns assuntos que o artista abordaria mais profundamente ao longo de sua carreira, como a crítica de costumes, as conversas de boteco, o cotidiano da casa das pessoas e as relações entre casais. Agora, 34 anos depois da primeira publicação, “Minorias do Glauco” é relançado pela editora Peixe Grande em parceria com o Instituto Itaú Cultural, que desde o dia 9 de julho promove uma ocupação sobre o quadrinista em sua sede, no nº 149 da avenida Paulista, em São Paulo – a exposição, que reúne a obra e objetos relacionados a Glauco, vai até o dia 21 deste mês.

Glauco_fotoPara marcar o relançamento de “Minorias de Glauco”, Toninho Mendes, editor da Peixe Grande e da revista “”Geraldão”, jornalista e poeta, Emilio Damiani, ilustrador e amigo de Glauco, e Franco de Rosa, desenhista e jornalista especializado em história da HQ brasileira, conversarão com o público hoje (sexta, dia 12), às 20h, no mesmo endereço onde acontece a ocupação em homenagem ao artista.

Veja algumas das tirinhas presentes e “Minorias do Glauco”:

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Heroína gordinha? Mulheres e negros conquistam espaço nas HQs nacionais
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Rodrigo Casarin

carolina de jesus

Negra, pobre e moradora de uma favela na zona norte de São Paulo, Carolina Maria de Jesus foi um dos fenômenos literários do Brasil nos anos 1960. “Quarto de Despejo'', livro de estreia no qual revelava o cotidiano do lugar onde vivia, fez sucesso e a projetou como uma das grandes escritoras do país. Agora, sua trajetória foi transformada em HQ por João Pinheiro e Sirlene Barbosa, que assinam “Carolina de Jesus em Quadrinho''. O título biográfico da exponente da literatura marginal no país pode ser vista como um símbolo da diversidade e da representatividade que vêm ganhando espaço nessa arte nos últimos tempos por aqui.

No final do ano passado, mulheres protestaram contra a campaha de divulgação do Troféu HQ Mix, cujo conteúdo machista continha inclusive folder com uma moça de biquini e olhar provocante convidando para o evento. No Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, na França, neste ano, um dos mais importantes do mundo, houve boicote de nomes de peso como Milo Manara e Riad Sattouf por não haver nenhuma mulher entra os artistas indicados ao principal prêmio do evento, mostrando que o movimento extrapola nossas fronteiras. Ao mesmo tempo que as moças se manifestam e conquistam território em um mercado onde alguns ainda acreditam não pertencer a elas, os negros e periféricos também começam a dar as caras; querem ser mais do que somente um Jeremias, durante muito tempo o único personagem negro da “Turma da Mônica''.

Ana Recalde.

Ana Recalde.

Comics é coisa de mulher…

Justamente para incentivar a participação das mulheres no mercado de quadrinhos que a quadrinista Ana Recalde fundou a Pagu Comics, selo que publica exclusivamente obras assinadas por moças. “As imagens definem muito da nossa vida, somos bombardeados por elas desde muito novos. Nesse sentido, não nos enxergarmos nos produtos e imagens que consumimos pode ser muito prejudicial. Notamos isso com muita clareza nas adolescentes de hoje, que precisam de validação o tempo todo. A fase da adolescência já é naturalmente cheia de inseguranças, adicionar a isso uma importância tão grande para como parecemos, cria um grupo muito infeliz de jovens. Por isso, nós que somos produtoras de conteúdo, precisamos pensar muito bem sobre que tipo de mensagem vamos passar com o nosso trabalho, e as imagens fazem parte disso”, explica Ana.

Dentre as publicações da Pagu estão títulos como “As Empoderadas”, de Germana Viana, lançado em parceria com a editora Cândido e o serviço de streaming de HQs Social Comics. Na obra, três mulheres comuns ganham superpoderes e se tornam justiceiras após um fenômeno solar. Outros trabalhos que a editora publicará em breve também apresentarão personagens com tipos bem diferentes das garotas hipersensualizadas, de seios fartos, cintura fina, quadril largo e roupa sumária, comumente vistas em diversas HQs, como uma heroína um pouco mais gordinha.

