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25 anos de Nevermind: autores nacionais celebram Nirvana em livro de contos
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Rodrigo Casarin

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Há 25 anos o Nirvana lançava “Nevermind”, que colocou a banda como uma das principais não apenas da década de 90, mas de toda a história do rock. De lá pra cá, mais de 30 milhões de cópias do álbum foram vendidas e o trabalho se tornou fonte de inspiração para muita gente. É o caso do crítico literário e escritor Sérgio Tavares, que resolveu criar uma antologia de contos com autores nacionais para celebrar o aniversário de um quarto de século da obra-prima de Kurt Cobain, Dave Grohl e Krist Novoselic.

“Sempre gostei desse encontro entre música e literatura, de antologias constituídas de contos inspirados em canções”, diz Tavares. Por aqui, dois livros do tipo que fizeram sucesso foram “O Livro Branco”, inspirado nos Beatles, e “Como se Não Houvesse Amanhã”, baseado na Legião Urbana, ambos organizados por Henrique Rodrigues.

nirvana_nevermindDepois de colaborar com edições temáticas da revista literária Flaubert que Tavares teve a ideia de realizar o trabalho em homenagem ao Nirvana. “Apresentei aos editores, que toparam de imediato. Para tanto, escolhi uma banda icônica para minha geração, cujo álbum máximo estava prestes a completar 25 anos. O 'Nevermind' foi a trilha sonora da minha adolescência. Além disso, havia o desafio de criar sobre as letras do Kurt, repletas de camadas e afeitas a uma infinidade de interpretações”, explica o organizador. Não por acaso o livro leva o sobrenome do líder da banda: “Cobain”.

Em seguida, Tavares definiu que o volume teria 25 autores – “para casar com a data”. Como isso extrapola o número de músicas de “Nevermind”, que tem 12 canções, colocou “bonus tracks” inspirados em faixas como “Love Buzza” e “Rape me”, de outros álbuns da banda. “Montei um time de autores que mesclasse iniciantes com nomes já consagrados e premiados, cobrindo diversas partes do país. Mas, acima de tudo, um time de autores que fosse fã de Nirvana”.

Assinam os contos nomes como Débora Ferraz, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura, e Maurício de Almeida, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, mas também artistas que pouco publicaram até aqui, como Flávio Torres. Dentre as faixas mais icônicas da banda, coube a Bruno Liberal escrever a partir de “Smells Like Teen Spirit”, a Alessandro Garcia criar desde “Polly” e a Moema Vilela a construir algo inspirado em “Lithium”.

“De início, minha reação à incumbência de escrever sobre essa super música foi tentar criar um universo ficcional mais próximo da letra. Acho que quis fazer isso por estar não só entusiasmada de dialogar com uma música de que eu gostava em especial, mas também meio que intimidada. Depois abandonei a ideia de refletir a letra e busquei encontrar outras qualidades que eu sentia na música – força, oscilação emocional, uma fúria criadora de beleza e destruidora também, alguns easter eggs. No fim, a narradora e protagonista virou quem inicialmente era a melhor amiga desse primeiro personagem, e toda referência ao remédio quase desapareceu da história explícita”, diz Moema.

cobainLivro gratuito

Moema também falou sobre a dificuldade de se criar um conto a partir de uma música. Lembrou que toda obra dialoga com outras, mas explicou que quando há uma referência explícita de onde partir, o desafio fica ainda mais interessante. “Como um conto pode conversar com uma música? Com uma pintura, uma performance? O que eu posso fazer com uma música que me encanta tanto que quero me relacionar com ela de modo mais ativo do que apenas escutá-la? Nessa arte do diálogo, como leitora, fico muito entusiasmada de reconhecer elementos ou ressonâncias da obra primeira de que o artista homenageado partiu. Estou gostando de ler os outros contos da antologia também por isso”.

Ao comentar sobre o corpo que a antologia tomou, Tavares se diz surpreso pela maneira que os escritores partiram das letras de Cobain e tomaram caminhos bem variados. “O Kurt trabalhava muito com a sonoridade, o que tornava muitas de suas composições um quebra-cabeça bizarro, cujo sentido dependia muito mais de uma liberdade metafórica, de subentendimentos que, por muitas vezes, estavam nesse mergulho por sentimentos obscuros, por recortes de lembranças ou de coisas que ele ouviu e sobre as quais a realidade imperava. Jogar uma luz criativa sobre esses esconderijos do Kurt era o que mais me entusiasmava. Temos desde contos que extraem referências diretas das canções até aqueles em que a música empresta apenas o ritmo, o descompasso da repetição de riffs e de frases curtas”, diz. O organizador também aponta que há uma grande variedade de gêneros no livro, com contos que vão “do humor escrachado ao nonsense, passando pela ficção científica ao fluxo de consciência que flerta com o relato de formação”.

E para quem ficou interessado por “Cobain”, uma boa notícia: por ora exclusiva em e-book, a antologia está disponível para download gratuito na Amazon. “A intenção, desde sempre, foi fazer uma grande homenagem ao álbum, por meio de contos assinados por autores fãs da banda, que pudesse atingir o máximo de leitores”, justifica Tavares.


Literatura indígena busca caminhos para ir além do infantojuvenil
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Rodrigo Casarin

Davi Kopenawa na Flip de 2014.

Davi Kopenawa na Flip de 2014.

Nos últimos anos a literatura feita por diversos grupos historicamente afastados dos holofotes plano ganhou espaço. Assim passamos a ouvir falar mais sobre literatura periférica, literatura negra e literatura feminina, por exemplo. No entanto, uma corrente que ainda carece de atenção é a literatura indígena (você mesmo, qual foi o último livro de um autor indígena que leu?). Para tratar desse tema e da cultura geral relacionada aos índios que o Itaú Cultural promove entre hoje, dia 28, e sexta, dia 30, em sua sede na avenida Paulista, em São Paulo, o “Mekukradjá – Círculo de Saberes de Escritores e Realizadores Indígenas”, que reunirá pesquisadores e artistas que representam 11 etnias diferentes.