Quimera

“Criar heroínas que fogem dos padrões estéticos que mais vemos pode dizer para uma garota parecida com ela que é possível! Que existem pessoas como aquela personagem no mundo que podem fazer a diferença. Começar a valorizar os nossos corpos é um primeiro passo para sermos seres humanos mais felizes”, diz a editora.

Ela mesmo, aliás, sofreu um choque quando lhe alertaram que o seu “Beladona”, feito em parceria com Denis Mello e vencedor do prêmio HQ Mix de 2014 como melhor Web Quadrinho, era protagonizado essencialmente por brancos. “Se a gente que notou algo não tentar mudar, imagina quem não notou ou acha que esses problemas sequer existem”, comentou recentemente Ana, em um evento em São Paulo promovido pelo Itaú Cultural, sobre a importância de se atentar o olhar para questões relacionadas à diversidade e representatividade.

…e graphic novel também

Quem vem apostando em quadrinhos feitos por mulheres há algum tempo é a Nemo, que já publicou importantes nomes da cena ncional, como Bianca Pinheiro, Fernanda Nia, Fefê Torquatto e Lu Cafaggi, e também trouxe ao país alguns destaques estrangeiros, como Céline Fraipont, Sibylline, Margaux Motin, Pénélope Bagieux e Julie Wertz com obras que abordam temas como radicalismo religioso, totalitarismo político, o machismo e o assédio sexual, drogas e homossexualidade. “Essa opção não é um acaso, mas sim uma linha editorial desejada, planejada, pensada'', garante Arnaud Vin, editor da casa.

Além de dar espaço para essas mulheres, com graphic novels Arnaud procura romper com a hegêmonia de publicações norte-americanas, especialmente de super-heróis, que dominaram o mercado de quadrinhos no país durante muito tempo. “Quisemos oferecer novas temáticas, novas sensibilidades, buscar novos leitores e, principalmente, novas leitoras. Nada de mais gratificante para nos de receber depoimentos de leitoras que descobriram o mundo dos quadrinhos lendo pela primeira vez uma das nossas graphic novels''.

O editor explica que essa pluralidade é essencial para se combater uma espécie de “pensamento único'' que toma conta da sociedade e para “lutar contra os censores de plantão que estão nos cercando cada dia mais''. Na visão de Arnaud, “sem pluralidade não existe espaço para o diálogo, a controversa, o confronto das ideias. Não há como andar para frente, é a escuridão, o retrocesso''.

Marcelo D'Salete.

Marcelo D'Salete.

Os negros e periféricos

E se Carolina Maria de Jesus levou a favela para a literatura e recentemente teve sua vida transformada em uma HQ, o quadrinista Marcelo D'Salete, por sua vez, retrata nos quadrinhos histórias da periferia e ligadas a temas relacionados aos negros. Em “Cumbe'', por exemplo, outro publicado pela Veneta, abordou o período colonial e a resistência à escravidão no Brasil. Em “Encruzilhada'', lançado em 2011 pela Leya e recentemente relançado também pela Veneta, por sua vez, constrói diversas histórias que se passam pelas “quebradas'' de São Paulo.

Marcelo esteve presente no debate do Itaú Cultural junto com Ana e, na oportunidade, revelou que tratar do racismo e assuntos afins ainda é visto como um tabu e cabe à arte, dentre outras frentes, levantar os debates que podem incomodar aqueles acostumados a ocupar os lugares de destaque. “Os quadrinhos brasileiros estão passando por um momento efervescente de produção. Grande parte disso acontece de modo independente, mas acaba influenciando o meio editorial como um todo. Os editores acabam ficando atentos a todo esse movimento. Se tivermos pessoas de diferentes origens produzindo HQs, podemos deixar todo a ambiente ainda mais complexo em termos de temas e formas narrativas de HQs, buscando novos públicos também'', acredita.

No entanto, muto ainda precisa ser feito para que cada minoria política também tenha sua vez frente aos holofotes. “Isso é uma construção social e histórica que depende do amadurecimento, interesse e discussão de cada grupo'', diz. “Apenas como exemplo inicial, observo poucas obras retratando, por exemplo, os grupos indígenas atuais e suas histórias. O André Toral fez ótimos trabalhos sobre esse tema já, mas é preciso muito mais para se ver e discutir''. Isso porque o caminho para a real diversidade é um processo que não pode parar logo nas primeiras vitórias.