Daniel Munduruku.

Daniel Munduruku.

Apesar do interesse pela literatura indígena no país ainda ser baixo, ela vem em uma crescente desde os anos 1990, quando alguns autores passaram a escrever livros para jovens e crianças. “De lá para cá houve o crescimento da produção literária, o surgimento de autores e ilustradores indígenas, a participação em eventos literários, maior interesse do mercado editorial em obras de indígenas e houve o aumento do debate sobre a literatura indígena pelas universidades brasileiras”, explica Daniel Munduruku, escritor, filósofo e doutor em Educação pela USP, um dos curadores e participantes do “Mekukradjá”. Quando fala da participação em eventos literários, um bom exemplo foi a presença de Davi Kopenawa, autor de “A Queda do Céu”, recentemente lançado pela Companhia das Letras, na Flip de 2014 .

Ailton Krenak, escritor e uma das maiores lideranças indígenas políticas e intelectuais que despontaram no final dos anos de 70, concorda com seu colega. “A literatura que se convencionou chamar de 'indígena' nasceu nas últimas duas décadas. Isso sugere que já ganhou muito reconhecimento, considerando que ainda temos poucos autores e que ainda engatinhamos na configuração desta escrita nascida da tradição oral”.

Segundo ambos, um fator essencial para que a literatura indígena passasse a receber mais atenção foi a criação da Lei 11.645/08, sancionada em março de 2008 durante o segundo mandato do governo Lula, que incluiu no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. No entanto, apesar de editais que incentivaram editoras a investir em livros do tipo e do assunto chegar às salas de aula, nem tudo foi positivo.

“Houve um boom no mercado editorial que produziu maciçamente livros ligados ao assunto. Contudo, muito do que foi publicado apresentava uma linguagem incapaz de superar os estereótipos e equívocos em torno das culturas ancestrais. Ou seja, o mercado não aproveitou a oportunidade para ajudar a sociedade brasileira a sair da visão genérica que sempre foi transmitida ao longo da história e que acaba colocando os indígenas como uma minoria desqualificada”, aponta Daniel.

Ailton Krenak.

Ailton Krenak.

Além do infantojuvenil

Outra consequência de tal lei foi que, com o aumento da literatura indígena infantojuvenil, houve também um aumento da atenção da academia pelo assunto. Contudo, segundo o próprio Daniel, ainda seria preciso despertar nos mais velhos um interesse por livros do tipo, tarefa nem um pouco fácil. “Não vejo como aumentar o interesse das pessoas adultas na literatura indígena se elas não têm a cultura da leitura. Tal como sempre aprendi na tradição de meu povo, o aprendizado se dá pela repetição constante de uma prática”, crê.

Para ilustrar sua posição, Daniel diz que “um caçador aprende com um caçador mais experiente; uma criança aprende ao ver os pais fazendo; um jovem aprende sua arte na medida em que é capaz de reproduzir a arte dos mais velhos e assim por diante. O Brasil tem uma cultura literária muito ligada à escola que, muitas vezes, obriga seus alunos a lerem obras que não escolheram. Isso, em vez de criar leitores, os afasta do gosto pela leitura. Então, particularmente não vejo como aumentar o lastro de interessados pela cultura indígena apenas pela leitura de livros. Junto com isso tem que haver ações que permitam que as pessoas comecem a questionar o tipo de informações que recebem, seja na escola, seja através dos meios de comunicação social. Agora, para aquelas pessoas que são leitoras de verdade, há muito o que aprender pela leitura de livros escritos por indígenas. Nem precisa ficar tão atento porque os textos gritam alto os saberes da tradição”.

Ailton, no entanto, lembra que antes da onda de livros infantis, alguns autores como Kaká Verá e Olívio Jekupé já produziam livros “que iam desde a pesquisa e informação sobre as culturas indígenas até pelo prazer da leitura”. Ainda cita o título “Metade Cara e Metade Máscara”, de Eliane Potiguara, como sendo “desta fornada de narrativas que se dirigem a públicos diversos, sem fichamento como literatura infantil”.

Além de Daniel e Ailton, o “Mekukradjá” – palavra de origem caiapó que significa sabedoria e transmissão de conhecimento – receberá nomes como o xavante Divino Tserewahú Tseptse, o cineasta Isael Maxakali, o escritor, educador, psicoterapeuta, ambientalista e conferencista Kaká Werà, o contador de histórias e pescador Roni Wasiry e o biblioteconomista e poeta Tiago Hakiy, dentre outros. A programação completa pode ser vista aqui.

quedadodceuDicas de leitura

Ficou interessado na literatura indígena? Daniel Munduruku indica três livros:

“O Trovão e o Vento”, de Kaká Werá: “Trata-se de um livro que discorre sobre a fala sagrada dos Guarani. É um texto poético, autoexplicativo, suave e cheio de sabedoria. Escrito por um autor Tapuia que tem admiradores nos quatro cantos do mundo, o texto é rico de significados e vale a pena conhecê-lo”.

“A Queda do Céu”, de Davi Kopenawa: “Livro lindo. Reúne as falas do conhecido Davi Yanomami em que conta a saga de seu povo, o conhecimento que adquiriu, suas experiências com o ocidente, suas visões de mundo e sociedade. Talvez o maior e mais completo relato de um cidadão Yanomami oferecido a todos através do som da oralidade”.