“Dan Brown carioca” se apoia em Camões para construir história rocambolesca
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Rodrigo Casarin

 

camoes

A fórmula é bastante conhecida: um personagem que se envolve em uma trama rocambolesca, que beira o absurdo, e busca desvendar algum grande mistério da humanidade, normalmente ligado a figuras religiosas, cujo caminho para solução está subentendido em representações artísticas consagradas. Um exemplo? Robert Langdon, o simbologista criado por Dan Brown que procura por um segredo relacionado a Jesus Cristo analisando obras de arte de séculos passados. O livro, claro, é o famoso “O Códio da Vinci”, provavelmente o representante mais conhecido desse tipo de literatura.

capa_completa_AF.inddÉ essa a fórmula que o carioca Antonio Marcos Correia, que assina como A. T. Correia, usou em “Misterius Inversus”. Filho de pais portugueses, no título ele apresenta Eduardo, um bibliotecário que atua no arquivo público de Portugal e que cai em uma armadilha montada por membros de uma sociedade secreta, o que o obriga a empreender uma busca por segredos guardados por Cavaleiros Templários que levariam ao túmulo de Maria Madalena. O caminho para chegar a tal lugar estaria cifrado em determinadas partes de “Os Lusíadas”, obra clássica de Luís de Camões, um dos mais importantes livros da língua portuguesa. O escritor clássico, que viveu no século 16, por sua vez, também teria deixado algumas outras pistas espalhadas por lugares históricos.

“Na busca das soluções destes segredos, vários autores já percorreram caminhos diversos, mas nunca nenhum foi feito por Portugal e pela cultura lusitana, o que é uma grande falta, pois como é sabido, Portugal e outros países ibéricos deram abrigo aos cavaleiros que foram caçados no resto da Europa. Nada mais óbvio então que se percorrer um caminho português em direção a estas soluções. Camões e sua obra têm lugar como guias que levam nosso protagonista a se aventurar em uma caçada”, diz Correira sobre a narrativa que passa por lugares da Europa e do Brasil, como o Gabinete Português de Leitura, localizado justamente na Rua Luís de Camões, no Rio de Janeiro.

A ideia de utilizar “Os Lusíadas” ocorreu ao autor após identificar coincidências que, a seu ver, não poderiam ter sido feitas ao acaso por Camões. “Isso me fez ganhar mais interesse e me aprofundar no texto. Aos poucos percebi que havia lógica em minhas suposições. Grande parte destas suposições foram usadas de pano de fundo para a confecção da minha trama, mas existem algumas ainda que estão sendo amadurecidas para edições de obras futuras, inclusive de não ficção. Sobre a vida do autor, era preciso conhecê-la para saber o quanto que ele estava ligado aos segredos dos templários, e ao fazer estas pesquisas, achei muita coisa interessante que com certeza o colocava como peça chave da solução”.

A. T. Correia

A. T. Correia

Uma dessas suposições, por exemplo, está nos seguintes versos, que levariam a um segredo escondido em uma joia arquitetônica da cidade de Tomar: “Muitos querem a rosa encontrar,/ Onde está tal ninfa? – Se perguntam./ Lá no Castelo da Cruz do Ultramar,/ Onde profano e santo então se juntam,/ Vamos ao capítulo ver as medidas/ Das pedras que jazem ali caídas.// Pelo chão é bem fácil de contar/ Da boca feia, a primeira pisa,/ Então cinco, mais a frente andar,/ Mais duas ao lado, uma mais lisa./ Embaixo desta então se avista/ Nada menos que a próxima pista”.

Voltando à comparação com Dan Brown, Correia gosta do paralelo e ressalta que, tal qual costuma fazer o autor estadunidense, seu trabalho é um recorte de diversos elementos reais. “Todos os lugares turísticos ou históricos que são descritos na obra tem sua descrição de forma correta e em sua maioria foram visitados por mim, todos os acontecimentos históricos narrados são conhecidos no mundo acadêmico e são considerados, portanto, reais. A ficção está, pois, no nexo que faço entre estes ingredientes. Ou seja, o leitor lê um livro de ficção onde quase tudo é real, menos as suposições lógicas que encadeiam a trama”, explica. “Então, esta ficção passa a ser, quem sabe, uma hipótese histórica”, completa. Quem sabe….


Jabuti: crise reduz inscritos em categorias ligadas à formação de leitores
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Rodrigo Casarin

criancalendo

O Prêmio Jabuti, organizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), divulgou recentemente alguns números sobre sua edição de 2016. Houve uma queda no número total de obras inscritas nas 27 categorias da premiação – de 2575 em 2.015 para 2402 neste ano -, mas o que chama mesmo atenção é a drástica redução no número de concorrentes de duas categorias importantes para a formação de leitores no país: “Juvenil” e “Infantil Digital”.

Na categoria com os títulos voltados ao público jovem foram 126 de inscrições no ano passado contra 85 neste ano. Já em “Infantil Digital”, categoria com obras que além de indicar a produção de livros que ajudam a fazer com que crianças se tornem leitores dá uma mostra de como as editoras vêm investindo em novas tecnologias, a queda foi ainda maior, de 40 inscritos em 2015 para somente 16 neste ano. Outra categoria afim que teve redução nas inscrições foi a “Didático e Paradidático”, de 92 para 77. Em “Infantil”, ao menos, um pequeno aumento: de 205 para 213 concorrentes.

Para Luís Antonio Torelli, presidente da CBL, esses dados refletem o momento que o país vive. “Nossa percepção é de que tal fato se deve à retração do mercado. Assim como os demais segmentos, o setor editorial foi duramente atingido pelo difícil momento econômico que estamos atravessando. Como consequência, as editoras estão lançando menos títulos”, disse ao blog.

O vencedor de cada categoria leva R$3500 e pode concorrer ao prêmio de Livro do Ano de Ficção ou Não-Ficção, no valor de R$35 mil cada. As próximas etapas do Prêmio Jabuti são a divulgação dos finalistas no dia 10 de outubro e dos vencedores no dia 10 de novembro. A entrega das estatuetas e revelação dos livros ficção e não-ficção acontece no dia 24 de novembro.


Machado de Assis é o maior humorista brasileiro da história, diz estudioso
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Rodrigo Casarin

machadao

“Creio que não seria polêmico afirmar ser ele o maior humorista brasileiro de todos os tempos”, aponta Flávio Moreira da Costa, o organizador da antologia “O Melhor do Humor Brasileiro”, recém-lançada pela Companhia das Letras, em determinado momento do livro. “Ele'', no caso, é Machado de Assis, o autor mais citado no volume, nome amplamente reconhecido pelo humor fino e olhar irônico e sagaz.

“O Melhor do Humor Brasileiro” reúne desde relatos e poemas anônimos que datam de antes dos portugueses colocarem os pés por aqui, passando por trechos de romances clássicos de nossas letras e até escritos de autores contemporâneos. O foco é claro: encontrar nos registros o olhar crítico, irônico e gozador dos artistas em questão. “A quantidade de material encontrado e o humor dos índios, que é um campo ainda a ser pesquisado, pois só dei uma pequena amostra dele”, diz Flávio sobre os aspectos que mais lhe surpreenderam durante os cinco anos de pesquisa para organizar o volume.

A obra começa registrando um canto canibal de índios tupinambás que viviam em torno da baía de Guanabara e passa por outros registros da cultura indígena e do relato popular até chegar em Gregório de Matos (nasceu em 1636, morreu em 1696), o primeiro autor a aparecer no volume e que Flávio define como “abusado” e “irreverente”. É dele, por exemplo, o seguinte verso: “Não é fácil viver entre os insanos,/ Erra, quem presumir que sabe tudo,/ Se o atalho não soube dos seus danos./ O prudente varão há de ser mudo,/ Que é melhor neste mundo, mar de enganos,/ Ser louco c'os demais, que só, sisudo”.

melhor do humor brasileiroAvançando pelas páginas, desfilam nomes conhecidos do grande público: José de Alencar, Gonçalves Dias, Raul Pompéia, Aluísio Azevedo, Rui Barbosa, João do Rio, Lima Barreto, Noel Rosa, Monteiro Lobato, Oswald de Andrade, Jorge Amado, Rubem Braga, Stanislaw Ponte Preta, Millôr Fernandes… de todos esses o organizador conseguiu pescar ao menos um repente bem-humorada para incluir na antologia.