“Memórias de Índio”, do próprio Munduruku: “Um passeio pela memória ancestral, permite conhecer a trajetória do autor, seu aprendizado, suas experiências e sua passagem pelo mundo ocidental contadas em forma de crônicas memorialistas. Vale a leitura”.


Raras, primeiras edições de “Os Sertões” e “Vidas Secas” vão a leilão em SP
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Rodrigo Casarin

 

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Os sertoes 2Em 1902, Euclides da Cunha investiu dinheiro do próprio bolso para que a editora Laemmert & Cia publicasse o seu “Os Sertões”, no qual reconstrói a Guerra de Canudos. Nas 632 páginas dos mil exemplares impressos, no entanto, mais de 80 erros de português fizeram o autor imaginar que um retumbante fracasso lhe esperava. Nem é preciso dizer o quanto Euclides, alçado à condição de um dos maiores escritores brasileiros principalmente por conta desta obra-prima, estava errado.

Um dos raríssimos volumes ainda existentes da primeira edição desse clássico da literatura brasileira irá a leilão entre hoje, dia 27, e quinta, dia 29, em São Paulo, acompanhado por outras edições da mesma obra. “O Euclides da Cunha financiou essa primeira edição com um conto e quinhentos mil réis. Tal importância era exorbitante para o autor e talvez representasse duas vezes seu ordenado”, diz o leiloeiro Luiz Fernando Dutra. Demonstrando quão peculiar é o objeto que será levado à venda e indicando a preocupação do escritor com os erros que passaram despercebidos, Dutra conta que “este exemplar demonstra bem a precariedade da época, já que contém correções feitas a canivete pelo próprio autor”.

vidas secasO volume de “Os Sertões” não será a única peça literária leiloada na ocasião. Um exemplar da primeira edição de “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, publicada em 1956, e outro de “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, de 1938, também poderão ser adquiridos por quem se propuser a dar o maior lance. E se na obra de Euclides da Cunha há marcas de canivete feitas pelo autor, na de Graciliano a particularidade é outra, uma dedicatória na qual se lê: “Para seu Américo, com um abraço. Graciliano. Rio, 1938”. O “seu Américo”, no caso, é José Américo de Almeida, também escritor, autor de “A Bagaceira”, garantem os responsáveis pelo leilão.

“'Vidas Secas' tem capa de Santa Rosa e 'Grande Sertão: Veredas' tem capa de Poty [dois dos capistas mais importantes da história do mercado editorial nacional]. Ambos conservam a capa original da brochura”, aponta Dutra sobre os dois volumes. As obras, publicadas pela José Olympio, pertencem à mesma pessoa, um bibliófilo cujo nome não foi revelado, mas que resolveu passar as preciosidades adiante.

veredas“Em muitas ocasiões de nossas vidas podemos começar colecionando isto ou aquilo. Não só pelo prazer de possuir determinado objeto, mas também com o sentimento de preservação da história do Brasil. Em dado momento, o colecionador, pode se encontrar diante de diversos motivos que o leva a se desfazer da totalidade ou parte de suas coleções. Na grande maioria dos casos pela evidência concreta da falta de continuísmo familiar, em outros casos para realização financeira, enfim, fatores diversos”, explica o leiloeiro sobre o que leva pessoas a venderem artigos do tipo.

No leilão, outras peças de artistas famosos poderão ser compradas pelo público, como as primeiras edições autografadas de “Criança Meu Amor…”, de Cecília Meireles” (lançado em 1924), e Poesias”, de Mário de Andrade (1941). Haverá ainda pinturas de Anita Malfatti, Carlos Vergara e Di Cavalcanti, dentre outros, e esculturas de Abraham Palatnik. Promovido pela Dutra Leilões, o preço inicial de diversas peças será de R$1500 (ainda que não revelem exatamente quanto, o preço de partida de algumas é maior, vale alertar).


Amor e luta: livro revela histórias de garis que limpam ruas de São Paulo
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Rodrigo Casarin

 

Todos

“Temos biografias completas de reis e rainhas, heróis de guerra, políticos atuantes. Mas são poucos os relatos que expressam a voz dos que têm menos, daqueles que são realmente responsáveis pela construção da sociedade e da civilização. De faraós temos as vidas. Mas quem de fato ergueu as pedras das pirâmides? Os eruditos gostam de imaginar que os grandes acontecimentos foram fruto de ideias dos sábios iguais a eles. Mudanças só aconteceram porque os menos favorecidos acolheram essas ideias, e as transforaram em ação. Ou alguém acha que Maria Antonieta teria deixado o trono espontaneamente, se não fosse a Revolução Francesa, a multidão nas ruas, a luta contra os privilégios da nobreza? A sociedade é construída por quem trabalha”.

É o que escreve o dramaturgo Walcyr Carrasco no texto de abertura de “Histórias de Gente – Histórias da Gente”. No volume, os trabalhadores em questão são garis que atuam nas ruas de São Paulo. Histórias de vinte desses profissionais foram ouvidas, registradas e agrupadas no livro, uma iniciativa da Inova, empresa responsável pela limpeza de ruas de São Paulo, em parceria com a Câmara Brasileira do Livro.

capa_garisDentre os registros estão, por exemplo, o de Quitéria Gomes de Araújo, que conheceu Edvaldo, seu marido há mais de doze anos e com quem tem três filhos, enquanto fazia a varrição de ruas pelos arredores da Praça da Sé. Também há o de Aldemir Francisco dos Santos, que certa vez socorreu um rapaz alcoolizado que caiu, bateu a cabeça e ficou com a testa sangrando. E o de Airton Canto Fernandez, que começou a varrer ruas para complementar sua renda de florista.

“O livro foi uma iniciativa para mostrar à população da cidade que agentes ambientais, conhecidos por garis, possuem muito a contar por meio de suas batalhas diárias, em dias de sol, de chuva, frio ou calor. As histórias trouxeram um conteúdo bastante emocionante, cheios de vida, de sentimento e de orgulho pela profissão que desempenham. Mas os relatos com trajetórias de amor e de luta ganharam destaque. Demos voz a quem muitas vezes se sente invisível e temos consciência dos benefícios que a inclusão pode trazer para cada cidadão e para o ambiente corporativo. Nosso desejo é mostrar que existem histórias a serem contadas em todos os lugares, por todos nós”, diz sobre a iniciativa Reginaldo Bezerra, diretor-presidente da empresa.

Ao falar de luta, talvez uma das narrativas que melhor se encaixe no termo seja a de Maria Solemar Ferreira da Silva. Ela nasceu no sertão do Maranhão, trabalha desde pequena, só estudou até o quinto ano e casou com um marido “muito mandão” na esperança de mudar de vida. Não gostou, no entanto, de ter alguém que pensava que podia lhe dar ordens. Deixou o antigo lar, mudou-se para São Paulo com as filhas, conseguiu comprar um terreno em Suzano, onde ergueu sua casa, e hoje trabalha varrendo as ruas do Brás.

O lançamento do livro aconteceu durante a 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo e contou com a presença dos 20 profissionais que tiveram suas histórias retratadas – e que puderam assinar os exemplares como coautores -, além de Walcyr Carrasco. “Os garis se emocionaram ao serem percebidos como pessoas e não condicionadas à divisão social do trabalho, e é essa reflexão que propusemos aos leitores”, completa Bezerra.

Foto: Fernando Gardinali

Foto: Fernando Gardinali

Foto: Fernando Gardinali

Foto: Fernando Gardinali

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Clássico: editora promete publicar série de HQ comparada a Tintin e Asterix
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Rodrigo Casarin

 

spirou e fantasio

Spirou é um jovem que trabalhava em um hotel e começou a se meter em aventuras com o seu parceiro Fantasio, um repórter fotográfico. A aparição de estreia do primeiro personagem, criado por Rob-Vel, foi no dia 21 de abril de 1938, no Jornal Spirou e, a partir de então, ele e seu amigo se tornaram dois dos maiores ícones dos quadrinhos europeus do século 20, sendo colocados ao lado de outros nomes clássicos, como Tintin, Asterix e Obelix. Duas editoras – a Vecchi e a Manole – já tinham tentado publicar a obra completa de “Spirou e Fantasio” aqui no Brasil no passado, mas desistiram no meio da empreitada. Agora, no entanto, a Sesi-SP promete, em três anos, lançar os 54 títulos que reúnem as HQs da dupla.

spirou“É importante termos a série publicada aqui no Brasil, pois são personagens conhecidos em toda Europa e também nos Estados Unidos, fazem parte da cultura mundial dos quadrinhos. A HQ é divertida, suave e traz um lirismo de épocas passadas, uma certa inocência que a meu ver deveria ser preservada e estimulada em nossos jovens leitores. Os leitores encontrarão prazer e graça nos momentos de leitura”, acredita Rodrigo Faria e Silva, editor-chefe da Sesi-SP.

Até o momento, seis títulos já estão disponíveis nas livrarias: “Quatro Aventuras de Spirou e Fantasio”, “Um Feiticeiro em Champignac”, “Os Chapéus Pretos”, “Spirou e os Herdeiros”, “O Roubo do Marsupilami” e “O Chifre do Rinoceronte”. Publicada ao longo de décadas, cerca de 28 autores diferentes, entre roteiristas e ilustradores, já assinaram os desenhos e as histórias da série, o que traz uma variedade de estilos, temas e ambientações para as histórias.

E por que uma obra clássica dos quadrinhos ainda não está integralmente publicada no país? “Não sei dizer o motivo da não continuidade, mas o mercado de quadrinhos cresce no Brasil e os franco-belgas sempre foram produtos cauda longa [que demoram mais para dar retorno financeiro, mas nunca deixam de vender], por isso resolvemos investir nesse clássico. Ninguém, dentre as pessoas que conversei no mercado, entende por que não tinha sido levado adiante antes…”, confessa o editor.


Quer aprender a lidar com hipsters ou conviver com a ressaca? Série ensina
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Rodrigo Casarin

 

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“Hipsters gostam muito de descobrir lugares que ainda não tenham sido contaminados pela cultura mainstream, como o oceano. Esta plataforma de perfuração revitalizada é agora a terceira comunidade hipster mais hypada da Europa. Tem seu próprio calendário, dois anos à frente do nosso”, explica o breve texto acompanhado da ilustração de uma base petrolífera. “Ir para o trabalho de ressaca pode parecer impossível, mas é importante manter o emprego. Mesmo que ele seja o motivo de você ter se embebedado. Tente chegar no horário de sempre, cumprimente todo mundo e depois vá tirar uma soneca num lugar sossegado, como o telhado. Que mal poderia acontecer?”, diz outro, ao lado de uma usina nuclear explodindo.

Ressaca_GAs ilustrações estão mais abaixo e, acompanhadas das definições, fazem parte de livros da coleção “Como Lidar”, “idealizada especialmente para ajudar os adultos a enfrentar o mundo que os cerca”, sucesso na Inglaterra que a Intrínseca começa a publicar por aqui. A ideia é que cada volume trate de forma irônica e às vezes politicamente incorreta com certos tipos e situações da vida moderna.

Os cinco primeiros títulos traduzidos para o português são “O Hipster”, “O Marido” – que “funciona à base de petisco e cerveja”, “A Esposa” – que só parece feliz por conta das taças de vinho -, “Os Encontros” – “uma maneira divertida de conhecer alguém que está com tanto medo de morrer sozinho quanto você” – e “A Ressaca”.