Ao comentar a obra, Flávio explica que há uma enorme variedade nas características do humor feito pelos autores brasileiros. “Pode haver semelhanças aqui e ali, mas respeitei as individualidades, como seria de se esperar”. O antologista, aliás, sequer acredita que exista algum tipo de comicidade inerente ao fato dos escritores estudados terem nascidos no mesmo país – ou território, já que parte dos textos datam de antes da ideia de Brasil ter sido concebida. “Sou rebelde a esse tipo de definição. Não acredito em humores nacionais. O humor é uma característica do ser humano”.

Flávio Moreira da Costa

Flávio Moreira da Costa

Flávio optou por dividir a obra em quatro recortes históricos (humores iniciais, coloniais, imperiais e republicanos) e explica que o critério para escolher os textos que entrariam no volume foi essencialmente a qualidade e a representatividade. “Faço antologias há décadas e fiz várias de humor. Fui crítico muito tempo e acho que isso e os trabalhos anteriores me dão crédito para que eu perceba a qualidade deste ou daquele texto”, diz ele, que já organizou 30 reuniões do tipo, como “Os Cem Melhor Contos de Humor da Literatura Universal” e “Os Melhores Contos da América Latina”.

Dentre os autores contemporâneos que passaram pelo crivo do organizador estão Carlos Heitor Cony, Luis Fernando Verissimo e Antonio Prata, nome mais novo do livro, de quem registra a crônica “Gênesis, revisto e ampliado”, na qual o escritor repassa a história de Adão e Eva. “Como a antologia tem um viés histórico, isto é, começa lá atrás com os índios e a cultura popular, e atravessa séculos, tinha de acabar em um valor novo, que eu julguei ser o Antonio Prata. Poderia ser outro? Sim, mas eu tinha de escolher”, explica Flávio.

E, voltando ao começo da matéria, se o volume de material encontrado por Flávio foi grande, ele já prepara um segundo volume da obra? Não. “Daria uma outra antologia, que, aliás, não pretendo fazer”, antecipa o estudioso.


Miscelânea em HQ apresenta monge budista caubói que aniquila zumbis
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Rodrigo Casarin

Um monge budista caubói com grandes preocupações alimentares e com a condição dos trabalhadores agrícolas e industriais que, após vagar pelo deserto e ser mandado ao estômago de um monstro, consegue voltar ao seu mundo e com um bambu com serras elétricas amarradas às pontas extermina centenas ou milhares de zumbis. Sim, “The Shaolin Cowboy: Buffet de Shemp”, de Geof Darrow, recentemente publicado no Brasil pela Mino, é uma enorme miscelânea.

A própria motivação o autor para realizar o trabalho dá o tom da obra: “Queria ver por quanto tempo eu conseguiria seguir criando até ficar cansado de desenhar um monge matando zumbis”, disse, certa vez, Darrow em uma entrevista. O que temos, então, na maior parte das 136 páginas da HQ é justamente isso: um personagem que diz apenas “Amitoufu” (“louvado seja Buda”) aniquilando zumbis e mais zumbis, uma verdadeira matança de mortos-vivos. Como é possível perceber nessas imagens, o resultado é muito bom – há, inclusive, certa leveza e ternura na carnificina promovida pelo monge caubói.

No texto um tanto absurdo e caótico que antecede os quadrinhos e que contextualiza como o herói foi parar entre tantos zumbis, encontramos o fundo político da obra. Ali há referências positivas ao polêmico “Obamacare” e críticas contra Donald Trump – que dá nome a um deserto –, à indústria do entretenimento e ao conservadorismo crescente nos Estados Unidos – os zumbis poderiam ser a própria população norte-americana depois das tantas lavagens cerebrais pelas quais passam.

Vencedor de três prêmios Eisner, um dos mais importante das HQs, Darrow começou sua carreira animando desenhos do estúdio Hanna-Barbera, como “Riquinho”. Entre os anos 1980 e 1990, realizou parcerias com o francês Moebius e seu conterrâneo Frank Miller, com quem assinou obras como “Hard Boiled” e “The Big Guy and Rusty the Boy Robot”. Além disso, trabalhando para o cinema, foi o responsável pelo design de boa parte da trilogia “Matrix”.

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