Marcados ainda pelo deboche e o cinismo, os textos são assinados por Jason Hazeley e Joel Morris, comediantes que também escrevem a série “Miranda”, da BBC. As imagens, por sua vez, foram retiradas da coleção infantil “Ladybird”, composta por cerca de 650 títulos lançados a partir de 1915, com volumes assinados por alguns dos ilustradores mais importantes do século 20.

Lançada com o nome de “Ladybird for Grown-ups” na Inglaterra, por lá a série conta, até o momento, com 19 volumes e se tornou um fenômeno editorial logo que chegou ao mercado, em 2015 – em quatro meses, cerca de 1,2 milhões de exemplares da coleção já tinham sido vendidos.

Veja trechos dos livros já lançados no Brasil:

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Ressaca 1

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Líder espiritual nos EUA, guru vem ao Brasil pregar que se viva o presente
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Rodrigo Casarin

 

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O jornal inglês “The Independent” já o apontou como “um homem que pode mudar sua vida” e a apresentadora Oprah Winfrey, a mais famosa da televisão norte-americana, disse que o seu “O Poder do Agora” era “um dos livros mais importantes do nosso tempo” ao anunciá-lo como entrevistado do seu programa. Quem é esse autor? Eckhart Tolle, guru alemão que se tornou um dos principais líderes espirituais dos Estados Unidos, maior mercado consumidor dos seus títulos, que já venderam mais de 10 milhões de exemplares pelo mundo.

Uma reportagem do “The New York Times” sobre Tolle dá o tom do trabalho do escritor: “Se você nunca ouviu falar dele, você não passou muito tempo na seção de autoajuda das livrarias”. Dos seus seis livros publicados no Brasil, destacam-se “Um Novo Mundo” e o próprio “O Poder do Agora”, que saíram pela Sextante – ao todo o autor já vendeu mais de 900 mil cópias no país, garante a editora. Para divulgar seu trabalho por essas bandas onde jamais pisou que o guru estará em São Paulo no dia 5 de novembro, onde fará uma palestra no Anhembi – com ingressos a partir de R$190.

poder do agoraAs ideias de Tolle, hoje com 68 anos, se baseiam em duas frentes principais: o pensamento positivo e a gratidão. Para ele, o mais importante é que vivamos o momento presente e, em diversas situações, é importante que deixemos o passado de lado e ajamos quase que instintivamente, confiando na intuição e abrindo mão de uma excessiva racionalização, o que costuma nos levar a tomar decisões egoístas – e o egoísmo presente na sociedade é outro foco que combate.

Em entrevista ao Uol, Tolle explica que o excesso de racionalização faz com que as pessoas busquem referências no passado e, por consequência, acabem se prendendo a ele, não se permitindo, assim, viver de fato o presente. “O mundo é cheio de pessoas que estão fazendo algo, mas a maioria age de maneira automática. Elas são infelizes e criam ainda mais infelicidade. Nossa primeira tarefa é despertá-las para este mundo de agora”, acredita.

Segundo o Guru, essa mudança de atitude leva a um comportamento menos egoísta. “Quando você transcende o ego, um estado de consciência e moralidade diferente lhe possui. Você não está mais preso a ilusões, então você sabe que o que faz para o outro, em última instância, também faz para si mesmo”. Isso leva cada um mudar a maneira que se relaciona com os bens materiais, inclusive:

“Se você está insatisfeito com o que tem ou frustrado com a situação de momento, isso pode te motivar a ser alguém rico, mas mesmo se você ficar milionário, continuará com a com o sentimento que lhe falta algo e, no fundo, continuará insatisfeito. O dinheiro pode comprar muitas experiências ótimas, mas continuará indo e vindo; você sempre terá um sentimento de vazio e precisará de cada vez mais para se satisfazer fisicamente e psicologicamente. Dessa forma, nunca sentirá a plenitude da vida, que é a verdadeira prosperidade”.

Tolle vem desenvolvendo essas ideias há mais de 40 anos e baseia suas convicções principalmente em conceitos do cristianismo, budismo, hinduísmo, taoismo e outras religiões. Crê ser importante que as pessoas tenham períodos de quietude para “aflorar o sexto sentido”, aposta que o sentimento positivo “ativa fatores externos” que levam a um movimento de sincronismo (“parece um milagre, mas é algo natural”) e diz que da vontade que surgem as soluções para os momentos difíceis.

Ao ser questionado sobre outros autores que poderiam ajudar as pessoas a encontrar a tal felicidade, responde que isso é algo muito pessoal, que “depende do momento espiritual de cada um” e que “não há uma receita” para tal. Lembra, contudo, que “os ensinamentos de Buddha e Jesus, entre outros grandes mestres, pode ser um começo”.

E, para ele, o que uma pessoa precisa fazer para alcançar a verdadeira felicidade? Aceitar que nem sempre é possível fazer tudo o que gostaria, mas mesmo assim continuar dando valor ao presente. Apostar que atitudes simples e pensamento positivo podem mudar situações adversas. Aprender a lidar com acontecimentos drásticos e não impor grande resistência à realidade. “A pessoa precisa encontrar a paz”.


Papo com Luis Fernando Verissimo abre Pauliceia Literária nesta quinta
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Rodrigo Casarin

verissimo

Começa amanhã, quinta, e vai até o dia 17, sábado, o Pauliceia Literária, evento realizado pela Associação dos Advogados de São Paulo (AASP) que chega à terceira edição tendo o gaúcho Luis Fernando Verissimo, famoso por suas crônicas e criador de personagens clássicos tais quais a Velhinha de Taubaté e o Analista de Bagé, como escritor homenageado.

Além da presença de Verissimo, que conversará na abertura com o jornalista a escritor Humberto Werneck, autor de “O Santo Sujo: A Vida de Jayme Ovalle” e “O Pai dos Burros”, o evento também contará com a participação de importantes nomes da literatura brasileira contemporânea. Autores como Cristovão Tezza, Marcelo Rubens Paiva, Ana Luísa Escorel, Veronica Stigger e Fernando Bonassi comporão as 11 mesas do Pauliceia. Dentre os 19 convidados, há ainda cinco do exterior: o argentino Alan Pauls, o coreano Oh Sae-Young, a espanhola Milena Busquets e os portugueses José Luiz Peixoto e Ana Cássia Rebelo. A curadoria é do jornalista e crítico literário Manual da Costa Pinto.

A Pauliceia Literária acontecerá na sede da AASP, na rua Álvares Penteado, 151, no centro de São Paulo, perto da estação São Bento do metrô. Todas as mesas serão gratuitas e os ingressos podem ser adquiridos por meio de cadastro no site do festival – aqui o link.

Confira a programação:

Dia 15/9
11h – Abertura
Autor em Foco: Luis Fernando Verissimo
Por Humberto Werneck
Mediação: Manuel da Costa Pinto
Um bate-papo com o cronista Humberto Werneck sobre a trajetória de Verissimo, com presença e participação do escritor homenageado pelo Pauliceia Literária 2016

15h – Ficção histórica e história agônica
Ana Miranda e Raimundo Carrero
Autora de romances históricos e narrativas que partem da vida de clássicos como Gregório de Matos, Augusto dos Anjos e Clarice Lispector, a cearense Ana Miranda se tornou um nome central na cena literária brasileira com uma obra que equilibra pesquisa rigorosa e invenção ficcional. E o pernambucano Raimundo Carrero retrabalha referências em autores com alta densidade existencial (Dostoiévski e Kafka, Graciliano Ramos e Henry Miller) para compor seu purgatório ficcional de almas que se consomem entre danação bíblica e expiação da carne.

17h – Anos de chumbo: ontem e hoje
B. Kucinski e Julián Fuks
Mediação: Heitor Ferraz Mello
As ditaduras de Brasil e Argentina deixaram cicatrizes que se traduzem, a cada período, em novas formas de abordar o horror – como na ficção de Kucinski (cuja irmã está entre os desaparecidos do regime de exceção brasileiro) e Fuks (que, filho de argentinos, aborda o tema recorrente das crianças que, nascidas no cativeiro, cresceram em famílias adotivas).

19h – Fantasmas da escrita
Cristovão Tezza
Mediação: Christian Schwartz
O autor de O fantasma da infância percorreu diferentes caminhos ficcionais – do romance geracional e da intriga policial à sobreposição de camadas narrativas e intersubjetivas – até chegar ao “realismo reflexivo” (expressão do próprio Tezza) de O fotógrafo, O filho eterno e O professor, livros que assinalam a consciência literária de um dos maiores escritores brasileiros.

Dia 16/9
11h – Orientes próximos
Oh Sae-young (Coreia do Sul) e Moacir Amâncio
Mediação: Tarso de Melo
O encontro entre o sul-coreano Oh Sae-young e o brasileiro Moacir Amâncio marca a confluência entre duas poéticas em que a expressão da experiência contemporânea é atravessada, respectivamente, por referências da filosofia oriental e da tradição judaica.

15h – Cronistas da irrealidade cotidiana
Fernando Bonassi e Humberto Werneck
Mediação: Ronaldo Bressane
Um encontro de dois escritores que estão entre os mais importantes cronistas do país, com um senso de crítica e uma ironia que se projetam na aspereza e no sentido político dos romances de Fernando Bonassi e na arte de contar histórias presente nas biografias e nos trabalhos de garimpagem da vida literária e cultural brasileira de Humberto Werneck.

17h – Espaços ocupados
Veronica Stigger e Elvira Vigna
Mediação: Manuel da Costa Pinto
Em parceria com o prêmio Oceanos de literatura em língua portuguesa e o Instituto Itaú Cultural, Elvira Vigna (uma das vencedoras da premiação em 2015, com Por escrito) e Veronica Stigger (autora do premiado Opisanie swiata) são escritoras cuja relação com as artes visuais se traduz num trabalho com a espacialidade da página como elemento narrativo de suas ficções corrosivas, ocupando lugar singular na literatura brasileira.

19h – Variações sobre o passado
Alan Pauls (Argentina)
Mediação: Christian Schwartz
Dentro de uma linhagem de escritores (Arlt, Borges, Cortázar, Puig, Piglia, Saer) que levaram a Argentina ao centro da literatura mundial, Alan Pauls vem reconfigurando essa tradição tanto nas narrativas curtas quanto no romance – com destaque para O passado e para a trilogia História do pranto, História do cabelo e História do dinheiro, que aborda os anos 1970, período marcado pela ditadura militar, na perspectiva da subjetividade platense, da contracultura e do caos econômico.

Dia 17/09
15h – Luto, adultério, melancolia
Ana Luís Escorel e Milena Busquets (Espanha)
Duas escritoras que gestaram no trabalho editorial suas vozes ficcionais fazem a experiência da perda (materna, na espanhola Milena Busquets; conjugal, em Ana Luisa Escorel) deflagrar novas representações do luto e da melancolia em tempos de hedonismo sexual e felicidade compulsória.

17h – Ficção e confissão
Ana Cássia Rebelo (Portugal) e Marcelo Rubens Paiva
Mediação: Andréa Catrópa
Autor de romances que balizaram sua obra e a sensibilidade de diversas gerações de leitores brasileiros, Marcelo Rubens Paiva encontra a portuguesa Ana Cássia Rebelo, que transformou seu blog (linguagem da nova geração) em ferramenta para expressar a irredutibilidade da angústia e do desejo.

19h – Despovoados
José Luiz Peixoto (Portugal)
Mediação: Manuel da Costa Pinto
O escritor que encontrou uma dicção renovadora para falar da persistência do arcaico no Portugal contemporâneo é também aquele que saiu de seu povoado para buscar – ao Oriente do Oriente – as aniquilações que radicalizam a vivência moderna.


27 anos com HIV, tumores, AVCs: “Highlander” brasileiro lança autobiografia
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Rodrigo Casarin

Foto: Murillo Constantino

Foto: Murillo Constantino

“Ter HIV era a pior coisa que poderia ocorrer com uma pessoa na década de oitenta”. Quem diz isso é Beto Volpe, hoje com 55 anos. Em 1989 ele descobriu ser portador do vírus que, na época, significava uma condenação de morte tanto social quanto física. O conhecimento sobre a doença era mínimo, o preconceito, enorme, e só restava aos infectados a fé (se houvesse alguma crença) e o apoio da família (isso se ela também não virasse a cara). Quando Cazuza morreu, em julho de 1990, um símbolo do país que finou em decorrência da AIDS, muitos perderam definitivamente a esperança e passaram a apostar nas drogas para aliviar o sofrimento, para se destruir da maneira mais breve possível, como o próprio Volpe.

fora feliciano 13O momento da morte sentenciada, no entanto, não chegava. Passado o impacto de contar aos familiares que possuía a doença – “a dolorida cumplicidade de meu irmão, o silêncio de meu pai e uma furtiva lágrima escorrendo pelo rosto de minha mãe me doem até hoje”, lembra –, outros momentos negativamente marcantes vieram. Após sete anos do diagnóstico, Volpe teve infecções oportunistas, pneumonia, três AVCs (Acidente Vascular Cerebral) que o deixaram com sequelas no lado direito do corpo e uma candidíase (o famoso “sapinho”) que o fez perder trinta quilos e ouvir de seu médico que estava em estado terminal.

O médico errou, claro. Em 2000, no entanto, novo diagnóstico negativo: osteoporose e osteonecrose por meio da primeira das quatro fraturas que já sofreu no fêmur – possui hoje duas próteses de quadril. Em 2003, o primeiro tumor que, percebido tardiamente, já se espalhava pela medula, pescoço, pulmão, fígado, baço, retroperitônio e virilha. Travou uma batalha contra a doença até 2009, quando conseguiu se livrar de outro tumor que aparecera no reto. Não é à toa que Volpe passou a ser chamado por Marcos Caseiro, seu médico, de “Highlander”, em referência ao personagem imortal interpretado por Christopher Lambert nos cinemas. Seria um Highlander brasileiro.

Para ajudar outros portadores da doença que Volpe criou a ONG Hipupiara Integração e Vida – Grupo HIV. Agora, para demonstrar como é possível conviver com a AIDS sem que a existência perca o brilho, está lançando sua autobiografia: “Morte e Vida Posithiva”, que sai pela editora Realejo – e tem prefácio do próprio Caseiro.

Morte e vida PositHIVa Capa“Em 2002 houve um concurso público selecionando catorze textos de superação com relação à AIDS, que comporiam um livro chamado ‘Histórias de Coragem’, sendo que um deles foi o meu. Ao realizar uma tarde de autógrafos em Santos, um casal se aproximou e pediu que eu autografasse o exemplar que eles tinham trazido de São Paulo: ‘Beto, você não sabe o quanto somos gratos a você, nosso filho tem HIV e há dois meses praticamente não saía da cama, até ler sua história. Assim que ele terminou de lê-la, ele se levantou e decidiu lutar pela vida’. Nesse momento eu decidi colocar minhas experiências no papel, sem saber que as mais desafiadoras ainda estavam por vir”, lembra Volpe.

Claro que encontrou um grande desafio ao repassar suas memórias, como precisar revisitar o momento em que “perdeu” seu irmão caçula para a bipolaridade. Mas também teve seus prazeres. “Não faltaram episódios onde eu ria sozinho e outros em que sentia um leonino orgulho de mim mesmo”.

Bom humor de quem conheceu a morte pessoalmente

O próprio Volpe que lembra de um desses momentos engraçados que viveu. “Estava em uma repleta sala de quimioterapia da Santa Casa de Santos para minha primeira sessão, onde ninguém se comunicava com ninguém e as pessoas se deixavam levar pelos pesadelos que o câncer traz. De repente a enfermeira chega com um monte de tubos em uma bandeja e me pergunta: ‘Senhor Luiz [seu nome completo é Luiz Alberto Simão Volpe], quando é que o senhor vai cortar os cabelos?’ Ela se referia a meu lindo corte fio reto, cultivado por alguns anos, ao que respondi: ‘Ué, precisa? Falaram pra mim que cai tudo sozinho…’, ao que o rapaz a meu lado estourou em uma sonora risada. Após o pedido de desculpas da enfermeira eu puxei papo com esse meu vizinho e para contar uma piada não custou nada. Através do humor, outras pessoas riam e passaram a interagir de alguma forma, até que no final da tarde eu estava contando piadas horríveis de câncer, sempre seguidas de libertadoras gargalhadas”, lembra.

Mas na sequência ele foi sutilmente repreendido. “Nisso, outra enfermeira chega por trás de mim e sussurra: ‘Seu Luiz, eu acho que o senhor não deveria contar piadas assim para esse tipo de gente…’, ao que retruquei: ‘Querida, esse tipo de gente é igual a você, nada lhe livra de estar do lado de cá a qualquer momento. E lembre que no início da tarde havia uma doença oprimindo todo mundo, agora todos estão tirando sarro dela’. Aliás, eu não consigo dissociar o humor de nada do que faço e ele está presente em toda a narrativa usada no livro, o humor muda tudo”.

beto oncinha 8Esse modo de encarar os problemas talvez seja uma consequência das vezes que sobreviveu à morte iminente. “Uma vez que você conhece a morte pessoalmente, a vida passa a ser mais leve, não é qualquer problema que lhe abate e mesmo a própria morte passa a ser sua melhor amiga. Se não fosse ela fungando em meu cangote e me obrigando a viver plenamente, eu não teria tomado atitudes que me tornaram mais humano, no bom sentido da palavra”.

E como ele vê a AIDS nos dias de hoje? Por incrível que pareça de modo muito semelhante ao de três décadas atrás, apesar de toda a melhoria na qualidade e divulgação das informações e de uma rede se assistência já estabelecida. “Existe o senso comum de que a AIDS não é mais um sério problema de saúde e que basta tomar uns comprimidos para manejar a situação, mas ignoram os efeitos colaterais, a necessidade de adesão total ao tratamento, de maiores cuidados com a saúde e, o pior, o preconceito. E esses ‘fantasmas’ só aparecem no momento do diagnóstico, onde as pessoas perdem o chão, quase que literalmente”.

Apesar de tudo o que passou, da maneira que lida com a vida e do jeito que estica a mão para ajudar os outros, Volpe rejeita veementemente o rótulo de “exemplo”. Sempre teve condições de enfrentar os desafios e uma família ao seu lado, bem como boa formação, dinheiro e um bom plano de saúde. “Exemplo, para mim, é aquela viúva que mora em uma palafita que ameaça cair a cada maré alta, o filho mais velho está cumprindo pena em uma penitenciária, o mais novo já está enveredando pelo mesmo caminho, a filha grávida do terceiro namorado diferente e ela insiste em tomar o coquetel, acreditando que amanhã a vida vai melhorar. Essa senhora, que existe e foi uma das assistidas pelo Hipupiara, é minha fonte de inspiração para continuar atuando de forma cada vez mais apaixonada por um tema que está sendo absolutamente negligenciado por todos os setores da sociedade”.

Tags : Beto Volpe


Argelino cria história para o árabe assassinado em O Estrangeiro, de Camus
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Rodrigo Casarin

 

kamel daoud

“Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: 'Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames'. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem”. O primeiro parágrafo de “O Estrangeiro”, do franco-argelino Albert Camus, é um dos inícios mais marcantes da história da literatura e já deixa claro o quanto Meursault, o narrador e protagonista da obra, pode manter-se indiferente a qualquer acontecimento.

E se o título de “O Caso Meursault” já indica que o livro do argelino Kamel Daoud – vencedor do Goncourt de 2015 e que sai no Brasil pela Biblioteca Azul – dialogará com o clássico de Camus, o primeiro parágrafo explicita que o tom da nova narrativa será outro: “Hoje, mamãe ainda está viva”. E Haroun, o narrador, continua: “Ela não fala mais, mas poderia contar muitas coisas. Ao contrário de mim, que, de tanto remoer essa história, já quase nem me lembro dela”.

91BEwPUJDtL.SL720A história que Haroun remói é a do assassinato do irmão mais novo, Moussa, morto justamente por Meursault, o “herói” do livro do Nobel de Literatura de 1957. Se na obra de Camus a vítima é tratada apenas como mais um árabe anônimo, agora, no título de Daoud, o que temos é justamente a perspectiva daqueles próximos ao homem assassinado a tiros em uma praia deserta, sob um sol escaldante – para usar as próprias palavras de Meursault (ou de Camus).

Haroun conta a trágica história de sua família – a mãe passara boa parte da vida buscando pelo corpo do filho caído – enquanto conversa com um universitário de Paris em um bar de Orã, cidade no litoral da Argélia. De encontro em encontro, revela o que ficou oculto no livro de Camus. O morto anônimo daquela obra, por exemplo, nesta é definido como “um pobre analfabeto que Deus pôs no mundo, ao que parece, unicamente para levar um tiro de revólver e retornar ao pó, um anônimo que não teve nem sequer tempo de ter um nome”.

Conforme reconstrói a maneira que ele e sua mãe lidaram com a tragédia, Haroun também traz a tona questões do colonialismo francês, como a maneira que se relacionavam com os próprios argelinos enquanto ocupavam o território na África. “Árabe. Eu nunca me senti árabe, sabia? É como a negritude, que só existe a partir do olhar do branco. No bairro, no nosso mundo, éramos muçulmanos, tínhamos um nome, um rosto e nossos costumes. E ponto final. […] Foi necessário, então, o olhar do seu herói para que o meu irmão virasse um 'árabe' e morresse por isso […]. Moussa bater a porta atrás de si, deixando sem resposta a pargunta que minha mãe fizera: 'Você vai trazer pão?'”, aponta o narrador, primeiro mostrando como a presença dos estrangeiros fez com que mudasse a visão que tinha de si mesmo e depois indicando o momento que precede a tragédia de Moussa.

No entanto, a história não coloca simplesmente em xeque a moral de Meursault, mas acaba por questionar o comportamento do próprio homem quando a guerra pela independência da Argélia acontece e Haroun pode dar outro caminho para a vida de um francês quase anônimo. Além de criar um desdobramento com nova perspectiva para um dos maiores livros do século 20, “O Caso de Meursault” também pode ajudar a entender muitos dos problemas, principalmente os decorrentes da imigração oriunda dos países colonizados, que a França atravessa atualmente.